Welcome to Middletown.
6 Celebrando o amor
Notas iniciais
Quando você escolhe vivenciar sua dor, o mais difícil, sem sombra de dúvidas, é conseguir sair desse estágio. No meu caso, eu não posso me dar o luxo de ficar mais um dia enfurnada dentro do meu quarto, principalmente porque hoje meus pais completam trinta anos de casados.
Depois de um banho bem demorado na tentativa falha de me despertar, troquei-me rapidamente e dirigi ao andar de baixo. Sempre tivemos o costume de tomarmos café da manhã juntos nesse dia. Quando cheguei à cozinha meus pais ainda não haviam descido. Helena colocava mais alguns aperitivos na mesa enquanto Louise enfeitava-a com algumas flores colhidas do jardim.
— Bom dia! – Disse a todos, aproximando de Jessie, que também já estava na cozinha, para abraçá-la.
— Nem tanto. – Disse Nicholas de mau humor, provavelmente Louise obrigou-o levantar cedo da cama.
— Eles estão vindo. – Informou Drake entrando velozmente na cozinha.
— Feliz trinta anos! – Todos nos gritamos de alegria assim que meus pais passaram pela porta. Com um enorme sorriso no rosto eles se entre olharam de forma apaixonada. Por muito tempo desejei ter um amor parecido como de ambos. Sempre paciente e bondoso.
Sentamos todos na mesa e aproveitamos aquele belíssimo café da manhã.
— Eu e seu pai decidimos que esse ano faremos um jantar. – Anunciou minha mãe. – Para os íntimos. – Incrementou fazendo nos rir.
— A lista de convidados é bem cumprida. – Expliquei para Jessie que não havia entendido muito bem.
— Devo me preocupar com a roupa? – Ela perguntou rindo.
— Não é para tanto. – Respondeu minha mãe de forma humorada.
— Sim. – Eu e Louise implicamos em uníssono. Todas as “pequenas” festas e jantares de minha mãe sempre contiveram pouco mais que trinta pessoas e alguns instrumentos ao vivo.
— Hoje vai ser basicamente um natal. – Falou Nicholas, entrando na brincadeira.
— Você se arruma para ficar em casa. – Completou Louise.
— Eu sempre soube que gêmeos se completavam. – Afirmou Jessie fazendo-nos rir. Não preciso nem dizer que nesses pouquíssimos dias ela já conquistou o coração e as risadas de todos nessa casa.
Bem, uma prova de que não estávamos exagerando em relação ao jantar é que de tarde a casa foi invadida por uma equipe de eventos, decorando o espaço de estar e iluminando o exterior. Eu e Jess aproveitamos o tempo que tínhamos antes da comemoração para pegar um pouco de sol na beira da piscina.
— Como foi o passeio com Drake? – Perguntei a Jess, interessada no que estava acontecendo com os dois.
— Normal. – Respondeu ela deitada na espreguiçadeira ao lado.
— Normal, Jessie Cooper? – Levantei meus óculos escuros encarando-a. – Desde quando um encontro seu é normal? – Reforcei.
— Esse é ponto. – Disse ela apontando para mim com um sorriso malicioso. – Não foi um encontro. – Contra argumentou. – Somos apenas amigos.
— Se você diz. – Falei ainda desconfiada.
Ao sairmos da piscina, fomos nos banhar e logo depois do café da tarde eu e Jessie subimos para meu quarto com propósito de pensar em qual roupa usar.
— Eu tenho alguns vestidos guardados. – Disse a Jess que estava um pouco desanimada com suas opções. – Talvez algum fique bom. – Ofereci abrindo o lado esquerdo de meu guarda roupa.
— Alguns vestidos é eufemismo. – Expressou Jess ao ver a quantidade.
— Boa parte precisa ser doado! – Exclamei. – Mas olha esse. – Disse o tirando um dos vestidos do cabide.
— Isso é seda? – Perguntou Je, tocando-o encantada.
— É sim. – Respondi entregando o vestido em suas mãos. – Experimenta. – Pedi.
— Mas e você? – Perguntou preocupada. Com indicador apontei para o guarda roupa demonstrando que opção não faltava. Jess experimentou o vestido e o caimento ficou perfeito. Parecia até mesmo que havia sido feito para ela.
Na dúvida sobre o que usar, optei por um preto básico com uma fenda nas pernas. Simples e sensual. Não quis exagerar muito na maquiagem, mas apostei em um batom vermelho. Cerca de oito horas estava pronta. Tudo bem que o jantar foi marcado para começar às sete e meia, mas conhecendo minha mãe sei que a noite será longa. Jess me esperou e descemos juntas. Algumas flores decoravam o ambiente de forma sutil, dentro e fora da casa. Além disso, a iluminação de todo o jardim estava magnífica, com velas suspensas.
— Uau. – Exclamou Je ao ver o ambiente decorado. – Realmente não é apenas um jantar. – Brincou.
— Falei para não confiar em minha mãe. – Disse rindo. – Vamos pegar uma bebida? – Propus e seguimos em direção a um pequeno barzinho montado próximo ao hall de entrada da casa. Enquanto pegávamos nossas batidas Jess chamou-me a atenção.
— O que ele estava fazendo aqui? – Perguntou atônita fazendo-me virar. Sim. Era Jake.
— Bem. – Respirei fundo assim que o vi. – Nossos pais são sócios da mesma empresta de construção, além de serem grandes amigos.
Senti aqueles olhos azuis me encararem do outro lado da sala, como aquelas roupas sociais lhe caiam bem, ele estava all black. Retribui o olhar por alguns segundos e com um sorriso irônico Jake levantou sua taça em minha direção, como um brinde a distância. Como ele consegue ser tão sínico. Ignorei-o andando em direção ao lado exterior da casa.
Avistei diversas pessoas conhecidas, ao longo que andava cumprimentava algumas.
— Lizzie, quase não te reconheci. – Escutei uma voz familiar e então me virei em sua direção.
— Senhora, Bryant! – Disse abraçando-a sem graça.
— Como você esta ainda mais linda. – Elogiou-me. Como a mãe de Jake conseguia me tratar tão bem, mesmo depois de todo transtorno entre eu e seu filho.
— Não mais que a senhora. – Respondi com um sorriso.
— Fiquei feliz quando sua mãe me disse que voltaria. – Anunciou. Elas são bem amigas. – Todo jovem comete loucuras, não se prive tanto por isso. – Aconselhou-me brindando sua taça em meu copo vazio.
Segui andando e percebi que Jessie já estava do outro lado da piscina conversando com Drake. Quem aqueles dois queriam enganar, “não foi um encontro” ironizei em minha mente com um tom de humor. Ainda do lado de fora avistei meus pais conversando com alguns de seus amigos, estavam radiantes. Aproximei para abraça-los.
— Você esta linda, minha filha! – Elogiou meu pai.
— Como sempre! – Completou minha mãe.
Abracei-os mais uma vez e continuei meu caminho pelo jardim. Um dos garçons que serviam champanhe passou por mim e aproveitei para pegar mais uma taça.
— Você raramente bebe. – Aproximou-se Jess. – E quando se permite, com moderação. – Disse retirando a taça de minha mão. Ela foi umas das poucas pessoas naquele lugar que percebeu que eu não estava tão bem como demonstrava.
— Afogar as magoas sabe. – Brinquei, mas ela não pareceu achar muita graça. – Que foi Jess, eu estou bem. – Continuei. – Não bem, mas bem. – Tentei explicar perdendo-me na minha própria linha de raciocínio.
— Nossos pais vão discursar. – Louise chamou-nos para entrar.
— Já vou. – Informei. Je me lançou um olhar preocupado antes de se dirigir para o mesmo espaço que todos os convidados.
Puxei a maior quantidade de ar fresco que conseguia e soltei devagar, seguindo a mesma direção que o restante. A sala estava bem cheia, apoiei-me no batente de umas das portas de vidro que dava para o lado de fora e observei meus pais de longe, tão felizes.
— Estamos muito felizes que todos vieram. – Pronunciou minha mãe.
— Principalmente com o convite em cima da hora. – Completou meu pai fazendo-nos rir.
— Saibam que todos que estão aqui são muito especiais. – Declarou minha mãe. – E para você meu amor. – Disse dirigindo-se ao meu pai. – Sou grata por esses bons anos ao meu lado. Grata por você ser meu suporte nos dias bons e ruins. – Continuou.
Não sei dizer em qual parte exata de sua fala meus olhos começaram a marejar, mas quando me dei conta, algumas lágrimas já rolavam sobre meu rosto.
— Não cai bem chorar em público. – Ouvi Jake dizer ao se posicionar do meu lado. Como ele conseguia estragar os melhores momentos, sem paciência voltei a caminhar em direção ao exterior. Mas para minha infelicidade ele me seguiu.
— Da pra você parar de fugir? – Perguntou segurando um de meus braços quando já passávamos da piscina. Distante o bastante para que ninguém ouvisse.
— O que você quer? – Praticamente gritei. – Me destruir? – Sugeri puxando bruscamente meu braço de sua mão. – Porque se for isso, então destrua a minha vida como bem entende e depois saia dela de uma vez. – Declarei.
— Talvez destruir não seja o suficiente. – Disse colocando as mãos no bolso, mordendo os lábios de raiva. – Quero que você sempre se lembre da maneira cruel que você partiu e deixou todos daqui. – Virei para ir embora, mas ele continuou. – Você não sabe o que eu, ou sua mãe e seus irmãos sentimos, você não estava aqui pra ver a cara de decepção do seu pai. – Ainda de costas senti novas lágrimas começaram a descer.
— Se você quer que eu sinta culpa por tudo que causei, não se preocupe! Eu senti todos os dias por esses longos dois anos. – Virei parar olhar em seus olhos. – Mas sentir culpa por ter te deixado, isso você jamais vai conseguir! – Afirmei com os punhos cerrados.
— Como você consegue ser tão fria? – Perguntou Jake, seus olhos pareciam mudar o semblante, como se pela primeira vez desde que o reencontrei ele estava baixando a guarda. – Você se tornou uma pessoa totalmente diferente. – Afirmou dando um passo a frente.
— Você nunca foi quem eu pensei que fosse. – Falei dando também um passo a frente. Encarava-nos com muita raiva e dor.
— Porque eu não era um de seus bonequinhos manipuláveis? – Questionou-me.
— Porque você não era verdadeiro. – Contra argumentei.
— Ah, você quer falar sobre verdade. – Jake expressou-se mais uma vez irônico. – Então porque você não me disse que não queria se casar? – Perguntou-me. – Se você é tão sincera assim, me responde. – Alterou a voz diante do meu silêncio.
Porque eu queria Jake, porque no fundo eu queria me casar. Era o que se passava em minha mente.
— No fundo, nem todo mundo é tão verdadeiro assim. – Foi o que friamente consegui dizer, afastando-me dele. Só que dessa vez, Jake deixou-me ir.
As lágrimas continuavam descendo, como eu odiava tudo que esse homem me fazia sentir. Como eu o odiava. Eu queria ser mais forte, eu queria continuar sorrindo para todos ali. Mas eu não tinha mais esse controle sobre mim, e era isso que Jake me causava. Falta de controle. Por isso, de maneira despercebida subi para meu quarto. Todos estavam ocupados demais se divertindo, enquanto eu molhava meus travesseiros, soluçando de tanto chorar.
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