Welcome to Middletown.
7 Ressaca moral.
Notas iniciais
Eu nunca fui de beber ou exagerar, por isso, nunca fui de acordar com ressaca. Mas de ressaca moral eu entendo. Em diversos dias, ela foi meu despertador, lembrando-me qual a minha capacidade de estragar momentos felizes.
Acordei antes mesmo de que Helena chegasse para preparar o café da manhã e com toda a energia que meu corpo me dispunha, vesti uma roupa esportiva e me coloquei a correr no condomínio. Com uma música que me ajudasse a distrair, acelerava meu ritmo na tentativa falha de calar meus pensamentos. A minha mente me fazia o favor de trazer diversos flashes backs como lembranças.
FLASH BACK ON.
— Elizabeth. – Gritou minha mãe no telefone, ao finalmente conseguir me contatar. – Se você não embarcar no próximo voo de volta para Middletown eu te prometo... – Mamãe tentou ameaçar-me. – Eu nem sei o que prometer, filha. – Rendeu-se abaixando o seu tom de voz. – Só não estrague esse momento tão feliz para nós e volte para casa o quanto antes. – Pediu-me entristecidamente.
— Desculpa mãe. – Disse desligando.
FLASH BACK OFF.
Já encharcada de suor e endorfina, dei-me conta que estava distante de casa e resolvi retomar o caminho. Antes de entrar, colhi algumas gérberas que talvez caísse bem junto ao meu encarecido pedido de desculpas e seguidamente me direcionei a cozinha. Minha mãe estava sentada junto ao meu pai na mesa. Certamente eram os únicos que já haviam se levantado.
— Bom dia. – Disse com um sorriso levantando as gérberas, sinalizando meu sincero arrependimento de ter abandonado o jantar de ontem.
— Bom dia, minha filha. – Disse meu pai sem se importar muito com a noite passada, diferente de minha mãe.
– Bom dia, mãe. – Forcei ainda mais uma aproximação.
— Gérberas bonitas. – Disse ela. – Mas não o suficiente para recompensar sua presença. – Levantou-se. – Lena, não se preocupe com Drake, pela hora ele deve tomar café na empresa. – Declarou ao olhar o relógio de seu pulso, antes de sair do cômodo.
Abaixei minhas mãos com as flores ao notar que de fato elas não seriam suficientes para o reparo que haveria de fazer.
— Eu falhei feio, né? – Perguntei tristinha ao meu pai.
— Você sabe como sua mãe é, daqui a pouco ela não se lembrará disso. – Afirmou também se levantando, dando-me um beijo na testa.
— Mas se eu ao menos pudesse reparar isso. – Indaguei.
— Bem. – Disse meu pai tirando seu paletó da cadeira. – Hoje à noite faremos uma confraternização na empresa, devido ao natal. Acho que ela gostaria de te ver por lá. – Terminou de ajustar sua roupa e também deixou a cozinha.
De fato minha presença poderia surpreender, por isso, animada e sem ao menos tomar café dirigi-me ao segundo andar. Enquanto ainda subia as escadas encontrei com Drake, que as pressas mal notou que passava por mim.
— Bom dia pra você também! – Exclamei ao sentir apenas o vento que ficará de sua passagem. Pelo visto a noite de alguém ontem havia sido boa, para variar.
Ao chegar em meu quarto, tomei um banho e sem me importar muito com o horário, invadi o quarto de Jessie, acordando-a.
— Bom dia, bela adormecida. – Disse sentando na beirada se sua cama enquanto ela se esforçava para abrir os olhos.
— Bom dia, bela desaparecida! – Respondeu referente ao meu decorrente sumiço na noite anterior.
— Gostou da noite de ontem? – Perguntei com um sorriso de canto.
— Sim. – Respondeu um pouco quanto preocupada ao notar meu semblante.
— Ótimo, porque hoje teremos outro evento. – Anunciei.
— Nunca imaginei que Middletown fosse uma cidade tão badalada assim. – Disse colocando o seu travesseiro no rosto em sinal de que voltaria a dormir.
O dia foi tranquilo, apesar de minha mãe não trocar muitas palavras comigo no almoço, me esforcei em pensar que a noite tudo estaria melhor. Confirmei com Drake o horário que aconteceria a confraternização e comecei a me aprontar uma hora antes das 7 p.m. Por ser um evento casual e privado, escolhi uma saia midi florida acompanhada de uma simples T-shirt branca.
— Não entendo porque você faz tanta questão da minha presença. – Declarou Jessie intrigada enquanto descíamos as escadas. Ela usava um belo vestido verde de poá.
— Para que você certifique de que eu não faça nenhuma bobagem. – Disse virando-me, ainda nos últimos degraus, para olha-la.
— Por quê? – Questionou novamente. – Você mesmo disse que é apenas uma confraternização. – Resmungou parando também de descer as escadas por alguns segundos para encarar-me.
— Porque talvez encontre com pessoas as quais tenho motivos suficientes para não querer ficar perto. – Respondi dando-lhe as costas novamente, voltando a andar em direção ao carro.
— Jake. – Declarou explicitamente. Provavelmente ela já havia ligado os pausinhos de que se nossos pais são sócios da mesma empresa, teria chances dele estar presente.
— E eu seria útil em quê? – Jess continuou enquanto entravamos no carro.
— Você vai se garantir que eu não fique nenhum momento sozinha com aquele ser repugnante. – Pedi olhando para ela com uma carinha de cachorro que caiu da mudança.
— Eu não acredito que estou indo mesmo. – Jess, estranhamente, resmungou pela milésima vez.
— Não estou entendendo porque você está tão desanimada para um evento. – Indaguei enquanto girava as chaves do carro. – Logo você, tão animada. – Engatei a macha.
— É, talvez eu tenha beijado seu irmão na noite passada e não tenha mais coragem de encarar aquele belo rostinho. – Sussurrou Jessie fitando o jardim pela janela, timidamente.
Fui pega de surpresa de modo que o meu pé que estava no acelerador afundou acidentalmente, fazendo o carro arrancar uns metros de distância.
— Como assim? – Perguntei atônita ao conseguir parar com o carro. – Quer dizer, eu sabia que vocês iam acabar ficando, mas não tão rápido. – Continuei depois da manifestação de silêncio de Jessie.
— Querida Liz, se você não parar de perguntar e seguir com o carro eu prometo desistir de te fazer companhia. – Je ameaçou extremamente vermelha de vergonha, fazendo-me ri. Assim, prossegui a caminho da empresa que ficava ao lado oeste da cidade, próxima a uma grande represa.
Por já estar escuro, não conseguimos avistar direito o lago, era um dos meus lugares favoritos, o pôr do sol daquele píer era incrivelmente fantástico. Seguimos pelo caminho em meio à vegetação para entrada da empresa. Claudius continuava na recepção, como há anos, logo me reconheceu e liberou a passagem. Seguimos pelo edifício conforme as instruções dadas por um segurança e adentramos no extenso corredor do terceiro andar. De longe já ouvimos um barulho de várias conversas advindas da última sala, geralmente usada para grandes reuniões.
Ao abri a porta, instantaneamente meus olhos percorreram por toda aquela enorme sala, inúmeros rostos conhecidos, mas nenhum era de Jake. Respirei aliviada. Dei alguns passos e de longe avistei meu pai que se prontificou de chamar a atenção de minha mãe para mim, que lançou um sorriso. Corri para abraça-la e como papai havia sugerido, ela já não estava tão brava.
— Adorei a decoração. – Disse Jess sobre os enfeites de natal que decoravam o ambiente.
— Adoramos ter esses momentos de confraternização com toda a equipe de funcionários. – Disse mamãe. – Fiquem a vontade! – Exclamou. – Tem comida naquela mesa ali. – Mostrou-nos. – E estão servindo bebidas também.
— Tem algo que possa ajudar? – Perguntei.
— Na verdade, se puder ajudar a trazer as caixas de lembrancinhas que estão no deposito ao lado, seria ótimo. – Declarou.
Segui para fora da sala e ao tentar entrar no depósito esbarrei-me com uma pessoa que já pegara algumas caixas de lembrança. Com o impacto, Jake deixou com que as caixinhas caíssem. Rapidamente olhei para trás buscando Jessie, mas pelo canto da porta a avistei ainda dentro da sala, cumprimentando Drake.
Por incrível que pareça Jake não me lançou nenhum sorriso sínico ou tentou qualquer tipo de provocação. Apenas abaixou para recolher os presentes. Ligeiramente abaixei para ajudá-lo, mas sério se levantou para seguir em direção a sala. Incrível como até seu silêncio conseguia me irritar.
— De nada! – Exclamei ironicamente fazendo-o se virar.
— Você só pode estar de brincadeira comigo. – Exclamou mostrando-se irritado.
— Eu? – Perguntei surpresa.
— Se eu tento qualquer tipo de diálogo você se recusa, mas se eu também não faço questão você já quer chamar atenção. – Indagou.
— Como se agora você fosse a vítima disso tudo. – Disse diante sua tamanha ousadia.
— Não, esse cargo é exclusivamente seu, né? – Não demorou muito para que ele voltasse a falar de forma sínica.
— Você é repugnante. – Disse revoltada.
— E você é totalmente mesquinha. – Respondeu ele, assim como eu rodeado de raiva.
— Eu só estava te ensinando a ter um mínimo de educação. – Disse com os dentes cerrados.
— Se poupe de gastar energia me ensinando a ser mais compatível com seu padrão e volte para cidade grande da qual você não deveria ter saído. – Disse virando as costas.
— Você não tem o direito de dizer isso. – Disse alteradamente, apontando as mãos para sua direção ao passo que mais uma vez ele se voltou para trás.
— Está tudo bem aqui? – Drake interrompeu ao aparecer na porta, por trás de Jake. Jess que também estava próxima me lançou um olhar de preocupação.
— Nada demais, só estava dizendo pra sua irmãzinha que talvez ela tenha cometido um erro em voltar para esse “interior”. – Debochou Jake, entrando na sala.
Meus olhos estavam marejados, mais uma vez, de raiva. Que idiota!
— Drake, pode entrar. Eu cuido daqui! – Afirmou Jess, fazendo com ele nos deixassem a sós.
— Eu odeio esse garoto. – Foi tudo o que eu consegui dizer antes de cair aos prantos.
Jessie de maneira compreensiva levou-me ao banheiro para que eu pudesse enxugar as lágrimas e me recompor.
— Você não acha melhor a gente ir embora? – Certificou mais uma vez antes que voltássemos para sala.
— Hoje eu não vou fugir. – Garanti.
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