Welcome to Middletown.

4 Aqueles olhos azuis.


Notas iniciais
Como combinado, um capítulo maior. Divirtam-se!

Sabe aquelas madrugadas em que você não encontra uma posição agradável na cama para dormir e não vê a hora de conseguir pegar no sono, mas sua cabeça está a mil? Bem, foi assim que fiquei na minha primeira noite em casa.

“Está acordada?” – Enviei um sms para Melanie sem muitas esperanças.
“Sim” – Respondeu minutos depois. – “Tudo bem?” – Ela perguntou.
“Sim” – Menti. “Talvez não.” – Mandei em seguida.
“Liz, sei que é difícil voltar. Mas saiba que você fez o certo quando o deixou” – Mel respondeu como se soubesse exatamente o que se passava em meus pensamentos.
“Eu sei que fiz, só não sei como reagir a tudo isso” – Lamentei.
“Só vivendo para realmente saber.” — Encorajou-me. “Aproveite esses dias, você merece.” – Complementou.

No fundo, as palavras das quais precisamos nem sempre são as que queremos ouvir. Mas foi refletindo sobre viver o agora que finalmente consegui adormecer. Por conta disso, na manhã seguinte acordei um pouco mais tarde que o eventual.

Por volta das dez horas da manhã canalizei minhas forças para levantar da cama, estiquei meus braços ao alto espreguiçando-me e caminhei até o banheiro, lavei meu rosto e enquanto amarrava meu robe por cima do pijama observei pela janela do meu quarto Jessie e minha mãe cultivando algumas flores no jardim, ambas pareciam felizes. Desci as escadas e atravessei o grande hall indo em direção à cozinha.

— Bom dia, Lena! – Disse dando-lhe um beijo em sua bochecha. Helena trabalha como cozinheira nesta casa desde quando me conheço por gente, é praticamente da família.

A mesa do café da manhã ainda estava posta, mas sem muita fome peguei apenas uma xícara de chá dirigindo-me ao lado externo da casa.

— Bom dia, bela adormecida! – Exclamou minha mãe. – Estava falando para Jessie que gérberas são suas flores preferidas. – Contou-me enquanto podava algumas folhas murchas.
— E sobre o que mais vocês estavam conversando? – Perguntei interessada ao passo que me aproximava.
— Sua mãe estava me falando sobre um evento beneficente que a cidade sempre promove nesse período. – Expôs Jes. – Com barraquinhas de comida e brinquedos de diversões. – Comentou interessada.
— É bastante legal. – Concordei. – Principalmente porque as arrecadações são todas em prol do lar de idosos.
— Estava pensando que você poderia levar Jessie hoje. – Propôs minha mãe.
— Claro. – Aceitei. – Então já temos um compromisso. – Disse sorrindo para Jes.
— Falando em compromisso, convidei Cami para almoçar conosco. – Anunciou minha mãe.
— O dia não poderia começar melhor. – Falei em um tom irônico. Camille é uma prima de segundo grau, temos basicamente a mesma idade e seríamos ótimas amigas se ela não tentasse competir ou me denegrir em tudo, querendo sempre ser a melhor.
— Já está na hora de vocês pararem com toda essa implicância. – Sugeriu minha mãe. – Então, por favor, sem provocações. – Implorou.
— Da minha parte eu garanto. – Certifiquei. – Mas da daquela... – Deixei no ar.

Antes do almoço voltei ao segundo andar para tomar um banho e me trocar, ainda penteava meus cabelos molhados quando Louise apareceu no quarto para dizer que Camille já havia chegado e o almoço estava sendo servido. Sem muita empolgação desci em direção à sala de jantar.

— Elizabeth. – Pronunciou Camille ao me ver. – Quanto tempo.
— Hey, Camille. – Respondi abraçando-a. – Essa é minha amiga Jessie. – Apresentei enquanto ambas se cumprimentavam.

Louise foi escolhida por minha mãe para agradecer pela comida e em seguida começamos a nos servir. Helena havia preparado meu prato favorito, macarrão a quatro queijos. Estava esplendido.

— Cami, as meninas vão ao festival beneficente hoje. – Contou-lhe mamãe. – Talvez você anime ir com elas. – Sugeriu.
— Hoje não conseguirei, tia. – Respondeu. – Mas acho legal da parte de Liz não deixar se abalar pelos comentários de toda a cidade. – Camille destilou seu veneno.
— Até porque quem realmente viveu todo constrangimento foi Jake. – Contra argumentou Nicholas rindo.
— Nicholas! – Louise o repreendeu séria.
— Isso eu tenho que concordar. – Cami respondeu, rindo também.
— Não é pra tanto. – Drake, por incrível que pareça, tentou amenizar.
— Ele um dos seus melhores amigos Drake, você como ninguém deve saber como ele se sentiu. – Provocou Camille.

Eu estava tão imóvel naquela mesa que não conseguia nem sequer me manifestar. Como Camille conseguia ser tão baixa. Acho que Lauren conseguia perder de dez a zero para ela.

— Isso já é um assunto passado. — Louise acentuou.
— Pelo jeito não é só em Manhattan que a Liz anda distribuindo alguns foras. – Jessie tentou aliviar o clima com as indiretas de minha prima.
— Em Manhattan o fora também foi no altar? – Perguntou Camille com um semblante de satisfação. E foi assim que Jessie descobriu que eu não somente já tive um noivo, como também o abandonei na igreja.
— Hora da sobremesa! – Levantou minha mãe dando um basta no assunto.
— Não tenho mais estômago para isso. – Foi tudo que consegui dizer antes de colocar o guardanapo na mesa e correr para meu quarto.

Minutos depois ouvi alguém bater, Jessie perguntou se podia entrar e eu consenti. Estava deitada em meio as minhas centenas de almofadas.

— Eu não tinha nada que ter falado aquilo. – Disse ao se aproximar de minha cama.
— Je, você não tem culpa de nada. – Declarei. – Era mais que evidente que hora ou outra você iria saber. – Expliquei enquanto ajeitava minha posição, sentando-me ao seu lado.
— E tudo bem, porque eu não irei te julgar por isso. – Ela esclareceu.
— Obrigada por isso. – Balbuciei com os olhos lacrimejados. – A verdade é que eu só não te contei antes porque na minha cabeça se eu não falasse a respeito é como se nunca houvesse acontecido, sabe? – Tentei explicar.
— Faz total sentido. – Jes me apoiou. – E se quiser podemos nunca mais falar a respeito. – Falou colocando os dois dedinhos na boca como um sinal de segredo.
— Tudo bem. – Pronunciei. – Talvez esteja mais do que na hora de aceitar que de fato isso aconteceu.
— Você sabe que não precisa se cobrar tanto, né? – Confirmou Je. – Afinal, todo mundo já se arrependeu alguma vez na vida.
— Acho que sim. – Disse com um pequeno sorriso. Como, ás vezes, é bom ouvir isso.
— E talvez seja bom desabafar. – Propôs me abraçando. – Quando estiver confortável, claro. – Reforçou.
— Muito obrigada! – Agradeci do fundo do meu coração.
— Mas com todas essas novas descobertas a respeito de você... – Jessie voltou a falar. – Preciso saber se seu nome é realmente Elizabeth? – Prosseguiu me fazendo gargalhar.
— Foi uma das poucas coisas que não omiti. – Confessei. É impressionante como Jes tem o dom de me fazer rir nesses momentos.
— E tudo bem se a gente não for nesse festival. – Disse ela. – Nem estava tão animada mesmo. – Fingiu desinteresse.
— Não, nós vamos. – Garanti. – Dane-se o que todos dessa cidade pensam. – Libertei-me.
— Essa é minha garota! – Exclamou Jess dando-me um high five.

Passamos a tarde conversando. Assim que Jessie foi para seu quarto comecei a me arrumar aos berros de “Don´t Start Now” como se fosse a própria Dua Lipa. No embalo da minha playlist tomei um banho quente e utilizei o babyliss para fazer alguns cachinhos no cabelo. Jes retornou aos meus aposentos para nos maquiarmos juntas, com direito a bastante gloss e delineado gatinho.

Depois de muito tempo usando minhas saias de tubinho na editora, resolvi tirar a poeira dos meus vestidinhos. Escolhi um bem soltinho, vermelho de poá. Jessie também apostou em um vestido, só que florido. Devido ao frio, peguei uma jaqueta Jeans e calcei meus pares de bota. Coloquei alguns acessórios e finalizei com borrifadas do meu perfume favorito. Olhei no espelho dando aquela conferida e fiquei feliz por me sentir totalmente bem e suficiente comigo mesma.

Já pronta, peguei as chaves do carro de Louise e Nicholas, da pra acreditar que esses pirralhos já dirigem? Por não ser tão longe rapidamente chegamos ao local. As bilheterias estavam bem cheias, depois de alguns minutos na fila finalmente conseguimos entrar. As luzes dos brinquedos e a música ao vivo preenchia todo o lugar, eu conseguia sentir a mesma sensação de quando tinha meus quinze/dezesseis anos. Quando desviei meus olhos do parque e fitei Jessie percebi de cara sua empolgação.

Totalmente energizadas de alegria decidimos de forma unânime começar a aproveitar, fomos na montanha russa e no carrinho bate-bate. Subimos no alto da roda gigante e trememos na base no trem fantasma. Parecíamos nos divertir mais do que qualquer criança ou adolescente daquele lugar.

— Certeza que traumatizei alguém naquele brinquedo. – Disse Jessie humorizadamente devido aos seus gritos histéricos.
— Vamos pegar alguma bebida. – Sugeri ainda sem fôlego. Jess concordou e seguimos para uma barraquinha próxima. – Duas Coca-colas, por favor. – Pedi.
— Meu Deus! – Exclamou Jes. – Olha aquele ali. – Disse radiante apontando para uma barraca de tiro ao alvo, a pessoa que conseguisse acertar no mínimo dois patinhos ganhava algum brinde.
— Era um dos meus favoritos. – Observei-o de longe.
— Precisamos ir lá agora. – Ela praticamente me arrastou pelos braços.

Infelizmente para sua surpresa, Jessie era absurdamente ruim em sua mira acertando um total de zero patinhos. Contudo, ela realmente queria ganhar um daqueles enormes ursos como lembrança.

— Mais uma vez, por favor. – Disse Jess entregando outra nota de cinco dólares ao moço da barraca.
— Vai! Mira, mira, mira! – Gritei enquanto Je continuava atirando de forma desordenada sem nenhum acerto.
— Não foi dessa vez. – Lamentou o responsável pelo brinquedo. A carinha triste que Jessie lançou era de partir o coração.
— Deixa comigo – Garanti entregando-o mais uma nota de cinco dólares.

Fechei um dos meus olhos focando minuciosamente no ponto central de cada alvo, a cada dois segundos eu apertava o gatilho acertando os patinhos.

— Você está brincando comigo. – Gritou Jessie. – Com quem você aprendeu isso? – Perguntou impressionada.
— Comigo. – Ouvi uma voz masculina por trás. Eu conhecia aquela voz. Não podia ser. Eu e Jessie viramos de forma sincronizada para frente. Assim que encarei aqueles olhos azuis me fitando meu corpo foi completamente eletrizado de adrenalina. – Alguém resolver dar as caras em Middletown. – Jake falou em um tom bem sínico.
— Acho melhor irmos embora, Jes. – Foi tudo que consegui dizer. Jessie parecia começar a entender a situação.
— Fugir sempre vai ser seu forte, Elizabeth. – Jake provocou com um sorriso irônico no rosto.

Eu conseguia sentir meu coração pulsar em uma velocidade tão rápida que sem ao mesmo raciocinar minhas mãos tocaram seu rosco fazendo-o virar. Jake elevou as mãos tocando sua mandíbula que certamente ardia. Esbarrei meus ombros nos seus tentando me desvencilhar daquela multidão de pessoas, tudo parecia girar em câmera lenta, a mistura da música com as vozes ao redor e os gritos de Jessie chamando meu nome já não eram tão perceptíveis aos meus ouvidos, minhas mãos suavam frias enquanto eu corria a procura da saída. Era como se estivesse vivendo um déjà vu.

FLASH BACK ON

Ouvi o sino soar, eram quatro horas em ponto, estava em frente à igreja esperando as portas se abrirem. Todos estavam a minha esperava, principalmente Jake. Minhas mãos suavam frias, eu imaginei esse momento por anos e agora simplesmente as coisas não fazem mais tanto sentido. O amor que falávamos sentir um pelo outro não parece mais tão suficiente.

— Não consigo, pai. – Balbuciei soltando seu braço.

Melanie que segurava o véu fitou-me por alguns segundos até perceber minhas intenções, segurou minhas mãos e juntas começamos a correr em direção contrária da grande catedral.

FLASH BACK OFF.

Notas finais
Queria deixar uma nota de agradecimento a Machê que deixou o primeiro comentário da fic, realmente foi bastante motivador. E por favor, se você passou por aqui, deixe sua opinião. ^^