Weasley's Love
7 Dementadores
Notas iniciais
Rose Weasley
Finalmente é primeiro de setembro. Para muitos é uma data comum, ou até mesmo detestável, principalmente para os trouxas, que iniciam seu ano letivo nesta data. Para nós bruxos, porém, além de especial, esta data retrata o inicio de um novo ciclo. Vejo isso em mim mesma e nos meus amigos e primos, que correm por toda estação atrás de seus colegas que não viam há dois meses. Lily e Hugo, muito orgulhosos de si mesmos, correm para encontrar-se com os quintanistas da Grifinória a fim de mostrar-lhes o distintivo da monitoria cravado em seus peitos.
Roxanne, Dominique e James estão junto dos alunos do sétimo ano. Hoje se inicia o fim do ciclo deles, o ultimo ano em Hogwarts. Observando-os, dá para perceber em seus olhares que este é o ano decisivo de suas vidas, o que vai definir o que serão e eles sabem disso, mas agora só querem saber de estar unidos aos amigos, porque é isso o que importa.
Já eu estou sozinha numa cabine, sem clima para ficar lá fora com meus primos. O sexto ano é o que tenho pela frente e muitos o consideram o mais difícil. Scorpius, como bom melhor amigo que não é, deixou-me plantada para acompanhar Grace Stanton, uma garota da Sonserina que, após anos, resolveu dar bola para ele. Agora o idiota está correndo atrás dela como um cachorrinho faminto, é só a dona chamar que ele vai logo abanando o rabinho. Ridículo.
Ainda olhando pela janela, ouço duas batidas na porta da cabine. Toda vez que isso acontece recordo do meu primeiro dia de aula, quando Scorpius bateu em minha porta. No entanto, desta vez, não era ele quem estava ali. Ao virar-me, deparei-me com outro loiro. Lorcan Scamander. Ele estava no mesmo ano que eu e seus pais costumavam nos visitar frequentemente.
– Posso me sentar ou você prefere ficar sozinha? – perguntou logo de cara.
– Fique à vontade. – respondi com um sorriso simpático.
O garoto acomodou-se no assento de frente para mim.
– Quando estava vindo para cá passei pelo carrinho de doces e peguei alguns. – relatou – Não peguei por pegar, falando assim parece até que eu roubei a mulher do carrinho. Na verdade eu comprei. – seu embaraço me divertia. Lorcan era assim, meio desligado das coisas. Na verdade era esta a característica que o tornava único, e eu gostava disso – O que eu quero dizer é que, se você quiser, fique à vontade.
O Scamander estendeu-me uma sacola de tamanho médio e eu juro que tentei resistir à tentação, mas não deu. Acabei pegando algumas embalagens de sapinhos de chocolate, duas caixas de feijõezinhos de todos os sabores e mais três varinhas de alcaçuz. Qual é, tinha muita coisa lá ainda, não peguei quase nada.
Logo o trem começou a andar e percebi que Lorcan resolvera ficar por ali mesmo, porém não me importei, ele era uma boa companhia, um garoto legal e conversamos muito sobre Quadribol e comida durante a viagem. Já passava das três da tarde e ainda não tínhamos acabado com todo doce, o que era trágico. Deveríamos ter consumido tudo em, no máximo, duas horas. Portanto, ainda comíamos a esta hora. Estava descalça, com a cabeça apoiada na janela e os pés sobre o assento, devorando chocolates. Lorcan estava do mesmo jeito, a diferença é que se postava no banco oposto ao meu.
– Olhe só, saí com meu pai de novo. – declarei sem ânimo algum quando abri uma embalagem de sapinho de chocolate.
– Ah, eu tenho umas sete dele lá em casa. – comentou o loiro – E pelo menos dez da sua mãe. – acrescentou.
– O Hugo tem uma montanha dessas no quarto dele. – disse enfiando o sapinho inteiro na boca. Lorcan riu.
– Rose, só porque não gosta de sair com as figurinhas dos seus pais não quer dizer que tem que se lambuzar por inteira ao comer o doce.
– O que? Eu não me lambuzei! – retruquei ainda de boca cheia enquanto passava as mãos pelo rosto a fim de encontrar algum vestígio de chocolate. Não encontrei nada.
– Está com o queixo todo sujo. – tornou o rapaz – Espere, deixe que eu te ajudo.
Dito isso, Lorcan levantou-se de onde estava vindo sentar-se a meu lado. Desloquei um pouco mais o corpo de encontro ao encosto do banco para que ele tivesse mais espaço. Chegando bem perto do meu rosto, Lorcan estendeu o polegar e fixou-o em minha bochecha antes de escorregá-lo para o meu queixo, tirando de lá uma pequena mancha amarronzada. Sorri ao ver que ele estava certo, e ele sorriu junto comigo. Nos encaramos e vi em seus olhos uma alegria genuína em estar ali. Ele não estava fazendo sala ou sendo apenas simpático. Seus olhos verdes, parecidos com as folhas quase totalmente secas das árvores que preenchiam a paisagem do lado de fora do trem, transpareciam mais do que eu poderia esperar. A mais sincera manifestação de companheirismo estava em seus olhos, eles que nunca mentem.
Íamos nos aproximando cada vez mais, nossas faces quase se tocando e quando ele chegou ainda mais perto eu puxei seu polegar e com a boca, retirei todo o chocolate que ainda estava ali. Lorcan não me pareceu decepcionado, tanto que riu da minha atitude. Era bom que não se chateasse comigo. Não é como se eu não quisesse beijá-lo, eu só não queria beijá-lo ali, e daquela forma.
Esperei tanto tempo que Scorpius me reparasse que ao passar dos anos, sequer notava que alguém olhava para mim de verdade. Talvez Lorcan não olhasse desde sempre, contudo se ele quis me beijar, pode ser que haja uma chance mínima de termos alguma coisa. Não sou boba a ponto de negar que preciso disso. Esperar anos por uma pessoa que não te nota como nada além da melhor amiga dele é doloroso e acaba te privando de alguns prazeres da vida.
– Rose. – chamou o Scamander recostando-se no banco junto a mim. Deixei que ele apoiasse sua cabeça no encosto ao passo que eu usava seu ombro como travesseiro.
– Sim.
– Sabe, o primeiro passeio a Hogsmead é daqui a dois meses. – anunciou meio que atropelando as palavras – Eu sei que é muito tempo, e nem sei se você gosta de visitar o povoado mas eu pensei que, talvez, se você não tiver outros planos, é claro, bem, eu pensei que talvez você quisesse uma companhia diferente quando for lá. Eu sei que o convite é precipitado mas eu fiquei com medo de que outra pessoa o fizesse, então gostaria de saber que se você gostaria de ir a Hogsmead comigo.
Deitada em a seu lado, senti a respiração de Lorcan estava mais desregulada do que a minha quando era dia de Quadribol. Em seis anos, nunca antes alguém me convidara para ir ao passeio, sequer me chamam para andar pelos jardins ao crepúsculo. Lorcan fora muito gentil, mas eu e Scorpius tínhamos um trato. Sempre íamos juntos ao povoado e entrávamos na casa dos gritos antes de ir a qualquer outro lugar. Era como um ritual de iniciação.
– Lorcan, eu preciso pensar antes. – ele assentiu, agora sim um pouco decepcionado – Não é que eu não queira ir com você mas é que...
– É com o Malfoy que você sempre vai. Eu compreendo.
– Obrigada. Só espero que não tome isso como um não.
– Está tudo bem. – garantiu com um sorriso – Sabe, há anos eu tento fazer isso e sempre que tento...
O garoto interrompeu sua frase ao ouvirmos o som da porta da cabine sendo bruscamente aberta. Parado à sua frente, um outro garoto loiro, este com os cabelos desgrenhados e olhos acinzentados agora banhados por um entusiasmo incomum. Nenhuma outra pessoa pode ter reparado, mas em seu pescoço havia a marca de um batom cor pêssego. Lorcan e eu levantamos po reflexo e ficamos lado a lado.
– Rose, você não vai acreditar. – começou entusiasmado, até reparar que eu não estava sozinha – Ora, olhe bem quem temos aqui. Como vai Scamander? – cumprimentou com falsa simpatia.
– Muito bem, Malfoy. E você?
– Idem.
Scorpius virou-se para mim com olhar inquisidor.
– E você, Rose?
– Estou ok, Scorpius.
– Certo. – disse voltando sua atenção a Lorcan – Pode nos dar licença?
Encarei-o surpresa com tamanho descaramento.
– Scorpius – repreendi-o – Lorcan não vai a lugar nenhum.
– Está tudo bem. – manifestou o Scamander, obviamente apenas queria evitar uma confusão – Nos vemos mais tarde Rose. – finalizou dando-me um breve abraço.
Assim que o garoto atravessou a porta, não deu em outra: Scorpius começou seu falatório desnecessário.
– Ele te beijou? – questionou apresentando irritação na voz.
– O que? – inquiri espantada com tal pergunta tão íntima – Isso não é da sua conta. O que te faz pensar que pode me perguntar coisas tão indiscretas?
– O fato de sermos melhores amigos, talvez.
– Quanto a isso, não sei. Melhores amigos não abandonam seus parceiros só para se agarrar com uma qualquer numa cabine vazia. – contestei com mágoa.
– Não era uma qualquer, era a Grace Stanton. – retrucou – Além disso, não estamos falando de mim, e sim da sua atitude estúpida de se envolver com Lorcan Scamander. Já viu o histórico de garotas dele?
– O seu não é muito melhor. Ademais, eu nem ligo para isso, até porque Lorcan e eu somos amigos.
– Rose, querida, eu não pego desclassificadas.
– EU NÃO SOU SUA QUERIDA! – exaltei-me.
Ficamos em silêncio por alguns minutos até que os hormônios se acalmassem. Depois cada um se jugou num banco bufando.
– Eu só quero o seu bem, Rosie. – declarou o loiro.
– Eu sei definir o que é bom para mim. Não preciso de ninguém me controlando.
– Tente ver as coisas pelo meu lado, está bem? Você é como uma irmã mais nova que eu tenho que proteger.
– Eu já tenho um irmão, um pai e um monte de primos que fazem isso.
– Rose, Lorcan é como um dementador, tente entender. – explicou exasperado – Ele vai sair com você até se cansar e depois vai te trocar por uma garota mais bonita, gostosa e experiente que saiba fazer coisas que você não vai querer fazer com ele. E isso vai te deixar arrasada, vai acabar com a sua felicidade porque todas as garotas que você ver ao lado dele farão com que você olhe para si e se ache inferior. E isso vai te fazer sofrer e eu vou ter que te consolar. Esta situação vai se tornar desgastante para nós dois.
Terminei de ouvi-lo incrédula. Então era isso que ele definia como “me proteger”?. Que crápula!
– Scorpius, agora você vai me ouvir. – iniciei calmamente – Se você acha que vai ter que me consolar algum dia, pode ficar tranquilo, não vou dar este trabalho para você, até porque não sou do tipo de garota que chora pelos cantos por não ser correspondida, eu já fui assim se quer saber mas hoje isso já não faz a mínima diferença. E se você pensa que Lorcan é um dementador, saiba que existem dementadores muito piores que ele, e o pior de tudo, é que eu já recebi o beijo.
Fale com o autor