We could be heroes
3 Capítulo 02 - Um dom
Notas iniciais
Por incrível que pareça a minha festa de boas vindas estava muito boa. Conheci pessoas bem doidas e alguns até seriam meus colegas de classe. Pelo menos eu não estava na lista de desconhecidos da universidade, já que o meu pai era o reitor. Dava para ficar pior? Se eu saísse um pouquinho da linha, estava ferrada. E eu aqui pensando que iria á todas as festas e faria o que bem entendesse.
A melhor parte da casa era o meu quarto. Quando abri a porta fiquei boquiaberta. Meus olhos brilharam e eu segurei um grito histérico. Além de enorme, com uma cama de casal que cabia umas 5 pessoas tranquilamente, era todo azul escuro e no teto tinha um papel de parede 3D do ceu estrelado. Perfeito. Toda a decoração combinava com aquela paisagem acima da minha cabeça e me surpreendi ainda mais quando fui dormir. Assim que apaguei a luz, o papel de parede ficou brilhando, mostrando o ceu estrelado, por um momento achei que fosse de verdade de tão real que era. Fiquei encantada e demorei um tempo para conseguir dormir. Eu estava apaixonada por aquilo.
Nem sei como definir minha primeira semana em Toronto. Além de tediosa, descobri que meus pais biológicos não param em casa e são simpáticos demais com todo mundo. No começo desconfiei que precisassem de todas as pessoas que nos visitavam para alguma coisa, mas acabei descobrindo que eles eram assim. No fundo fiquei feliz, não seriam um caso perdido afinal.
Depois daquela sinistra conversa com o Hugo, ele nunca mais tocou no assunto e todas vezes que eu ficava perto dele, cantava uma música em minha cabeça, bloqueando qualquer tipo de pergunta ou pensamento que ele pudesse adivinhar.
Venho tendo pesadelos todas as noites e o pior de tudo é que sempre acordo no meio da floresta que tem um pouco atrás da mansão. Na primeira vez, pensei que tinha ficado empolgada com o tamanho daquelas árvores que em sonho resolvi ir, mas quando isso aconteceu mais 5 vezes, comecei a desconfiar que alguma coisa estava errada. Meus pais me pegaram voltando de madrugada umas 2 vezes e não comentaram nada.
Era pra eu estar animada já que é meu primeiro dia na universidade, só que a minha vontade de fugir é maior ainda! Não saber como agir era uma droga.
Tomei o café da manhã sozinha e fui surpreendida por Hugo ao me levantar da mesa.
– Por que a pressa? — sorriu — sua aula só começa ás 10 horas.
– Eu sei — suspirei — quero dar uma olhada no campus antes.
–Uma olhada de 4 horas? — arqueou a sobrancelha — preciso que venha comigo.
– Para onde?
– A sua cama de todas as noites — tinha um sorriso macabro — a floresta.
Caminhei ao lado dele até o meio da floresta e comecei a ter imagens sem explicações na minha cabeça. Ao longe eu ouvia algumas risadas e alguém conversava animadamente sobre alguma coisa que não consegui distinguir porque logo em seguida ouvi várias outras vozes. Minha cabeça parecia que ia explodir.
– Tudo bem? — ele pareceu preocupado.
– Só faça isso parar — pedi baixinho.
– Não posso fazer nada em relação á isso — apontou para a minha cabeça — você tem que aprender a controlar sozinha.
– E o que é isso exatamente?
– É complicado — mordeu os lábios — você tem um dom.
– Um dom? — ri pelo nariz.
– Você pode controlar mentes, ler pensamentos, tem domínio sobre o fogo e provavelmente sobre o gelo também. É difícil saber antes da sua ascensão — ele respirou fundo — somos chamados de Ginis.
– Está de piada com a minha cara? — saí batendo o pé irritada.
– Por que eu faria piada com uma coisa dessas? — estava sério — não está curiosa para saber sobre os seus sonhos?
– Estou ouvindo — eu queria saber tudo!
– Se você teve o mesmo sonho 3 vezes, é provável que o lugar signifique algo para você.
– Não significa nada pra mim — suspirei.
– Eu quis dizer futuramente — sorriu — todos temos profecias a serem cumpridas, Melita.
– Por isso vim parar aqui?
– Teria outro motivo?
– E você sabe qual a minha profecia?
– Tem coisas que nós não precisamos saber — Hugo me deixou lá, sozinha. Ele sabia de alguma coisa, mas não queria me contar.
Caminhei de volta para a mansão e fui em direção ao carro do Hugo. Eu precisava saber sobre o meu possível dejà vú no avião.
– Sonhei com vocês — mordi o lábio — tem uma explicação pra eu ter visto a minha festa antes mesmo dela acontecer?
– Sim — sorriu — eu fiz um pequeno contato com você durante o seu sonho. Nada demais. Como sou seu pai, tenho esse privilégio.
– Também posso fazer isso com você?
– Se for capaz — ele estava me desafiando? — estarei pronto para isso acontecer.
– Tem como bloquear isso?
– Seu mestre vem hoje — deu de ombros — ele é o melhor. E já que nunca usou seus dons, é possível que seja um desastre logo no começo.
– Nunca te disseram para não subestimar uma garota? — Judith apareceu atrás de mim — aposto que a Melita é ótima.
– Não graças á sua irmã — Hugo parecia irritado.
– Não fale assim dela — ela o fuzilou com o olhar — Marlene cuidou muito bem da nossa filha.
– Impedindo-a de usar seus dons? Claro que sim — ironizou.
Que conversa era aquela? Minha tia sabia sobre mim?
– Ela não me impedia de nada — defendi.
– Sua tia estava bloqueando tudo o que podia. Inclusive não te deixava fazer aulas de yoga que gostava tanto, não é mesmo? E as lutas? E o futebol? Você sempre foi boa em tudo porque aprendia as coisas só por observação. Bastava uma vez para fazer que já virava a melhor. Nunca percebeu isso? Até no pôquer você não dava chance para ninguém. Lembra que seu primo Tyler queria morrer quando te levava para andar de skate — Hugo parecia estar gostando de falar todas aquelas revelações para mim.
– E por que vocês esperaram até agora para me dizer tudo isso? — eu merecia uma explicação digna. Estava apavorada com tudo aquilo.
– Porque hoje você vai ter aula de levitação na universidade como caloura e se não estiver totalmente concentrada no que estiver fazendo, vai flutuar como se estivesse na gravidade zero.
– Como isso é possível?
– Não sabemos — ele admitiu — só percebemos isso quando começava flutuar em direção á floresta e tivemos medo que alguma coisa pudesse acontecer hoje.
– Poderiam ter me avisado antes, não acham?
– Sim — responderam em uníssono.
– Medo — Judith quem se pronunciou — você precisa disso para que as vozes diminuam. Está ouvindo alguma coisa?
– Não — sorri — esse é o segredo? Eu ficar apavorada?
– Por hora — ela riu — acho que já basta.
Que ótimo. Tive a certeza de que eles eram malucos depois daquela conversa.
Era impossível que minha tia soubesse de tudo e nunca tivesse me dito nada. Ela parecia toda transparente e tão sistemática. Odiava coisas mal feitas, por que esconderia tudo de mim? Se aquilo fosse algo bom, ela não teria adiado aquele momento, não é mesmo?
– Vai querer uma carona ou prefere pensar nos prós e contras? — Hugo me tirou dos meus devaneios. Assenti ainda assustada e entrei no carro.
Eu não queria falar sobre nada. Fiquei lembrando dos meus tios e do quanto eles eram bons para mim. Pareciam sempre me querer proteger do mundo, afastando até pessoas que não achavam de confiança. Eles estavam tentando me deixar distante dos possíveis Ginis? Será que o Tyler também sabia?
– O Tyler não sabe de nada — Hugo sorriu enquanto dirigia pela estrada — é um ótimo garoto. Pensei em chamá-lo para morar conosco, pois nós víamos o quanto ele signifca para você, mas a sua tia nunca permitiria isso.
– Pensou? — perguntei animada. Seria incrível ter ele no mesmo teto comigo.
– Sim — me olhou de relance — mas como eu disse, sua tia piraria.
– Ela também é uma Gini?
– Era — parecia desconfortado com aquilo.
– Tem como deixar de ser? — fiquei feliz com a possibilidade de ser normal.
– Você não vai gostar de saber como — o olhar dele foi tão medonho, que eu recuei no banco.
Nem toquei mais no assunto. Queria mesmo é chegar logo na universidade e fingir que sou normal. Fingir. Está aí uma coisa que nunca fui boa.
– Melhor aprender rápido — ele tinha que ler todos os meus pensamentos? — fico curioso para saber sobre tudo.
– Não é mais fácil me perguntar? — revirei os olhos.
– Você me diria tudo?
– Se eu achar que deve saber, é claro.
– Tudo bem — se remexeu no banco — vou começar a perguntar. Acho que posso conviver com isso.
Além de fazer bons amigos, espero que tenha garotos bonitos, pois estou afim de ter uma lista de contatos de causar inveja em muita gente.
– Ha! — apontei para o Hugo que estava com uma carranca no rosto — sabia que não conseguia.
– Estava me testando? — arqueou a sobrancelha.
– Sim — dei de ombros — e você falhou.
Ele riu e eu o acompanhei. Era um homem bom, só não o via como pai, pelo menos ainda não conseguia vê-lo dessa maneira.
Quando chegamos no campus, me despedi do Hugo e ele me disse que poderia procurá-lo para qualquer coisa que precisasse. Andei por uma hora até conseguir conhecer quase tudo, porque conhecer tudo era muita coisa e tinha lugares que provavelmente eu nem iria.
Sentei na grama do jardim. Sim, tinha um jardim bem na frente. Lindo demais. Peguei um caderno da minha bolsa e fiquei anotando tudo o que eu via. Eu estava concentrada demais para notar que deveria sair dali o mais rápido possível. Fui atingida por alguém e não era qualquer pessoa, o cara parecia um armário e o pior, tinha sido arremessado como uma bola de futebol. Seja lá quem tinha feito isso, devia ter uma força e tanto.
– Foi mal — ele parecia envergonhado.
Me levantei de um salto e o ajudei a ficar em pé.
– Sou Carlos — estendeu a mão — e preciso ir agora! Até mais linda! — saiu correndo.
– Maluco — sussurrei baixinho.
– Você que aparece na minha frente que eu te mato, Carlos!
– Arremessou aquele cara? — perguntei sem olhar para ver quem era.
– Quer ser arremessada também? — tinha uma certa irritação na voz.
Olhei para trás e dei de cara com um garoto um pouco maior que eu. Não podia ser ele que tinha feito aquilo. Comecei a reparar em seu porte físico, aparentemente bem definido. Pele um pouco bronzeada e olhos e cabelos claros, quase num tom castanho. Ele era muito bonito.
– Espero que seu mau humor não seja contagiante — bufei e agachei para pegar minhas coisas. Coloquei o caderno de volta com pressa e vi o meu cotovelo todo ralado, estiquei o outro braço e vi que os dois estavam no mesmo estado. Que ótimo.
– O seu parece ser — fechou a cara. Babaca.
– Deve ser porque alguém que pesa mais de 100 quilos caiu em cima de mim e ainda ganhei dois ralados nos cotovelos — com a mochila nas costas, andei em direção ao prédio principal.
– Hey! Me desculpe! — ele me seguiu. Nem fiz questão de olhar.
–Christopher! — alguém chamou e eu me virei — você vem com a gente ou vai ficar atormentando a caloura?
O moço me encarou com um olhar de desculpas. Não desviei o olhar dele, então ele virou as costas e seguiu o outro cara.
– Nesse lugar só tem babacas? — suspirei.
Se bem que esse babaca era lindo. Meu Deus. Fui para a biblioteca e torci mentalmente para encontrar mais vezes o tal Christopher. Eu só não esperava que isso demorasse menos de 30 minutos para realmente acontecer e nem que ele me acertasse com uma bola de basquete bem na cabeça. Ah! Aquele babaca.
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