We Remain

6 Capítulo 06


Fabinho levantou quando o celular despertou e quase jogou o celular na parede, odiava acordar cedo, mas ele tinha as responsabilidades, e agora ele estava tentando ser mais responsável, logo iria ser o patriarca de uma família. Família com a Giane, mulher da sua vida, pelo menos, ele considerava que ela é. Ele esbarrou em milhões de coisas antes de conseguir chegar ao banheiro, fez a higiene, e tomou um banho pra acordar de vez.

Se trocou, e ao passar pela sala para chegar à cozinha, deu de cara com aquele sofá vazio.

– Você só pode estar brincando, cara!

Foi até o sofá, e pegou bilhete encima do notebook, a letra de Elano era bonita, nunca tinha visto um homem escrever tão bem, deve ser por conta da profissão dele. Se sentou no sofá pra ler, e não tinha muita coisa escrita:

_ “Fábio, eu sinto muito por ter vindo sem avisar, baguncei a sua vida e todos. Mas, chegou a hora de encarar a realidade e enfrentar o meu divórcio de frente. Obrigado por tudo. Espero que seja feliz. Quando precisar, me liga, este é o número do meu escritório do Rio. Elano.”

E embaixo estava o telefone que ele tinha citado, Fabinho suspirou, ficou preocupado ao se lembrar de como Elano estava triste ontem, nunca tinha visto alguém com depressão, mas já tinha lido algumas coisas a respeito, será que ele estava com isso? Revirou os olhos, como pode alguém ficar tão deprimido assim por conta de um chifre? Se fosse ele, tinha socado o cara. Fabinho levantou e foi até a cozinha, sabia que quando a mãe levantasse ia falar várias por causa do outro, mas ele não sabia o que sentia, se estava feliz ou não com aquilo, e decidiu que estava preocupado, mais tarde iria ligar naquele número pra saber se ele chegou bem.

Enquanto isso, Giane observava Elano apagado no sofá, foi uma madrugada longa para os dois, ele não dormia direito há dias, e chorou muito, mas pouco disse. Ela só o apoiou, e pouco disse também, não sabia o que dizer nessas horas. Mas entendeu que Elano tinha alguma coisa muito esquisita, precisava ajuda-lo de alguma forma, ele emagreceu demais. Trocou-se no quarto, foi até a padaria, comprou uns doces e pão, voltou e arrumou tudo na mesa. Seu pai acordou um pouco depois que ela tinha feito o café:

_ Fabinho dormiu aqui hoje, Giane? Você podia ter dado um colchão pra ele...

_ Não, pai. Esse é o Elano.

_ O Elano? O que ele tá fazendo aqui?

_ Ele chegou aí de madrugada dizendo que ia embora, se você visse o estado dele, pai... Ele tava muito triste, cara. Passou a maior parte do tempo chorando, será que ele tá doente? – ela colocou o bule quente na mesa.

Giane não gostava de cozinhar, mas quando podia ajudava o pai, e aprendeu algumas coisas. Ela voltou pra sala, e Elano mal tinha se mexido no sofá.

_ Elano! Cara! Acorda! – ele resmungou alguma coisa, mas abriu os olhos.

Ele sentou no sofá, sonolento, mas logo teve noção de onde estava.

_ Já é de manhã? – se ajeitou no sofá, mexendo no cabelo. – Eu preciso ir embora...

Giane percebeu que a voz dele estava diferente, mais leve, aquela voz da manhã de quando você passa a noite chorando.

_ Você não tirou isso da cabeça mesmo, né? Pelo menos toma um café, vai, tá tudo pronto lá na cozinha.

_ Por que eu ficaria? Não tem sentido ficar.

_ Tem seu irmão. – ela sentou do lado dele. – Fabinho é um grosso mesmo, mas ultimamente ele mudou muito, ia ser bom pra ele ter você por perto. Ele ia se acostumar com a ideia de ter um irmão.

_ Mas, um irmão gêmeo?

_ É radical, mas ele vai se acostumar. E do que adianta você voltar? Você só vai sofrer mais ainda, e virar um palito com uma cabeçona. – ele riu.

_ O quê?

_ Você pode não perceber, mas você emagreceu muito esses tempos, Elano. Vai ficar só a cabeça.

_ Eu sei. – ele deu um sorriso torto. – Agradeço por ter aberto a porta pra mim, e ter me aguentado. Eu juro que já fui mais legal um dia, to um porre mesmo. Desculpa. E aceito o café.

Ela levantou e ele a acompanhou até a cozinha, tinha noção que seu rosto devia estar uma bola de tão inchado.

_ Bom dia, rapaz. Senta aí. – Silvério já tinha começado o café.

Elano sentou e reparou na camiseta de Giane.

_ Corinthians? – ela olhou pra camiseta e depois pra ele.

_ É! Por quê?

_ Nada, nada! Mas você tem cara mesmo de corinthiana.

_ O que você quis dizer com isso?

_ Quis dizer que vou encher minha boca de pão e calar a boca.

_ Melhor mesmo. – Giane riu.

Os dias se passaram na Casa Verde, Elano voltou a ficar melhor, pois começou a ocupar a mente com os processos que tinha que resolver no serviço, trabalhava na casa de Margot, mas procurava uma casa próxima dali pra se mudar. Os vizinhos ainda o confundiam com Fábio, mas ele já tinha se acostumado. Não quis mais ouvir falar de Cida, quando a irmã ligava pra ele toda noite ela tomava o extremo cuidado para não comentar nada sobre o assunto. Ele também não iniciou o pedido de divórcio, e muito menos, ela. E por enquanto, estava assim.

Giane vinha o visitar de vez em quando, eles jogavam papo fora, e Elano amava a companhia dela. O dia que ele ficou mais admirado foi quando ele foi pra casa dela com Fábio e encontrou ela e os amigos vendo o jogo do Corinthians, ela gritava, pulava, xingava e quase dava uma voadora na TV, era muito mais impulsiva que os caras que estavam ali, e Elano se divertia com o jeito dela. Quase não enxergava mais a Cida dela, e sim, a Giane somente.

Ele tinha medo que a aproximação dele com ela fosse um problema, ele podia confundir as coisas, mas eles eram amigos, e ela era quase casada com Fabinho, só faltavam os dois morarem juntos, o que não ia demorar. Elano foi se adaptando a rotina do bairro, e se sentia mil vezes melhor, Giane o colocou pra cima, lhe deu força, o fez rir, comer, dormir direito e voltar a ser aquele cara que sempre foi.

_ Elano, para de olhar os anúncios da imobiliária, eu quero você aqui, querido. – Margot o repreendia mais uma vez, ele adorava ela.

_ Dona Margot, eu preciso parar de encher o saco da senhora, não é?

_ Mas, quem vai cuidar de você?

_ Eu deixo você ir me visitar todos os dias. Eu prometo. – ele deu um beijo no topo da cabeça dela, ajeitou os óculos na cara e voltou para os anúncios.

Enquanto isso, Fabinho quebrava a cabeça pra mais uma campanha da Crash Midia no escritório, ele estava pirando com tanta coisa pra fazer, criar, lembrar. Sabia que tudo ia dar certo no final, mas o meio o deixava maluco. Tinha acabado de receber uma noticia que o deixou de cabeça quente, um cliente estava querendo processar a agência e a briga ia ser feia. Ele estava pensando seriamente em conversar com Elano para ajudar.

Fabinho já estava se acostumando a presença do clone na casa dele, a mãe o fez encaixar uma cama em seu quarto, e eles o dividiam. Era clara a diferença entre os dois, Elano era organizado, e arrumava a cama, coisa que ele nunca fazia, nem nunca fez. Pra que arrumar a cama? Quando precisava sair Elano passava as roupas, Fabinho só não saia amassado de casa porque sua mãe o impedia. Elano era mais tranquilo, Fabinho era esquentado com qualquer coisa. Elano tomava café puro, e ele só com leite. Eles eram tão parecidos por fora, mas ao mesmo tempo não tinham nada a ver por dentro.

Ele já estava cansado, apesar de todo o barulho de pessoas passando pra lá e pra cá na agência, ele se sentia inquieto. Daria tudo para estar na Casa Verde jogando bola com aquele pivete-moleque-de-rua, e a coisa só piorou quando a nova estagiária da agência veio lhe encher a paciência. Se fosse em outros tempos, Fabinho caia matando, afinal ela não dispensava uma saia curta, um decote, e um perfume forte que chegava a incomodar o nariz dele.

Fazia dias que ela estava dando encima dele, e isso era claro, e parecia que ela não entendia todos os foras que levava dele. Quando viu Michele se aproximando Fabinho começou a desligar o computador, ele iria pra casa, jogar uma bola, tomar uma cerveja no Cantaí, e deixar essa bucha pro Érico, e quando ele dizia bucha era tanto o trabalho, quanto a estagiária.

_ Oi, Fabinho. – ela trazia uns papéis, e mexia no cabelo loiro.

Ele ergueu o olhar pra ela de relance, terminou de desligar o computador e levantou.

_ Oi?

_ O Érico pediu pra deixar isso na sua mesa.

_ Claro, deixa aí, e avisa ele que eu to indo pra casa. Como é que se fala mesmo? Estou tendo uma crise de criatividade e não to conseguindo fazer nada. Tá beleza?

Fabinho pegou a chave do carro e saiu fora deixando a loira plantada com os papéis na mão, sem nem se despedir, se despediu apenas de algumas pessoas que encontrou pelo caminho. E já era meio da tarde quando chegou à Casa Verde, encostou o carro e alguma coisa acontecia no campinho de futebol improvisado do bairro. Seus amigos estavam lá jogando bola, e no meio deles estava Elano, ele saiu do carro pra ver aquilo de perto, o sol ainda queimava um pouco, mas todos estavam no gás do jogo. Todos jogavam descalços, tinha o time dos sem camisa, e o time dos com camisa, Elano estava no segundo. Jonas estava indo de encontro a ele, quando ele o driblou e marcou o gol. Todo o time dele comemorou, inclusive ele, e por um momento, ele gostou de ver o irmão se divertindo.

_ Não acredito que vocês estão perdendo pra esse almofadinha. – Fabinho gritou entrando no campinho.

_ Na boa, Fabinho, ele joga melhor que você.

_ Ah, eu duvido.

_ Eu vou sair, já estou com câimbra, cara. – Douglas reclamou.

_ Mas, tu é mole mesmo, hein, Douglas. Vaza daí. – Fabinho tirou a jaqueta, camiseta e os tênis.

_ Fábio, essa eu quero ver. Aqui é Botafogo! – Elano zombava do irmão.

_ E aqui é São Paulo! – ele foi até perto do irmão, enquanto os outros zoavam Fabinho por causa da escolha do time.

Fabinho e Elano pararam um na frente do outro.

_ Quem é o juiz disso aqui?

_ Quem disse que tem juiz? – Jonas respondeu.

_ Ah, cara, vou descontar todas as horas que você roncou no meu ouvido. – Fabinho zuou, e colocou a bola no chão.

_ Agora vai ser daora, mano. Muito louco. – Lucindo disse, e todos concordaram.

O jogo foi meio turbulento, até porque Fabinho e Elano eram os mais altos praticamente, Fabinho caiu diversas vezes, mas conseguiu jogar e drilar o irmão algumas vezes, o jogo parecia que era deles, pois todos gritavam olé, olé, quando eles estavam se enfrentando. Elano se matava de rir, estava se divertindo demais, mas às vezes, Fabinho pegava pesado, e ele caia feio, mas mal sentia, logo estava de pé de novo, não queria que o jogo acabasse, apesar de já estar exausto.

Giane estava chegando do trabalho quando viu a movimentação no campinho, seu pai também estava lá vendo alguma partida, a curiosidade falou mais alto e chegou mais perto pra ver o que acontecia. E lá estavam os meninos jogando bola, como sempre, mas ela entendeu o que chamava mais atenção, Elano e Fabinho jogando, parecia que jogavam mais um contra o outro, do que com os times. Ela riu, eram dois pernetas! Pena que ela estava de salto, porque senão iria mostrar pra eles o que era futebol de verdade.

_ Faz tempo que os dois estão aí, filha. – Silvério disse.

_ O importante é que eles estão se divertindo, pai. EI, DOIS PERNAS DE PAU! – ela gritou, chamando a atenção dos meninos do campo.

Alguns reviraram os olhos porque sabiam o quanto Giane podia ser convencida com esse assunto, quando ela gritou, Elano perdeu a concentração e caiu no chão mais uma vez, mas dessa vez doeu.

_ Aí, oh! Eu falei! Eu avisei que eram dois pernas de pau!

_ Quem aqui é perna de pau, moleque? Só se for esse banana! – Fabinho ofereceu a mão para Elano levantar.

Elano levantou, os meninos estavam exaustos, e decidiram encerrar a partida por ali, Fabinho estava com as costas e os braços ralados, a calça jeans tinha rasgado, claro, e ele pingava suor. Giane observou o noivo se aproximar dela, ela não tinha frescura com essas, ele a agarrou pela cintura, e a pendurou no ombro.

_ FABINHO! ME COLOCA NO CHÃO! FRALDINHA!

_ Não, você me chamou de perna de pau. – ela batia nas costas dele, mas desistiu porque sabia que ele não ia largar.

– QUE DROGA, FABINHO!

Elano levava a bola, e ria atrás deles.

_ Que cê tá rindo, cara? – ela olhou pra ele, que mancava levemente e estava com o rosto bronzeado pelo sol.

_ Nada! – ele ergueu as mãos, e riu de novo.

_ Acho bom você tomar um banho, fraldinha, você tá fedendo.

_ Fedendo? Isso aqui é cheiro de homem. Vou te impregnar com esse cheiro. – ele deu um tapa de leve na coxa dela. E ela deu um tapa forte nas costas dele.

_ Idiota!

Elano se despediu de alguns caras do bairro, ainda era começo da noite, quando ele adentrou em casa, deixando o casal sozinho, tinha combinado de encontrar com eles mais tarde no Cantaí.

Fabinho colocou a noiva no chão, e a puxou pra perto de si, lhe dando um beijo apaixonado, levando uns tapas logo em seguida.

_ Para. Com. Isso. – ele segurou as mãos dela, lhe roubando uns selinhos.

_ Que foi isso, Fabinho?

_ Quê?

_ Você e o Elano.

_ Ué, a gente tava jogando bola, ele não joga muito, não é lá essas coisas, né. Mas dá pra brincar um pouco.

_ Como se você jogasse muito, né.

_ Cala a boca, moleque. Jogo sim. – ele mordeu o lábio dela. – Agora você vai pra casa se arrumar que a gente vai lá no Cantaí.

_ No Cantaí?

_ É, todo mundo vai. Você vai. Eu vou. Tem coisa melhor?

_ Convencido, babaca. – ela riu.

Tinha sentido falta dele o dia inteiro.

_ Vou ter que tomar um banho, né. Esse cheiro aqui...

_ Você ama meu cheiro.

Ela nem respondeu, se agarrou nele, mesmo suado ele não cheirava mal, e é verdade que ela adorava o cheiro dele, ficaram ali se amando por um tempo. Quando Giane foi pra casa se aprontar pra ir pro Cantaí, Elano já tinha saído do banho, e enxugava os cabelos sentado no sofá quando Fabinho entrou. O irmão foi até o outro sofá pegou uma almofada e jogou contra ele.

_ Banana, depois eu preciso falar com você.

_ Comigo? – ficou surpreso.

_ É, coisa do trabalho, vou precisar de uma ajuda sua. Cuida aí dos seus machucadinhos. – e saiu rindo pro banheiro.

Elano se trocou, e não ficou esperando Fabinho pois já estava atrasado, sabia que ele ainda ia esperar a Giane, e ele não queria ficar de vela, ou candelabro, como tem ficado nesses últimos dias. Ele não gostava muito de se aproximar de Giane, porque sentia uma coisa no peito que o deixava confuso, não estava pronto pra amar ninguém, ainda mais sua cunhada. Deve ser porque ela é tão legal com ele o tempo todo, sempre se divertindo, ela era diferente de todas as mulheres que já tinha conhecido, mas ele tinha que apagar isso da cabeça.

Ele tentava andar com as roupas diferentes do estilo de Fabinho para que ninguém os confundisse, e algumas pessoas já sacavam quem era quem. Ele se aproximou dos caras que estavam no bar e eles comentavam sobre o jogo, principalmente de Elano e Fabinho. No Cantaí, tinha um pessoal brincando no karaokê, e ele precisava urgentemente beber alguma coisa, eles pediram a primeira rodada de cerveja enquanto esperavam o casal 20 aparecer para pegarem uma mesa. Todos eles estavam acompanhados com suas namoradas, Elano não podia negar que sentia falta dessas coisas, sempre fora um cara romântico e se apegava a esses momentos, mas ele lembrou do mantra de se divertir.

_ Fabinho, cadê a Giane? Brigaram foi?

Uma moça bonita lhe confundia com Fabinho, ela era branca, os olhos castanhos, o cabelo liso e grande, era alta, quase do seu tamanho, parecia uma modelo. Elano sorriu pra ela.

_ Camilinha, esse é o Elano, não o Fabinho. — Jonas a corrigiu.

_ Ah, ah... – ela pareceu sem graça, gesticulando com as mãos. – O irmão, né? Caramba, foi mal... – ela riu. – Camila Lancaster.

Ela deu dois beijos um em cada bochecha dele, lhe cumprimentando, e ele achou graça do jeito meio espevitado dela.

_ Elano Fragoso.

Notas finais
Na boa, me amem menos. Brincadeira. Tentei fazer alguma coisa pra essa fic andar, uma rodada no tempo pra Elano ficar feliz, uhu. E estreitar os laços dos irmãos, porque a coisa vai ficar feia. ou não. Não tenho muito o que dizer. Qualquer coisa, xingamento, elogio, dúvida, me sigam lá no twitter: @garotadeontem. Bjs