We Remain
5 Capítulo 05
Elano estava bem melhor fisicamente alguns dias depois, mas psicologicamente estava um caco, mal conseguia dormir, se alimentava só porque Margot praticamente lhe enfiava a comida garganta abaixo. Fabinho tentava ser um cara legal com ele, mas o via sempre muito incomodado com a presença do irmão, ele quase não parava em casa, sempre trabalhando, ou na casa da noiva. Ele pensava como estava sendo um encosto na vida de todos, precisava sair logo de lá e planejava ir de madrugada. Já até tinha ligado para irmã adotiva dizendo que planejava esperar amanhecer em outro lugar, ir até a rodoviária e ir direto pra casa dela.
Ele sentia uma coisa por dentro, um peso no meio do peito que ele nunca sentira na vida, sempre foi uma pessoa muito alegre, de bem com a vida, mesmo quando tinha se separado de Cida quando namoravam, ele não tinha ficado tão mal. Era um sentimento muito esquisito, e ele não gostava de conversar mais, não queria compartilhar essa dor com ninguém. Já bastava ter que compartilhar o espaço, a atenção de todos.
Margot veio lhe oferecer um chá para dormir, ele agradeceu, mas recusou o chá.
– Boa noite, Elano. – a senhora o olhou, tinha um pressentimento estranho. – Você tá bem mesmo?
– Tô sim. – ele lhe ofereceu um daqueles sorrisos que sempre dava nos últimos dias, o mais convincente possível. – Obrigado, Margot. – ele sentiu um nó na garganta, porque aquele agradecimento era por tudo. Não só pelo chá ou pela preocupação.
– Boa noite, e não foi nada, querido. Amanhã eu saio cedo, mas volto logo, está bem?
– Tá bom.
Ela foi para o quarto e ele observou até a porta ser fechada, iria sentir falta dela, era uma boa pessoa, queria ter tido uma mãe assim. Fabinho tinha lhe arrumado um carregador para o celular, e um notebook pra se distrair. Iria esperar a madrugada chegar. Falando no irmão, ele invadiu a sala logo em seguida que Elano tinha colocado o computador no colo.
– E ae, cara.
– Oi. – ele acenou para Fábio com a cabeça, ainda era estranha a aproximação deles.
– Cê tá bem? De boa?
– Sim, sim, e você?
– Sim... E minha mãe?
– Sua mãe já foi deitar.
– Ah, eu vou pro quarto, tomar um banho e já dormir, já jantei.
– Beleza.
Fabinho tirou a jaqueta e já estava indo pro quarto, quando Elano o interrompeu.
– Fábio, eu... Desculpa por ter... voltado sem ter te falado nada, de surpresa assim, eu não devia ter feito isso.
– Ih, cara, que papo é esse?
– Eu sei que eu atrapalho, que eu sou um estranho para você. Mas, valeu por tudo, cara.
– Você falando gíria? Já tá convivendo muito aqui, hein. – Fabinho riu, e sentou do lado do irmão.
Realmente, era muito esquisito olhar pra ele, como se fosse um espelho. Mas tinha reparado em quanto Elano tinha emagrecido nos últimos dias, e como estava mais estranho do que era. Não queria aceitar a presença dele na sua casa, mal conseguia ficar no mesmo lugar que ele, não aguentava mais responder perguntas de todos sobre esse assunto, mas agora, olhando pra ele, se arrependia por não ter sido mais legal. Ele estava visivelmente mal.
– Cara, eu...
– Fica tranquilo, Fabinho. Sem sentimentalismo, sei que você não é homem disso.
– Eu sinto muito pelo que a empreguete fez com você, quando eu brigo com a Giane e fico uns dias sem falar com ela, eu fico maluco, imagino o que você sente.
– Não precisa...
– Não, olha... Eu realmente não gosto de mostrar sentimentos, sempre fui assim, um ignorante, e sempre serei. Mas, sinto muito se estou sendo um cavalo com você.
– Você tem seus motivos. Não está sendo fácil pra você também.
– Vai ficar tudo bem, cara. Fica de boa, que vai ficar tudo bem. Você vai encontrar alguém que te merece.
Fabinho deu um tapa de leve no ombro do irmão, lhe deu boa noite e rumou para o quarto. Elano ficou fuçando na internet, até que ouviu nenhum barulho dos quartos de seus anfitriões. Ficou ali pensando na conversa que teve com Fábio, a mais longa desses dias que esteve ali, poderia ser que um dia eles pudessem ter sido como irmãos de verdade, mas agora isso não ia acontecer mais.
Elano buscou um fone de ouvido para não acordar ninguém, e entrou no youtube, digitou o nome da banda da ex mulher, ele não conseguiu evitar um sorriso quando a música começou, lhe trazia muitas lembranças, sua irmã, Cida e amiga delas. Mas ele só conseguia prestar atenção em uma pessoa, as diversas fantasias, as perucas coloridas, os sorrisos dela, a voz. Mal percebeu quando começou a chorar, mas voltou para a página de busca e digitou o nome dela. E apareceu uma notícia recente: “Será que acabou? Empreguete Cida pode estar solteira.” Ele clicou na noticia, e apareceu uma imagem recente da ex mulher em um evento.
Com um vestido azul brilhoso, Cida não sorria para a foto, mas estava encantadora como sempre, maquiada de forma marcante nos olhos. Elano foi ler a notícia.
“Empreguete aparece sem aliança em evento.” – dizia o subtítulo. Ele continuou: “Cida, nossa querida empreguete, compareceu em um evento de moda em Copacabana desacompanhada do marido, Elano Fragoso. Ela chegou com um segurança, e se limitou a responder perguntas da imprensa. Quando questionada sobre uma provável crise em seu casamento, respondeu: “Esta noite, não respondo sobre minha vida pessoal, apenas profissional.” Mas mesmo assim, a cantora e autora de livros juvenis, desfilou pelo evento sem a aliança na mão esquerda.
Já faz algum tempo que não a vimos por aí com o seu querido príncipe encantado, onde será que o advogado está? Será que o conto de fadas acabou? Esperamos que não, pois este casal é uma fofura.
Sobre as novidades da carreira, Cida disse que está planejando lançar um livro no próximo semestre, e começar a gravar um novo CD com sua banda. Estamos no aguardo!”.
Elano se deixou afundar mais um pouco no sofá, se sentia péssimo, pior do que antes, se isso fosse possível. Pegou o travesseiro e tampou o rosto. Chorou o que conseguiu, e tentou abafar o barulho, ele sentia muita falta dela, não ia conseguir ficar longe dela, por mais orgulhoso que fosse. Se permitiu chorar o quanto pode, ainda com o rosto molhado, mas mais calmo, desligou o notebook, juntou todas as coisas, colocou um dos ternos que tinha levado, todo amassado mesmo, e juntou todas as roupas que pegou emprestado de Fabinho, e até as que tinha comprado aquele dia dos pães com Giane. Giane, ele se lembrou daquele dia.
Em cada lugar que passava, todos pensavam que ele era Fabinho, mas não abria a boca para ninguém perceber que ele não era. Chegava a ser uma situação engraçada, Giane ria e ele também, porque se ele fosse explicar para todos a situação, ninguém entenderia mesmo. Quando chegaram na loja, Giane o deixou a vontade para escolher as roupas que queria, mas até os vendedores a conheciam.
– Fabinho, como tá? – um vendedor lhe perguntou.
– Bem, cara e você?
– Bem, tá precisando do que?
– Na verdade, de um pouco de tudo, cara. – ele riu, mais da imitação ridícula que estava fazendo, do que da resposta.
– Fernando, cê pode deixar que eu vou ajudar ele a escolher umas coisas e já fechamos com você. – Giane veio lhe salvar.
– Claro, claro, tá bom. – o vendedor saiu. E Giane lhe deu um tapa nas costas.
– Você tá maluco?
Depois de dias, Elano riu verdadeiramente.
– Na boa, é muito fácil falar desse jeito, cara. Cê não acha? Tá parecido?
Giane ficou olhando incrédula pra ele, mas logo não aguentou e riu também.
– Tá ridículo! Vai, escolhe umas coisas aí e para de enrolar.
– Claro, madame. – ele se curvou pra ela como um cavalheiro, a fazendo rir de novo.
Elano escolheu algumas roupas, todas com o estilo totalmente diferente de Fabinho, e experimentou, enquanto Giane aguardava do lado de fora dos provadores. Ele saiu de jeans e uma polo azul marinho, porque ela tinha detestado a branca.
– E essa tá boa?
– Nossa, finalmente uma coisa que ficou boa em você.
– Valeu, hein. – ele fez um joinha pra ela.
– Larga de drama, e vamos logo. Fabinho já me ligou três vezes para voltarmos pra casa.
– Vamos.
Ele pegou todas as sacolas, e foi voltando pra casa com ela.
– Cara, eu... sinto muito pelo que aconteceu e tudo.
– Tá de boa. – ele disse, com um sorriso torto.
– Não tem nada a ver você falando assim. E a dor de cabeça?
– Ainda tá um pouco, mas melhorou.
Giane antes de entrar na casa de Fabinho, parou Elano na porta.
– Tenha paciência com o Fabinho, ele nunca teve um irmão. E sei que é tudo muito recente e estranho, mas acho que vocês merecem uma chance.
– Tá.
– E espero que você fique bem mesmo.
Após dizer isso, ela entrou na casa de encontro com o noivo.
Elano já tinha terminado de arrumar as coisas, deixou tudo, até as roupas que comprou com ela, menos a azul marinho, a dobrou e colocou na mala quase vazia. Deixou um bilhete para Fabinho encima do notebook e um para Margot na cozinha. Abriu a porta silenciosamente e deu uma última olhada para tudo.
Mandou uma sms para irmã: “Estou voltando.” Carregou a mala até a calçada e observou a rua deserta, serenava aquela hora da madrugada, não sabia se despedia dela ou não. Foi até a casa de Giane, forçou o portão que abriu sem ruído, foi até a porta, e imitou a batida dela e Fabinho, sabia que ela iria vir correndo abrir. Mas demorou, ele bateu de novo, e uma Giane de pijama largo de desenho abriu a porta, o cabelo desgrenhado, o rosto inchado de sono, demorou alguns segundos para perceber que ele não era o Fabinho.
– Elano! Que foi? Aconteceu alguma coisa? – ela olhou pra ele de cima abaixo, e olhou pra mala que ele segurava.
– Eu vou embora. Só vim me despedir, distinta madame. – ele deu um sorriso torto.
Giane percebeu o quanto ele estava esquisito, mas não queria se meter, ficou na dela, percebeu o quanto ele estava mal, mas pensou que ia passar, sei lá. Observou o quanto estava magro e seus olhos fundos, meio apagados.
– Você vai pra onde?
– Pra casa, não posso mais fugir da realidade.
– Cara, mas você... Você não tá bem, não.
Ele sentiu aquele peso no meio do peito de novo, começou a lembrar de Cida de novo, olhou pra Giane e os olhos dela o lembravam daqueles doces olhos. Ele balançou a cabeça negativamente, confirmando o que ela dizia, aquela dor no peito parecia aquela que sentiu quando acordou do acidente, como se estivesse sem ar. Mas agora, tinha ar.
– Ah, cara, Elano, não chora. – ele não tinha notado que tinha começado a chorar, quando sentiu o peso ir aliviando bem devagarzinho, mas não era quase nada. – Que droga, cara, não...
Giane se aproximou do rapaz, e o abraçou o mais forte que pode. Ela podia ser dura, às vezes, mas ver Elano daquela forma, naquelas condições, fez seu lado feminino e maternal florescer. Ele soltou o choro no peito, apoiando a cabeça no ombro dela.
Ela nunca queria sentir o que ele sentia, desejava nunca perder Fabinho, porque sabia que a dor que Elano sentia era real e forte. Por mais forte que fosse, não ia aguentar ficar um segundo sem o fraldinha, seu amor, nunca tinha sido esse sentimento por ninguém, e agora que sentia, entendia porque ele estava tão mal. O amor podia ser desolador.
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