We Love You, Olivia!
27 ღ CAPÍTULO 26
Notas iniciais
“O maior erro que você pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum.
— Elbert Hubbard
Uma semana passa rápido. Eu não vou à escola durante cinco dias consecutivos. É o meu maior recorde. Henry me trouxe toda a matéria passada durante esse período, o que me deixa em dia com todas as tarefas. No entanto, eu sei que terei de voltar algum dia — e esse dia é hoje. Não há como adiar mais, nem fugir. O dia em que terei de enfrentar os meus medos e dar de cara com Jaden e tantos outros colegas. Apesar de meus pais terem conversado com o diretor da escola, o culpado pelo vídeo maldoso ainda não foi encontrado (apesar de eu saber bem quem ele é), nem punido. Para piorar a situação, hoje é a apresentação do trabalho de literatura. Trabalho este que fiz com Bash, e não faço ideia de como ele vai reagir quando eu o ver novamente. Da última vez que nos vimos, Bash estava desapontado e mal falou comigo. É provável que ele ainda esteja com raiva, o que contribui para a minha agonia sem fim.
Acordo dos meu desvaneio ao perceber que estou parada na porta da Toronto South High School. Respiro fundo diversas vezes e troco um olhar rápido com Brownie e Rosie antes de decidir entrar. Pensar que nada pior do que aconteceu pode acontecer me ajuda a relaxar um pouco. Mas, ao sentir olhares sobre mim conforme caminho pelos corredores, sinto vontade de me esconder e toda a minha breve calma se dissipa. Meu estômago revira e meu coração dispara. Ninguém fala nada, entretanto. Apenas alguns cochichos, mas nada além disso. Nenhuma piada ou risadinha. Isso me deixa um pouco aliviada.
Nós três seguimos para os nossos armários, onde eu guardo alguns livros. Henry e Rosie fazem o mesmo. Quando fecho a porta, meus amigos me encara.
—Se tiver algum problema, basta me chamar. — Diz Henry.
—Obrigada, Brownie. — Dou um sorriso fraco.
—Vejo você depois. — Ele se despede antes de seguir para a sua aula.
— Não se preocupe. Eles não vão fazer nada. — Rosie me tranquiliza. — Até mais tarde. — Ela também vai para a aula. Eu faço o mesmo.
Ao chegar na sala do Sr. Phillips, percebo que Bash ainda não chegou. Alguns alunos ocupam algumas carteiras e eu percebo que Jaden está nos fundos. Eu evito encará-lo mas ele faz questão de me lançar uma risada maldosa, sendo acompanhado de seus dois seguidores fiéis. Eu o ignoro, torcendo em meu interior para que o teto caia em sua cabeça. Eu não deveria desejar isso diante do conhecimento de que tudo que vai volta. No entanto, esse sentimento é bem mais forte que eu e eu sou até mesmo capaz de imaginar a cena em minha mente.
Tomo meu lugar na frente, tirando o trabalho da bolsa. Minhas entranhas se agitam só de pensar da possibilidade de uma apresentação sozinha.
—Ah, Bash. Cadê você? — Murmuro baixinho.
O professor não demora a chegar. Ele apoia suas coisas na mesa e pede que a primeira dupla inicie as apresentações. Não paro de olhar para a porta, na expectativa de que Bash apareça. Balanço minhas pernas por causa do nervosismo e a segunda dupla vai para frente da sala. Os dois alunos começam a falar, mas eu mal consigo prestar a atenção. Bash não virá! Ele vai me deixar sozinha.
Os minutos passam e nada da minha dupla aparecer. Minha tensão só aumenta e parece que vou desmaiar. Quando o professor anuncia que é a minha vez, meu coração falha.
— Não pode esperar só mais um pouquinho? — Eu quase imploro. O sr. Phillips olha o relógio de pulso, estreitando os lábios.
— Acho que alunos não devem ter privilégios. — Diz Jaden em alto e bom som. Ele tem um sorriso maldoso nos lábios, como um bicho papão. — Não pode deixar uma dupla ter mais tempo, Sr. Phillips. Seria injusto com os outros alunos. — O olhar do sr. Phillips passa de Jaden para mim.
—Sinto muito. — Diz penalizado. — Srta. Carter, se não apresentar seu trabalho agora, serei obrigado a deixá-la sem nota. — Adverte cautelosamente.
Engulo seco. Não posso ficar sem nota. Prejudicaria o meu futuro e uma possível admissão na universidade. Todo o meu esforço iria para o lixo. Meu coração martela ainda mais forte contra o meu peito. Eu me levanto da cadeira, indo para a frente da sala. Eu mal consigo encarar meus colegas. E agora, eu tenho que encarar um dos meus maiores medos — falar em público. Algo que eu sempre escapei durante toda a minha vida. No entanto, se tem uma lição que eu aprendi é que não adianta tentar fugir. Uma hora ou outra você terá de enfrentá-los. Porque a vida real é dura, e super-heróis não existem para poderem te salvar de situações como essa. E como eu queria que existissem. Mas neste caso, nem mesmo o meu azar será capaz de me salvar. Não há príncipe encantado chegando num cavalo branco. Estou por conta própria e preciso ir até o fim.
— Srta. Carter, pode começar. — Me encoraja o sr. Philips. Se ele imaginasse o quanto estou em pânico por dentro.
Olho para os meus colegas de classe, sentindo a bile de meu estômago. Tantos olhares sobre mim. Jaden cruza os braços, se divertindo. Coragem, Liv!
—O meu trabalho é sobre… — Eu quase gaguejo. Minhas mãos estão tão trêmulas que as escondo nos bolsos da minha calça. — Bullying nas escolas. — Começo.
O primeiro tópico é sobre estatísticas. Eu explico ao máximo que posso sobre números e porcentagens. Minha mente vaga para longe dali. Mais precisamente nas coisas que já passei. Tantas humilhações me deixaram uma pessoa traumatizada e amedrontada. Presa e incapaz de ser quem eu sou de verdade. Diante de mim, meus colegas apenas ouvem o que falo em silêncio. Então, o tópico acaba. Mas isso tudo não é só sobre números, eu sei bem. É muito mais que isso. É sobre sentimentos.
—Na verdade — Digo baixo. — acredito que esses números sejam irrelevantes. — Acrescento, sem saber que rumo estou tomando. — O que é realmente importante é o quanto "brincadeiras" podem deixar marcas irreparáveis. — Minha garganta aperta. — O bullying machuca… — Hesito. Meus olhos param em Jaden. Sua expressão é indecifrável. — E se tem algo que eu entendi, é que não há razão para receber esse tipo de agressão. — Jaden sustenta o olhar e eu faço o mesmo. — Pessoas que fazem isso são apenas opressores que gostam de oprimir quem consideram mais fracos. — Pauso. Jaden trinca o maxilar. — Mas vítimas não têm culpa. — Suspiro. — Porque ser quem você é não dá o direito de ninguém se divertir às suas custas. As pessoas não diferentes e não há nada de errado nisso. — Suspiro. Então, uma luz clareia a minha mente. Nunca foi culpa minha. Isso me deixa leve ao mesmo tempo que eu quero chorar.
Eu mal termino a minha fala para alguém aparecer na sala, apressado. É Bash. Sinto uma ponta de felicidade repentina ao ver seu rosto. Efeito da paixão. Bash está o mesmo de sempre. Ele entra pela porta de trás, esbaforido e chamando a atenção de todos. Seus cabelos caem em seu rosto, desgrenhado e charmoso.
—Mil desculpas, Sr. Phillips. — Pede enquanto toma seu lugar ao meu lado. — Tive um problema em casa. — O professor não diz nada. — Desculpa. — Diz baixinho para mim.
Bash continua a apresentação de onde eu parei e eu mal consigo encará-lo. Assim, a apresentação se encerra e o sinal bate. Os alunos deixam a sala e eu também. Bash fica na sala, falando algo com o professor. Eu decido esperá-lo do lado de fora. Tento me preparar para dizer algo, mas não sei como será sua reação. Preciso explicar que nunca houve nada entre o Noah e eu. Tenho que conseguir dizer que estou apaixonada por Bash.
—Liv! — Uma voz em minhas costas me assusta. Noah está sorrindo para mim. — Até que enfim você apareceu! Eu fiquei preocupado. — Diz sincero. — Você está bem?
—Sim. — Respondo por fim. — Obrigada, Noah. — Ele dá de ombros.
—Tenho que ir para o treino agora. — Comenta. — Falo com você depois. — Noah deposita um beijo carinhoso em minha bochecha antes de ir embora.
Quando olho para o lado, vejo que Bash tinha acabado de sair no momento do beijo. Ele desvia o olhar. O mesmo olhar desapontado.
—Liv. — Cumprimenta baixo.
—Não é o que você está pensando. — Repito a frase clichê que nunca achei que fosse dizer algum dia.
— Eu não tenho que pensar nada. — Dá de ombros. Dou um longo suspiro. Ele nunca vai me perdoar. — Sinto muito pelo que aconteceu aquele dia. — Diz baixo. Seu olhar é tranquilo e sincero. — Espero que encontre quem fez o vídeo. — Apenas assinto. — Tenho que ir. Vejo você depois. — Ele dá um aceno seco antes de virar as costas.
—Bash, espera! — Vou atrás dele. — Por favor. — Ele para e finalmente me encara. — Preciso que você acredite em mim. Eu nunca tive nada com o Noah. — Conto.
—Então, por que saía com ele? — Franze o cenho. — Claro! Isso não é da minha conta! — Completa friamente.
— Foi a roda do amor. — Explico rápido. — Eu estava desesperada para ter minha vida normal de volta, então a Rosie teve a ideia de que se eu saísse com o Noah, o ponteiro giraria. Mas eu só fiz isso para fazer a roda girar… — Eu nem respiro enquanto falo.
—Então é isso? — Pergunta sério demais e solta uma risada sem humor. — Ia me usar para isso como fez com o Noah? — Arregalo os olhos, em choque.
— Não! Eu não faria isso!
— Você acabou de dizer que fez isso com o Noah. — Arqueia uma sobrancelha. Sua respiração está pesada, agitado. — E se eu me lembro bem, você não queria que eu estivesse apaixonado por você! Você ia me usar para isso! — Conclui, amargo.
— Não! — Rebato. — É diferente! — Ele para.
— Por que é diferente? — Pergunta mais baixo. — Você tem algo para me dizer? — Seus olhos se enchem de esperança. — Tem? — Insiste cautelosamente. — Liv?
Abro a boca diversas vezes sem saber o que dizer. A verdade é que eu sei bem o que eu quero dizer. Mas, eu travo completamente. Toda a minha coragem vai embora. Não consigo expressar meus sentimentos em voz alta. Mais um sinal bate e diversos alunos passam por nós de uma vez só. Bash espera pela minha resposta até que a esperança em seus olhos morre diante dos meus.
— Eu já entendi. — Diz frio e distante. — A gente se vê. — Ele vai embora sem ouvir de mim que é dele que eu gosto. Meu coração se parte ainda mais.
—Porque estou apaixonada por você. — Digo baixinho. Mas já é tarde demais. Bash foi embora. E eu sou uma tola.
Fale com o autor