We Love You, Olivia!
28 ღ CAPÍTULO 27
Notas iniciais
"Tome atitudes na vida, ou a vida correrá em lhe tomar."
—Roberto Balata
— Eu sou tão idiota! — Resmungo.
— Não repita isso, Olivia! — Repreende minha mãe, séria. Ela acaricia meus cabelos, brincando com algumas mexas enquanto eu me aninho um pouco mais em seu colo. Minha mãe se recosta na cabeceira da minha cama, esticando a coluna. É um milagre que ela esteja em casa assim tão cedo. — Você não é idiota!
— Mas eu não consegui falar a verdade para o Bash. — Murmuro. Eu acabei de desabafar tudo o que aconteceu com a minha mãe. Pela primeira vez, consegui colocar tudo para fora. Tenho que admitir que me sinto um pouco mais leve depois disso. Ela suspira.
— Nem todos nós somos bons com palavras faladas. — Seu tom é tranquilo e maternal. — Algumas pessoas são mais extrovertidas e conseguem expressar melhor seus sentimentos em voz alta. — Suspira. — É normal. Somos todos diferentes. — Solto um suspiro, desanimada.
— Você também era assim? — Me viro para ver seu rosto. Seus cabelos cacheados estão presos num coque mal feito e seus olhos verdes têm um contraste perfeito com sua pele morena.
— Não. — Suspira. — Eu sempre fui mais extrovertida. — Conta, esboçando um sorriso. — Acho que você herdou isso do seu pai. Ele também tinha problemas para se comunicar quando era mais jovem.
Encaro o teto do meu quarto, sem saber o que fazer.
— Mas, se você não boa falando, por que não tenta escrever o que sente?
Eu me sento na cama rapidamente, franzindo o cenho.
— Escrever?
— Sim. — Minha mãe dá de ombros. — Escreva o que está sentindo. — Sorri. Franzo a testa. Talvez seja uma boa ideia, afinal. — Bem — Ela se levanta da minha cama. — Vou deixar você sozinha. — Minha mãe beija a minha testa e deixa o meu quarto, fechando a porta.
Escrever o que eu sinto? Será possível? Eu pego um caderno e uma caneta. Respiro fundo e, na primeira folha em branco, começo com um “Querido Bash”. Tento pensar em como me sinto quando estou perto dele. De como eu descobri que isso me faz bem e de como estou apaixonada por ele (por mais difícil de admitir que isso seja). Tento pensar o quanto neguei esse sentimento no início e o quanto me sinto mal por saber que ele está apenas enfeitiçado por um objeto mágico. No início, isso é tão difícil quanto falar. Depois de alguns minutos, entretanto, tenho uma página inteira de palavras e frases. Eu leio e releio algumas vezes, segurando o papel firmemente entre os meus dedos. O cordão em meu pescoço pesa como uma âncora enquanto eu leio. Faltam apenas dois pontos para que tudo volte ao normal. Minha garganta se aperta. Nunca foi real. Sempre foi por causa de um colar. Eu sabia que isso aconteceria, de um jeito ou de outro. Bash está desapontado agora, mas em pouco tempo, não vai mais gostar de mim do mesmo jeito. Solto um suspiro. Então, ignorando todos os meus sentimentos, eu simplesmente deixo a carta que escrevi de lado. Ela nunca será entregue. Bash nunca saberá a verdade e logo se esquecerá de mim de uma vez por todas. Mesmo que isso me machuque ainda mais.
Interrompendo meus pensamentos, alguém bate na porta do meu quarto. Pela forma da batida eu sei que é Henry. Deixo a carta dobrada em cima da escrivaninha e abro a porta. Meu amigo já está com os braços cruzados, impaciente.
— O que foi, Brownie?
Ele bate o dedo indicador em seu pulso, como um sinal para ver a hora.
— Como você pode ter esquecido? — Pergunta abismado. — Está na hora da maratona de “How I Met Your Mother”! — Franzo a testa.
— Como eu pude me esquecer disso? — Entro na brincadeira. Ele leva uma mão à cintura.
— Vamos logo!
Eu o sigo, soltando uma risada. Só mesmo Henry para me fazer rir numa hora dessas.
ஐﻬﻬஐ
Eu tenho uma surpresa pela manhã. Assim que acordo, sinto que algo mudou. À princípio, eu não identifico o que é. No entanto, quando sinto o colar pesar no meu pescoço, eu o encaro de imediato. Solto um gritinho silencioso, pulando da cama com tanta rapidez que fico tonta. Passo a mão no rosto, repetindo “não” tantas vezes que penso que devo ter entrado em colapso. Acabou. É o fim. O ponteiro da roda do amor finalmente voltou à sua posição inicial. Eu sabia que aconteceria. Só não esperava que fosse acontecer tão rápido. A ironia é que isso foi o que eu mais desejei desde que ganhei essa coisa de presente — que tudo voltasse ao normal. No entanto, agora, eu queria que isso não tivesse acontecido tão rápido. Queria ter podido ter uma última chance com o Bash. Queria que ele tivesse me perdoado. Mas, talvez tenha sido melhor assim. Seria muito mais frustrante declarar todos os meus sentimentos para ele e agora perceber que não é recíproco.
Eu confiro a hora no relógio e vejo que já estou quase atrasada para a escola. Eu me arrumo rapidamente e mal tenho tempo de tomar café da manhã. Pego carona com Henry e, felizmente, chegamos no horário. Nós seguimos para as nossas aulas. A primeira aula é de literatura. Para a minha surpresa, meu trabalho e o do Bash nos rendeu a nota máxima. A minha dupla, entretanto, não apareceu na aula. Durante todo o período, não vejo Bash. Eu queria tê-lo visto, o que faz de mim praticamente uma masoquista. Sei que, certamente, tudo voltou a ser como antes. Isso me deixa com um certo vazio, impossível de ser reparado.
A hora do almoço chega e eu sigo pelos corredores em direção ao refeitório. Quando estou no meio do caminho, entretanto, encontro com Noah. Ele sorri para mim, mas parece diferente. É óbvio! A roda do amor funcionou para ele.
— Liv! — Diz surpreso. Sorrio de volta, não tendo certeza de como agir.
—Err… Como está se sentindo? — Pergunto cautelosamente. — Tudo voltou ao normal? — Noah esboça um sorriso, calmo.
—Tudo parece fazer sentido agora. — Responde por fim. — Parece que uma luz se acendeu em minha mente durante a noite e eu me lembrei de tudo. — Suspira. — Isso tudo é tão louco!
—Fico feliz que tudo tenha voltado ao normal.
Ele dá de ombros.
—Sabe — Diz casualmente. — foi legal estar apaixonado por você. — Ele parece sincero. — Você é uma garota legal, Liv. — Dou um sorriso tímido. — Mas, se me der licença — Ele olha por cima do meu ombro e percebo que Rosie está nos observando de longe, cheia de curiosidade. — tenho que me reconciliar com alguém. — Sussurra.
—Boa sorte. — Respondo no mesmo tom. Ele solta uma risada.
—Obrigado. — Sorri e me lança uma piscadela. Ele se despede antes de correr até a Rosie e puxá-la para um abraço. Ela retribui, feliz. Contenho um sorriso. Tudo está onde deveria estar.
ஐﻬﻬஐ
O cheiro de chocolate preenche todo o ambiente. Passo a colher na panela, pegando uma boa porção de brigadeiro. Minha mãe me ensinou a fazer o doce brasileiro quando eu era mais nova. Como boa brasileira, ela não poderia deixar de apresentar a mim e ao meu pai essa explosão doce. Eu mal espero esfriar na colher para levar o brigadeiro à boca. Nada melhor do que uma boa quantidade de doce para afogar as mágoas. Me enrolo nas cobertas, deitada no sofá da minha casa, e aperto o play para escolher qualquer filme da Netflix que me afunde ainda mais em minhas desilusões amorosas. Nunca pensei que esse tipo de coisa pudesse acontecer comigo algum dia — sofrer por paixão. No entanto, parece que o destino resolveu me fazer pagar com a língua.
A chuva cai forte do lado de fora. O céu parece estar despencando e o barulho da água batendo no chão é alto. Já escureceu, mas nem meu pai, nem minha mãe chegaram ainda. Meu pijama azul de Star Wars e minhas pantufas em formato de pé de urso fazem parte do meu kit fundo do poço. No meu pescoço, o colar parece me lembrar o tempo inteiro de tudo o que aconteceu. Respiro fundo, tentando não pensar. Falho miseravelmente.
Duas batidas na porta me fazem pular. Resmungando por ter de sair de baixo das cobertas, eu me levanto e abro a porta. Henry entra antes mesmo que eu consiga dizer "oi". Seus cabelos estão úmidos e ele está agitado.
—Chega, Olivia! — Diz sério. — Não vou deixar você continuar nessa enrolação!
— Do que está falando? — Franzo o cenho.
—Estou falando do Bash, lerdeza! — Ele quase grita. — Você vai deixar ele ir embora? Não vai fazer nada?
—Como assim?
— Eu o vi saindo com a família cheio de malas hoje. — Sua afirmação me acerta como um tapa. — É provável que ele esteja indo embora. — Cruza os braços. Meu coração falha. Não pode ser. Por que Bash iria embora? A não ser por seu pai que mora em outro estado…
—Ah, não.
Henry bufa.
—E o que você vai fazer, hein? — Pergunta impaciente.
—Nada. — Suspiro baixinho. — Tudo voltou ao normal e a essa altura, ele não gosta mais de mim. — Brownie revira os olhos.
—Não pode deixar isso acontecer! — Responde sério. — Não vou deixar você fazer isso! — Henry segura as minhas pernas e me joga em seu ombro como se eu fosse uma boneca de pano. Solto um gritinho agudo.
— Henry, não! — Protesto, batendo em suas costas e desferido alguns socos. Henry ignora os meus gritos e me leva para o lado de fora, onde a chuva nos deixa encharcados. — Henry, me solte! — Tento chutar suas costelas, mas as malditas pantufas são fofas demais e não o incomodam. — Henry!
Ele finalmente me larga no chão. Quando tento correr para dentro de casa novamente, ele bloqueia minha passagem.
—Não pode me impedir de entrar na minha própria casa! — Esbravejo irritada. A chuva cai, me deixando ensopada.
—Sim, eu posso! — Cruza os braços, como uma barreira impenetrável na frente da porta.
—Não!
—Sim! — Grita. — Não vou deixar você continuar fazendo isso com você mesma!
— Você não tem o direito, Henry Dylan Brown! — Rebato, aos berros.
—Se você não for atrás do Bash agora, vai se arrepender para o resto da vida! — Rebate. — E eu sou seu melhor amigo. E que merda! — Xinga. — Eu vou ter que te aturar resmungando por isso pelo resto da vida! — Grita. Fecho a cara.
—Não me ature, então! — Grito.
—Pelos céus! — Esbraveja. — Faça uma coisa por você pelo menos uma vez na vida! — Fico quieta, quase em choque pelas palavras duras. — A vida é curta demais, Liv. — Sua voz quase some no barulho da chuva. — Nunca se sabe quando ela pode acabar. — Seu rosto ganha uma expressão triste. — A minha mãe, por exemplo. Num dia, era jovem e saudável. Em poucos meses ela mal podia sair da cama sozinha. — Henry parece amargurado. Engulo seco. — Vai! — Grita. — Faça alguma coisa, Olivia!
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