We Love You, Olivia!
9 ღ CAPÍTULO 08
Notas iniciais
“Continue a nadar. Continue a nadar.”
— Dory
Rosie teve uma ideia que, segundo palavras dela, não tem como dar errado. Ela marcou um encontro duplo entre nós quatro — Ela, eu, Noah e Bash. Não sei como ela conseguiu convencer os dois a isso, mas também não entrei em detalhes. Às vezes, é melhor não saber das coisas. Rosie acredita que, se sairmos todos juntos, Noah perceberá que não é de mim que ele gosta e que o ponteiro da roda do amor vai girar. Um pouco otimista demais, mas, não posso negar isso a ela. Rosie está apaixonada por Noah, e, ele também estaria por ela se isso tudo não tivesse acontecido. Eu não posso evitar de me sentir culpada. Como uma bruxa má separando almas gêmeas.
Não consigo me imaginar num encontro com nenhum dos dois, e, para falar a verdade, eu nunca estive num encontro com ninguém. Dou um suspiro fraco. Com a minha sorte incrível, a probabilidade desse encontro ser um desastre é bem maior do que deveria.
Normalmente, aos sábados, eu faço todos os meus deveres de casa e passo o resto do dia assistindo séries ou lendo. Hoje, no entanto, tenho que preparar alguma coisa para me vestir.
Escuto alguém bater na porta e abro. É Henry. Ele entra rápido em casa, parecendo agitado.
—Vamos às compras! — Ele diz eufórico, indo direto para a cozinha. É sempre assim. Brownie é praticamente da família e não hesita em sair pela casa como se morasse aqui. Eu o sigo, em passos apressados. — Preciso comprar alguma coisa. — Franzo o cenho. Ele não parece nada bem.
—Você não precisa comprar, Brownie. — Respondo calmamente. — Você já tem tudo. — Ele nega e pega uma maçã na bancada.
— Eu preciso comprar. Quero comprar um shopping.
—Brownie, você não pode comprar um shopping.
Henry franze o cenho, indignado.
— Claro que posso! Eu sou rico. — Dá de ombros. — Quero dizer, meu pai é rico. — Suspira.
Não. Henry definitivamente não está em seu estado normal. Alguma coisa aconteceu. Ele sempre fica assim quando está nervoso com algo. Principalmente quando se trata de sua mãe.
— Aconteceu alguma coisa, não é? — Pergunto baixo. Ele morde mais um pedaço da maçã, evitando me encarar. — Henry… — Insisto. Ele solta um longo suspiro.
— Hoje é dia de consulta, Liv. O médico está lá em casa para examiná-la.
— E você não deveria estar lá?
Ele balança a cabeça negativamente.
— Pra que? — Pergunta impaciente. — Para ouvir ele dizer uma dúzia de mentiras. Quando na verdade, minha mãe mal me reconhece.
— Sinto muito. — Dou um sorriso fraco. Ele respira fundo.
— Não quero falar sobre isso, Olivia. — Responde baixo. — Precisamos sair para comprar alguma coisa. — Ele força um sorriso. Odeio vê-lo assim. É de partir o coração. — Estou com o cartão do meu pai. Sem limites.
— Você tem tudo. Não precisa de mais nada.
Ele bufa e logo depois me encara.
— Podemos comprar para você! — Sorri. — Você tem um encontro hoje, não é? Pois então. Vamos comprar algum vestido ou sei lá... Podemos comprar coisas para os outros. Para a caridade… Qualquer coisa.
— Henry…
— Por favor! — Implora. Cruzo os braços.
— Você deveria conversar com o meu pai. Ele pode te ajudar.
— Ah, não comece de novo, por favor. Não preciso de terapia, eu estou bem.
— Não é o que parece. — Rebato. Ele revira os olhos.
— Por favor? — Ele junta as mãos no queixo, suplicante. Dou um suspiro, vencida.
— Tudo bem. Mas não vamos demorar. — Ele dá um sorriso.
ஐﻬﻬஐ
Henry e eu passamos quase o resto da manhã inteira em um shopping. Pelos menos, consegui convencê-lo a não comprar mais coisas sem utilidade — como uma canoa, uma espada ninja e uma prancha de surf. Para que alguém quer uma prancha de surf se não sabe nem mesmo nadar? Brownie protestou algumas vezes, mas, acabou se convencendo que era melhor não comprar mais nada. Mas, não consegui pará-lo na loja de roupas e, por muito pouco, não tive que renovar o meu guarda-roupa também. Eu sei que não devia acompanhar Henry em algo assim. No entanto, não consigo vê-lo triste, e, se essa é a única forma de fazer ele um pouco menos chateado, não posso impedi-lo.
Chego em casa e confiro a hora. Está na hora de me arrumar para o encontro duplo. Solto alguns resmungos antes de entrar no chuveiro. Visto calças jeans e botas pretas. Deixo o cabelo solto do jeito que está. Olho a hora. São 4:45 p.m. O encontro duplo está marcado para às 5 p.m. Respiro fundo mais algumas vezes e saio em direção ao boliche. O lugar não é muito longe da minha casa, então, eu vou à pé.
Chego no boliche às cinco em ponto e já encontro os três no lugar. Noah está largado, sentado à uma das mesas e Bash está braços cruzados, com uma carranca, parecendo uma criança contrariada. Penso em dar meia volta e fugir para casa, mas já é tarde, porque Rosie já me viu e está acenando. Noah dá um sorriso surpreso quando me vê e Bash franze o cenho, confuso. Pelo visto, Rosie não disse a nenhum dos dois que se trata de um encontro. Me aproximo da mesa onde eles estão vagarosamente, e na minha mente, imagino trezentas formas diferentes de fingir uma morte súbita. Fracasso em todas as minhas ideias, entretanto. Sou péssima atriz de qualquer jeito.
— Oi. — É só o que consigo dizer. Bash semicerra os olhos e balança a cabeça discretamente, mordendo o lábio inferior. Ele já percebeu do que se trata. Noah, no entanto, parece achar que isso é uma coincidência maravilhosa. Talvez, ele seja um pouquinho mais tapado do que eu esperava. Mas, ao encará-lo demais quase perco o rumo. Um tapado bonito demais para a minha sanidade. Quase suspiro.
— Liv. Que bom que veio. — Rosie dá um sorriso largo. Ela está sentada ao lado de Noah e faz um sinal para que eu me sente ao lado de Bash. Não. Eu não acredito que ela está realmente fazendo isso de novo. Lanço-lhe um olhar fulminante como resposta e Rosie esboça um sorriso sem graça, quase pedindo desculpas. Respiro fundo e me sento ao lado de Bash, de frente para os dois. Um minuto de silêncio constrangedor toma conta da mesa e Rosie pigarreia.
— Que tal jogarmos boliche? — Sugere. Noah me encara.
— Eu posso te ajudar se quiser. — Ele sorri. Bash contém uma risadinha debochada do meu lado e murmura algo como “mas que idiota”. Dou uma cotovelada discreta em suas costelas e ele resmunga.
— O que foi que disse? — Noah encara Bash, sério.
— Nada não. — Ele dá de ombros, ainda sorrindo. Noah não é do tipo valentão, mas Bash certamente não quer entrar numa briga com ele. Noah parece bem mais forte, e, por mais que não ganhasse, sem dúvidas, faria um belo estrago. — Não vai jogar boliche, Liv? — Ele olha para mim com um sorrisinho malicioso.
Engulo seco, lembrando-me da última vez que joguei boliche e escorreguei por toda a pista, batendo de cara nos pinos. Espanto as lembranças. Jogar boliche não é uma boa ideia.
—Acho que vou pedir algo para comer primeiro. — Respondo por fim. Rosie sorri, animada.
— Isso! Vamos pedir algo para comermos!
Uma garçonete se aproxima e nós fazemos os pedidos. Eu peço um copo de chá gelado e uma porção de batatas fritas. Ela não demora a voltar com nossa comida, e nos serve rápido antes de desaparecer de nossas vistas.
O silêncio prevalece em nossa mesa de forma constrangedora. Rosie dá um pulo da cadeira quando seu celular toca. Ela pede licença e sai da mesa para atender, deixando nós três sozinhos. Mastigo uma batatinha lentamente. É difícil comer diante de dois pares de olhos me encarando. Principalmente para alguém que não está acostumada a ser o centro das atenções. Noah encara Bash como se quisesse empurrá-lo para fora da mesa, e, Bash parece não gostar muito da presença de Noah tampouco.
—A batata está sem sal! — Consigo comentar. Faço um gesto para pegar o saleiro, mas Noah e Bash o agarram primeiro. Ao mesmo tempo. Os dois se encaram de forma ameaçadora. Bash bufa. Sinto uma tensão no ar e tiro o saleiro da mão dos dois antes que uma briga comece. Uma briga por causa de mim. Parece até uma piada. — Obrigada. — Digo baixo. Rosie volta para a mesa e toma seu lugar de antes.
—Desculpa. Eu tive que atender. — Suspira. Noah a encara, sério.
—Rosie, por que me chamou aqui, afinal?
Ela abre a boca para responder, mas parece sem saber o que dizer.
— Você disse que tinha algo sério e importante para me falar! Mas, a Liv está aqui, e não acho que seja uma coincidência.
—Nossa, achei que não fosse perceber. — Bash murmura com um certo sarcasmo, enquanto bebe pouco de refrigerante. Noah o encara com uma carranca.
—E, esse garoto está aqui também. Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Pergunta impaciente.
— Você é burro ou o quê? — Bash solta uma risada. — A Rosie armou um encontro duplo. É você é o par dela. — Noah encara Rosie, que engole seco.
—Isso é verdade? — Rosie assente, envergonhada. Noah passa uma mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Eu só queria que você se lembrasse de como você gostava de mim. — Rosie responde quase desesperada. Lágrimas já brotam em seus olhos. Eu e Bash desviamos nossos olhares diante da situação constrangedora.
— Rosie, eu lhe disse que estou apaixonado pela Liv. — Responde tentando manter a calma. Sinto meu estômago revirar quando escuto meu nome. — Eu sinto muito. — Noah se levanta e simplesmente vai embora, deixando algumas notas em cima da mesa para a conta.
— Noah, espera! — Rosie de levanta rápido e sai correndo atrás dele. Os dois somem de nossas vistas.
Me encolho na cadeira. Um bolo se forma em minha garganta e eu já não consigo comer mais. Bash solta um suspiro fraco do meu lado. Eu só consigo sentir que isso é culpa minha. E do maldito colar!
— Eu vou embora. — Anuncio.
Me levanto e deixo o dinheiro para a conta. Saio em direção a porta sem olhar para trás. Eu nunca deveria ter aceitado aquele colar. Eu nunca deveria tê-lo girado. Meu coração pulsa fortemente. Mas, não é de alegria.
—Liv! — Ouço a voz de Bash mas eu não paro. Continuo seguindo em frente pela rua, em passos pesados e apressados. Sei que Bash está vindo atrás de mim. Ele não perde a mania de me seguir quando eu não quero. — Liv! — Eu o ignoro e sigo em frente, passando por dentro do parque, que não está muito movimentado hoje.
Continue a nadar. Continue a nadar. Eu me lembro das frases da Dory e quase rio. De desespero. Continuo seguindo em frente sem olhar para onde estou indo ou pisando. Aperto mais ainda os passos e a ponta da minha bota vai de encontro à algo duro. Uma pedra. É tudo que eu consigo ver antes de perder o equilíbrio e cair de cara no chão. Droga! Isso era tudo que eu precisava. Cair com a cara na grama, à centímetros de distância de uma árvore enorme.
— Meu Deus, Liv, você está bem? — Bash pergunta. Me viro, ainda no chão, e tenho que apertar os olhos para ver seu rosto contra a claridade.
— Claro! Tá tudo ótimo! — Respondo irônica. — Por culpa minha, a minha melhor amiga está sofrendo e eu enfiei a cara na grama porque sou uma vaca e eu adoro pastar! Nossa como eu amo comer grama! — Só depois de falar é que percebo o que eu disse. Dou um suspiro fraco. Bash, no entanto, está rindo. Com tanta vontade que tem que está com uma mão na barriga. — E, pare de rir, Sebastian! — Eu me sento, irritada.
—Você está com grama no cabelo. — Ele diz pausadamente, ainda entre risos. Solto um grunhido e passo as mãos pelas minhas madeixas emaranhadas, tirando os pedacinhos verdes. — Quer ajuda? — Ele oferece uma mão. Sou orgulhosa demais, e cruzo os braços, carrancuda. — Tudo bem, fica aí no chão então, estressadinha! — Reviro os olhos. Bash senta-se ao meu lado, fitando o nada. Ficamos um pouco em silêncio. — Por que disse que a culpa é sua? — Pergunta baixo.
—É culpa desse maldito colar! — Murmuro, apontando para o objeto em meu pescoço. Bash me encara, com um sorrisinho.
—Ainda com essa história de colar mágico? — Pergunta incrédulo. — Sabe que isso é loucura, né?
— Eu não queria que isso tudo tivesse acontecido. — Resmungo. — Acho que preferiria quando ninguém gostava de mim. — Admito. Bash arqueia uma sobrancelha.
—Olivia, você é uma medrosa! — Acusa. — Precisa levar a vida de forma mais leve. Deixar as coisas acontecerem.
— Não sei que o quer dizer.
—Sabe sim. — Ele me encara. — Você precisa relaxar um pouco mais. Veja como está nervosa. — Ele esboça um sorriso e abre os braços. — Você precisa de um abraço. — Balanço a cabeça negativamente. — Ah, vamos, Olivia, você não vai morrer se me der um abraço. — Sorri. Eu quase me arrasto para trás. — Vamos, eu não mordo!
Ele me puxa delicadamente pelos braços e eu não tenho tempo de me desvencilhar. Bash me envolve num abraço, me puxando contra ele de uma forma que tenho que apoiar minha cabeça em seu peito, sentindo sua respiração regular. Seu perfume é suave e lembra lavanda. Eu hesito, mas, logo retribuo o abraço vagarosamente, envolvendo sua cintura. Eu tenho que admitir que o abraço de Bash é bom. Muito bom, por sinal. É daquele tipo de abraço que nem é muito frouxo e nem sufocante. Seus braços envolvem meu corpo na proporção certa. É um abraço aconchegante e quentinho. Aos poucos, sinto meu coração se estabilizar e meu corpo relaxa por completo.
— Não é tão ruim, está vendo? — Escuto sua voz acima da minha cabeça. — Estamos num parque. Quer coisa mais romântica que essa? — Eu quase o solto mas ele ri. — Calma, Liv. Eu só estou brincando. Precisa aprender a levar as coisas na esportiva. — Sussurra.
— Você é irritante. — Minha voz sai baixa. Não consigo ver seu rosto, mas posso ter certeza que ele está sorrindo. — Mas, tenho que confessar que seu abraço é bom. — Suspiro. Bash acaricia minhas costas com uma das mãos.
— Ah, é?
—É! — Tento ser indiferente. — Até que não é ruim.
—E como ele é?
—É como comer biscoitos com chocolate quente num dia de inverno. — Paro de falar no mesmo instante. Quando me sinto relaxada, falo mais do que deveria.
—Foi o elogio mais atípico que já recebi. — Responde por fim. — Mas, eu gostei. — Sinto minhas bochechas esquentando. — Acho que essa foi a conversa mais longa que já tivemos desde que nos conhecemos. — Sussurra.
— É! Acho que sim! — Levanto o rosto para vê-lo. Bash esboça um sorriso, me encarando. Seu rosto está tão perto que eu sinto sua respiração quente e o meu coração acelera um pouco. Se um de nós nos movessemos apenas alguns centímetros, nossos rostos se tocariam e… — Eu tenho que ir! — Falo rápido, me soltando do abraço. Me levanto rapidamente e Bash faz o mesmo. Ele me olha com uma sobrancelha arqueada, visivelmente confuso. — Preciso ir! — Repito mais para mim mesma do que para ele.
— Tudo bem?
— Sim! Sim! — Digo rápido. — Eu preciso ir! — Dou de ombros. Ele franze o cenho e dá um sorrisinho malicioso.
— Seus pés estão grudados no chão? — Pergunta sarcástico. — Porque você já falou que precisa ir embora umas duzentas vezes, mas não se moveu nem um centímetro.
— Claro que não estão grudados! — Rebato áspera. — Eu já vou. — Quase gaguejo e dou as costas para ele, seguindo em frente sem olhar para trás. Não sei por qual motivo, mas minhas bochechas estão pegando fogo.
— Liv! — Ouço ele chamar e me viro. — A saída é para o outro lado. — Aponta com um sorriso nos lábios.
— Eu sabia que era. — Dou de ombros. Mas, eu não sabia não. Vou na direção contrária sem nem olhar para trás. Não foi nada. Repito para mim mesma. O Bash também não.
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