Notas iniciais
Olá! Obrigada QueciaC por comentar ♥ Vamos ao capítulo de hoje. Bjs *.*

Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”

— William Shakespeare

Eu nunca me apaixonei. Quero dizer, tirando o Noah, o Bash e uma porção considerável de personagens fictícios, eu nunca me apaixonei de verdade. Sabe, aquela sensação descrita nos livros, o frio na barriga ao tocar as mãos, a vontade de estar sempre com a pessoa. Tudo que eu sempre senti foi platônico e eu nunca vivi um amor. Ninguém nunca se interessou por mim. Mas, eu também tenho um pouco de culpa nisso. Sempre preferi focar em outras atividades e nunca me importei realmente para esse tipo de coisa. Eu não sou uma pessoa muito romântica e sou até um pouco seca às vezes. O problema é que a quantidade de filmes clichês de comédia romântica nos faz querer viver algo parecido de vez em quando. Mas isso não vai rolar para mim. Até porque, é bem mais fácil se apaixonar por personagens não reais, como Maxon Schreave do que por alguém real. Apesar disso tudo, aquilo do Noah me pegou de surpresa. E, eu confesso que fiquei um tantinho triste. Isso me faz me sentir confusa. Mais do que o normal. E, eu não gosto nem um pouco disso.

Me jogo com tudo na cama e enfio meu rosto no travesseiro. Eu acabei de chegar em casa. Sinto meu celular vibrar e o pego com bastante preguiça. É uma mensagem de Henry.

“Olha na janela” , a mensagem diz. Eu me aproximo. Da janela do meu quarto, eu tenho visão do quarto de Brownie. Eu o observo. Ele levanta dois cabides, um com uma camisa azul, outro com uma camisa branca. Sinto meu celular vibrar de novo.

“Qual das duas?”

A branca realça seus olhos” , envio.

Foi o que eu pensei” , mais uma mensagem. Envio uma carinha com sorriso como resposta.

“Hey, Liv, você está bem?”

Ele não espera uma resposta.

“Estou indo aí”

Me jogo na cama de novo. Não demora nem um minuto para alguém tocar a campainha. Conto mentalmente 30 segundos. Esse é o tempo dele falar com o meu pai. Eu consigo até imaginar “Oi, tio Paul, posso falar com a Liv?” . “Claro. Pode subir”.

Cinco. Quatro. Três. Dois. Um.

—Cheguei! — Ele aparece na porta do meu quarto e entra.

— Oi, Brownie.

— Está bem, eu te conheço. — Ele praticamente se joga no chão, deitando-se. — Desembucha!

— Não aconteceu nada, Brownie. — Ele me encara, nem um pouco convencido.

—Que curioso. — Ele morde o lábio inferior. — Porque eu ouvi na escola hoje que o Noah está afim da Rosie. E isso não te afeta em nada? — Arqueia uma sobrancelha.

— Claro que não! — Blefo. Ele semicerra os olhos. — Talvez um pouquinho. — Confesso.

—Ah, Liv. — Suspira. — Por que não falou isso para a Rosie?

—Porque eu não sou uma bruxa má. Quero que os dois sejam felizes. Mas, isso não me impede de ficar um pouquinho triste, né?

Ele estala a língua.

— Não mesmo.

—Mas eu não vou ficar sofrendo, não se preocupe. Foi só um choque.

—Mas é claro! Porque homem nenhum merece que você sofra por ele. — Sorri. Eu solto uma risada.

— Você não existe, Brownie.

— Eu tive uma ideia. — Ele se levanta. — Vamos à festa da Jess. Você vai distrair a cabeça.

—Ah, não! — Resmungo. — Eu não gosto de festas, você sabe.

— Eu sei. — Ele tenta me puxar pelos pés. — Mas eu quero ir. Só que se eu for e deixar você aqui, com essa cara de gelatina derretida, eu vou me sentir um péssimo amigo. — Ele faz força para me tirar da cama e eu me seguro na cabeceira. — Por favor, Liv. — Ele faz manha e me solta. Eu me sento. — Vamos, por favor. Vai ter comida de graça.

—Quem ouve assim pensa até que você não tem comida em casa.

— Eu tenho. Mas, por que comer a minha, se eu posso comer a dos outros, de graça?

Reviro os olhos.

— Não posso. Meu pai não deixa. — Minto. Ele semicerra os olhos, desconfiado.

—TIO PAUL! — Ele sai do meu quarto gritando. Droga! Vou atrás dele, correndo. — Tio Paul!

—O que foi, Henry? — Meu pai aparece.

—A Liv pode ir numa festa comigo hoje a noite?

— Claro! — Meu pai sorri. Henry me lança um olhar de “Eu venci”.

— Não pai, eu não posso.

—Pode sim. — Meu pai responde tranquilo. — Eu queria mesmo um tempo para sua mãe e eu. Na verdade, estamos esperando por esse momento a 17 anos. — Ele brinca. Henry solta uma risada.

Cruzo os braços, inconformada.

—Pai, outros pais não deixariam suas filhas saírem com um garoto assim tão fácil! — Protesto.

—O Henry? — Meu pai ri. — Eu o conheço praticamente desde que foi concebido. Não tenho problemas quanto a isso. Você me conhece. Que espécie de psicanalista eu seria?

—Viu, Liv? Você vai a festa. — Henry responde, vitorioso.

ஐﻬﻬஐ

Termino de ajeitar o vestido no meu corpo. Ele tem a cor rosê e é bem marcado na cintura. Calço saltos. Eu estou indo a uma festa. Estou muito nervosa. Não gosto de festas. Mantenha a calma, Olivia. Henry chega às sete em ponto para me buscar. Ele está vestindo uma calça de linho azul e uma camisa social branca, com as mangas puxadas até o antebraço. Nós vamos no carro dele e não demoramos a chegar na casa da Jessica.

—Vai você. Eu não vou. — Falo assim que estacionamos.

—Liv, por favor. — Implora. — Você já está aqui.

— Você é muito insistente! — Reviro os olhos e ele esboça um sorriso. — Eu não acredito que vai me fazer entrar de penetra numa festa! Da Jessica ainda por cima! — Saio do carro, mal-humorada. Ele vem atrás de mim.

— Vamos? — Ele estende o braço para mim. Assinto com a cabeça.

A casa da Jessica é enorme e moderna, com portas de vidros e uma piscina enorme logo na entrada. Nós entramos direto. Há uma música eletrônica alta e o lugar já está cheio de gente, luzes coloridas piscando. Eu só consigo pensar onde estão os pais da Jessica e quem vai limpar isso tudo depois. Minha mãe teria um ataque se eu fizesse uma coisa dessas em casa.

— Eu vou pegar uma coisa pra gente comer. Eu já volto. Não saia daqui. — Henry avisa antes de se afastar e eu não tenho tempo nem de protestar. Sozinha. Isso é constrangedor. Algumas pessoas estão dançando, outras só conversando. E, eu não sei como agir. Reconheço alguns alunos da Toronto High School e alguns deles me olham torto.

—Liv! — Me surpreendo ao ver Rosie e ela me dá um abraço. Pelo menos um rosto amigo para me tirar do sufoco. — Fico feliz que tenha vindo. Vem comigo. — Ela me puxa pelo braço.

—Mas, o Henry…

— Eu sei! Eu encontrei com ele. — Rosie me puxa até um grupo de meninas, sentadas em puffs no chão. Eu as reconheço. São as líderes de torcida. Rosie me serve um copo de refrigerante. — Bem, meninas, vocês conhecem minha amiga, Liv. — Rosie sorri. Sei que a intenção dela é das melhores, mas não creio que isso vá ser muito confortável.

—Liv, essas são a Karlie, Dakota, Julie, Dove e Sophie. — Ela apresenta. Julie, Dove e Sophie dão um sorriso e um “oi” em uníssono. Já Karlie e Dakota trocam olhares e sorrisinhos maliciosos. Sabe quando você sente que não é muito bem-vinda em um certo ambiente? É exatamente assim que eu me sinto agora.

—Sente-se! — Diz Karlie me olhando de cima a baixo com um sorriso falso nos lábios. Rosie dá um sorriso amigável, me incentivando. Eu me sento em um dos puffs vazios. Rosie se senta do meu lado. Dakota me lança um olhar esnobe que ela não consegue conter. Henry, onde você está agora? Bebo um pouco do refrigerante.

—Sabe, essa festa tá muito parada. — Dakota murmura. — Precisa de alguma coisa para animar!

— Eu tava pensando a mesma coisa. — Karlie e encara. — Que tal um jogo? — A ruiva propõe.

—Ah não, Kah, não me diga que está pensando no mesmo que eu? — Dakota sorri. — Sete minutos no paraíso? — A ruiva assente. Engulo seco. Eu conheço esse jogo. Eu nunca joguei, é claro. Você gira uma garrafa e quem você tirar tem que ficar sete minutos com você.

— Eu ouvi falar em sete minutos no paraíso? — Uma voz familiar soa atrás de mim. É Jaden. Ele está acompanhado de alguns jogadores do time e Noah. Ele está vestindo uma jaqueta de couro preta e uma camisa branca por baixo. Eu não o encaro muito. Ele dá um sorriso para Rosie.

—Finalmente, Jaden. Achei que não viesse mais. — Karlie responde. — Senta aí. Vamos jogar. — Eles se espalham pelo chão. Eu preciso sair daqui, mas não sei como. Rosie está em sua zona de conforto, mas eu não. Dakota pega uma garrafa vazia de Vodka e posiciona no meio do chão.

— Eu vou procurar o Henry. — Sussurro para Rosie e ela parece entender os meus motivos. Quando vou me levantar, Karlie fala.

—O que foi? Não vai jogar? — Ela sorri maliciosamente. Respiro fundo. — Não vai me dizer que você nunca brincou disso, nerd? — Jaden solta uma risada e Noah o repreende com o olhar.

—Deixa ela em paz, Karlie! — Rosie me defende.

—Aposto que nem beijar você beijou. — Dakota comenta. — Ou será que você é do tipo falsa santa? — Ela ri. Karlie e Jaden trocam um olhar.

—A Liv não precisa jogar nada se não quiser. — Rosie interrompe. — Ah, propósito. Você viu o Henry? — Ela pergunta para mim. — Eu tava querendo falar com ele. Será que você pode procurá-lo? — Essa é a minha deixa.

— Claro. — Respondo e me levanto rápido para sair logo dali. Jaden coloca o pé na minha frente e eu quase piso. Paro e o encaro. Noah bate em seu ombro para que ele tire o pé, mas ele não se move. Então, eu tenho duas opções: pisar com tudo na canela do idiota ou pular por cima. Eu decido pular por cima e sair sem olhar para trás.

Sinto-me mais leve ao deixar o grupo para trás. Continuo andando e acabo esbarrando em alguém. Com um rabo de cavalo bem alto e um vestido de paetês bem brilhoso. É a Jessica. A dona da festa. Ela me olha de cima a baixo e parece meio grogue.

— Eu te conheço? — Ela pergunta. Não exatamente. Estou de penetra. Sinto-me quase pega no flagra. Já estou prestes a pensar numa desculpa esfarrapada. — Tanto faz. — Ela dá de ombros. — Se você for encher a cara e tiver vontade de vomitar, não vomite nos vasos de porcelana. Minha mãe tem adoração por eles. — Ela some da minha vista antes que eu tenha tempo de responder. Por que eu encheria a cara? E por que eu confiaria num vaso de porcelana?

Afasto os pensamentos e volto a procurar por Brownie. Está escuro e as luzes coloridas me deixam quase tonta. Eu preciso sair daqui. Eu definitivamente não nasci para festas. No meio de tanta gente, sinto meu vestido agarrando em algo pontiagudo e um barulho de algo se rasgando me faz parar. Olho com cuidado. Tem um buraco enorme no meu vestido e quase dar para ver minha calcinha. Por sorte, ninguém viu ainda. Eu preciso me esconder e consertar isso antes que eu vire o mico da festa. Avisto um armário de casacos com a porta semi aberta e corro sem nem pensar, e entro. Está vazio.

— Não fecha… — Uma voz me faz dar um pulo assim que eu fecho a porta do armário. Dou de cara com Bash e quase me escondo. — a porta! — Ele completa, passando as mãos pelos cabelos.

—O que tem a porta?

— Você fechou e agora estamos presos aqui! — Resmunga. Não. Não. Não. Só agora reparo que não há maçaneta do lado de dentro. Eu estou presa. Com o Sebastian.

—Mas, que droga! — Espraguejo. — O que você está fazendo aqui?

—O que você está fazendo aqui?

— Eu perguntei primeiro!

—Nossa, você é tão madura. — Ironiza. — Eu estava esperando uma garota. Mas, definitivamente não era você. — Respira fundo e senta-se no chão. — E você?

—Bem. Eu tive um probleminha… — Respondo nervosa, tentando esconder o buraco no meu vestido.

—Que tipo de problema? — Pergunta desconfiado.

— Não é da sua conta!

Ele revira os olhos.

— Olha, você precisa sair. Eu tô esperando alguém. — Ele se levanta. Alguém bate na porta, nos fazendo levar um susto.

—Bash! — Diz uma voz feminina do lado de fora.

—Droga. Você vai arruinar o meu encontro! — Ele sussurra para mim. — Ah, não ser que você se esconda...

—O que? Não ficar aqui vendo você se agarrar com uma garota. — Respondo no mesmo tom.

—Bash? — Ela bate na porta de novo.

—Tem razão, precisamos arrumar algo para tampar seus olhos.

—O que? — Eu o encaro incrédula.

— Estou brincando!

—BASH! — A garota insiste.

— Oi! — Bash fala alto para que a garota o escute. — Desculpa. Estou passando mal. — Mente. — Sinto muito mesmo. Será que você pode destrancar a porta? — Pede. — É que um fantasma inconveniente entrou e bateu a porta! — Ele me encara. Faço uma careta.

—Tudo bem. — Ela responde e abre um pouco a porta. Esperamos alguns segundos para ter certeza de que ela se foi. Bash respira aliviado.

—Ótimo! O que veio fazer aqui, afinal? — Pergunta. Ele olha discretamente para o meu vestido e sua boca se forma num “O”. — Ah, meu Deus! — Ele está rindo.

— Não olhe! — Sinto minhas bochechas esquentando.

— Desculpa. — Ele vira o rosto para o lado, ainda rindo.

— Eu preciso sair daqui. — Falo por fim. Quando vou passar, ele me puxa.

— Não. Você não pode sair assim. — Ele me encara. — Estamos numa festa. Você não pode sair daqui com o vestido rasgado e eu sair logo em seguida. Do mesmo lugar.

—O que uma coisa tem a ver com a outra? — Franzo o cenho.

—A sua inocência está me assustando. — Responde sério. — Estamos no Ensino Médio. Quer que o titio explique?

Só então eu me toco. Não. Isso não seria nada bom.

— Ah, entendi. — Eu posso ouvir a tensão na minha voz. — Pensariam que nós…

—Sim.

—Não. Isso seria terrível.

Ele fecha a cara.

—Nossa, eu sou tão ruim assim?

—Não… — Murmuro. — Você é bonito pra cacete! — Sinto meu coração falhar. Eu não acredito que disse isso em voz alta. Bash está me olhando, com uma sobrancelha arqueada. Eu não consigo encará-lo, de tanta vergonha.

— Você disse que eu sou bonito pra cacete ou eu devo procurar um psiquiatra pois estou ouvindo vozes? — Pergunta calmamente. Não respondo. — Tudo bem. Acho que estou ouvindo vozes. — Dá de ombros. — Eu posso consertar o seu vestido.

— Como?

— Eu sei costurar um pouco. — Responde sem jeito. — Minha mãe é estilista. — Explica rápido. — Quando eu era pequeno ela costumava testar suas roupas em mim.

—Mas precisa de uma agulha e linha.

— Ah, eu tenho! — Ele tira uma agulha e linha do bolso do paletó preto.

—Por que diabos você carrega linha e agulha no bolso?

— Minha mãe me faz carregar em todo evento social. — Dá de ombros, enquanto coloca a linha na agulha. — Para caso eu perca um botão. Ela sempre diz: perca um dedo mas não perca um botão! — Ele me encara. — Agora eu preciso que você se vire. — Tremo.

— Tudo bem, mas não olhe!

—Como eu vou costurar sem olhar?

— Eu não sei. — Respondo nervosa e me viro. — Não olhe, Bash!

— Tudo bem. — Bufa. Sinto uma espetada em minhas costas.

— AI!

— Desculpa, mas eu não sei costurar de olhos fechados. — Responde. Eu o olho de relance. Ele acabou de abrir os olhos. — Olha, não precisa ter medo de mim. Eu não sou um depravado. Eu sei respeitar uma garota.

— Desculpa. — Falo baixinho enquanto ele passa a agulha no tecido do meu vestido.

— Tudo bem. Não é culpa sua. Existem idiotas demais por aí.

Sinto a respiração dele próxima da minha orelha enquanto ele costura. Quase sinto um arrepio quando nossas peles se tocam. Não demora muito e ele termina.

—Pronto! — Ele diz. Eu olho o vestido. Até que ficou bom.

—Obrigada.

Ele dá um sorriso amigável.

—Vamos? — Ele faz um sinal para sairmos dali. Eu vou primeiro e pouco depois ele sai também. Quando andamos para o centro da festa, nos deparamos com uma cena. Eu mal consigo me mover.

Rosie e Noah estão se beijando. Na frente de todo mundo. Bash parece tão estatelado quanto eu. Eu sabia que isso iria acontecer a qualquer momento. Só não esperava que fosse mexer tanto comigo. Noah e Rosie se separam, um sorrindo para o outro. Dou um suspiro. É a hora de ir embora. Passo quase despercebida no meio de tanta gente e sei que Bash está percorrendo o mesmo caminho.

—Hey! — Dou de cara com Henry. — Finalmente te encontrei. Onde você estava? — Ele franze o cenho. — Está tudo bem?

—Sim. — Finjo estar indiferente. — Eu vou para casa.

—Quer que eu te leve? — Pergunta preocupado.

— Não precisa. — Sorrio. — Aproveite a festa. E juízo. — Tento brincar. Ele sorri. Eu me afasto e vou em direção à saída. Saio em direção a rua, em passos lentos. Sinto passos atrás de mim.

—Liv! — Bash me chama. Eu o encaro. Ele parece triste. — Quer uma carona? — Oferece. Penso em dizer não. Mas estou cansada para ir andando à pé até em casa.

—Tudo bem. Obrigada.

Seguimos até o seu carro em completo silêncio. Nenhum de nós fala nada durante o caminho inteiro, tampouco. Bash dirige na média e parece estar com os pensamentos longes. Eu também estou. No fundo, estamos numa situação parecida, mas acho que a dele é um pouco pior. Acho que ele ainda alimentava alguma esperança com relação à Rosie e essa esperança deve ter sido massacrada hoje. Bash para o carro perto da minha casa, e suspira.

—Sabe, eu sou um idiota. — Ele fala mais para si mesmo do que para mim. Ele não me encara. — Eu tento esquecê-la e fazer a fila andar. Eu estava bem. Mas, daí, algo acontece para me lembrar que não. — Respira fundo. — Não imagina como eu queria não ser apaixonado por ela. Isso é quase uma maldição.

Eu não consigo respondê-lo. O silêncio é terrível. É pesado. Nós quase podemos tocá-lo.

—Acha que isso vai mudar algum dia? — Ele me encara.

— Não sei. — Respondo. Mais silêncio. Queria poder dizer alguma coisa reconfortante para ele. Mas não sei o que dizer. — Obrigada pela carona. Boa noite, Bash. — Ele dá um sorriso e eu saio do carro. Ele dá partida e vai embora.

Estou perto de casa. Só mais alguns metros e eu estarei enrolada em minhas cobertas, segura o suficiente para chorar. Porque é isso que eu quero fazer agora. Mesmo sabendo que é por um motivo bobo. Caminho em passos lentos. Falta pouco. Tropeço numa pedra e sinto um dos saltos quebrando. Era só o que faltava. O azar ataca novamente. Arranco os sapatos e caminho até a minha porta.

— Com licença. — Uma voz feminina chama a minha atenção. Me viro e dou de cara com uma mulher de meia idade. Os cabelos pretos e longos presos numa trança e um vestido colorido. Ela carrega uma sacola, cheia de objetos. Seus olhos são puxados e sua pele morena. — Está tudo bem? — Ela tem um sotaque castelhano forte.

Não muito. A noite foi péssima. Estou cansada e tudo que eu quero e entrar e chorar. Mas não é isso que eu respondo.

—Sim. — Dou um sorriso fraco. — A senhora quer alguma coisa?

—Preciso lhe entregar algo. — Ela tira da bolsa um colar dourado com um pingente circular na ponta e coloca nas minhas mãos.

— Desculpa. Eu não entendo.

— Não precisa entender. — Ela sorri. — Apenas fique com isso. É um presente. — Eu encaro o cordão. Ele tem um coração dentro do círculo, e ponteiros como relógio. — É a roda do amor. Você pode girá-la.

Franzo o cenho. Será que estou sonhando? Girar a roda?

—Como assim? — Quando levanto meu olhar percebo que a mulher sumiu. Completamente. Olho para os lados. Não há nenhum sinal dela. Encaro o pingente. Girar a roda? Pressiono o coração dentro do pingente e ele brilha. Eu estou ficando maluca. O coração gira. 180 graus. E para. Tenho a sensação de sentir um tremor no chão e tudo se apaga.