We Are Young

8 Tentativa de Afeto


[...]


Recuei rapidamente, utilizando o trapo que Irian havia me oferecido para evitar que a comida caísse no chão. Me levantei com uma careta, mil e uma coisas se passando em minha cabeça ao mesmo tempo, confuso demais, frenético demais.
Porém, como sempre, não deixei a emoção me dominar. A lógica sempre me foi o melhor caminho a recorrer, e não era naquele momento que eu questionaria meus próprios valores. Focaria somente no presente, por ora, e logo após sobreviver ao mesmo, começaria a cogitar minhas escolhas para o depois.
Retirei minha camiseta branca com alguns poucos protestos, jogando-a no cesto de roupas sujas que ficava no outro lado da sala, ao lado do banheiro. Esfreguei minhas mãos em meu rosto, era quase insuportável manter-me calado. Eram tantas coisas que eu queria dizer, tantas perguntas. Quando? Onde? Por que?
Irian se automutilava, aquilo para mim era claro. Provavelmente era um tema delicado para o mesmo, e eu precisaria ter uma abordagem furtiva e suave para não deixar tudo desmoronar de uma vez só. Se eu dissesse algo ali, e agora, poderia acabar com aquele pouco afeto que havíamos construído, e minhas tentativas de ter as respostas para minhas questões iriam diretamente e rapidamente por água abaixo, sem maiores delongas. Além disso eu estava com os nervos a flor da pele, com a estranha vontade de socar o rosto de Irian e logo depois abraçá-lo, ou seja, uma abordagem direta em meu estado não seria algo tão vantajoso.
Assim que recuperei o foco de minha visão, retirei as mãos do rosto e olhei para Irian novamente.
Seus olhos estavam colados em mim, ele sequer piscava. Assim que nosso olhar se cruzou, quase que imediatamente o sangue subiu ao seu rosto novamente, pela milésima vez em poucas horas. Mas... Por que? Será que era...? Afinal, era algo tão cordial e simples, não é como se eu estivesse nu. Homens tiram as camisetas na frente de outros homens, não? Será que eu estava fazendo algo de errado? Será que eu estava o violando de alguma forma com aquilo? Será que estava contríbuindo, de alguma forma, para a poluição prematura de sua mente juvenil?
Ai meu Deus.
Cocei a nuca furiosamente, dando um pequeno sorriso torto em sua direção, tentando mostrar indiferença.
– Por que está me olhando desse jeito? — Perguntei, na lata. Afinal, quais seriam os motivos? Havia comida em algum lugar do meu corpo? Sujeira nos meus dentes? Qual outro motivo Irian teria para me encarar de forma tão fixa? E por que diabos eu não conseguia, de forma alguma, interpretar seu olhar?
Irian pigarreou repentinamente, virando o rosto na direção oposta a mim.
– Nada, nada não, você malha? Você parece que malha porque você tem um abdômen definido, legal, iradão. — Suas palavras eram rápidas e atropeladas. O garoto levantou o polegar em minha direção com um sinal de joinha.
Fiquei sem reação.
O quê...?
– O QUÊ?! — Irian pulou do sofá, tossindo exageradamente — Tinha alcóol naquela comida? Você está tentando me drogar? Eu não estou me sentindo bem, acho melhor eu ir para a varanda pegar um ar... — Irian pousou a palma da mão na própria testa, como se verificasse sua temperatura.
– Acontece que aqui não tem varanda. — Foi a única coisa que consegui pensar para dizer.
Seja indiferente, Max, pensei. Não contribua para a poluição alheia!
Pigarreei, rindo forçadamente e continuando a manter aquele semblante leve e ingênuo. — Ou pelo menos tentando.
– Ah, na verdade eu costumava malhar, mas parei faz um tempinho.
Silêncio.
– Na real, cara, eu realmente preciso pegar um ar. — Irian disse, sério.
Caminhei até meu quarto, escancarando a porta para que Irian entrasse. Meu dormitório era o maior cômodo do apartamento minúsculo, e possuía um par de janelas grandes com uma vista agradável diretamente para o verde das árvores de um parque ecológico. Revirei minhas gavetas e escolhi uma camiseta vermelha favorável para a situação, e em poucos minutos Irian e eu estávamos debruçados sobre o parapeito da janela, encarando o verde e sentindo o vento frio parecer cortar nossos rostos.
Seria aquele um momento propício para começar um diálogo aprofundado de objetivos mais ousados?
– E então, Irian? — Sentei no parapeito de costas para a vista, observando atentamente o rosto do garoto iluminado pela pálida luz da Lua — Podemos começar?
Irian não demonstrou qualquer mínimo sinal de surpresa, o que me deixou um pouco encabulado. Será que estava tão na cara minha sede por respostas?
Irian soltou um leve suspiro, o ar que escapou de sua boca acabara por formar uma névoa no ar gélido da noite. Seus ombros estavam curvados, suas pálpebras pesadas. O menino parecia cansado.
– Você deve saber que não vou simplesmente despejar tudo para cima de você da maneira que você quer. Eu não sou uma máquina recreativa, daquelas que você joga a bolinha e se acerta o alvo, o prêmio cai direto para suas mãos. Há mais do que respostas para suas dúvidas aqui dentro, é como uma construção subterrânea; Tire um simples suporte e tudo desaba. — Ele brincava com os próprios dedos enquanto falava.
Concordei levemente, sentindo-me constrangido. Será que eu estava exagerando? Será que, querendo ajudar, eu estava metendo o nariz onde não era chamado? Estava piorando as coisas?
– Eu só quero que você saiba que tem um amigo, Irian. Eu, por algum motivo sinto que... Você não é quem aparenta ser. Quero dizer, eu sei que você não é o garoto sorridente e brincalhão da minha turma, sei que há muito mais ai dentro, guardado, e sei por experiência própria que chega um ponto que, de tanto guardar e reprimir, você acaba por explodir dentro de si mesmo. E quando você explode e percebe que não tem ninguém ali do seu lado para ajudar-te a livrar-se de todos os escombros e estilhaços, você... Afunda. Eu não quero que você afunde, Irian. — Surpreendi-me com a sinceridade de minhas próprias palavras — E eu quero te ajudar, eu quero ser a pessoa que vai estar com certeza ali com você, te ajudando no meio dos destroços e ruínas. Não quero que você se torne... — Senti minha garganta apertar — Se torne uma pessoa como eu.
Silêncio.
– Meus pais, eles são, digamos que... Bastante problemáticos. Minha mãe, ela é... Um doce. A mulher mais gentil que eu já conheci na minha vida. Mas o meu pai... Alcoólatra, viciado em drogas. Fugiu de clínicas de recuperação mais do que eu possa contar. Não trabalha, vive em bares, e alguns dias em especial ele chega daquele jeito... Quebrando tudo, gritando. E quando isso começa eu já sei o que devo fazer, eu devo sair e andar para o mais longe possível. Eu jamais faria isso se não fosse por ela, minha mãe. Mais de uma vez ela ajoelhou-se na minha frente implorando para que eu o fizesse, para que quando acontecesse, eu não olhasse para trás ao sair. Mas me dói no peito deixá-la sozinha com um homem como ele, de sempre que eu estou saindo, cogitar a possibilidade de que eu nunca mais a veja novamente... Viva. — Irian engoliu em seco, era visível a força que fazia para reprimir as próprias lágrimas — Tudo o que eu quero é evitar mais complicações na vida de minha mãe. Por exemplo, quando você me disse que ia chamá-la na escola aquela vez... Não, não, tudo o que me veio a mente fora sua expressão cansada e decepcionada. Eu não posso suportar isso. Não posso ser mais um peso na vida dela. Eu quero, eu preciso... Ser um orgulho. Quero salvá-la, quero poder ser alguém na vida e mostrar que todo o sofrimento dela não foi em vão. Por isso eu me esforço tanto, por isso eu simplesmente preciso tirar boas notas. Não é por mim, mas por ela.
Eu odiava o que estava fazendo. Odiava estar obrigando Irian a remoer suas próprias memórias infelizes, porém, se eu quisesse fazer a diferença, precisaria encarar aquilo com ele. Algumas de minhas questões já estavam respondidas, porém, agora não se tratava mais apenas de interesse e curiosidade. Havia tornado-se muito mais que isso.
– Mas ela simplesmente diz para você sair? Mesmo que seja tarde da noite? Ela sabia que você estava naquela praça e que...?
– Supostamente para ela eu estou na casa de algum amigo. — Ele riu com amargura — Quando a encontro novamente, ela ainda se preocupa em perguntar onde eu estive, na casa de quem, como me trataram. E eu invento na hora, "Sim mãe, estive na casa do Carlos. A mãe dele é muito agradável e o pai um bom homem", então ela suspira, aliviada, e volta ao trabalho. E eu prefiro que continue assim. Como seria se ela descobrisse que o mundo é cruel dentro e fora de casa? Como eu disse, eu apenas faço de tudo para evitar ser um peso.
Concordei com a cabeça, sério.
Será que eu deveria dizer alguma coisa? Não conseguiria nem se eu quisesse. Pus-me de pé novamente, estiquei meu braço e pousei minha mão delicadamente sobre os cabelos levemente cacheados de Irian, acariciando-os desajeitadamente em um gesto de afeição, ou pelo menos uma tentativa do tal.
Senti Irian enrigecer ao levantar o olhar para meu rosto. O quarto estava escuro demais para que pudesse ver se seu rosto estava novamente ruborizado, porém, consegui vê-lo sorrir.
– E eu só disse isso para você — Ele começou, sua voz exalando franqueza — Porque estou feliz por, quando chegar em casa amanhã e contar para minha mãe que estive na casa de um amigo, não estar mentindo dessa vez.

Fora essa minha vez de ruborizar.

~~~

– Ah, claro, imagino que a vida toda você sempre foi musculoso. — Irian revirou os olhos, sarcasmo e irritação tingindo seu tom de voz.
– Eu não disse isso. Só disse que não tenho roupas para magrelos como você. — Murmurei, ainda futricando as gavetas do meu guarda-roupa a procura de algo que Irian pudesse usar ao invés de suas calça jeans e camiseta usadas o dia inteiro.
Irian bufou ao sentar na minha cama, encarando-me impacientemente. Eu também estava ficando irritado, afinal, ele achava o que? Que eu por acaso tinha um enxoval de roupas joviais dentro do meu roupeiro apenas por hobbie? Não é como se eu fosse um pedófilo doido.
– Você pode usar essa camiseta, por mais que fique larga em você mas... — Comecei, mas antes que pudesse terminar, já tinha tido a camiseta roxa arrancada de minhas mãos.
– Que seja, eu uso essa porcaria aqui mesmo. — Irian parecia expelir pequenas ondas de choques elétricos que me davam vontade de rir. Ele agia daquela forma por estar constrangido por eu tê-lo chamado de magrelo, eu sabia, por mais que ele tentasse disfarçar.
– Bem, agora, calças, eu tenho essa aqui de moletom e...
– Não preciso de calças. — Fui interrompido novamente.
Pisquei.
– Quê? — Perguntei, cético.
– Não preciso de calças, uso essa camiseta aqui e tá bom. Só para dormir, que diferença faz?
– M-mas, mas... — Comecei, gaguejando.
– Não se preocupe com isso, coroa, estou usando boxer. Não é como se eu simplesmente saísse nu para cada um que me desse um pouco de comida e um teto.
Arfei pesadamente, baixando a cabeça e reprimindo a vontade de socar minha cara. Irian agia de forma natural pelas coisas naturais da vida. Afinal, homem que é homem tira a camisa, toma banho tranquilamente na frente de outros, anda de cuecas boxer de forma indiferente. Só era esquisito para mim pela minha opção sexual, eu tinha certeza disso. Irian como um garoto e como menor de idade jamais teria duplo sentido em suas ações, eu deveria me lembrar daquilo.
Caramba, eu sou mesmo um idiota.
Irian trocou-se bem na minha frente, olhei para os lados enquanto isso, demonstrando um interesse súbito pelo teto. Vez que outra tive um vislumbre de suas costas magras e os poucos músculos de seus braços, sua pele morena brilhando com a luz da Lua. Ouvi então o som de seu zíper, o som da fivela de seu cinto sendo afrouxada e...
– Vouversetranqueiaporta. — Exclamei, invocando o senhor dos ventos em meu corpo e zarpando para fora do ambiente o mais rápido possível.
Não adiantava, não era como se eu conseguisse mandar em mim mesmo. Me joguei no sofá, fechando meus olhos com força para reprimir aquele calor que subia por minhas costas. O que estava acontecendo? Eu estava ficando...? Estava realmente...?
Meu Deus.
Finquei as unhas em minhas bochechas, reprimindo, reprimindo.
– Seu veado estúpido de merda. — Disse para mim mesmo, cerrando os braços sob meu peito — Ele é uma criança. Uma criança heterossexual. Deixe de ser doente e...!
– Max? — Ouvi a voz familiar falar por trás de mim. Virei-me lentamente de forma rígida, forçando um sorriso em meu rosto, que provavelmente tenha saído mais ou menos desfigurado.
– Huhuhum? — Foi o que eu consegui dizer.
Vi a metade do rosto de Irian aparecendo pelo vão da porta entreaberta do meu quarto.
– Boa noite. — Ele murmurou.
Surpreendi-me com o feito, deixando uma expressão de choque percorrer meu rosto um milésimo de segundo antes de eu concordar brevemente com a cabeça.
– Boa noite, Irian. — Minha voz soou rouca e estranhamente doce até mesmo para mim.
Ouvi o "click" da porta fechando e soltei um suspiro aliviado. Havia um prato sujo sobre a mesa de centro da sala e uma camiseta branca cheia de macarronada dentro do meu cesto de roupas sujas, mas quem se importava? Eu precisava apenas de algumas horas de sono.

Os dias seguintes seriam bastante longos.