We Are Young
9 Familiar
Quando acordei, deparei-me com o silêncio. Irian não estava mais em nenhum lugar da casa, e a solidão nunca me pareceu tão aterradora.
Sob a mesa de centro estranhamente limpa e brilhante, jazia uma folha de papel. Peguei-a rapidamente, ainda bocejando e esfregando meus olhos sonolentos de um recém acordado.
Max,
Sai assim que acordei pois não aguentaria mais esperar, precisava ver como estavam as coisas em casa. Deixei café da manhã preparado na mesa. Obrigado por tudo, de verdade, eu não sei nem como agradecer (Mas isso ainda não significa que você tem de mim algum tipo de gratidão, como eu já te disse).
Ps.: Eu te disse que ia limpar, não disse?
Ps².: Você dorme como um anjinho.
Pousei a folha de papel no chão ao meu lado e tapei meu rosto com as mãos. O que eu estava fazendo? O que estava acontecendo? Por que diabos eu estava com aquele sorriso bobo no rosto?
Cambaleei pela sala limpa e impecável até a cozinha, que possuía sob a mesa embutida ovos, café e cereais. Uma sensação tão... Tão boa me dominava, uma alegria irracional. Eu me sentia cuidado, como se de repente fosse importante para alguém, o que era uma grande mentira que meu cérebro carente não negava crer. Atualmente e internamente tudo o que eu queria era ser importante e vítima dos cuidados de alguém, o que eu odiava e negava, mas era a verdade. Talvez eu estivesse tão miserável que qualquer tipo de mísera simpatia já era me era interpretado de forma peculiar.
~~~
Como de costume desde que Irian havia dado aquele berro, uma vez atrás, a turma inteira me encarava com atenção enquanto eu explicava as matérias do quadro. Faltavam poucas semanas para o fim do trimestre e os desesperados alunos corriam atrás do prejuízo com toda a força de vontade imaginável.
E entre eles, havia um garoto tranquilo, sorrindo em deleite ao me encarar daquela maneira implicante. Porém, assim que eu o encarava por tempo o suficiente, o mesmo ruborizava com violência e logo desviava o olhar. E foi aquilo. O menino do sorriso sarcástico logo se tornou o menino do rosto vermelho. Dos olhares desviados. Da fala tremida e dos olhos agitados.
Mas um dia ele não foi para a escola. E outro, e outro também.
“Irian? Ouvi falar que está de licença por ordens médicas”.
Ordens médicas? Mas... Ele me parecia bem na última vez que o vi. A preocupação atingiu-me como uma bomba na boca do estômago.
Cheguei a um ponto tão extremo que me via rodeando a casa cujo endereço constava na ficha de Irian que acabei por furtar. Uma casa razoável, nem luxuosa, porém, também não miserável, em um bairro mais próximo do Centro comercial da cidade. Era torturante, dar voltas e voltas sabendo que Irian poderia estar ali dentro, há poucos metros de mim; Tão perto, porém, também muito longe.
Pelo santo Cristo. O que diabos eu estava fazendo rodeando a casa de um aluno às oito horas da noite?
De fato, talvez eu precisasse voltar a fazer terapia.
~~~
O dia de entrega de boletins.
Sentado na cadeira, observando todos aqueles alunos nervosos e seus responsáveis perambulando para lá e para cá. Um milhão de queixas para a minha pessoa. Não sei bem quantas... Parei de contar depois do 30.
“Meu filho não pode ter tirado uma nota dessas apenas na sua matéria!”.
Eu devo ter jogado merda na cruz, só pode.
No momento, jogava palavras cruzadas, estirado na cadeira e sendo consumido pelo tédio. Faltavam apenas poucos minutos para o fim da reunião da entrega de boletins, a massa de gente já ia se dispersando. Só conseguia pensar em quando chegaria em casa, em como era sexta feira e o quão cansado eu estava. Aquele sábado prometia; Prometia muito escuro, cobertas e cama. Dormir. Ah, eu só quero dormir.
Estava tão preso aos meus próprios pensamentos que apenas reparei na forma a minha frente quando tive meu nome chamado.
– Ahm... É o professor Max? De física?
Levantei meu rosto lentamente e fitei a dona da voz que me consultava.
Uma mulher de pele morena e olhos escuros, de estatura mediana e cabelos castanhos tingidos de cinza em sua raiz. Era magra, quase que quebradiça; Tinha a impressão de que, se acabasse encostando na mesma, a mulher desabaria em ossos. Por algum motivo ela me parecia familiar, de alguma forma.
– Sim? – Respondi, pousando meu queixo entre minhas mãos.
A mulher hesitou um pouco, porém, acabara por estender a mão em minha direção para um aperto.
– Sou Helena. Helena Martins. – Sua voz era gentil – Acho que temos muita coisa para conversar.
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