We Are Young

5 Tentar entender


O sinal soara.
Irian levantou-se para sair junto com os outros, rindo e usando a máscara de deboche pelo qual interpretei-o na primeira vez que o vi. Eu sabia que não era aquilo. Eu sabia que por trás daquele manto de adolescente despótico, havia muitos detalhes minuciosos, que eu precisava urgentemente saber.
– Irian Martins – Anunciei com minha melhor voz superior – Preciso que fique.
Alguns de seus amigos lhe deram soquinhos e murmuram “Se ferrou!”, enquanto eu estava de costas, juntando meus materiais.
Ele ficou.
– Olha, se o senhor puder se apressar eu agradeço. Estou com pressa, tenho compromissos e horários, você não...
– Eu quero saber – Comecei, interrompendo-o ao perceber que estávamos enfim a sós – O motivo daquela reação. – Virei-me e encarei seu rosto, que possuía um semblante de falsa surpresa – Não finja que não sabe. Quero bons motivos para não chamar seus pais no colégio e aconselhá-los a levar seu filho para um psicológ...
– NÃO! – Fora seu apelo – Não os chame aqui! N-nem pense nisso! – Ele pigarreou, recuando e encolhendo-se – Quero dizer... Por favor. De verdade, meus pais não precisam vir aqui, e nunca precisaram. Por favor, não seja você o primeiro a chamá-los, porque eu realmente faço de tudo para evitar uma situação como essa.

Soltando um suspiro, passei a mão por meu rosto. Eu havia o chamado ali com a intenção de desfazer o nó em minha cabeça, porém, ele apenas parecia apertar-se mais e mais a cada palavra de Irian dita. Apenas dúvidas, muitas dúvidas, e nenhuma resposta.
– Irian, eu só acho que tenho o direito de saber o que se passa no instante em que me vejo preocupado com reações deveras extremistas da sua pessoa. – Murmurei, cansado- Irian, você chorou. – Parecia que eu falava mais para mim mesmo do que para o garoto a minha frente – Eu só queria entender.
Irian sorriu, debochado.
– Aposto que você está ciente de nossas posições, não é, professor? Da rixa que há entre nós. Quando você me entregou aquela prova, soube que se importou em detalhá-la o máximo possível com as próprias mãos, especialmente para mim. É clara essa rivalidade, e é claro que você fará o possível e o impossível para me ferrar. Quando eu percebi que aquela prova que tinha em mãos era o motivo do meu fracasso, não pude evitar me irritar. E ao mesmo tempo, fiquei realmente muito enraivecido devido à sua imaturidade. Afinal, minha rixa com professores já aconteceu outras vezes, mas sempre foi platônico, afinal, os professores sempre se davam o devido respeito. Mas e você? Foi irresponsável o suficiente para entrar em meu jogo. – Irian pousou o dedo indicador no lábio, olhando para o nada durante alguns segundos, fingindo pensar – Bem, verificando esses detalhes, quem foi que perdeu mesmo?
O sorriso. Aquele sorriso sarcástico, pendurado em seus lábios.
Ele estava tentando me irritar, não estava? Bem, conseguiu.
Sentia uma tensão a mais em meus ombros, a vontade de socar rostos que não era do meu feitio. Eu provavelmente teria lhe dado as costas e pedido demissão, se não tivesse mais argumentos válidos a serem usados.
– Você está mentindo.
Um leve resquício de surpresa havia passado por seu rosto. Rá. Não é que eu estava certo?
– Irian, naquele dia em que te entreguei sua prova, você chorou, e eu vi dor em seus olhos. E eu conheço o seu “tipozinho”, sei que você não sai chorando na frente de estranhos simplesmente quando dá na telha. Algo aconteceu, algo suficiente para te atingir.
Irian pigarreou, dando um sorriso afetado.
– Como pode saber? Não fale como se me conhe...
– Eu leciono desde os meus vinte e seis anos. – Digo, em um tom entediado – Você é o típico adolescente rebelde sem causa. Sempre sorrindo, sempre zoando. Mas naquele dia eu soube que não é só isso, Irian, essa é a sua máscara, uma camada de autoproteção que você usa para evitar ser ferido. Com aquela prova, eu consegui te ferir, por algum motivo maior. Não consegui?
Irian ficou calado, a cabeça baixa, encarando os próprios pés. Seus cabelos castanhos formavam uma cortina frente ao seu rosto, impossibilitando uma visão minha de seu semblante.
Tudo o que eu sentia era culpa. Não sabia com o que estava mexendo, não sabia se existiam traumas ou problemas na vida do garoto, não sabia se por acaso eu estava obrigando-o a relembrá-los, porém, minhas intenções eram das melhores. Eu só queria ajudar, ou ao menos uma dica para evitar, em um futuro próximo, ser motivo de suas lágrimas novamente.
Caminhei em sua direção com passos cautelosos, ergui minha mão e pousei-a em seu ombro.
– Irian, eu... – Comecei.
– Eu não lembro de ter consultado um psicólogo. – Ele me interrompe, sua voz é áspera como lixa.
– Irian. – Meu tom de voz era quase uma advertência.
– Eu preciso ir. Eu tenho coisas para fazer, ah, meu Deus, que horas são? Eu não sei que horas são, eu perdi meu ônibus, eu...
Não larguei minha mão de seu ombro, segurando-o no lugar. Quando finalmente Irian cedeu-se e levantou o rosto, encarei seus olhos castanhos. O que eu via? Não consegui identificar. Mágoa, talvez um pouco de dor? Teimosia, ele exalava teimosia ao tentar trancar aquelas emoções, ao tentar evitar que elas dedurassem-no.
– Irian, eu quero ser um amigo, e não um inimigo, tá legal? Acho que começamos com o pé errado.
Dei um passo para trás, entendendo minha mão em sua direção, convidando-o para um aperto.
– Oi. Sou Max Roche, tenho trinta e três anos e sou seu professor de física quântica. Eu sei que seu nome é Irian Martins e que você tem dezesseis anos. Já nos conhecemos, agora que tal contarmos nossos motivos alheios de ondas de cólera pós prova?
O garoto me encarou com certa repugnância.
– Você é ridículo.
Começou a andar novamente, porém, me pus entre ele e a porta, evitando sua saída.
– Irian, me desculpe. – Digo – Desculpe por ter agido de uma maneira tão infantil, desculpe por levar seus deboches, que admita, são bastante irritantes, para o lado pessoal. Fiz errado, mas agora que chegamos a esse ponto, não vou desistir de saber o que se passa. Não vou mesmo.
Com isso, saí da frente da porta, deixando livre a saída para Irian. Voltei até minha mesa, fechando minha maleta e passando as mãos em meu rosto.

– Obrigado. – O som veio de trás de mim.

Porém, quando me virei, Irian não estava mais lá.