We Are Young
6 Melhor ou Pior Maneira
Desde então Irian Martins nunca mais foi às aulas.
Mais especificamente nas minhas aulas, nos dois últimos períodos da quarta-feira.Questionei-me se, caso eu perguntasse por Irian para a classe, a turma estranharia. Na dúvida, foi-me mais fácil simplesmente comentar com alguns colegas de trabalho, que o tal "garoto chamado Irian" não frequentava minhas aulas há duas semanas. Foi então que descobri que na verdade, eu era o único vitimado por suas faltas, já que não eram registradas faltas em quaisquer outras matérias escolares. A minha era uma excessão.Eu fiquei irado.Caramba, garoto. Havíamos conversado, não? Pensei que talvez depois daquilo poderíamos iniciar uma convivência pacífica ou ao menos razoável, mas não, claro que não. Pensei que talvez sua última palavra, aquele "Obrigado" tão repentino e furtivo, poderia ter algum significado entrelinhas, talvez um "Tudo bem, vamos começar de novo", mas não, claro que não. Imagina. Se tudo fosse tão fácil na minha vida, eu não estaria onde estava.Eu havia apenas me iludido, jogado palavras fora, gastado saliva.Mas afinal, por quê eu me importava tanto?Nem eu mesmo poderia dizer. ~~~Não sabia se aquilo era permitido, se eu por acaso estava violando acidentalmente alguma lei ligada à privacidade alheia, mas também não me importava. Não havia câmeras nem olhos sobre mim, quem poderia me dedurar além de minha própria alma? O que os olhos não veêm o coração não sente, eu me repetia.Não demorei a encontrar a ficha de Irian Martins novamente, entre as muitas iniciadas com a vogal "I". Pulei algumas páginas e ali estava, telefones e endereços. Retirei meu celular do bolso e tirei uma única foto, meu coração parecia querer escapar pela garganta. Algo me dizia que, se eu fosse pego, não sairia impune. Guardei a pasta de Irian e meu celular, dando às costas para a gaveta com pilhas de papéis informativos. Eu já tinha o que precisava. Senti-me como o pior dos criminosos ao cruzar o estacionamento deserto, de encontro ao único carro estacionado. Eram apenas sete horas, o Sol mal havia desaparecido no horizonte. O vento soprava meus cabelos e roupas rumo à leste, acompanhado das folhas de Outono, uma beleza laranja, amarela e vermelha.Nunca me senti tão solitário na vida.Abri a porta do carro na intenção de entrar e seguir minha rotina, como sempre. O que eu faria? Iria para casa. Talvez pusesse uma lasanha artificial congelada para assar no microondas. Assistiria um pouco de televisão. Como sempre. Todo o dia. Não, eu não poderia. Não poderia fazer aquilo comigo mesmo, não poderia me condenar à uma vida tão tediosa, uma vida tão inútil."Você só sabe que é feliz quando percebe que sua vida não corre em vão", ouvi um dia, em algum lugar. Se fosse esse o caso, eu era o homem mais infeliz do planeta Terra. Um peso morto, um câncer humano caminhando pelas calçadas. Fechei a porta e pus-me a andar.Para onde ia? Não sabia dizer. Para onde o destino quisesse me levar.Não sei quanto tempo andei, poderia ter percorrido meros metros ou até milhões de quilômetros, não sentia nada que pudesse dar-me uma pista. Interessei-me por uma região coberta de árvores tingidas das mesmas cores das folhas mortas pelo chão, algo tão belo e tão monótono. Caminhei pela trilha de pedras entre os troncos ressecados, vez que outra assoviando uma melodia, chutando pedrinhas que atravessavam meu caminho. Minhas mãos gélidas buscavam refúgio nos bolsos de meu casaco, meus olhos azuis percorriam o lugar com fome de novidades, captando cada detalhe. O final da trilha guardava o que eu não esperava; Uma pequena área recreativa deserta. Pois bem, que criança tola arriscaria correr entre a escuridão que se formava entre as árvores, rumo ao balanço enferrujado afastado da segurança das ruas vigiadas? Que criança moderna seria tão tola a ponto de mergulhar de cabeça na cara do perigo do mundo atual, entre tantos psicopatas que caminhavam livremente pelas ruas?Aquela criança.Ele. Claro.Típico.Quase não acreditei em meus próprios olhos ao ver a pele dourada brilhar com os últimos raios solares do dia. De costas para mim e para qualquer um que se aproximasse, curvado, visivelmente esgotado. Irian estava sofrendo.Mas, como ajudar? Como eu poderia me aproximar sem parecer invasivo? Como deixar claro minhas intenções quando nem eu mesmo as conhecia?Enquanto o observava, Irian usou as pernas para dar impulso ao balanço em que estava sentado. O brinquedo de madeira pendurado por longas correntes enferrujadas balança com dificuldade algumas vezes antes de congelar novamente.Uma beleza monótona.– Por que faltou todo esse tempo? — Minhas palavras não foram calculadas, apenas sinceras.Nenhuma surpresa. Tensão e rigidez? Fora de cogitação.Apenas cansaço.Irian não preocupou-se em virar na minha direção ao responder, em claro e bom tom.– Eu poderia perguntar se você está me seguindo, mas desisti da ideia assim que a cogitei. As palavras que saem da sua boca são sempre tão confusas que só atrapalharia meu fraco racioncínio no momento.Silêncio. O vento assoviava em meus ouvidos. Perguntei-me se nos de Irian também.– Vá para casa, Irian. Já está tarde.– Não vou para casa. — Sua resposta foi rápida.
– Vá para casa, Irian. — Repeti.– Eu não tenho como ir para casa agora. Mas enfim, isso não interessa para você. Vá você para casa. Não sou mais criança para receber ordens de "adultos". — O garoto fez o favor de deixar bem clara a ênfase de ironia na última palavra.– Irian, eu não vou embora enquanto você não for. O vento assoviando.As folhas dançando.– Eu não tenho como ir para casa agora, tá legal? Só... Não me obrigue. — O garoto diz, por fim.– Sabe que usando essas palavras atiça minha curiosidade. Eu realmente gostaria de perguntar o por quê agora. — Admito.– E por quê não faz? Não é como se ainda estivéssemos na aula de Física. Não sei o que você acha, mas aqui fora, no mundo real, você para mim não passa de Max. — Foi estranho ouvi-lo pronunciar meu nome — E para você eu não devo passar de Irian. Somos iguais aqui. Qualquer tipo de hierarquia que existe dentro da escola, fica na escola. Aprenda isso. — Sua voz soou frustrada.– Tá legal, Irian-que-não-é-meu-aluno, poderia contar-me, por obséquio, por qual motivo, razão ou circunstância vós não podeis regressares ao lar?– Bem, por onde começamos — Irian ameaçou virar-se em minha direção, porém, pareceu desistir — Meu pai tem crises as vezes. E é melhor não ter ninguém por perto quando isso acontece. Engulo em seco.– Que tipo de crises? — Pergunto.Silêncio.– Você já está querendo saber demais. Não lhe basta saber que eu não tenho casa para voltar essa noite? Não é como se fosse uma novidade. Isso já aconteceu antes, a diferença é que nunca houve um coroa careta para ficar me interrogando.Cruzo os braços. "Coroa careta". Tá legal.– Esse coroa careta aqui não vai embora enquanto te ver na rua. Você sabe que o mundo não é leite condensado, não é, garoto? Sabe que poderia ser qualquer um aqui no meu lugar, com todos os tipos de intenção.– Ah, por favor, me poupe em dizer que poderia ser um estuprador querendo meu corpinho. Sabe, eu sei que sou irresistível, mas... Esse tipo de aviso pode ser muito tedioso.Silêncio.– Eu realmente falei sério quando disse que não vou embora até você estar em segurança. — Interrompo o grilar dos grilos na noite que se iniciava.– VOCÊ AINDA NÃO ENTENDEU? — Irian pareceu chegar ao ápice da irritação. Levantou-se em um pulo, caminhando na minha direção de cabeça baixa. Apenas quando estávamos á centímetros um do outro, o garoto levantou a cabeça, revelando o rosto que para mim, já era estranhamente familiar. Os olhos estavam mais pesados que nunca, um peso psicológico que eu sequer conseguia imaginar. O que aquela criança já havia presenciado na vida? — Eu. Não tenho. Para onde. Ir. Provavelmente dormirei aqui. Então, por favor, apenas... Vá embora. Você é um pé no saco, alguém já te disse isso antes?Pigarreei.– Na verdade sim. Minha mulher deixou isso bem claro ao pedir o divórcio. Aparentemente eu sou um pé no saco da sociedade humana. — Dou de ombros. Encarei o rosto de Irian, seus cabelos castanhos estavam, como sempre, jogados sobre sua testa e cobrindo boa parte de seus olhos. As pontas de meus dedos coçaram na ânsia de arrumá-los. Irian sorriu, seus dentes brancos cintilaram entre as luzes brancas dos postes de iluminação, a única fonte de luz naquela noite pálida. Um sorriso quase insano.– Vá embora. – Irian... — Comecei.– Vá embora.– Irian, eu...– VÁ EMBORA! — Seu grito ecoou pela pequena praça.Silenciei-me por alguns minutos, calculando meus próximos movimentos, que resumiram-se em um "Foda-se essa merda".– Você não me deixou escolha, tá legal?Agarrei Irian pela cintura e joguei-o sobre meu ombro, dando as costas para a praça e começando a sair por onde havia entrado, levando o garoto comigo.Irian começou a espernear e debater-se em meus braços, desesperado. – ME SOLTA AGORA! ME SOLTA! EU VOU GRITAR! ESTOU AVISANDO QUE EU VOU GRITAR!Inicialmente ignorei-o o máximo que pude, fechando meus olhos. Inspirando, expirando. Cheire a flor. Sopre a vela.– SOCORROOO! POLÍCIA, É UM ESTUPRADOR, UM PSICOPATA, ESTOU SENDO SEQUESTRADO!Chega.Segurei Irian pelos ombros, pondo-o em minha frente e sacundindo-o com força.– Olha só, Irian Martins, eu NÃO VOU deixar você dormir na rua, está me entendendo? Eu vou te levar para minha casa, onde vou te dar comida e um teto por pelo menos uma noite. Estou te fazendo um favor, te tirando da rua e evitando que você seja assassinado ou estuprado e tenha que sobreviver com esse trauma pelo resto da vida. Eu não sei o que se passa na sua vida pessoal, e na verdade nem sei se quero saber, mas no momento em que me vejo capaz de fazer algo para te ajudar, eu farei, com ou sem o seu concentimento. Você pode escolher como prefere, a melhor ou pior maneira. Você pode continuar gritando até a polícia ser comunicada, eu preso e você interrogado, ou pode simplesmente me acompanhar até o carro, agradecido por não precisar suportar a noite fria sozinho. E então? O QUE VOCÊ PREFERE? — Poderia jurar que dali alguns segundos eu começaria a espumar pela boca.Irian permaneceu de cabeça baixa, abraçando o próprio corpo. Silêncio. As árvores balançavam com o vento.Acima de nós, as estrelas brilhavam.– Obrigado... De novo. — Foram suas últimas palavras até ele se calar.Permanecemos em silêncio pelo resto do trajeto, e dessa vez Irian usava as próprias pernas.~~~
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