We Are Young
4 Silêncio
O silêncio pode ser interpretado de várias formas distintas. Mas nenhum silêncio é tão sonoro quanto o silêncio do desespero.
Sentia-me como um rei, sentado em meu trono disfarçado de cadeira escolar, frente àquele mar de rostos jovens e incrédulos, que encaravam as quatro folhas de provas que possuíam frente e verso exigindo cálculos em nível de vestibular sem o uso de consulta ou calculadora. Uma prova difícil, uma prova cruel, uma prova... Especial.
Meus olhos varriam o horizonte de faces, porém, sempre acabavam por pousarem-se sobre alguém em particular.
Irian parecia sofrer de força física para manter um semblante ao menos inexpressível, porém, seus ombros tensos o deduravam. Eu havia o pego de jeito, não havia?
Vez que outra o garoto rabiscava aqui e ali, e então eu me lembrava de fazer uma rotação com meus olhos para não deixar claro para qualquer bom observador o meu interesse despreocupado sobre as reações de um senhor certo alguém.
Assim que soara o sinal, indicando para os alunos seus últimos períodos de aula do dia, ambos levantam-se de suas classes com grandes estrondos e uma gritaria adolescente pela qual eu era obrigado a aturar, depositando suas provas sobre minha mesa. Alguns alunos resmungavam, outros xingavam-me como se eu não conseguisse ouvi-los. As provas eram entregues rapidamente, algumas rabiscadas, outras rasuradas, algumas simplesmente em branco. A sala de aula esvaziou-se aos poucos, a cada aluno irritado que passava pela porta.
Levantei-me e estiquei meus braços para o alto, soltando um longo bocejo. Havia apenas duas coisas que eu conseguia pensar naquele momento; Um copo de café puro e um maço de cigarros. Tudo o que eu mais queria. Tudo o que eu mais precisava.
Porém, eu não estava só.
Irian não havia se movido. Rígido, concentrado. Encarava a prova como uma velha inimiga. Falava baixinho consigo mesmo, vez que outra rabiscando algo em alguma das folhas.
Caminhei a passos despreocupados até a porta, e encarei o corredor lá fora. Vazio. Logo mais, pus-me novamente a andar, com passos lentos e forçadamente distraídos, até me ter frente à única classe ocupada do recinto. Estendi minha mão na direção do garoto, dando a entender o que eu queria.
– Entregue-me a prova, Martins. O tempo acabou.
Fui ignorado.
– Só um pouco. – Fora um resmungo de sua resposta.
Pigarreei frente àquela falta de educação, gesticulando minha mão com maior grosseria na direção do garoto.
– Irian. A prova.
E então o garoto finalmente levantou o olhar.
Irian parecia prestes a matar alguém. Não sarcasmo, nem desafio, mas ódio – A raiva em seu estado mais puro dominava seus olhos.
Fiz ênfase de recuar, porém, mantive-me firme, com a mão parada frente ao meu corpo na posição inicial. Irian enfiou seus materiais dentro da própria mochila como se socasse um rosto, soltando uma risada de escárnio carregada de amargura e me lançando um último olhar capaz de fazer subir um calafrio em minha espinha.
– Que seja. – Foram suas últimas palavras.
Deu-me as costas, deixando-me parado no meio da sala de aula vazia, tentando anexar em minha mente o ocorrido.
~~~
Naquela noite eu não estava em condições de dormir.
Por mais que tentasse, não conseguia deixar de remoer a cena em minha cabeça. Em meus pensamentos conseguia ter uma visão mais ampla de detalhes que não pude perceber vivenciando no momento; A mandíbula contraída de Irian, seus ombros tensos, sua respiração entrecortada. O garoto parecia prestes a dar o bote, ou de ter sido retirado de uma corrida pela própria vida.
Algo estava errado, eu tinha certeza. Sua reação era extremista demais para algo tão cordial. Eu tentava deduzir alguma boa razão para tal comportamento, mas nada me vinha à mente.
Acabei por sentar-me de frente a mesa de trabalho e pôr ao meu lado a pilha de provas recém feitas. E então, comecei a corrigir.
Modo automático, mente desligada. Eu poderia fazer aquilo por um dia inteiro. Estava tão acostumado com materiais do tipo que era fácil para mim, quase tedioso. Corrigir provas já fazia parte da pacata rotina que eu odiava mais que tudo.
O relógio marcava 03:00h A.M. E eu tinha em mãos um grande problema.
A prova. A prova que dava-me ânsia de jogar minha cabeça para trás e perguntar QUAL É O PROBLEMA, UNIVERSO?
Irian Martins.
Corrigi. Corrigi. Muitos acertos, porém, a mesma quantidade de erros. Mas, ao final, consegui contabilizar um 6, nada mais, nada menos. Um simples 6 cravado.
O sistema de notas da escola funcionava de 0 até 10, tendo 6 como média. Mais que seis? Nota azul. Menos que seis? Nota vermelha.
E ali estava meu problema.
No cabeçalho da prova, em letras maiúsculas e em negrito, existiam algumas regras básicas para a finalização da prova, entre elas dizia: “RASURAS TERÃO PESO DE -0,5 NO RESULTADO FINAL.”
E a prova que eu tinha em mãos estava certa, porém, deveras confusa. Muitos cálculos aleatórios, uma grande desorganização.
Era o que eu precisava fazer, não era? O justo, o prometido. Mas... Eu simplesmente não conseguia. Cada vez que sentia a caneta roçar o papel em minhas mãos, lembranças dominavam-me, e eu me via encarando um par de olhos famintos. Olhos ferozes.
Ferozes.
Soltei um ruído, atirando a caneta que tinha em mãos no outro lado do quarto, e correndo para minha cama, onde me joguei, com a mesma roupa que usei o dia inteiro. Não me importei em tirá-la, nem em desligar a luz, apenas queria dormir, o que de fato fiz depois de alguns minutos, mergulhando em um sono sem sonhos.
~~~
Na semana seguinte, a turma 211 já tinha as provas entregues.
A maioria dos alunos não pareceu ter surpresa ao checar os resultados, provavelmente já haviam deduzido as próprias notas. E de fato, não era de se surpreender, não era como se eu lecionasse jovens superdotados ou algo parecido.
O sinal soara, como esperado, todos os adolescentes atiraram-se porta afora, deixando-me sozinho para recolher meus materiais.
Não demorei a perceber que não estava sozinho novamente.
Transpassei a alça da maleta em meu peito e passei a mão sobre meus cabelos escuros, tirando-os dos olhos e parando-me ao lado de Irian. Inclinei-me e observei sua expressão vazia que encarava a prova em sua frente, que tinha como resultado final um 6.
– Deveria se orgulhar, não é? – Comentei – Foi um dos únicos a tirar uma nota azul na turma.
Minha voz soou despreocupada. Porém, não obtive resposta imediata.
Odiei aquela sensação de preocupação que dominou-me tão repentinamente. Abri a boca para falar algo, porém, fui interrompido antes de pronunciar a primeira sílaba.
– Não é bom o suficiente. – Foram suas primeiras palavras, duras. – Não é bom o suficiente para quem passou noites em claro estudando, não é suficiente para quem precisava de uma boa nota, não é suficiente para mim! – Ele gritou.
Não consegui dizer nada. Fiquei completamente sem reação, encarando o rosto de Irian, contorcido em dor. E eu vi. Uma lágrima, que escorreu de forma silenciosa pelo lado direito de seu rosto. Chorando. Irian estava chorando.
– E-eu não sei qual é a sua. Eu não sei qual é essa sua necessidade de m-me atingir, de... – Ele gaguejou. Levantou seu rosto, pude fitar seu olhar marejado por trás da cortina de cabelos castanhos bagunçados tapando seu rosto. – Por que? Eu só queria saber. Por... que?
Irian levantou-se antes de me deixar responder. Limpou o rosto com as costas da mão e sorriu, afetado.
Logo eu estava sozinho novamente.
Eu me enganei. Não é o silêncio do desespero que é o mais sonoro.
Nunca, nenhum som pode ser mais estrondoso do que o silêncio do remorso.
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