Notas iniciais
Demorei, mas aí está u.u Beijinhos.

POV Katherine

— Agradeço por ter me espiado durante esse momento crítico, vovô... — carreguei a última palavra com profunda ironia, ainda mais do que no resto da frase.

— Não há de quê, meu amor. — ele deu um sorriso torto... Igualzinho ao do papai. — Posso me atrever a dizer que meu filho caprichou? — ele riu, me olhando dos pés à cabeça. — Se bem que... Ele escolheu bem uma esposa. Se é que me entende...

— Tarado. — Deu um soco em seu braço, o que só o fez rir mais.

— Ora, você é minha neta. Por mais gostosa que você seja, eu não poderia pegar você. — ele piscou. — Em compensação... Que merda os dois fizeram pra sair seu irmão?

— Er... Pacto com Lúcifer?

— Não, isso seria bom demais... Continuo achando que foi uma experiência da sua mãe que deu errado.

Ri um pouco, mas, de qualquer forma, era do meu irmão que estávamos falando.

— O que meu irmão fez para que você o odiasse tanto? — questionei.

— Ah, eu não o odeio... Mas ele não tem nada de especial. Fora o fato de que ele é um grande nerd gamer que acha que entende de tudo...

— Essa com certeza é a maior qualidade dele. Mas que tal mudarmos de assunto? Só eu posso ofender meu irmão. — revirei os olhos.

— Tudo bem, tudo bem... Só queria te dar um presentinho, mesmo que Atena já tenha se apressado pra fazer isso antes de mim. — ele olhou para o meu colar, mesmo que eu tivesse tido a impressão de que seu olhar se estendeu para o meu decote. Ele pegou um objeto no bolso da calça jeans e entregou pra mim. — Achei que você gostaria disso. — observei. Parecia um relógio dourado, com uma pulseira mais fina que o normal. Na parte de cima havia um topázio em um tom parecido ao do meu colar.

— Uma pulseira? O que isso tem de mais? — interroguei.

— Ahm... tem um pequeno fecho aí. Abra. — olhei bem para a pulseira, até avistar um fecho realmente pequeno no outro. Puxei com leveza e ele revelou um espelho do tamanho da pedra... Estava começando a gostar daquilo. Vi outro fecho e abri também, enfim encontrando o relógio que imaginei que seria no início. Procurei mais um, mas não encontrei nada.

— Um relógio-espelho-pulseira? Podia ao menos ter uma lixa de unha portátil, não? — voltei a fechar e toquei na pedra sem querer. A pulseira se transformou em uma lixa de unha de metal. — Tá de sacanagem, né? Como eu faço pra isso voltar ao normal?

— Encosta na pedra ali no meio. — ele deu de ombros.

— Vamos ver como isso funciona... Quero aquela saia da Dolce e Gabbana que vi esses dias na vitrine. — toquei a pedra, e então a saia que eu queria surgiu em minhas mãos. Vi que em um canto da barra estava o mesmo topázio azul, mas em tamanho diminuto. Toquei novamente e a pulseira apareceu em meu braço. — Hã... Uma bolsa Prada cor de rosa. — e a pulseira se transformou exatamente na bolsa que eu queria. — CARAMBA, esse é o melhor presente que já ganhei! — exclamei e abracei meu avô.

— Mas calma aí, garotinha. Não estou te dando só roupas de marca e bolsas não, ok? — ele tocou na pedra, que se transformou em um belo escudo de ouro. — Prefira usá-lo dessa forma. De qualquer forma... Tem proteção contra assaltos. Ela sempre voltará para o seu braço, assim como acontece com a maioria das armas mágicas. A exemplo essa do seu pescoço.

— O que que tem meu colar? — questionei.

— Oh, pequeno gafanhoto... Não seja tão ingênua. Você tem uma arma em seu pescoço. – por algum motivo, me senti sufocar, como se de repente o colar prendesse minha garganta. – Não no sentido literal, é óbvio. – toquei o colar, e o pingente de coruja caiu em minha mão, se transformando em uma espada de cerca de noventa centímetros feita com um material que parecia bronze.

— Mas que infernos...

— Apenas treine, minha querida. E, se quer saber... Você fica linda de qualquer jeito: com chapinha ou sem, com roupa de marca ou a camiseta laranja do Acampamento, com o cabelo solto ou amarrado... Não se preocupe tanto com isso. Recomendo que se preocupe mais com a sua vida a partir de agora, porque ela está prestes a ficar muito perigosa.

Dito isso, desapareceu em névoa.

POV Marie

O sofá tinha sido mais confortável para dormir do que eu pensei que seria... Resolvi andar um pouco pelo chalé. Ao lado da sala, separada apenas por uma bancada de um material que parecia gelo e mármore, havia uma cozinha com sala de jantar. O armário da cozinha era toda decorada com flocos de neve de cristais sobre o vidro e o mármore branco. Vi que, sobre a bancada próxima à pia, havia uma fornada de biscoitos em formato de flocos de neve, como os que mamãe costumava fazer quando éramos crianças.

A mesa redonda de oito lugares também era feita de mármore branco e vidro, e eu fiquei me perguntando se os deuses contratavam algum arquiteto e decorador de ambientes para construir os chalés e, assim imaginava, seus palácios no Olimpo ou em qualquer outro lugar que eles vivessem.

Abri a geladeira e descobri que ela estava cheia com as minhas comidas favoritas e as de Ashley: chocolates de todos os sabores, sorvete, tortas, hambúrgueres congelados, nuggets, lasanha, pastéis e pizzas congelados, e eu não sabia nem como cabia tanta coisa naquela geladeira...

Abri um armário e vi toneladas de cookies, biscoitos e bolachas de todos os tipos, mais chocolates, jujubas e todo aquele paraíso que minha mãe controlava em casa em prol da nossa saúde.

Peguei uma bolacha em formato de floco de neve e fui olhar o resto da casa. Vi que em uma parede se abria um corredor e que em uma parede perpendicular ao armário da cozinha havia uma porta dupla de gelo. Resolvi ir pelo corredor primeiro.

No corredor encontrei duas portas de mármore branco paralelas. Uma tinha uma placa em formato de floco de neve e dizia "Ashley". A outra, uma igual, mas escrito "Marie". Resolvi não invadir a bolha da minha irmã e abri a porta com o meu nome, revelando um quarto realmente enorme, até maior que o meu habitual.

As paredes eram de um cinza bem clarinho com flocos de neve pintados em branco com algum tipo de glitter multicolorido para paredes que eu nunca tinha visto. A cama king size no meio do quarto possuía uma colcha toda branca e peluda com, adivinhe só, flocos de neve desenhados pela costura. Mas havia algo ali em cima... Cheguei mais perto e vi que era uma espécie de cetro com a minha altura, feito de gelo com uma pedra que parecia mudar de cor sobre ele. A ponta inferior era pontuda o bastante para, se não matar, ferir alguém gravemente.

Peguei-o e algo muito estranho aconteceu: minha pele começou a brilhar, como se uma aura branca tivesse aparecido ao meu redor, e eu me senti mais forte do que nunca.

POV Jake

Agora sim esse lugar estava ficando com cara de acampamento. Uma brincadeira aqui, uma pegadinha ali e isso aqui começaria a fazer parte da minha vida... fácil, fácil.

— E aí, campeão? — Um homem loiro, bronzeado e musculoso apareceu. Por conta do pequeno, hã... incidente da festa do dragão, sabia que aquele era Apolo.

— Hã... E aí... vô? Er... eu acho...

— Eu prefiro o termo senhor supremo ou guitarrista gostoso... Mas vô também serve.

— Desculpa minha indelicadeza, assim, bem de boas, mas... O que você tá fazendo aqui?

— Ah, sei lá. – ele deu de ombros. – Soube da pegadinha de vocês, sabe? Um monte de pessoas arco-íris andando pelo Acampamento... Pena que isso só dura algumas poucas horas...

— Ahm... Er... sobre isso, vô... Você disse pena?

— Claro. Seria extremamente engraçado ver aqueles filhos de Ares babacas andando por aí parecendo bolhas de sabão. – ele riu, e sua risada era tão melodiosa quanto sua voz, o que me deixou com um pouco de medo. Sabe, pessoas aparentemente perfeitas me deixam com medo. E, não, isso não foi nenhum convite para você duvidar da minha heterossexualidade.

— Hã... Er... Acho que seria.

— Ah, você que gosta de tocar instrumentos musicais, né? – assenti. – E outras coisas também, talvez... Mas vamos deixar esse assunto para outra hora. – senti meu rosto queimar. Eu devia estar prestes a pegar fogo, mais ou menos como meu pai faria. O cara loiro só ria. Isso era bem irritante.

— Sim. – grunhi. – Eu gosto de instrumentos musicais. Que que tem?

— Ah, eu ia te dar uma Gibson SG Classic Cherry de presente, mas já que você não quer... – ele murmurou, virando as costas e dando alguns passos. Meus olhos faiscaram.

— VOCÊ SÓ PODE ESTAR BRINCANDO. – gritei, e ele se voltou para mim.

— Achei que você fosse gostar... – ele sussurrou, se fingindo de desentendido.

— Santos deuses, eu sempre quis essa guitarra! – ele riu e materializou algo da cor preta. Uma case de guitarra. Abriu e eu vi que lá não tinha nada mais nada menos que... A Gibson SG Classic Cherry!

— Faça bom uso. – ele sorriu e desapareceu em um feixe de luz, deixando a case no chão à minha frente. Fechei-a novamente, coloquei em meu ombro e corri para o chalé de Apolo para mostrar aquilo para Megan.

POV Ashley

Na noite anterior, acabei encontrando meu quarto, ao contrário de Marie, que adormeceu no sofá com as malas jogadas no chão.

Olhei ao redor e vi duas portas de mármore e uma de vidro fosco. Abri uma das portas de mármore e me deparei com um banheiro enorme. Tinha até banheira de hidromassagem, sauna, ofurô e uma rede cheia de almofadas em um canto... Eu nem perguntaria o motivo daquilo. Quase tudo era feito de mármore branco e vidro, exceto o ofurô, que era feito de uma madeira clarinha.

Lavei o rosto e percebi que um kit de maquiagens completo apareceu sobre a bancada da pia. Bom... aquilo deveria ser utilizado. Percebi que todos os batons possuíam um fundo prateado e eram claros, como que para aparentarem neve ou qualquer coisa assim. Nada ruim, afinal, combinavam com a minha pele extremamente branca.

Terminei de me maquiar e arrumar meu cabelo e saí, entrando pela outra porta de mármore, que descobri ser um closet enooooorme. Eu não precisava ter me preocupado tanto assim com o esquecimento das calças, afinal...

Por fim, abri a porta de vidro, que dava para uma varanda com uma vista linda. Tive a impressão de que eu poderia ver tudo dali e ninguém me veria.

Quando retornei ao quarto, vi sobre a colcha branca algo... peculiar, e agradeci por ter visto antes de me sentar: um machado de guerra duplo feito com gelo e algum metal que não reconheci de imediato.

Ok, eu teria que aprender a usar um machado de guerra duplo. E eu só queria ver como conseguiria tal feito.

A arma tinha uma espécie de magnetismo, e eu tive uma vontade incontrolável de pegá-la, o que me fez brilhar mais que o Edward. Como? Não sei. Só sei que eu estava me sentindo um pseudovampiro-fada brilhante com poderes legaizinhos. E teria que conviver com aquilo... Que pena.

POV Louise

Estava com Harry no chalé de Poseidon. Não sabia como tínhamos ido parar lá, mas, bom, era um lugar confortável, mesmo que não pelos padrões de nossa casa.

Bom, era o esperado para um chalé... Beliches, um banheiro e uma pequena fonte de pedras, nada muito importante. E tínhamos um colega de chalé: Um garoto de cabelos e olhos azuis chamado Matthew.

Continuava pensando em Adrian, mas resolvi dar uma volta para conhecer outras pessoas... E, é óbvio, tropecei em uma pedra em algum lugar por aí.

— Quer ajuda? — ouvi uma voz masculina e levantei o olhar. O garoto era loiro, tinha olhos cinzentos e usava óculos com armação preta. Ele mantinha a mão estendida para mim.

— Hã... Oi... — falei, enquanto pegava em sua mão.

— Achei que fosse o único desastrado por aqui que consegue tropeçar até no ar. — sua risada foi audível.

— Claro, diferentão. Só você. — falei, com um sorriso torto, e depois ri. — Pode ter certeza que não é o único. Eu caio o tempo todo.

— Se você não cair enquanto estiver com uma espada na mão, está tudo bem. E eu realmente espero que você não caia com uma espada na mão... Bom, qual é seu nome? — questionou, assim que me levantei e olhei em seus olhos.

— Sou... Louise Derose...

— Não precisa gaguejar, Louise. — Ele riu novamente. — Muito prazer, sou Anthony Taylor, filho de Atena. Você... É filha de Poseidon? — ele provavelmente tinha visto de que chalé eu tinha saído.

— Não, não. Minha mãe é filha de Poseidon. Meu pai é filho de Apolo.

Ele pareceu pensar um pouco antes de juntar os pontos.

— Seu pai é Chace Derose? — perguntou, por fim.

— Como sabe? – me passou pela cabeça que ele conhecesse o famoso cantor Chace Derose, mas acabei não comentando nada, pois ele logo respondeu algo completamente diferente do que eu esperava.

— Bom, todo mundo aqui já ouviu histórias a respeito da geração dos seus pais... Bom, seu pai já quebrou o nariz do meu cunhado, Connor, não sei se você o conhece. — e então fez sentido o porquê de os dois não gostarem muito um do outro, mesmo que se aturassem em um mesmo espaço. Mamãe não gostava de contar histórias do passado, e papai também não. — Marido de Luisa Kirsten-Stoll, minha irmã.

— Eu... Conheço sim, desculpe, estava pensando.

— Em quê?

— Meu pai e tio Connor. Você disse que papai...

— Quebrou o nariz do Connor? É, ele fez isso porque queria proteger Luisa.

Isso realmente me pegou de surpresa. Connor iria até o inferno por Luisa, e o mesmo valia para o contrário. Por que meu pai precisaria defendê-la?

— Bom... Minha irmã tinha ficado fora do Acampamento por dois anos por motivos pessoais, e quando voltou descobriu que ele tinha traído-a com uma filha de Afrodite. Bom, a garota tinha usado magia pra isso, ela detestava ver a felicidade alheia. E quando Connor viu Luisa novamente... A magia acabou, mas ninguém acreditava nele. É uma história de amor um tanto complicada. Espero que a minha seja mais simples, se eu tiver uma. — ele deu de ombros. Aparentemente, ele gostava muito de falar.

— Como você sabe de tudo isso? — indaguei.

— Eu sou muito bom em guardar informações...

— Fofocas, você quer dizer.

— Ou isso. Quer dar uma volta comigo? Posso te mostrar o Acampamento e arranjar uma arma pra você.

POV Marie

Resolvi dar umas voltas pelo Acampamento, pra conhecer e tudo o mais. Ouvi a risada de Jake em algum lugar. Eu não sabia que sentia tanta falta de alguém conhecido.

Ora, a quem eu estava tentando enganar? Eu estava sentindo falta dele. Total e completamente dele. Tanto que senti a temperatura das minhas mãos chegar a uns -100°C ou qualquer coisa assim. Até o cetro de gelo que estava em minha mão congelou.

Que droga.

Resolvi seguir a risada.

E me arrependi assim que o vi.

Ele estava com uma garota de cabelo vermelho-rubi. Ele estava beijando a garota com cabelo vermelho-rubi.

Não tive nem tempo para constatar os fatos, lágrimas começaram a rolar pelos meus olhos quase que automaticamente. Eu estava chorando feito um bebê. Não acreditava que ele estava fazendo isso comigo. Não comigo.

Saí correndo sem olhar para onde andava e esbarrei em um garoto de cabelos pretos e olhos roxos, que segurou de leve meus ombros e olhou em meus olhos. Meu cetro ainda estava sendo debilmente segurado em minha mão, e percebi que ele desviou de qualquer parte dele, como se simplesmente encostar naquilo fosse matá-lo.

— Hey, se acalma, filha de Quione. — ele deu uma risada nervosa. — Essas lágrimas aí e essa aura cinza indicam que você não está nada bem. Quer vir tomar um suco de uva comigo e conversar?

Ele estendeu a mão e eu a peguei, sem nem me dar ao trabalho de explicar que eu não era filha de Quione...

Ele me levou a um chalé coberto de videiras com uma varanda bem convidativa, com uma mesa redonda de vime e quatro cadeiras estofadas. Ele foi até lá e eu o segui. Puxou uma cadeira e me convidou a sentar, o que fiz logo, e então ele sentou-se na cadeira à minha frente.

O garoto cujo nome eu ainda não sabia estalou os dedos e uma bandeja branca com entalhes com uma jarra de vidro com suco e dois copos surgiu sobre a mesa.

— Desculpe, não sei o seu nome... — murmurei, enquanto via-o encher os copos e estender um para mim. Peguei-o e deixei sobre a minha mesa, olhando em seus olhos arroxeados, os quais, naquele momento, possuíam uma borda em um tom de salmão, pude perceber.

— Eu também não sei o seu, mas o que acha de mantermos isso em segredo por ora? — ele possuía um certo sotaque italiano, o que eu achei maravilhoso, e eu tinha quase certeza de que meus olhos brilharam ao constatar isso. — O que você precisa saber, filha de Quione, é que sou filho de Dioniso. Entretanto, eu gosto de mistérios.

Filho de Dioniso... Aquelas palavras ecoaram em minha mente. Pelo que eu me lembrava dos meus livros de mitologia, Dioniso era o deus do vinho, das festas, da jogatina e da orgia. Promiscuidade, talvez... Mas aquele garoto não me transmitia nada daquilo. Ainda assim, olhei para o copo à minha frente e me perguntei o que teria ali.

— Se acalme, loirinha. É suco de uva, só isso. Sem álcool, sem veneno... Apenas suco da melhor qualidade, diga-se de passagem. — Ele sorriu e eu não pude deixar de acreditar nele. Naquele momento, meu coração já estava extremamente acelerado e eu sentia algumas borboletas voando em meu estômago. — Vá em frente.

Peguei o copo e tomei um pequeno gole, cuidadosamente. Era forte, eu tinha quase certeza de que o único doce que eu sentia ali era o açúcar natural da fruta, e eu tinha que admitir: Era o melhor suco de uva que eu já tinha tido o prazer de tomar.

POV Katherine

Eu estava triste. Sentia falta de casa, sentia falta da minha mãe, do meu pai, do wifi... mesmo estando acostumada ao Acampamento, mesmo me divertindo com os treinamentos, com os meus melhores amigos, com o meu irmão e com aqueles com quem eu tinha criado novas amizades, a saudade às vezes batia. Abri minha mala e, de alguma forma, encontrei algo que me fez sorrir instantaneamente.

Era uma coroa de brilhantes, prateada, delicada, com uma pedra azul no topo. Com certeza não era a joia mais preciosa que eu tinha, mas era a que mais possuía valor sentimental para mim. Por anos achei que a tivesse perdido, e então ela reapareceu dentro da minha mala... como se por magia.

Por que eu tinha uma coroa? Bom...

Aos sete anos, eu era completamente fascinada por coisas de princesas. Não que eu não fosse mais, contudo na época era mais. E minha mãe sabia disso.

Mamãe, então, no meu aniversário de oito anos, resolveu fazer uma festinha um tanto... diferente. Ela resolveu decorar o salão como o salão de um baile real moderno, com mesinhas redondas, uma pista de dança decorada com flores e um tapete vermelho longo desde a entrada até uma espécie de altar improvisado.

Eu não sabia como ela faria a festa, mas ela me levara até uma loja de vestidos de festa e me mandou escolher o que mais parecia o vestido de uma princesa. Provei vários, até que encontrei o perfeito.

Ele era azul claro. Tinha uma alça só, que ficava impressionantemente bem adaptado ao corpo de uma garota de sete para oito anos. Era justo até a cintura e tinha um cinto razoavelmente largo feito de pedrinhas brilhantes, depois ele se abria em uma saia rodada até o pé. Achei bonito o suficiente, mesmo que os vestidos das minhas princesas favoritas fossem completamente diferentes daquele.

— Não se preocupe com isso. — minha mãe dissera, quando comentei. — Você não precisa imitar uma princesa. Você é uma. Seja original. — eu sorri, e decidi que meu reinado começaria com aquele vestido que parecia feito sob medida para mim.

Escolhi um sapato... eu não podia usar um salto alto de verdade, era óbvio, então acabei escolhendo um sapatinho transparente com pedrinhas e um salto de três ou quatro centímetros.

— Você está perfeita, minha princesinha. — mamãe comentou, e então me levou à outra loja para escolher um vestido para ela.

Bem na verdade, ela deixou que eu escolhesse seu vestido. Imaginei que ela poderia ser uma rainha original, sem o costume de vestidos maiores em cores escuras e mangas longas. Seu vestido, afinal, era rosa bem claro, delicado, tomara-que-caia, também justo até a cintura e rodado até o pé a partir desse ponto. No corpete, uma renda branca com pedrinhas transparentes incrustadas, e na cintura uma fita de cetim larga de um tom de rosa envelhecido um pouco mais escuro que o vestido.

Seus sapatos possuíam um salto de oito centímetros — afinal, princesas não usavam sapatos muito altos — e eram totalmente enfeitados com glitter rosa bem claro.

— Como estou? — perguntou, com um sorriso. Eu ficava impressionada em como seu sorriso era o mais bonito que eu já vira em alguém, sem considerar o meu pai, com seus sorrisos tortos com dentes muito brancos.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ouvi uma voz muito conhecida.

— Devo dizer que você me fez lembrar a diferença entre linda e deslumbrante nesse exato momento. — papai estava parado ao meu lado, segurando duas sacolas de uma loja de ternos, com Adrian ao seu lado, de cara fechada, como sempre. Colocou as duas sacolas no chão e me abraçou fortemente. Depois, foi até a minha mãe. — Como você consegue me fazer perder o ar desse jeito mesmo depois de todo esse tempo? — ele sorriu. E em minha frente eu via os dois sorrisos mais verdadeiros e lindos do mundo.

Naquele momento, eu passei a sonhar em viver um amor como o deles. Não muito cedo, é claro, afinal, não há sentido nenhum em achar o amor verdadeiro aos sete anos. Ainda assim, eu me fazia de durona. Nunca admitia que queria alguém, porque meu amor próprio era maior do que qualquer coisa.

No dia da festa, marcada para as 19 horas de um sábado, passei a tarde no salão, com direito a ofurô com pétalas de rosa, massagem e tudo. Me maquiaram o mais delicadamente possível, com uma sombra clara prateada misturada a um iluminador, rímel preto, blush rosinha e batom cor de cereja. Em meu cabelo, fizeram uma trança circundando o topo da minha cabeça e deixaram meus cachos macios soltos. No salão mesmo coloquei o vestido e o sapato. Minha mãe estava se arrumando em outro salão, e eu não sabia quando ela iria ficar pronta. Meu pai me buscaria quando chegasse a hora de ir.

— Você é a princesa mais linda que já vi, Katy. — meu pai tinha se aproximado sorrateiramente, como ele costumava fazer. — Cinderela teria inveja de você.

Sorri, tímida. Eu estava sentada em uma confortável poltrona na sala de espera do salão.

— Está pronta? — assenti. Ele foi até o caixa, pagou e me conduziu até o carro, sua BMW 320i preta, abrindo a porta traseira para mim. — Desculpe, não consegui uma limusine...

— Assim está maravilhoso, papai. — falei, sincera. — Eu não preciso imitar as outras princesas para ser uma. — ele sorriu verdadeiramente com esse comentário, e eu jurei tê-lo visto secar uma lágrima de emoção que escorria por seu rosto, dando a desculpa de um cisco.

Ao chegar ao salão de festas, meu coração disparou. Meu pai novamente abriu a porta do carro para mim e me ajudou a descer, mesmo que esse não fosse o trabalho de um rei. Estendeu seu braço e eu o peguei. Ele usava um terno azul escuro, que lhe caía perfeitamente bem, uma camisa azul bem clara, quase branca, uma gravata preta e sapatos sociais pretos. Eu tinha um pai muito elegante.

Quando me posicionei na porta de entrada, dei uma olhada rápida pelo salão. Todos os meus amigos estavam lá, assim como meus tios, minha avó, Catarina – meu nome era uma derivação do nome dela, e eu gostava disso, pois a amava muito — e meu avô, Philip. Porém ainda não havia localizado meu irmão e minha mãe. Tudo estava maravilhoso, como nos meus sonhos. Flores delicadas enfeitavam todo o salão, e tulipas vermelhas – as flores favoritas da minha mãe – enfeitavam o corredor delimitado por um tapete branco-pérola.

E então começou a tocar uma música muito conhecida... A Thousand Years, no violoncelo e no piano. Meu pai sorriu e então li em seus olhos “Chegou a grande hora. Siga o seu coração.”. Ele me conduziu pelo tapete pérola em direção ao altar, e eu não conseguia parar de sorrir timidamente. Todos olhavam para mim.

Percebi que, sobre uma almofada rosa, estava uma coroa. Quando cheguei mais perto, enfim vi minha mãe. Ela entrou e se posicionou atrás da almofadinha. Parecia uma verdadeira rainha. Meu pai me deixou em frente ao altar e beijou minha testa, indo se posicionar ao lado de minha mãe. Adrian estava ali, como um pajem, mas reparei que ele usava um acessório em sua cabeça... Era uma coroa dourada, com algumas pedras vermelhas incrustadas. Fiquei olhando, sem saber o que fazer, até que avistei dois tronos lindamente enfeitados. Eram estofados como poltronas, mas seus pés eram dourados e faziam desenhos. Um deles possuía cetim azul escuro, e o outro, rosa.

— Estamos aqui reunidos para a coroação da princesa Katherine e de seu irmão, o príncipe Adrian. – mamãe anunciou, sorrindo. Ela era realmente uma boa atriz. Mantinha-se em uma pose de rainha que daria inveja a qualquer uma. Seu tom de voz também sugeria a seriedade de uma rainha, mesmo com seu sorriso adorável estampado no rosto. – Convido-os para que se sentem em seus respectivos tronos.

Levantei um pouco a saia e subi os degraus de mármore branco até o trono cor-de-rosa. Adrian, meio a contragosto, se dirigiu ao azul.

— Princesa Katherine, a coroa do príncipe Adrian foi entregue mais cedo. – ela se dirigiu a mim e deu uma piscadela. – Agora quero entregar-lhe a sua. – meu pai pegou a coroa sobre a almofada e colocou-a delicadamente sobre minha cabeça, para depois se ajoelhar, pegar minha mão e beijar suas costas.

Um bater na porta do chalé atrapalhou minhas lembranças.

— Katherine? – Adrian entrou, e sorriu quando viu o que eu tinha em mãos. – Nossa, eu não sei onde está a minha... você me fez pagar o maior mico, sabia? – ele riu.

— Sabia. – eu ri também. – Estava relembrando.

— Mesmo que eu tenha quase morrido de vergonha... Aquela festa foi maravilhosa.

— É... A primeira vez que você dançou com a Megan... – impliquei, e ele me deu um leve soco no braço.

— Só vim te chamar para ir ao chalé da Ruby. Ela convidou. – Imaginei que seria outro chalé simples como o que eu morava agora, até que ouvi as três palavrinhas mágicas: — Lá tem Wi-Fi.

— POR QUE ELA NÃO AVISOU ISSO ANTES? – gritei, pulando e abraçando meu irmão.

— Você sabe que ela ama ficar sozinha. – ele comentou e eu ri.

— O que estamos esperando? Vamos logo! – meus olhos brilhavam, eu tinha certeza.

— Vamos lá, pentelha. – ele riu e mostrou a língua, me puxando para fora do chalé e começando a correr. Eu ria enquanto corria atrás dele. Isso era algo que eu não fazia havia anos, desde que éramos crianças e brincávamos de pique nos arredores da piscina.

— Mais rápido, Katy! – ele gritou e eu acelerei, pulando em cima dele e o derrubando no chão de grama macia. – Precisava mesmo disso? – ele disse, sério, entretanto logo abriu um sorriso.

— Claro, irmãozinho. – sorri, maldosa, e comecei a fazer cócegas nele.

— Chega, chega, vamos pro chalé da Ruby. – ele falou, ofegante por tentar se livrar de mim. Eu levantei e voltei a correr na mesma direção, até tropeçar novamente em alguém que eu não queria nem ver.

— Ora, ora, princesa. Te encontrei de novo? – perguntou, mais como uma afirmação, em tom sedutor, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Aceitei e levantei, pois não queria ser rude.

E por outros motivos também...

Calado, coração. Não seja burro. Eu não quero fazer papel de trouxa.

Falar isso não adiantou muito, já que meu coração acelerou assim que viu o rosto do garoto.

— Katherine! – Adrian exclamou, me tirando do transe. – Você estava indo pelo caminho errado!

Boa, Katherine. Além de tudo, você tem um ímã que te faz ir de encontro a um... garoto metido e idiota ao invés de ir até a casa de sua amiga.

— Hã... desculpe atrapalhar alguma coisa... – falou, assim que viu com quem estava.

— Não estava atrapalhando nada. Vamos. – me apressei em dizer e peguei em sua mão. – Me salva desse cara. – sussurrei, assim que nos afastamos um pouco.

— Você não parecia precisar muito de salvação... – ele comentou. Me senti levemente ofendida.

— Uma princesa nunca demonstra seus sentimentos. – meu irmão riu assim que entendeu a referência.

— Uma princesa em apuros talvez... – ele piscou. Quando virei o olhar de Adrian para o ambiente, vi um estranho chalé que parecia ser feito de chamas. – É aqui.

— Aqui? Mas nós vamos derreter! Como você acha que vai ficar a minha maquiagem? – ele riu do meu desespero, revirou os olhos e bateu na porta.

— Adri! Katy! – Ruby exclamou, nos abraçando e nos dando espaço para entrar.

Caramba! Por que eu não tinha um chalé daquele?

— Ruby, acho que vou vir morar com você... Só por uns tempos. – comentei. A ruiva riu, acompanhada de meu irmão e de Amber, que estava jogada em um pufe mexendo no controle da televisão. – Só essa sala é maior que o meu chalé inteiro. É injusto. – fiz carinha de cãozinho sem dono, mas ninguém se compadeceu da pobre Katherine...

— Papai me contou que seus pais, tia Isa, tio Leo, tio Malcolm... ah, você entendeu, passavam a maior parte do tempo aqui.

— Você se importa se eu acampar na sua nova casa? – perguntei, gostando da ideia.

— Acho que tem um colchão reserva em algum lugar. – ela piscou. – Deixa eu te mostrar uma coisa, acho que você vai gostar. – Ela começou a subir uma escada e eu a segui.

— Para onde estamos indo? – questionei, na metade da escada.

— Biblioteca. – ela disse, simplesmente, abrindo uma porta.

Aquilo não era uma biblioteca.

Era a biblioteca.

O cômodo era simplesmente enorme.

As paredes eram forradas por prateleiras de mogno repletas de livros de todos os estilos e épocas. Em um canto, tinha uma escada em espiral que levava para uma espécie de “terceiro andar” que ficava apenas sobre as prateleiras, com cerca de um metro e meio de largura, cercado por vidro. No teto, uma abóbada nas cores vermelho, alaranjado e amarelo, que dava uma luz extraordinária ao local. O piso era feito de madeira e não havia mesinhas desconfortáveis como em bibliotecas normais. A mesa que tinha era de madeira escura também, mas as cadeiras eram como poltronas estofadas recobertas por uma espécie de veludo bege. Em meio a uma prateleira, havia uma lareira. Em outro ponto, uma televisão gigante de frente para o que parecia ser um sofá realmente muito criativo... Eu diria que tinha cerca de três metros de largura por três metros de comprimento. Não estou exagerando. Era como uma cama que superava a minha king size tamanho extra. Em dois dos quatro lados, havia uma espécie de cabeceira estofada, de cor bege, como as cadeiras. Eu não hesitei e pulei lá em cima.

— Meus deuses, como eu senti falta de deitar em algo confortável! – exclamei e Ruby riu.

— Sua situação não pode ser tão feia assim, Katy... – ela comentou.

— Pode ter certeza que é.

Olhei para um canto mais distante – sim, aquele lugar era realmente gigantesco – e vi algo surpreendente. Era uma baleia de pelúcia gigante. Não estou falando daquelas pelúcias que ficam da minha altura. Estou falando de um animal de pelúcia realmente gigante, com cerca de quatro metros de comprimento.

Ruby capturou meu olhar e disse:

— Vovô achou que eu gostaria de ter algo que lembrasse minha avó, Abnara... – ela sorriu. – Ou talvez seja um presentinho para não brigar com a esposa. – um riso tímido saiu por seus lábios. – O bom é que dá para dormir sobre ela, é extremamente confortável.

Até os tapetes que eu encontrava em algumas partes poderiam servir de colchão, de tão macios.

— Sabe o que eu estou pensando? – falei, olhando para tudo aquilo e encontrando mais coisas que eu nunca imaginaria ver em uma biblioteca, como um daqueles balanços redondos do tamanho de uma cama, cheio de almofadas, com uma cortina que poderia ser fechada e um pufe gigante que eu imaginava ser um ótimo lugar para leitura.

— Eu tenho medo quando você diz isso...

— O que acha de... Uma festa do pijama? – seus olhos brilharam em concordância.

— Só as garotas?

— Todos nós.

— Isso vai ser divertido.

Notas finais
Quero reviews, ok?