We Are Stars
13 ★ 12. Vivemos uma vida injusta.
Notas iniciais
We Are Stars — Capítulo 12
Lucy Heartfilia.
Revirava as roupas do meu guarda roupa, ainda enrolada numa toalha branca, molhando o chão com os pés encharcados de água. Já fazia alguns minutos que eu estava procurando algo para vestir, e nada parecia adequado. Estava ficando neurótica com isso, nunca fora muito indecisa quando se tratava de roupas – principalmente porque eu pegava qualquer coisa do armário e vestia.
Suspirei e encarei os tecidos dobrados nas gavetas e pendurados em cabides. Realmente não me recordava de quando tinha sido a última vez que eu saíra para um bar com meus colegas. Isso é, se tivesse ocorrido a primeira vez. Joguei-me em minha cama e fitei o teto. Era tarde demais para desistir e passar a noite inteira comendo sorvete? Talvez fosse.
Senti o celular vibrando do outro lado do colchão e alcancei para pegá-lo. Era uma ligação de Erza.
— E aí, Lucy! — Cumprimentou do outro lado da linha. — Já está pronta? As aulas acabaram já.
Tirei o telefone do ouvido e chequei o horário. Me desesperei, realmente já tinha chego no fim do período. O que raios eu tinha feito todo esse tempo? Claro, havia socado almofadas, conversado sozinha, xingado a mim mesma e também criado insultos para Natsu, que era o motivo principal dessa mistura emocional ocorrida em mim. Não sabia muito bem o que pensar sobre o que tinha acontecido no campus da faculdade – nessas horas, só lembrava de alguns flashes. A música alta dos fones tocando e explodindo meu tímpano. O céu estrelado. Os olhos escuros de Natsu próximos de mim.
— Lucy? Lulu? Terra para Lucinha!
A voz madura de Erza do outro lado do celular interrompeu meus pensamentos. Balancei minha cabeça e sentei-me na cama.
— Oi, Erza — falei sem muito entusiasmo. — Não estou pronta, mas logo, logo estarei. Aliás, você não me passou o nome do lugar.
A ruiva me passou o nome do bar e o endereço, dando pontos de localização. Anotei tudo num pequeno post-it.
— E não se preocupe, já mandei para o Natsu — comentou, dando uma risadinha. Senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Como você sabe que eu convidei ele?
— Você é muito previsível — agora ela ria. — Nos vemos lá então, Lucinha!
— Para de me chamar assim, é estranho — avisei, nem tão séria, segurando uma gargalhada. Me despedi dela e desliguei o celular.
Não sabia o porquê de estar tão paranoica assim. Era só um convite para um encontro entre amigos. O que tinha de mais nisso? Não era como se eu tivesse o chamado para um encontro nem nada disso. Sabia que era estranha, mas quando se tratava de Natsu, eu me tornava insuportavelmente chata no quesito de “como agir e o que dizer”. Era como se eu desabafasse e dissesse tudo que não podia falar e depois me arrependesse disso.
Um pouco complicado de se entender. Eu era complicada.
No fim de tudo, após dez minutos ainda procurando algo para vestir, finalmente tinha decidido. A noite estava fria, então optei por roupas mais casuais, porém quentes. Peguei minha bolsa e as chaves do carro que estavam jogadas em cima da escrivaninha do meu quarto. Antes de sair, vesti um casaco preto.
Entrei no elevador ainda sentindo um arrepio na espinha. O que estava fazendo? Saindo em uma plena segunda feira para beber enquanto estava com cólica. A empresa de meu pai estava falindo e eu tinha uma escolha árdua para fazer. Precisava de dinheiro e mesmo assim o meu trabalho não era o suficiente para pagar as contas e, por conta disso, tive que trancar a matrícula da faculdade.
Além de todos esses problemas, ainda tinha Jude Heartfilia. Doente, no hospital, deixava-me preocupada cada vez mais com sua saúde. E como se meu sofrimento não bastasse o suficiente, ainda era ignorada por ele todos os dias. Claramente eu estava mais do que no fundo do poço. Ao invés de resolver todos os contratempos, estava indo à um bar.
Ótimo, Lucy Heartfilia, você ganha o oscar de retardada do ano. Parabéns.
E ainda tinha Natsu. O cara que revirava toda a situação. Não sabia o que sentir em relação a ele, e Levy gritando em meu ouvido que eu estava afim dele não ajudava nem um pouco em como descobrir isso.
Cheguei na garagem do prédio e abri o carro, sentando-me no banco do motorista. Fiquei alguns minutos fitando a parede branca do estacionamento, ainda em dúvida sobre o que fazer. Não tinha tirado um tempo para organizar minhas ideias e tudo parecia estar acontecendo rápido demais. Estava confusa, perdida, precisava de uma luz ou alguém que pudesse me dar conselhos.
Bati minha cabeça no volante do carro e olhei meus pés. O remédio contra a cólica ainda fazia efeito, mas sentia um pouco da dor e era péssima. Talvez estivesse indo até o encontro com meus colegas para ser enfeite. Não beberia, afinal, era isso ou meu útero explodiria.
Poderia dar uma desculpa de que tinha passado mal e que não iria para o bar.
Ao invés disso eu liguei o carro.
[...]
Tentava entender para onde eu estava indo seguindo o endereço do meu GPS do celular. As ruas eram desconhecidas e eu tinha a leve impressão de que estava perdida, mesmo usando a droga de um GPS. Sim, loira o suficiente para não conseguir compreender a tecnologia de um GPS.
Virei uma esquina e finalmente encontrei o tão dito bar. Parecia um lugar calmo e a maioria dos que estavam do lado de fora tendiam estar sóbrios. Quiçá tivesse sido uma boa opção de estabelecimento para passar a noite.
Estacionei perto e saí do veículo. Diminuí meus passos, parando em frente à porta. Estava nervosa, claro. Faziam décadas que eu não saía com todos os meus “amigos” reunidos. Suspirei três vezes e mandei mensagens positivas para mim mesma em voz alta. Depois de instantes, tomei coragem e abri a porta.
Tocava música. Um som dos anos 80 muito agradável, mas não fazia ideia de qual era o nome da música ou da banda. Muitas pessoas estendiam os braços, brindando. Outros cantavam juntos ou dançavam. No entanto, havia um certo grupo que ria escandalosamente e tinham muitas latas de cerveja em cima da mesa. Finalmente, tinha achado meu bando.
Assim que Levy me viu, sorriu e acenou, chamando-me com a mão. Lancei um sorriso de volta e caminhei até a mesa, cumprimentando todos que estavam ali. Erza já estava bêbada, e Jellal estava com os braços em volta dos ombros da ruiva, ele ria da situação. Gajeel e Levy estavam sentados próximos e me encaravam.
— Pensei que Juvia viria — comentei assim que me acomodei no banco.
— Ela e Gray foram jantar hoje — Levy me respondeu. — Eles raramente se veem por causa do trabalho.
— Ah, sim. Entendo.
Não sabia exatamente qual era a relação de Gray e Juvia. Na verdade, jamais tinha parado para pensar no assunto. Eram amigos muito próximos ou talvez tivessem uma relação mais forte. Ela era mais velha que ele, todavia, seria muito possível que pudessem ser amantes.
— Não vai beber nada, Lucy? — Jellal indagou, segurando uma lata de cerveja na mão, que logo foi roubada por Erza.
— Claro que ela vai! A Lulu vai se juntar à mim, não é, Lucinha? — A ruiva exclamou.
— Hoje não, Erza — falei, rindo. Pedi para o garçom um refrigerante, o que Levy também bebia. Supus que ela também estava com dores e tinha o receio de que o álcool pudesse piorar.
Passamos um bom tempo conversando entre nós cinco. Sentia que era a vela dos casais. Gajeel abraçava Levy e perguntava a cada instante se ela estava bem. Erza estava bêbada, então beijava Jellal de surpresa todos os momentos. Ele, obviamente, aceitava todos os beijos. Eu tinha a ideia de que faltava pouco para que eles dois fossem até o canto do bar e começassem a se pegar.
Suspirei, xingando-os mentalmente. É nessas situações que eu sentia que iria terminar minha vida em um apartamento com trinta gatos.
— Lucy, você trancou sua matrícula? — Minha melhor amiga perguntou, aproximando-se de mim. Enrijeci meus ombros.
— Sim — respondi, calma. — Estou com problemas por causa do dinheiro, e ficar pagando uma faculdade que eu nem ao menos gosto seria desperdício — acrescentei, soltando um riso no final da frase. Levy me encarou e lançou um sorriso.
— E você, Jellal? — Falei, ele conversava com Gajeel, mas virou-se para me olhar. — Já decidiu o que vai fazer, também?
Havia algumas semanas que Erza tinha comentado comigo de que Jellal estava em dúvida sobre o que fazer em seu futuro. Ele já tinha passado da idade de escolher isso, então tinha de ser uma escolha rápida que rendesse resultados. Precisava decidir entre continuar trabalhando com o restaurante de sua família ou terminar a faculdade de biologia.
— Quero ser mais do que um mero dono de restaurante — explicou, sorrindo espontaneamente. Com poucas palavras, havia conseguido se expressar muito bem. — Não se preocupem, ainda vamos cobrar menos de vocês no almoço.
Rimos juntos e, num estrondo, a porta do bar se abriu.
Natsu estava ofegante e cansado. Parecia ter corrido muito até chegar no estabelecimento. Estava com uma expressão um pouco triste, não pude deixar de notar. No entanto, sua aflição se escondera num sorriso amigável.
— Desculpem a demora — comentou, sentando na cadeira ao meu lado. Todos faziam muitas dúvidas sobre onde ele estava e o que tinha feito. Natsu havia dito apenas que precisava anotar a matéria que ele tinha perdido enquanto matava aula.
— Você bebeu tudo isso, ruiva maldita?! — Ele exclamou, fingindo estar irritado. Erza mostrou a língua para ele.
— Duvido que consiga beber metade disso — ela o desafiou. Natsu levantou o braço.
— Garçom! Traga o dobro do que tem nessa mesa!
Levy soltava risadas com a dupla e eu ainda pensava na feição entristecida do rosado no momento em que chegou no bar. Cutuquei o braço esquerdo dele, chamando sua atenção.
— Tem certeza que está bem? — Indaguei. Me fitou por cinco segundos e sorriu em seguida, dando tapinhas leves na minha cabeça como resposta.
— Estou ótimo.
[...]
Já era uma da manhã e os únicos sóbrios eram eu, Levy e Gajeel. Natsu ria sozinho e ficava dizendo coisas aleatórias sem sentido algum. Nessa hora, Erza e Jellal já estavam se agarrando em algum canto desconhecido. O que eu já suspeitava que iria acontecer desde o início. E eu ainda estava tomando meu refrigerante acompanhada por Levy.
— Está tarde, não deveríamos ir pra casa? — Perguntei para ninguém em especial.
— Concordo. Lucy, vou dormir na sua casa — a azulada disse, concordei com a cabeça. Ela tinha problemas com os pais, e não iria força-la a enfrentar isso. Aconteceria com o tempo.
— Eu também quero dormir na casa da Lulu! — Natsu exclamou, com a voz trêmula. Suspirei, um pouco irritada. Me perguntava se eu havia ficado desta forma quando bebera. Rezava aos céus que não.
— Eu vou levar aqueles dois, vocês decidem o que fazem com esse aí — Gajeel decidiu, beijando Levy em seguida. — Nos falamos amanhã — despediu-se, sorrindo.
O moreno se levantou e saiu a procura de Erza e Jellal. Enquanto isso, Natsu tinha desmaiado.
— E aí? O que vai ser? — Perguntei.
— Acho melhor levar ele com a gente. Natsu mora sozinho, ia ser ruim leva-lo para a casa dele.
— Certo, então — concordei, um pouco receosa. — Você vai me ajudar a carregar ele.
Caminhamos até fora do bar. Um dos braços dele estava em volta dos meus ombros, o mesmo com Levy. Ele era pesado demais para duas mulheres carregarem, principalmente quando uma de nós tivesse um metro e meio. A azulada abriu a porta com dificuldade e o jogamos no banco de trás do carro. Comemoramos, vitoriosas, e depois também entramos em meu carro. Não demoramos para chegar em minha casa. Nesse horário não havia tantos carros, o que facilitava bastante.
Novamente, o trabalho de carregar Natsu. O elevador de meu prédio quebrava com facilidade muitas vezes, pelo menos uma vez por mês, e agradecia aos céus que ainda não tivesse sido quebrado, subir todas aquelas escadas segurando um homem com certeza seria complicado. E esse era um dos problemas de morar no sétimo andar.
— O que você andou comendo, garoto? — Levy falou, se esforçando a segurá-lo. Ele soltou uma risada alta.
— Olha, eu e a Lucy nos vemos às vezes — Natsu exclamou após as gargalhadas. Senti meu rosto corar. Mesmo que ele estivesse bêbado, comentários assim tornavam a situação mais vergonhosa possível.
— Natsu, cala a boca! As pessoas estão dormindo — Eu disse, tentando manter o controle. Ele estava ficando muito exaltado. E, finalmente, havíamos chego em meu apartamento.
Assim que entramos no cômodo, Levy se soltou de Natsu e se jogou no sofá. Consequentemente, ele caiu no chão, já que eu não era forte o suficiente para carrega-lo.
— Você é uma preguiçosa! — Gritei.
— Estou cansada e com dores. Me deixa dormir, loira de farmácia!
Tentei implorar para que ela me ajudasse a carregar Natsu e fosse dormir em algum outro canto da casa, já que não teria onde botá-lo para dormir. Todavia, fui ignorada, e depois de minutos ela dormiu. Revirei os olhos e fitei o rapaz caído no chão, desmaiado. Me perguntei o que faria com ele. O deixaria no chão mesmo? No fim, decidi que Natsu dormiria na minha cama. Eu poderia jogar Levy no chão e dormir no sofá, no lugar dela.
Carreguei-o até meu quarto com dificuldade enquanto ele resmungava palavras incompreensíveis. Joguei-o desleixadamente na cama e suspirei, ofegante. Parecia ter sido uma longa caminhada da sala até meu quarto.
No fim, a noite havia sido divertida. Mais do que eu esperava. Ri com meus amigos e consegui esquecer do que estava passando. Soltei uma gargalhada baixa lembrando de Erza fazendo piadas sem graça e competindo em quem bebia mais com Natsu. Eu devia fazer isso mais vezes, pensei.
De repente, a visão da expressão aflita de Natsu quando entrou no bar veio à tona. Me perguntava o porquê de ele estar tão triste. Imaginava se ele tinha mentido sobre o motivo de ter se atrasado ao bar.
Antes que eu pudesse sair do quarto, ouvi um choro baixo, que aos poucos ficava cada vez mais desesperador. Olhei para trás e o braço direito de Natsu cobria seu rosto, ele tremia.
— Natsu? — Chamei-o, baixo. — Você tá bem?
Ele retirou o braço da frente de sua face e mostrou sua expressão chorosa. As lágrimas escorriam de seus olhos e as bochechas estavam avermelhadas. Os lábios tremiam e seus olhos escuros estavam avermelhados.
— Lucy — sua voz estava trêmula. — Não vou aguentar ver minha irmãzinha morrer.
Natsu não me olhava. Encarava suas mãos e chorava como uma criança que acabara de perder seu brinquedo favorito. Era a segunda vez que eu o vira derramando lágrimas, e por alguma razão, isso rompia meu coração. Eu me via nele.
Andei rápido até a cama e o abracei, afagando seus cabelos rosados. Senti os braços dele envolverem minha cintura. Com certeza dizia aquelas coisas pelo o fato de estar bêbado, mas também estava mais sincero.
— Não se preocupe, vai dar tudo certo — eu sussurrei próxima de seu ouvido. Estava mentindo, claro. Nós dois sabíamos como iria terminar tudo aquilo. Assim como meu pai, a irmã de Natsu também iria passar dessa para melhor. Infelizmente, isso se chama vida.
E a vida é injusta com todos nós.
But you can share with me, 'cause I'll be listening here
To everything you say, I won't turn away
And I will listen, open up my heart and
I must say that I love you so
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