Wayward
45 Capítulo 44
Notas iniciais
— Quer dizer então que você conseguiu fazer o cara desistir só mandando esse papo pra ele? Caraca, benzinho, que irado!
— ‘‘Benzinho’’ de novo?
— Não, enche, Sammy!
Estávamos nós três no Impala, Dean dirigindo, eu no banco da frente lhe dando batatas fritas na boca e Sam no banco de trás tomando refrigerante.
— O cara era bem religioso, mesmo – Sam continuou. – Não duvidou quando a Bella falou com ele.
— É, depois da milionésima tentativa – eu ri.
— Mas como é que você sabia o nome dele? Fora aquele lance de você dizer que era a prova que ele precisava. Prova de que?
Mordi o lábio, suspirando. Os dois logo notaram que havia mais ali do que eu gostaria de contar.
— Então, é que...
— Santa Isabella!
Dean freou abruptamente, quase batendo em um poste devido ao susto que levou, assim como eu e Sam ao ouvir aquela voz vinda do nada. Parou o carro no acostamento e nós três nos voltamos para o passageiro surpresa ao lado de Sam.
— Pensei ter dito para a senhora manter segredo sobre certas coisas – Gabriel cruzou os braços, me encarando. – Você deveria ter mantido silêncio sobre suas habilidades pra todo mundo, inclusive pra esses dois aqui e o Bobby, mas a senhora não resiste, né?
— Quem diabos...? – Dean começou.
— Shhh! – Gabriel ergueu o indicador no ar. – O adulto está falando! Como eu ia dizendo... – ele pigarreou. – Deveria ter mantido segredo e ter usado seus poderes discretamente, mas acabou se mostrando demais pra o inimigo e acabou morrendo. Sorte sua, e de todo mundo, que você tenha cumprido todos os requisitos mínimos necessários para receber sua santificação primária. Mas agora fiquei sabendo que você contou certas coisas para aqueles caçadores, muito mais do que deveriam saber, e ter respondido à oração do Kubrick não foi nada sutil.
— Oração? – Sam e Dean me encararam, no que dei de ombros.
— Ah, ela não contou pra vocês? Como uma santa, mesmo que de um tipo especial e específico que, mesmo dentro de uma linhagem, só aparece na Terra sob ordens de Deus, ela começou a ouvir orações de fiéis. Geralmente demora um tempinho, já que a santidade demora a se instalar completamente em santos ainda vivos. Quem diria, não?
— Peralá, então você ouviu o Kubrick rezar mentalmente? – Sam me encarou.
— É – pigarreei, desviando o olhar.
— Tá ouvindo pessoas rezando? – Dean arqueou as sobrancelhas pra mim. – Desde quando tá ouvindo vozes?
— Desde madrugada – virei a cara, alisando o cabelo, evitando o encarar.
— Desde essa madrugada?
— É.
— Pois é, Santa Isabella, a senhora não está sendo nada, nada discreta. Se continuar assim, a nova figura do pedaço vai encontrar vocês mais cedo do que deve.
— Que nova figura? – Dean o olhou. – E afinal de contas, quem é você e como brotou no meu carro do nada, hein?
— Meu nome é Gabriel, sou o patrono da santinha aqui – ele sorriu, satisfeito consigo mesmo, se recostando ao banco.
— Gabriel? Tipo, o arcanjo Gabriel? – Sam perguntou.
— Em carne e osso – ele sorriu.
— Meu Deus! – Sam se assustou. – Ah, quer dizer...! Me desculpe – ele pigarreou. – É uma honra, senhor – estendeu a mão.
— Ah, mas você não é um fofo? – Gabriel apertou sua mão, a segurando por um tempo. – Sam Winchester... Tsc, tsc, tsc.
— Que foi? – ele ficou nervoso.
— Nada não, fofo.
— Pergunta... – Dean chamou a atenção do arcanjo. – E aquele tal de Castiel? Quando é que ele vai aparecer aqui pra dar uma mãozinha pra gente, hein?
— Ele é sempre assim, afrontoso? – Gabriel me encarou, no que eu apenas concordei em silêncio. – É o seguinte, Dean, nós temos coisas pra fazer também, sabia? A gente não passa o dia todo com a bunda no sofá, assistindo a Terra pela TV. Nós somos um exército, rapaz, somos soldados. Bem, eu não sou um mero soldado, claro – sorriu. – De qualquer forma, nós temos uma hierarquia, como qualquer exército. Não podemos intervir com vocês quando bem entendemos, falou? Sacou a parada agora, meu irmão?
— Tu é muito engraçadinho pra um arcanjo – Dean o olhou com os olhos semicerrados em desconfiança.
— O que posso dizer? – ele deu de ombros. – É o meu charme natural. Então, uma última coisa – ele me olhou. – Discrição, mocinha, discrição. Tem um demônio poderoso à solta. Estamos de olho nela, investigando o que ela está aprontando, então eu acho melhor, pela segurança de vocês, que fiquem quietinhos. Trabalhem silenciosamente.
— Ela? – Sam indagou. – E quem seria ela?
— Vocês serão informados quando precisarem saber. Por enquanto, se preocupem em fazer o trabalho de vocês. Há outros demônios barra pesada por aí, café pequeno perto daquela diaba, mas não significa que darão menos trabalho. Olhos atentos o tempo inteiro, sim? E Isabella, dá uma maneirada na sua ira, meu amorzinho. Santos Guerreiros não podem ser movidos à pecado, e se ficar cedendo aos seus impulsos violentos, vai acabar perdendo a santidade. Comporte-se – no que eu assenti sem contestar.
— O que devo fazer a respeito das orações que estou ouvindo?
— Intervenha no que puder, discretamente— falou a última palavra lentamente, dando ênfase para que ficasse claro para a minha cabeça oca, provavelmente. – Você possui limitações, como qualquer humano. Não faça milagres o tempo todo, ou vai acabar doente.
— Fazer milagres demais pode deixar ela doente? – Dean se alarmou.
— Santos Guerreiros possuem certa quantidade da Graça divina, mas, como eu disse, ainda são humanos, então precisam recarregar as baterias de vez em quando. Se esforçar demais pode pesar no sistema imunológico dela, então nada de exageros. E quando digo recarregar as baterias, me refiro à comer direito, dormir bem e manter os impulsos sob controle. Posso contar com vocês para manter a santinha na linha, senhores?
— Nem precisa pedir – Dean respondeu com um sorrisinho para mim.
— Por hoje é só – Gabriel sorriu.
— Já vai? – Sam logo murchou. – Mas o senhor mal chegou, quero dizer... Nós ainda temos mais perguntas a fazer, sabe?
Dean e eu nos olhamos rapidamente, contendo nossa vontade de comentar a respeito daquela reação.
— Você é uma gracinha, Sam – Gabriel se sentou de lado, o olhando com um sorriso malicioso que fez com que Dean e eu virássemos pra frente, nos sentindo sem jeito. – Me liga, lindinho. Eu venho quando tiver tempo livre.
E então ele desapareceu no ar.
Nos viramos para Sam, que estava com um pequeno cartão em mãos.
— Você e o arcanjo tavam flertando ou eu entendi errado? – Dean olhou para o irmão. Sam estava ficando cada vez mais vermelho nas bochechas. – Vou te falar, maninho, cê não perde tempo, hein! – ele riu um pouco. – Vai logo atrás dos melhores! Esse é o meu garoto, apostando alto!
— Eu nem sei o que tava rolando, Dean – ele guardou o cartão no bolso.
— Ah, mas nós sabíamos! – eu retruquei.
— Ele não flertou contigo não, né, amor? – Dean me olhou rapidamente, voltando para a estrada.
— Isso é ciúme? – cruzei os braços.
— Não, claro que não – ele tentou desconversar.
— Sei. Ele não flertou comigo, não se preocupe. Ele me vê de alguma forma fraternal, já que ele é meu patrono, então relaxa. Além do mais, ele jamais teria chance.
— Não? – ele perguntou surpreso.
— Nunca – o olhei. – Só tenho olhos pra você, neném.
— Vocês dois vão me fazer vomitar com toda essa fofura – Sam resmungou.
— Tu só tá reclamando porque o arcanjo não te chamou pra sair ainda – Dean deu uma risadinha. – Fofinho— ele provocou o irmão.
— Benzinho— Sam provocou de volta.
Nós três acabamos rindo em meio ao pequeno furacão que tinha passado por nós. Meu patrono era cheio de surpresas, ao que parecia.
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