Wayward
46 Capítulo 45
Notas iniciais
As borboletas em meu estômago batiam suas asas com violência naquela tarde.
Na minha frente estava Alice, toda sorridente enquanto me maquiava, Esme e Rosalie atrás de mim, penteando meu cabelo e tentando o deixar apresentável para a cerimônia. Eu estava tão nervosa que mal tinha dormido na noite anterior, com ou sem vozes de pessoas rezando ecoando em minha mente.
Sam havia se certificado de levar Dean a uma boate para uma despedida de solteiro, mas nós dois nos surpreendemos quando ele não parecia inclinado a ir.
— Quem sabe você não cai de amores por uma stripper, hm? – brinquei.
— Nah, já passei dessa fase – sorriu de forma marota.
— Olha ele, um verdadeiro homem de família! – Sam deu dois tapinhas em seu ombro. – Não se preocupe, maninha, vou ficar de olho nele pra ele não beber demais.
— Eu agradeço, Sammy.
— Então te vejo de novo no altar – Dean respirou fundo.
— Eu serei a de branco – mordi o lábio.
— Vocês dois ainda vão me matar com toda essa fofura – Sam brincou. – Até amanhã, cunhada! – ele conduziu o irmão para a saída.
Então, ali estava eu, na casa de Bobby, no quarto onde costumava dormir, sendo produzida pela minha melhor amiga vampira e sua família.
E Alice foi categórica em nos dizer que iria dar um jeito na igrejinha onde iríamos nos casar um dia antes da cerimônia porque, segundo ela, de jeito nenhum me deixaria entrar numa igreja mal iluminada que não valorizasse toda a produção que elas estavam fazendo em mim.
Ela não gostou muito do vestido que escolhi pra mim, mas eu não queria nada muito longo, ou apertado, ou cheio de bordados. Deus sabia bem que eu me casaria de All Star, jeans e camisa de flanela se não fosse pelo Dean. Queria que fosse memorável pra ele.
— Prontinho! – Alice sorriu ao se afastar. – Impecável e natural, como deve ser.
— E agora... – Esme se virou por um momento. – Uma coisa velha... – ela me mostrou uma fina gargantilha de ouro com pérolas.
— Meu Deus, Esme...! – encarei a peça. – É lindo!
— Considere meu presente de casamento – ela deu uma piscadinha pra mim antes de prender a gargantilha em minha nuca.
— Uma coisa emprestada... – Alice se virou para pegar um par de sapatos. – E azul!
Era um par de saltos altos em camurça azul-bebê, com detalhes de folhas douradas no salto e pequenas pérolas.
— E uma moeda de prata de seis pence em seu sapato – Rosalie me entregou a moeda. – Sapato esquerdo, a propósito.
— Eu nem sei como agradecer – as entreolhei. – Vocês já fizeram tanta coisa por mim. Muito obrigada, de coração.
— Estamos felizes que esteja iniciando uma nova parte da sua vida, querida – Esme sorriu. – E queremos lhe prestar todo o apoio.
— Eu realmente fico feliz por você – Rosalie me fitou. – Tô feliz que tenha encontrado sua cara metade. Tantos de nós passam a vida inteira procurando, e você teve sorte.
Sorte.
Dean seria levado de mim à força dentro de alguns meses.
É, sorte na medida do possível.
— Obrigada, Rose.
— Se a gente continuar assim, vamos acabar chorando e a maquiagem vai borrar – Alice respirou fundo, se abanando com as mãos.
Ouvimos alguém pigarrear na porta.
— Meninas? Tá na hora.
Meu queixo caiu quando eu vi Bobby, todo produzido, à porta. Smoking, gravata, cabelo bem penteado e barba aparada.
— Bobby! – tive que me conter para não sair dando pulinhos.
— É, eu sei, tô bonitão – ele disfarçou sua timidez com um sorrisinho sarcástico. – Você também tá linda, filha.
Eu podia jurar que seus olhos estavam marejando, mas ele pigarreou, disfarçando.
— Vamos lá, sapatos – Alice os colocou no chão, e a moeda de prata no lado esquerdo, me ajudando a calçá-los.
Eu me levantei, me sentindo meio desajeitada. Havia treinado com sapatos altos por um bom tempo, mas não me sentia 100% confiante e temia tropeçar e quebrar o tornozelo ou algo do tipo enquanto descia as escadas, mas Bobby segurou meu braço firmemente para evitar isso.
O caminho até a igrejinha não era longo e tão logo eu a avistei, sentia que meu coração ia pular do meu peito. Nunca imaginei que me casaria aos dezenove anos.
Nem que me tornaria uma caçadora de criaturas sobrenaturais, ou que seria uma santa à serviço de Deus e Seu exército.
Mas pra mim, sem dúvidas, o que mais me surpreendia em todos aqueles meses era aquilo. Eu. Casando. Com Dean, quem eu julguei ser um cafajeste na primeira vez em que botei os olhos nele. Se alguém me dissesse, naquele tempo, que um dia nós nos casaríamos, eu não acreditaria nem por um minuto.
E lá estava eu, subindo os pequenos degraus da igrejinha, com um pequeno buquê de cravos em minhas mãos. Alice e Rosalie entraram primeiro enquanto Esme verificava se meu vestido estava no lugar, assim como meus cabelos.
Quando me virei para trás por um instante, avistei, não muito longe, do outro lado da rua, Edward Cullen.
Ele parecia... Abatido.
Se olhar pra trás, estarei perdida.
Então me virei para frente, ignorando o meu passado turbulento e sem sentido, esquecendo completamente dele quando as portas da igreja se abriram para nós.
Meu passado não importava mais, não quando eu estava com os olhos em meu belo e sorridente futuro.
Quando dei o primeiro passo na igreja, os músicos começaram a tocar a versão de ‘‘All My Love’’, do Led Zeppelin. Sorri, sabendo que Dean e Alice haviam organizado aquilo. Avistei Carlisle, Emmett e Jasper acompanhados de Alice, Rosalie e Esme, que havia se esgueirado por trás de nós até chegar em seu lugar ao lado de Carlisle.
Avistei Ellen, Pamela Barnes e outra mulher, mais nova e de cabelos loiros, que eu não conhecia. Avistei também uma mulher negra mais velha, sorridente, que logo começou a chorar, sentada ao lado de Sam, que também estava chorando e sendo consolado por ela.
Meus olhos se voltaram para o altar, para onde meu lindo futuro estava, também, com lágrimas nos olhos, ao lado do padre.
Meu coração quase parou quando vi, atrás do padre, Charlie e Renée, lado a lado, sorrindo e acenando pra mim. Gabriel, que havia aparecido do nada ao lado de Sam, ergueu o indicador próximo à boca, me pedindo segredo e eu apenas sorri, desviando o olhar por um momento.
Obrigada, Gabriel. Não imaginei que viria.
E perder o primeiro casamento de uma Santa Guerreira na história da humanidade? De jeito nenhum. Além do mais, eu vim pra comer— e deu uma piscadinha.
Quando chegamos ao altar, Dean se aproximou de nós. Entreguei meu buquê à Bobby, que entregou meu braço a Dean.
— Cuide bem dela, rapaz – ele sorriu, tentando conter as lágrimas.
— Pode deixar que eu vou – Dean respondeu confiante.
Bobby se sentou ao lado de Ellen no banco e os músicos encerraram a música e a liturgia de casamento foi iniciada, com leituras de passagens bíblicas e orações, como era de praxe. Mas, já que não estávamos oficializando um casamento aos olhos da Lei, mas somente de Deus, pulamos algumas etapas. Não tínhamos padrinhos, por exemplo.
— Isabella e Dean – o padre nos entreolhou. – Vieram aqui para se unir em matrimônio. Por isso, lhes pergunto perante a Igreja: é de livre e espontânea vontade que o fazem?
— Sim – respondemos juntos, sorrindo um para o outro.
— Abraçando o matrimônio, prometem amar um ao outro e serem fiéis um ao outro?
— Sim – respondemos juntos novamente.
— Estão dispostos a receber com amor os filhos que Deus vos confiar, educando-os no amor de Cristo e na Igreja?
Nos olhamos em silêncio por um momento, afinal de contas, aquele tópico ainda precisava ser discutindo mais a fundo. De qualquer forma, assentimos um ao outro antes de verbalizar:
— Sim.
— Para manifestar vosso consentimento diante de Deus e da Igreja, deem um ao outro suas mãos direitas.
Assim o fizemos. Havíamos treinado aqueles votos religiosamente. Dean começou:
— Eu, Dean Campbell Winchester, te recebo, Isabella Marie Swan, por minha esposa, e te prometo ser fiel, te amar e te respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da minha vida.
O incômodo fato de que aqueles dias não durariam muito formou um nó em minha garganta antes que eu começasse a falar. Eu comecei a tremer, e ele percebeu, segurando minha mão direita com firmeza.
— Eu, Isabella Marie Swan, te recebo, Dean Campbell Winchester, por meu esposo, e te prometo ser fiel, te amar e te respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...
Fechei meus olhos, respirando fundo para não começar a chorar.
— Por todos os dias da minha vida – o fitei.
O padre assentiu para que continuássemos a falar juntos os votos.
— Vivendo com seriedade o amor, no respeito mútuo e na procura de uma vida plena para nós e para aqueles que estiverem sob nossa responsabilidade, esperamos de Deus a proteção, da Igreja o estímulo, e da família e dos amigos a solidariedade.
O padre continuou:
— Deus confirme e abençoe em Cristo este compromisso que manifestaram perante a Igreja. Que ninguém separe o que Deus uniu!
Não, ninguém além de um contrato com um demônio.
Repetimos algumas palavras com o padre e nossos convidados, continuando as formalidades até chegar na famigerada parte das alianças.
Dean se virou para o banco, olhando para Sam, que começou a tatear os bolsos, ficando nervoso. Gabriel lhe deu uma cutucada com o cotovelo, entregando uma pequena caixa a Sam, que respirou fundo e se levantou para entregar ao padre as alianças que havíamos comprado.
Gabriel deu uma piscadinha para mim, fazendo o sinal de ‘‘okay’’ com os dedos.
— Ó Deus, que fizestes várias alianças com os homens através de Noé, Abraão, Moisés, prometendo-lhes proteção carinhosa e dando-lhes a missão de formar, no vosso amor, o vosso povo, para o nascimento do vosso Filho Jesus Cristo, abençoa agora estas alianças que Isabella e Dean vão usar. Faça com que elas sejam o sinal da promessa mútua de proteção, fidelidade, amor, e uma lembrança contínua da missão que receberam de Vós: preparar um ambiente humano e cheio de amor para testemunhar a Vossa presença no mundo. Por Cristo, Nosso Senhor.
Todos disseram amém. Dean pegou minha aliança, deslizando-a em meu dedo anelar e a beijando em minha mão.
— Isabella, receba esta aliança, em sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Sorri a ele enquanto pegava sua aliança e a colocava em seu dedo, beijando sua mão em seguida.
— Dean, receba esta aliança, em sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O padre continuou as formalidades, todos rezando juntos em seguida. Nos ajoelhamos sobre duas almofadas, baixando nossas cabeças para receber a benção final do padre e fazer a última oração, finalizando nossa cerimônia improvisada.
Charlie e Renée não estavam mais ali.
Nos levantamos, agradecendo ao padre pela gentileza, e fomos cumprimentar nossos amigos, recebendo e dando muitos abraços, especialmente de Gabriel, que nos deu um forte abraço duplo – e sua própria benção. Ellen me apresentou a Jo, sua filha, que, apesar do sorriso, não parecia muito à vontade ali entre nós.
Estávamos todos prestes a sair para nos reunir na parte de trás da igreja, onde o buffet nos esperava, quando eu senti meu coração afundar – a súbita sensação de que estava sendo observada. Dean logo percebeu.
— O que houve? – me olhou, segurando minha mão com firmeza.
Um vidro que se quebrava em vários pedacinhos.
O som peculiar de um disparo.
Algo sendo atingido.
Na minha cabeça, tudo estava em câmera lenta.
Me virei, procurando pela origem do som, e vimos Sam caindo de joelhos no chão, perto do altar, onde estava acompanhado de Gabriel.
Começamos a correr para acudi-lo, ainda que ele estivesse acompanhado de um arcanjo, pois era o nosso instinto.
E então mais disparos.
Um acertou Dean.
E o outro me acertou.
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