Se eu soubesse como aquele dia iria acabar, eu nem teria levantado da cama.

Tudo começou normalmente, conforme o esperado, ou ao menos conforme eu imaginava. No meu estômago não haviam borboletas, havia um tufão violento me deixando nauseada. Edward estava do lado de fora, esperando que eu avisasse Charlie sobre ele para que pudesse entrar, e tudo o que eu queria fazer era acabar logo com aquilo.

A vontade que eu tive naquele momento era a de enfiar minha cabeça na terra para não precisar contar nada, mas havia dito que faria, então lá estava eu, respirando fundo enquanto reunia coragem para falar com Charlie na cozinha. Ele estava limpando suas armas. Ótimo. Não dava nem um pouquinho de medo ter um monte de armas em cima da mesa antes de uma conversa daquele tipo.

— Pai? – o chamei, enfiando as mãos nos bolsos da minha jeans, nervosa.

— Sim? – perguntou sem tirar os olhos do que estava fazendo.

— Tem... Tem alguém que eu quero que conheça.

Charlie me encarou com surpresa, as sobrancelhas arqueadas de alguma forma me julgando com aquilo.

— Pensei ter ouvido você dizer que não tinha interesse em ninguém.

‘‘Não tenho mais’’, gostaria de dizer, mas ainda não era a hora.

— Eu não tinha – mordi meu lábio inferior. – Mas ele é bem legal – dei de ombros, discordando internamente. – Eu tenho um encontro com ele hoje e ele queria te conhecer oficialmente. Ele está lá fora esperando.

— Ele está? – ele franziu o nariz, claramente desconfortável com a ideia de interagir com outra pessoa.

— Sim.

Charlie suspirou tão profundamente quanto eu fazia quando me chateava com algo. Queria dizer a ele que também não estava animada com aquela situação, mas isso complicaria as coisas pra mim em um momento no qual eu ainda não sabia o que fazer para resolver tudo sem me sentir em perigo.

— Beleza, pode chamar – ele franziu a boca, deixando a arma sobre a mesa.

Eu nem precisei, realmente. Quando cheguei a porta, ele já estava lá, esperando. Forcei um sorriso, o mais educado que eu podia, e o deixei passar, e os poucos minutos em que eles passaram se apresentando foram os minutos em que eu aproveitei para subir até meu quarto para pegar meu casaco e meu spray de pimenta.

Edward me esperava ao pé da escada.

— Pronta?

— Sim – na verdade, não.

— Eu vou tomar conta dela, eu prometo – ele disse a Charlie, mas assim que Edward se afastou mais um pouco, papai gesticulou pra mim.

— Ainda está com o spray? – perguntou baixinho, e eu assenti enquanto seguia o vampiro centenário para fora de casa.

— Seu pai é bem desconfiado – ele riu enquanto entrávamos no gigantesco jipe com o qual ele havia aparecido.

— Ele só é cuidadoso – forcei outro sorriso. Charlie estava coberto de razão em se preocupar. Se ele soubesse, se ao menos desconfiasse, teria me mandado de volta para Phoenix sem pensar duas vezes, mas eu jamais iria embora sabendo que ele ficaria sozinho ali. Sem chance.

Durante o caminho, enquanto eu conversava com ele sobre coisas que já não eram relevantes pra mim, notei que um carro muito distinto passava por nós. Eu tive a impressão de que já tinha o visto antes, e quando ele passou do meu lado da estrada, reconheci o rosto de Sam, um dos estranhos que haviam chegado na cidade.

— Algum problema? – Edward perguntou, mas algo me dizia que ele havia notado o que eu notei muito antes de me perguntar.

— Não – respondi, minha mente ainda distante, tentando imaginar os possíveis motivos pelos quais Edward os detestou tanto.

Quando chegamos no campo onde os demais estavam reunidos, fui recebida pelo típico olhar de desprezo de Rosalie, em contraste com a afabilidade dos demais. Fiquei com Esme, que era a juíza do jogo, e tentei observar enquanto o jogo se desenrolava, apesar de ser difícil para meus olhos acompanharem.

Então, depois de um bom período, algo que eu não consegui ver fez com que Alice mandasse o jogo parar. Todos imediatamente correram na minha direção em uma espécie de escudo, e então notei um trio de estranhos se aproximando de nós.

A julgar pela reação dos demais, eram vampiros desconhecidos. É claro, tudo que estava ruim podia piorar consideravelmente, a Lei de Murphy nunca falhava. Nunca.

Eu estava nervosa demais para me concentrar na conversa que se desenrolou entre Carlisle e o líder do trio. Laurent, acho que se chamava assim. Eu quase não conseguia me mover, tão paralisada de medo estava, mesmo que Esme estivesse bem ao meu lado, me mantendo segura com um de seus braços em meu ombro e Jasper estivesse tentando me acalmar, provavelmente para que meu coração desacelerasse, mas eu tinha certeza de que eles já haviam notado que eu era humana, porque:

1) Eu tinha calor e um cheiro que, segundo me diziam, era muito peculiar, que nenhum deles tinha e;

2) Meu coração era uma metralhadora no meu peito, diferente dos demais, e eu tinha certeza disso.

O vampiro loiro não tirava os olhos de mim. Mesmo que eu não o encarasse de volta, eu podia sentir olhos analisando cada pequeno movimento meu. A ruiva também parecia me observar como se fosse comida e tudo o que eu queria era ir embora, mas precisava manter a calma para que aquela situação não se tornasse perigosa para todos nós.

Fiquei perto de Esme o tempo todo. Mesmo Rosalie, que geralmente tinha aversão a mim, estava mais próxima de nós, mais arredia. Algo me dizia que não importava a forma como eu agisse naquele momento, as coisas dariam muito errado.

Eu gostaria de ter ouvido meus instintos antes.

Porque o jogo acabou, e o trio sumiu de vista, mas Edward não ficou mais tranquilo com aquilo, independente do que Carlisle e Esme lhe dissessem.

Ele simplesmente me segurou pelo pulso e me levou de volta para o jipe, sem dar maiores explicações sobre nada, não importando o que eu perguntasse, e quando eu entendi que algo no comportamento dos vampiros desconhecidos poderia ter desencadeado aquela atitude e demandei respostas, ele nada disse.

Como se a minha opinião não importasse, nem as minhas vontades.

Engoli a seco e pensei em Charlie. Eu precisava fazê-lo parar de dirigir para seja lá que lugar ele pretendia me levar e fazer com que se acalmasse, mas nada do que eu lhe dizia adiantava coisa alguma. Edward estava cego em sua fúria, dirigindo alucinadamente, e naquele momento, qualquer resquício de esperança de que ele me ouviria e pensaria ao menos na vida de Charlie se fora.

Tudo o que me restava era desespero e então eu comecei a gritar por socorro e cada vez mais alto conforme ele acelerava. Até mesmo considerei abrir a porta e me jogar, mas naquela velocidade, era provável que eu me quebrasse inteira e morresse, considerando a minha sorte.

Não. Sorte não tinha nada a ver com aquilo.

As minhas péssimas escolhas tinham tudo.

Tentei me soltar do cinto de segurança, mas sempre que eu o fazia, ele me prendia de volta. Eu não fazia ideia de onde estávamos e àquela altura eu conseguia apenas chorar em desespero, implorando para que ele voltasse, se não por meu pai, por mim.

— Você não entende! – ele esbravejou. – É por você que estou fazendo isso, Bella! Se voltarmos, James irá segui-la!

— Ele sentiu o meu cheiro, ele vai segui-lo até encontrar o meu pai! Nós precisamos voltar, por favor!

— Não! Manter você viva é a minha prioridade!

— Se continuar dirigindo assim, eu não estarei viva por muito tempo!

Foi quando percebi que atrás de nós havia um carro, um carro familiar que acelerava, ao que parecia, o máximo que podia para nos alcançar. Era o mesmo carro de Dean e Sam, e eu não perdi tempo: me soltei do cinto e comecei a gritar por ajuda novamente, colocando a cabeça para fora e sinalizando para eles, o que não durou muito tempo, pois Edward me puxou para dentro de novo.

Ouvi tiros sendo disparados e instintivamente abaixei minha cabeça no banco.

Mas então um pneu estourou, no que Edward freou na mesma hora e eu bati a minha cabeça com toda a força.