Waves
4 Capítulo Quatro
Notas iniciais
Sábado, definitivamente, era o dia favorito de Katniss, sem sombra de dúvida. Ela amava acordar cedo pela manhã, ir para as reuniões do grêmio e almoçar com os pais e o irmão em algum restaurante. Para ela, era sempre um dia proveitoso, já que passava ao lado dos familiares e das amigas.
Mas nesse, a garota não estava animada, pois, Peeta havia sido convocado por Snow para ir numa reunião do Grêmio Estudantil e, sinceramente, não se sentia preparada. Torcia para que tudo desse certo.
Andando pelo gramado do parque, totalmente perdida em pensamentos, havia a sensação de estar com a alma livre. Observando o céu nublado pela manhã, sentiu o vento frio acariciar o rosto e fechou brevemente os olhos, abraçando a jaqueta jeans.
Nesse dia, não estava com as costumeiras roupas, já que o pai insistiu para usar as mais grossas, como calças e jaquetas, num modo de protege-la do frio. Katniss sempre foi sensível ao clima, e poderia ficar gripada facilmente.
Os pés calçando um All-Star preto de cano alto se encontravam com o chão asfaltado do campus da escola e, vez ou outra, ouvia-se o barulho do atrito entre pequenas pedras.
― Katniss! Você já chegou? Pensei que era a única por aqui. – Uma voz ao longe despertou a garota fazendo-a olhar para trás e ver Judith, vulgo, FoxFace correndo até ela, com os cabelos ruivos bagunçados e as bochechas levemente coradas, pelo frio que fazia ou pela corrida que estava fazendo.
― Oh, não, Judith, acabei de chegar. – Katniss sorriu para a colega que lhe deu um abraço apertado. O rosto de FoxFace estava extremamente gelado.
― Eu estou aqui já faz algum tempo, como é o Shabbat Shalom, meus avós foram a sinagoga e me trouxeram aqui, sete horas da manhã, dá pra acreditar? O portão nem estava aberto quando cheguei, tive que ficar ao lado de fora morrendo de frio! – Judith tagarelou soltando-a, Katniss apenas riu, sabia como era difícil para Weinberger conviver com os avós que eram judeus hassídicos, muito devotos as regras da Torá e extremamente conservadores – Maldito momento em que meus pais decidiram viajar.
― Seus pais foram viajar para onde?
― Ah, acho que não contei, né? ― Respondeu afobada ― Pois é, eles foram para Israel em Jerusalém, visitar uma prima que se casou recentemente. Odeio festas, você gosta? São um porre! Ninguém merece festas, por isso nem fui ― A garota continuava a tagarelar, fazendo com que Katniss não soubesse o que responder, esperava que Madge chegasse logo ― Pra onde está indo? A reunião vai ser no auditório.
― Ah, não participarei da reunião do grêmio hoje, Judith ― Esclareceu.
― O que? Como não? ― Arregalou os olhos esverdeados.
― Não sei, não me sinto bem... ― Suspirou.
― É mesmo! ― Os olhinhos se iluminaram ― Snow convocou Peeta para a reunião hoje. Por que? Vai ser horrível, ninguém merece estar ao lado dele, ai, ai, ai. Eu também iria embora se pudesse, mas não, tenho que ficar aqui até meus avós voltarem ― Dramatizou ― Cadê Madge? Ela também não vai vir? Meu Deus, o que está acontecendo hoje? Está tudo de cabeça pra baixo, socorro.
― Ouvi meu nome? ― Madge perguntou, se aproximando, estava com o cabelo loiro, levemente bagunçado, enormes olheiras abaixo dos olhos claros.
Como uma boa geek que era, usava um moletom amarelo, que havia o rostinho de Pikachu, do anime Pokémon.
― Sim, ouviu, pensei que não viria mais, estava preocupada!
― Sem dramas, Judith, por favor. ― Pediu, guardando o headphone preto dentro da mochila ― Não estou com paciência hoje.
― Ora, por quê? ― Katniss perguntou, tombando a cabeça de lado, numa clara confusão.
― Minha mãe simplesmente foi jantar com minha irmã e meu padrasto em um restaurante e me deixaram em casa tendo que lavar louça e passar roupas, tive que ficar até tarde, o que me fez dormir mais do que o habitual e, além de tudo, ter levado um esporro logo cedo.
Katniss olhou com pesar a melhor amiga, sabia bem o quanto a mãe dela era rígida, ainda mais quando se tratava de notas. Lembrava-se claramente, de no ensino fundamental, Madge ter ficado de castigo apenas por ter tirado um B.
― Como é o nome deles? Acho que você nunca me disse, e minha nossa, eu não aguentaria uma coisa dessas, já me basta ter que ficar sem comer no Yom Kippur por ordem de meus avós, imagine ter que fazer todas essas abobrinhas, socorro. ― Judith murmurou.
― Não fique fazendo perguntas ― Respondeu revirando os olhos ― Vamos logo!
― Que mau humor, hein! E que moletom lindinho – A ruiva sorriu dando pulinhos de alegria – Como é o nome desse personagem mesmo? Só me lembro dele dizer algo como “pika-pi”. E é irônico, porque é um desenho infantil, né? Então, por que eles colocam o bicho pra dizer um absurdo desses? – Judith falava de modo afobado – E meu Deus, como está frio, socorro.
― Judith, por favor... – Madge massageou as têmporas, sem paciência.
― Ah, melhor vocês irem rápido, logo todos estarão aqui. ― Katniss mudou de assunto, olhando o horário em seu relógio de pulso.
― Judith, pode ir arrumando a sala, por favor? ― Madge pediu.
― Ah, por que? Você não vai? ― Perguntou assustada.
― Eu vou sim, só quero conversar com Katniss um pouco. ― Deu um sorriso gentil.
― Ah, tá bom, só não demore muito, por favor, sou um desastre ambulante ― Weinberger suplicou e saiu rapidamente.
― Está tudo bem? ― Katniss perguntou, em resposta, Madge se jogou nos braços da melhor amiga e, desabou em lágrimas.
O silêncio reinou naquele momento.
Katniss não precisava falar nada, sabia que tudo o que dissesse, não seria o suficiente para confortar Madge.
A quietude apaziguou-se, dando lugar a soluços altos.
― Quer me contar o que aconteceu? – Katniss perguntou, dando tapas leves nas costas de Undersee.
― É a mesma coisa de sempre – A loira sussurrou, enquanto soltava-se do abraço de Everdeen.
― O que aconteceu dessa vez?
Madge suspirou, passando a mão pelo rosto vermelho e molhado pelas lágrimas.
― Ela disse que eu sou uma péssima filha – abaixou o olhar, a fim de afugentar as lágrimas.
― Você sabe que não é verdade... – Katniss passou a mão de forma gentil pelos cabelos louros da amiga – É uma garota incrível.
― Não, eu não sou. Nunca conseguirei ser uma jornalista de sucesso. Não quando minha mãe me faz tão mal – O choro surgiu novamente, fazendo com que Madge se encolhesse.
― Você é maior que tudo isso, Mad! – Katniss olhou-a com pesar. Queria arrancar todo o sofrimento do coração da garota.
― Não, eu sou frágil e fraca – respondeu com grosseria – deveria ter me mudado para a casa de meu pai quando tive oportunidade.
Katniss suspirou.
Sabia das crises depressivas de Madge, que sempre se agravavam quando brigava com a mãe. Abraçou-a com força. Mesmo que Undersee fosse mais alta, sabia que os gestos seriam muito melhores do que qualquer palavra que dissesse. A loira acabou desabando em lágrimas novamente nos ombros de Katniss, queria encolher até ficar pequena e desaparecer. Por sorte, havia uma amiga tão compreensiva, que a fazia esquecer que a vida era um inferno.
Madge continuou agarrada aos braços de Everdeen por vários minutos, aos poucos, sentindo o choro e a dor no peito diminuírem, até restar um rosto e olhos vermelhos.
― Vamos lavar esse rostinho? – Katniss murmurou gentil, passando a mão por debaixo dos olhos da amiga, que ainda estavam úmidos pelo choro intenso – Você é linda demais pra ficar chorando.
― Ah, Katniss, o que seria de minha vida sem você? – sorriu encantada, fazendo a morena rir.
― Provavelmente, bem sem graça.
― Isso é verdade – Riu, entrelaçando seu braço ao da melhor amiga, indo em direção ao banheiro. Minutos depois, Madge já se encontrava sorridente, com o rosto lavado e as bochechas coradas. Teria que correr para a sala do grêmio, com certeza, todos estariam ali em breve. Não seria muito elegante a presidente chegar depois de todo mundo ― Como está se sentindo?
― Nervosa – a morena admitiu.
― Eu sei – suspirou – Não precisa ir, se não quiser...
― Estou pensando seriamente em não participar... – sugeriu Katniss sorrindo.
― Pode contar comigo – deu uma piscada – Darei uma desculpa convincente
― Tem certeza? Posso ficar lá com você... – Questionou, segurando as mãos da melhor amiga.
― Qualquer coisa, eu vou te ligar, prometo.
― Não hesite, por favor.
― Catnip, eu sou forte— Madge se recuperou – não é à toa que sou filha de um militar.
General Undersee.
Ou melhor, Gloss Undersee, que morava na Carolina do Sul. Katniss sabia da história turbulenta do General e Alma Coin, por essa razão, não tocava no assunto com Madge.
― Não mesmo – riu – acho melhor você ir, está atrasada.
― Cuide-se! – Abraçou a morena e saiu feito um furacão.
Katniss suspirou pesadamente.
Saiu do banheiro feminino lentamente, encaminhando-se para fora. Não se sentia animada, queria voltar para casa, estar ao lado dos pais e do irmão mais novo. Não queria passar um tempo ao lado de Mellark, ainda mais com todas aquelas desavenças, provocações e brigas durante a semana.
Após alguns lances de escada e alguns corredores, chegou na porta que levava ao corredor de entrada do colégio.
Respirou aliviada.
― Ora, ora, ora... — a voz carregada de ironia ecoou no corredor vazio, fazendo Everdeen se assustar — então a hippie certinha também foge da reunião do Grêmio?
Katniss fechou os olhos por um segundo, tentando controlar a respiração.
Ótimo. Ele estava ali.
Virou-se lentamente.
Peeta Mellark estava encostado na parede branca do corredor, braços cruzados, cabelos bagunçados, camiseta preta, expressão de quem se divertia com a própria crueldade.
― Olá, Peeta! — Katniss murmurou, exausta.
Ele sorriu daquele jeito torto, quase predatório.
― Você demorou hoje, sabia? — comentou, mordendo o canto do lábio como se segurasse o riso. — Cheguei a torcer pra não vir.
― Eu não desistiria tão fácil — Katniss rebateu, franzindo a testa.
Os olhos azuis dele se estreitaram.
― Então, por que está indo embora? Há algo de errado com você... — murmurou com falsa curiosidade — Fugindo da reunião. Cadê suas roupas que gritam paz, amor e maconha?
Foi como um tapa.
Katniss sentiu as bochechas queimarem e a garganta apertar.
― Eu não uso maconha... — A voz saiu trêmula apesar de tentar disfarçar. Os olhos pinicaram.
Peeta ergueu as mãos teatralmente.
― Pelo amor de Deus, não começa a chorar. Foi brincadeira — debochou, sem uma gota de remorso. — Você é pura demais pra isso. Tipo… exageradamente pura.
Ela piscou. Não sabia se aquilo era insulto, piada ou somente Peeta Mellark sendo cruel.
― O que quer dizer com isso? — murmurou, realmente magoada.
― Que foi um elogio, tá? — Peeta bufou. — Não precisa agir como se eu tivesse te empurrado de uma escada.
Katniss olhou para longe, engolindo a irritação.
― Tudo bem. Quando podemos começar as aulas? Mal nos falamos essa semana.
Ele deu um sorriso lento e preguiçoso.
― Que tal não começarmos coisa nenhuma? — sugeriu com um brilho sacana nos olhos.
― Não posso fazer isso, Peeta. O diretor me pediu pra te ajudar.
― Nerds e hippies me dão nos nervos — resmungou, como se aquilo fosse justificativa.
Finalmente, Katniss explodiu.
― Sabe o que mais me irrita? Você! Consegue ser babaca até respirando.
A voz saiu firme, ríspida, ferida.
Peeta fingiu levar um choque, colocando a mão no peito.
― Uau! Olha só. Katniss Everdeen com raiva. Tô até emocionado.
Ela respirou fundo, tentando não chorar. Com qualquer emoção forte — fosse tristeza, raiva ou frustração — sempre desabava. Mas não permitiria que isso acontecesse na frente dele. Nunca.
Ficou quieta. O silêncio poderia ser a melhor arma — ou pelo menos, o último escudo que tinha.
Peeta andou, passando por ela. A respiração quente e impaciente roçou o topo da cabeça da garota. Os coturnos ecoaram alto pelo chão, numa irritação tão evidente quanto o olhar furioso que ele lançou antes de bater a porta atrás de si.
A madeira tremeu.
Katniss também.
— Ótimo… — sussurrou para ninguém.
Ele provavelmente a odiava.
Ela também não estava muito longe disso.
E aquilo jamais funcionaria.
Não haveria estudo, tutoria ou qualquer outra coisa.
Eles eram opostos — mas não o tipo de opostos que se equilibram e sim os que se destruíam.
Na vida real, opostos não se atraem.
Não há Lei de Coulomb para salvar algo que sequer havia começado.
Ali, havia apenas um garoto acostumado a ferir e uma menina que sempre sentia demais.
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