Waves

5 Capítulo Cinco


Sábado, noite

― Onde você estava? – Plutarch questionou o rapaz que chegava em casa. Tentava ao máximo manter um bom relacionamento com o filho, entretanto, não havia sucesso. Peeta fazia o máximo para se fechar no próprio mundo, conversava somente com Prim – ela era a única que conseguia baixar a guarda dele.

Plutarch detestava admitir, porém, além do sobrenome, dos cabelos loiros e olhos azuis, o filho havia herdado também a teimosia.

― Adianta responder? – O garoto retorquiu colocando o molho de chaves numa prateleira ao lado da porta de entrada.

― Peeta, já passa da meia noite. Onde você estava? – Insistiu.

― Fui dar uma volta – O rapaz deu de ombros.

― Volta? – Repetiu de forma debochada.

― Isso aí – deu de ombros, caminhando em passos lentos em direção a escada.

― Espere aí, mocinho. Ainda não acabei. – Plutarch bradou de forma autoritária. Peeta revirou os olhos, odiava voltar pra casa nos dias em que o pai estava de folga, pois sabia que ele estaria o esperando para dar algum esporro. Por esse motivo, só voltava depois de um dia cheio, que resultava em ir até a casa de Thresh jogar vídeo game, ir até o Amoeba Music ou ir para os bares jogar sinuca – Não quero mais saber de você voltando tarde da noite.

― Eu sempre volto tarde – Respondeu – Você estando em casa ou não.

― Não me interessa – expressou – tá de castigo e pronto.

― Uau, o que eu fiz dessa vez, papai? – Indagou com deboche.

― A escola me ligou dizendo que Cato está envolvido com drogas – Retrucou.

― Meu irmão faz merda e a culpa é minha? Faça-me o favor, Plutarch – Objetou com raiva – Cobre isso dele, não de mim.

― Vocês são gêmeos, devem partilhar segredos. E você não me contou nada disso.

Peeta riu de forma ácida.

― Cato é grandinho o suficiente para fazer o que bem entender. Foi-se o tempo em que partilhávamos segredos, já não somos crianças – Explicou.

― De qualquer forma, você não me disse – Replicou apontando o dedo indicador para o rapaz – Por isso está de castigo.

― Você nunca ligou pros teus filhos e agora, quer dar de bom pai? – Peeta mordeu o lábio inferior segurando o riso sarcástico.

― Enquanto morarem debaixo de meu teto, me devem satisfações.

Peeta observou o homem a sua frente com raiva.

― Grande coisa – deu de ombros – não me importo nenhum pouco.

― Vai passar a se importar. É de casa para a escola e da escola para casa. Nada de ir a show, bar e casa de Thresh. Nada de carro e Harley Davidson. Somente escola e casa, entendeu?

― Ah, qual é? – resmungou – Tudo isso por que Cato é drogado?

― Não, não é só isso – deu um mínimo sorriso – fiquei sabendo que está tendo notas baixas na escola.

― Não acredito que aquele velho decrépito falou sobre mim – praguejou.

― Velho ou não, ainda é seu diretor! Tenha mais respeito – Deu de ombros, a fim de provocar o garoto, que somente revirou os olhos.

― Já acabou? – arqueou as sobrancelhas.

― Espero que estejamos entendidos, Mellark – Lançou um olhar oblíquo.

― Relaxa, Plutarch, entendi – deu tapinhas nas costas do pai, subindo as escadas.

― Que bom que entendeu, pois vou querer uma cópia semanal da sua ficha de presença na escola – deu um sorriso largo – Boa noite, filho.

― Vai sonhando – respondeu já no topo da escada, rumando para o quarto, que ficava na segunda porta do corredor. Único ponto de refúgio e paz. Jogou a mochila em qualquer canto do quarto, enquanto fechava a porta. O cômodo estava muito mais pra desorganização do que baderna. Livros espalhados pela escrivaninha, roupas de cama bagunçada e alguns casacos em cima de uma cadeira, além dos mais variados pôsteres de banda – desde The Smiths, Sex Pistols, The Clash, Pink Floyd, Led Zeppelin e The Beatles. Jogou-se na cama, observando o teto, repassando os acontecimentos do dia.

Thresh. Escola. Sinuca. Vídeo Game. Katniss.

Maldito nome, pensou, enquanto retirava os coturnos do pé e jogava em um canto qualquer. Sentiu o celular vibrar, retirou o aparelho do bolso do jeans rasgado, atendendo a ligação sem mesmo ver quem era do outro lado da linha.

― Fala. — Peeta murmurou, sem ânimo nenhum.

― Que isso, Peeta... — Thresh soou exasperado do outro lado da ligação — pela sua voz, dá pra ver que tá tudo errado aí.

― Tá tudo ótimo. — Peeta riu, mas foi um riso curto e sarcástico. — Só estarei de castigo pelos próximos meses. Maravilhoso.

― Castigo?! Como assim? — Thresh gritou.

― É. — Peeta revirou os olhos. — Meu pai descobriu que minhas notas tão uma merda.

― Que infer... ah, droga, morri! — barulhos de socos e tiros se misturaram na chamada.

― Ótimo! — Peeta resmungou. — Eu tentando desabafar e você aí jogando. Obrigado, viu?

― Calma, cara! — Thresh gargalhou. — Tô numa ranqueada de CS:GO.

― Por que diabos me ligou se tá na ranqueada do CS?! — Peeta chiou.

― Caralho, mano! Hoje você tá impossível, hein? Tudo isso por causa do teu pai?

Peeta ficou em silêncio por um momento.

― Quem dera fosse só isso... — murmurou.

Thresh ficou quieto, mas só por dois segundos.

― Ah... já sei. — o tom dele ficou maroto. — Isso tem a ver com a Everdeen, né?

Peeta fechou a cara.

― Infelizmente. Aquela menina é um porre. — A lembrança dela na saída da escola o irritou de novo.

― Mano... Olha... — Thresh disse, e logo depois mais barulhos de tiro. — Ah, mas vai tomar no... morri de novo!

― Dá pra parar de jogar e falar? — Peeta perdeu a paciência.

― Tá bom, tá bom! — Thresh riu. — Saí da ranqueada. Pronto. Conte-me seu drama, princesa.

Peeta bufou.

― Vai se ferrar, cara.

Thresh respirou fundo. Era muito sincero.

― Mano... Já que você tá de castigo, por que não aproveita e pede ajuda pra Everdeen?

― Você ficou maluco? Nem ferrando!

― É sério. — Thresh insistiu. — Você não tá zangado com ela. Tá zangado com você mesmo, com seu pai, com as notas, seu irmão e aí desconta nela.

Um silêncio incômodo.

― E cá entre nós... — Thresh completou — você tá sendo chato.

Peeta arregalou os olhos.

― O quê?

― Um completo otário, Peeta. — Thresh disse sem rodeios. — A menina não tem culpa de porra nenhuma e você trata ela como se tivesse. Para, velho. Vai pegar mal até pra você.

Peeta ficou mudo por alguns segundos, irritado e atingido.

― Nem vem, Thresh. — tentou cortar.

― Não! — Thresh retrucou. — Cê precisa ouvir isso. A Katniss é de boa, mano. É calma, bonita, paciente e tenta ajudar todo mundo. Você fica provocando ela como se fosse o Cato numa versão paraguaia.

Peeta bufou, mordendo o lábio.

― Eu não...

― Ah, pelo amor de Deus! — Thresh interrompeu. — Eu te conheço! Você provoca porque ela te deixa desnorteado e odeia admitir que tá ferrado sem ajuda.

Peeta quis desligar ali mesmo.

― E outra coisa... — Thresh continuou. — Você sabe que não vai conseguir enrolar seu pai para ir nos shows de rock no fim do ano. Vai precisar das notas. E ela é a única pessoa que pode te ajudar.

Peeta sentiu a derrota pesar nas costas.

― É, sei sim... — suspirou.

― Então aproveita a vibe, mané. — Thresh debochou. — Pede ajuda pra garota e para de ser burro.

― Eu não vou fazer isso.

― Beleza. — Thresh disse indiferente — Quer continuar de castigo?

― Não! — Peeta se exaltou.

― Então, cai dentro. Aproveita enquanto ela ainda aceita te aturar. Não vai durar pra sempre, não.

Peeta rosnou:

― Inferno!

― Vai lá, mano. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

― Muito engraçado. Dispenso.

― Então tá. Depois não diz que eu não avisei. — Thresh finalizou. — Vou voltar pra minha ranqueada. Falou!

A ligação caiu antes mesmo de Peeta pensar em responder.

Ele jogou o celular na mesa com força.

Respirou fundo. Ou tentou.

― Peeta? Você tava brigando com quem? — uma vozinha infantil ecoou da porta.

Peeta levantou a cabeça. Prim, de pijama, cabelo emaranhado e olhos sonolentos o observava com preocupação.

― Não tava brigando com ninguém, Prim. — ele suavizou a voz imediatamente, como sempre acontecia com ela.

― É que ouvi você bravo. — ela encarou o chão.

― Eu só tava conversando com o Thresh. — Peeta sorriu de lado.

― Hm... — ela murmurou, ainda envergonhada.

Ele franziu a sobrancelha.

― Aconteceu alguma coisa, meu amor?

― Eu tive um pesadelo. — Prim confessou baixinho. — Posso dormir com você?

― Claro que pode. — Peeta abriu o cobertor e ela correu para a cama.

Ele a abraçou com cuidado.

― Quer me contar o sonho?

― Não. — ela disse, manhosa. — Só quero dormir.

― Tá bem. — ele sussurrou, ajeitando o cobertor nos ombros dela. — Boa noite, florzinha.

Prim dormiu rápido, tranquila.

Peeta, porém, ficou acordado, encarando o teto.

Detestava admitir, mas Thresh tinha razão.

Katniss não tinha culpa de nada.

Teria que pedir ajuda pra garota que ele com certeza havia machucado.

Inferno.

Se isso o tirasse do castigo e salvasse as péssimas notas, seria uma boa oportunidade para se ver livre dos comandos do pai.

Suspirou, começando a torcer para que Katniss o perdoasse.