Water

1 Um peixe cai na minha rede


Notas iniciais
a long nova que eu tinha prometido

Capítulo 1:

Um peixe cai na minha rede

mais literalmente do que eu gostaria


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Oi, meu nome é Yuu. Eu não tenho namorado.

Sou gostoso demais pra todos eles.


Mentira, ninguém me quer mesmo.


Eu moro numa cidadezinha litorânea onde ainda não inventaram a roda. É uma merda, mas eu gosto.


Além de passar o dia trabalhando, a única coisa que eu gosto é a praia. Não tem coisa melhor que passar o dia surfando. Mesmo que meus colegas riam da minha cara e digam que eu sou velho demais pra isso.

Quer saber de uma coisa?


Problema é deles.

Podem ir tudo pro inferno que eu não vou nem sentir falta.

E eu não sou velho porra nenhuma.


Então, todo final de semana lá estou eu, com minha velha e maravilhosa prancha de surf preta lustrosa cortando ondas. Às vezes até acabo juntando uns admiradores que ficam na areia me assistindo. É difícil eu admitir isso então não conte pra ninguém, mas adoro me exibir.


Eu tenho uma casa linda, um trabalho fixo bem remunerado e um bom vibr-... Esquece.

A única coisa que eu queria era um macho pra mim. Só isso. Não é pedir demais, né? Um namorado lindo e romântico que me mimasse e me batesse na cama… Esquece essa parte também.


Mas safra andava muito difícil... há uns dois anos.


Mais um motivo pra eu ir pra praia exibir pro mundo meu corpinho delicioso e ver se conseguia fisgar algum peixe desprevenido pra levar pra casa.


Eu nunca teria como saber que esse sábado em questão mudaria minha vida.



Como todo final de semana ensolarado, eu acordei pelas 13h e estava me lambuzando de protetor solar. Depois de um café da manhã muito nutritivo de pizza requentada.


Minha casa ficava a uma quadra da praia, era realmente prático. Peguei minha amada prancha, uma toalha e saí porta à fora, saltitante.


Segui reto pela areia fofa e fina, parando apenas para largar minha toalha e óculos de sol no canto de sempre, e adentrei as ondas.


Como o mar estava parado demais pro meu gosto, nemmedeiotrabalhodeficardepéemcimadaprancha, apenas continuei andando atéchegarnaparte mais calma, atrásdeondeasondasseformavam.


É, eu ando meio preguiçoso, mas e daí. Falta de homem dá nisso.


Fui até onde meus pés ainda alcançavam o chão e ali fiquei, cruzando os braços sobre a prancha que flutuava e deitando a cabeça neles. Tão tranquilo que eu estava ficando com sono. A água refrescante estava na altura do meu pescoço, ondulando levemente. Era uma sensação estranha a de estar completamente dentro da água, e eu adorava isso.


Decidi ficar por ali mesmo, descansando. Era rotina eu passar o fim de semana na água até murchar, todos da vizinhança sabiam que eu estaria ali se quisessem me procurar. Só que normalmente eu estaria surfando seduzindo geral.


Fazia alguns minutos já que eu estava devaneando pensando num dorama gay que assisti na última semana, quando abri os olhos novamente e quase tive um ataque do coração.


Olhos curiosos me encaravam. Havia um homem parado na minha frente, do outro lado da prancha, e eu nem havia percebido ele se aproximar.


Levei um susto e ergui minha cabeça rapidamente, o assustando também. Ele recuou um pouco, mas continuou me encarando.


Agora vamos parar por um momento e me permita descrever aquele ser.

Ou talvez não, mande alguém me bater porque eu vou começar a falar e não parar nunca mais.


Primeiro: eu dava


Isso já resume uma boa parte do que eu estava sentindo naquele momento.


Ele estava imerso dos ombros pra baixo, assim como eu, mas: sua pele era incrivelmente lisa e firme, a linha de seu rosto era forte, o que contrastava com os lábios...


Ah, os lábios.


Alguém me segure pelo amor da minha sanidade.


Seus lábios eram fofinhos e arredondados, mas completamente únicos, pois o superior era praticamente inteiro, como um trapézio. Algo difícil de explicar com palavras, mas digamos que parecia um bico de cisne.


Seus olhos puxados eram castanhos e quase mágicos, pois prendiam toda minha atenção. Era um olhar felino, desafiador, atrevido, não sei, uma mistura de tudo isso. Além de permanentemente curioso.


Seu cabelo estava inteiramente molhado, colado em seu rosto, mas aparentava ser castanho ou loiro. Se havia um homem perfeito certamente era ele. Masculino e sexy na medida certa.


Concluindo: eu queria levar ele pra minha casa imediatamente. Dou comida e roupa lavada também.


Queria ver o resto de seu corpo quando ele saísse da água, queria ouvir sua voz, vê-lo sorrir, sussurrar em meu ouvido, queria tudo e mais um pouco. Se existe amor à primeira vista é algo parecido com isso. Ou tesão a primeira vista também, já que aquele olhar bastava pra me deixar nervoso.


Perceber isso me deixou mais nervoso ainda. Quebrei nosso silêncio com um gaguejo.


–O-Oi...


Ele arregalou os olhos e deu mais um passo pra trás.


–Ei, espera, desculpa...! – Chamei-o de volta, com medo que ele fosse embora.


Ele parou, sem desviar de meu olhar nem por um momento, e aos poucos voltou a se aproximar.


–... Oi... – Sua voz grave hesitante acariciou meus ouvidos.


No mínimo eu havia dormido naquela hora, me afogado e morrido, e estava no paraíso agora.


–Desculpa eu não vi você se aproximar... – Falei, sem graça. Ainda tinha os braços cruzados sobre a prancha. Ele se aproximou mais um pouco e colocou suas mãos sobre ela também.


Ah, aquelas mãos em meu corpo, eu já podia sentir...

…Calma Yuu. Assim vou ter que sair da água segurando a prancha na frente escondendo certa protuberância.


A não ser que aquilo fosse resolvido ali mesmo.


Yuu, sério, para com isso. Coitado do moço o que deve tá pensando de mim com essa cara de perdido dele.


–Eu... eu te assustei...? – Sua voz era rouca como se ele não falasse há algum tempo.


–Não, não foi nada! Eu só achava que estava sozinho...


–Aqui não é muito fundo pra você? – Ele perguntou.


Tá me chamando de baixinho?


–Não, aqui é ótimo. Pode me chamar de Yuu. Eu nunca te vi por aqui, você é novo na cidade? – Deixei minha ansiedade aflorar, com um sorriso.


Ele sorriu também.


–Uruha. – Respondeu. – Conversar com você me deixa feliz, Yuu.


Foi como se um tijolo tivesse me atingido, por que simples palavras combinadas com o sorriso mais lindo do mundo me deixaram assim?


–Obrigado... eu também não tenho muitos amigos... então, o que você faz? – Continuei nossa conversa tão casual tentando não demonstrar meu desespero emocional.


–Eu gosto de nadar...


–Hmm, nadar é legal, mas não é meio perigoso no mar...?


Ele franziu o cenho.


–Onde mais eu nadaria se não fosse no mar? – Perguntou quase indignado.


–Tem razão, seria bom se a gente tivesse um clube com piscina por aqui... –Afirmei pensativo, ele olhava ainda confuso pra mim. – Vai fazer alguma coisa hoje de noite?


Arrisquei. Ou apenas escapou. Era agora ou nunca.


Ele continuou em silêncio, agora com os cotovelos em cima da prancha também, o rosto mais perto do meu, como se me analisasse.


–Além de dormir?


Ri do seu jeito simplista e sincero, quase... ingênuo.


–Antes disso. Pensei se não gostaria de, sei lá, sair comigo, ir jantar em algum lugar, eu ia adorar sua companhia.


Sua expressão se diluiu, ficando triste no mesmo segundo.


–Me desculpe, eu não posso.


–Ah... – Não pude controlar minha desolação. – Tudo bem, outro dia quem sabe?


–É, quem sabe... – Falou baixinho, pela primeira vez olhando pra água, e não pra mim. – Yuu... você vai vir amanhã também?


–Vir?


–É, pra água. — Sua beleza me hipnotizava. Por mais estranhas que fossem as coisas que ele falava.


–Se você estiver aqui pra gente conversar mais. – Ele sorriu abertamente ao ouvir minhas palavras e eu fiquei sem jeito.


–O repuxo está ficando mais forte, é melhor você ir mais pro raso. – Do nada ele olhou meio preocupado em volta e empurrou a prancha em que estávamos apoiados, me levando um metro pra trás, pra mais perto da terra firme.


Percebi que seu cabelo estava secando, revelando um loiro-mel maravilhoso, quase ruivo.


–Que tal a gente sair agora, então? Minhas mãos já estão ficando murchas... – Brinquei, mas ele pareceu desapontado de novo.


–Se você quer então é melhor sair. – Seu tom foi tão conformista que eu fui praticamente ordenado a ir embora.


Fiquei desamparado diante da mudança e do fora que eu acabara de levar.


–E você?


–Vou ficar. – Simples assim. – Você vai e eu fico...


–Nos vemos amanhã? – Perguntei, receoso. – Vou esperar ansiosamente.


Ele podia ser meio louco e estranho, mas eu queria conhecê-lo. Como eu já estava esperando, ele sorriu de canto, daquele jeito sensual que fazia.


–Combinado então, até mais, Uruha. – Observei ele ficar meio bobo ao ouvir eu dizer seu nome.


Conversa anormal aquela, mas... eu estava muito empolgado com aquilo. Tinha certeza que ele apareceria amanhã.


E de fato apareceu.



•••



O que diabos o sujeito estava fazendo na água em pleno domingo... de manhã?

Ok, eu também estava ali, mas... Estava esperando que ele aparecesse só de tarde, na mesma hora que ontem.


Depois de ir pra casa pensando nele, tomar banho pensando nele (não, não desse jeito), morrer de tédio pensando nele e ir dormir pensando nele, já estava até duvidando da sua existência e talvez eu tivesse imaginado nosso improvável encontro.

Sem aguentar de ansiedade dentro de casa, decidi ir pra praia mesmo, e matar o tempo lá.


Mas realmente foi uma surpresa ver sua cabeça loira lá longe.


Dessa vez vim só eu mesmo, com meu corpinho gostoso que eu esperava que o interessasse, e duas cadeiras que ajeitei na areia.


Ele não me viu, mas eu estava parado vendo ele nadar pra lá e pra cá, até que mergulhou.


Passaram cerca de quatro minutos até eu perceber que ele não voltou a emergir.



MEU DEUS, CORRE YUU, CORRE.


Saí desesperadamente lutando contra a água e nadando até onde ele havia desaparecido, gritando.


–URUHA! URUHA! – Comecei a entrar em pânico, ele não surgia em lugar nenhum, e já fazia tanto tempo.


Mas quando o chamei, apareceu do nada, há alguns metros de onde eu estava com o coração na mão.


–Yuu! Você veio! – Ele sorria, água escorrendo por seu rosto.


–Você que me matar desse jeito? O que estava fazendo? – Por que ele não estava nem sem fôlego?


–Por que você está gritando? – Ele me olhou confuso.


–Porque eu fiquei preocupado com você, obviamente! Como você aguentou tanto tempo sem respirar?


–Mas eu estava respirando!, não entendo... Ah, é mesmo, vocês não podem... desculpe por ter te preocupado...


Ele tinha algum problema mental, só podia.


–Vem, sai da água, eu fiquei com medo agora, vamos sentar um pouco lá na areia, trouxe cadeiras pra nós. – Procurei seu braço em baixo da água e o segurei, tentando puxá-lo.


–Não, eu não posso.


–Claro que você pode, vamos!


–Yuu, eu não posso sair da água.


–É? E posso saber por quê?


–Acho que pode. Afinal, você é o único humano que... bem... – Ele parecia estar falando sozinho agora. – Uma hora ou outra você ia descobrir.


Com essas palavras enigmáticas ele se aproximou de mim, quase colando meu peito no seu, segurou minhas mãos, e as colocou em sua cintura, com as suas por cima.


Nem tive tempo de morrer e ele começou a deslizá-las pra baixo. Eu sentia cada centímetro de sua pele nua em meus dedos que ele apertava contra seu corpo, ele deslizava, suas escamas...


Espera.


Espera um minuto aí.



Escamas?



Meu rosto deve ter ficado branco. Ele apenas me encarou compreensivo, continuando o caminho, fazendo minhas mãos descerem por seu corpo... que já não era mais um corpo. Onde deveriam ser suas pernas eu sentia algo como um peixe gigante.


Não sei como eu não desmaiei.



Então sereias existem?



Eu devo ter ficado paralisado por uns dez minutos, no mínimo. E com as mãos ainda em seu... corpo. Se é que dava pra chamar aquilo de corpo.


Puta que pariu, pode isso? Uruha era um... sereio? Um peixão escorregadio?


Claro, nunca que um ser humano normal ia vir falar comigo.


E isso explicava as coisas aleatórias e estranhas que ele falava.

E então era por isso que ele não podia sair da água...


Agora foi minha vez de ficar decepcionado.


–Meu deus... meu deus... eu não acredito... que é possível... — Gaguejei, sem saber como reagir. — Pode vir um pouco mais pro raso pra... pra eu ver...?


Ele concordou com a cabeça e flutuou alguns metros até onde a água era mais clara, parando meio deitado, de barriga pra cima. Pude ver sua cauda azul elétrico, brilhante, esticada. Da cor de uma guitarra que eu tinha jogada no canto do meu quarto. A ponta era como a de um peixinho dourado, bifurcada e fina, transparente, tão frágil. Devia ter quase dois metros no total.


–Eu não sei o que dizer... — Falei ainda abismado, enquanto ele voltava a ficar na vertical.


–Você não tem... medo de mim? — Ele perguntou, receoso.


–Se você não atrai homens pro fundo do mar pra comer eles depois, não. — Ri. Nervoso.


O silêncio voltou a se instalar por um longo tempo. Eu, completamente perdido, não fazia a menor ideia do que aconteceria agora.


–Então, você vem falar com humanos de vez em quando...? — Tentei iniciar uma conversa.


–Não. Você é o primeiro humano com quem eu já falei. — Respondeu com seu ar calmo e “ :3 “ de sempre.


Por que eu? Preconceito comigo só porque eu sou preto?


–Hm... — Concordei, mas o que queria dizer era “Tá, e agora? Qual é o sentido disso tudo?”. — Mas como você sabe japonês então?


–Eu posso me comunicar e entender qualquer língua...


Isso era um sonho tosco e idiota, só podia.


–E você... tem... família? — Arrisquei. Aliás, eu não fazia a mínima ideia de como sereias nasciam. E também não quero saber. — Mora onde?


Seu olhar caiu. Percebi que tinha tocado em algum ponto delicado e tentei consertar.


–Então, o que você gosta de fazer?


–Eu gosto de nadar. — (É só isso que ele sabe dizer?) Voltou a se animar um pouco. — Ir bem longe no oceano, bem fundo e depois voltar...


AIAIAI.

Não fala assim querido. Já pensei besteira.

Bem fundo, é? Gostei, muito bom.


–E o que mais...?


–Acho que isso. Também gosto de ficar olhando você, quando vem aqui. — Sorriu, simplista como sempre.


Se eu não estivesse dentro da água, teria corado.


–S-Sério? Há quanto tempo? Por que nunca apareceu antes? — Que vida divertida e animada deve ser essa.


–Eu não tinha certeza... — Comentou, mas aparentava estar falando consigo mesmo e não comigo.


–Eu não entendo, por que você veio falar comigo...? Eu não posso te levar pra fazer nada... e você... nem é humano...


–Você não gosta de mim... — Constatou, o sorriso desaparecendo lentamente. — Eu sei que eu sou nojento perto de você, me desculpe. — ...? — Por favor, me desculpe Yuu, eu não te incomodo mais...


Em um segundo ele mergulhou e desapareceu, a água se agitando com força contra minha pele.


–Droga, Uruha, volta aqui! — Resmunguei, mas sabia que ele já estava bem longe agora.


Mas o que foi que eu fiz?


Culpa dele que era uma sereia fresca sentimental.


Ele devia ser tipo aqueles bichinhos mágicos das histórias infantis, feito de pureza e amor pela mãe-natureza e blábláblá, então não tinha como entender as coisas direito. Ou era meio burro mesmo.


Que foi que eu disse que ofendeu ele mesmo? Sério, eu não lembro. E ele nem me deu tempo de pedir desculpas.


Mas tudo bem era só um sonho mesmo. Logo eu acordo e vou rir disso pro resto da vida.


Infelizmente, não foi um sonho. Só o começo do pesadelo que seria

levar um peixe pra casa.


Nos três dias seguintes, eu saía do trabalho e ia pra praia, chamando por seu nome, esperando que aparecesse. Em vão.


Comecei a ficar frustado. Devia ter sido tudo minha imaginação então. É, isso mesmo. Eu andava tão carente que meu inconsciente criou um sereio imaginário apaixonado por mim. Pronto, tudo resolvido agora.


Beleza de imaginação a minha, cria um cara perfeito mas que nem pode me comer.


No fim, nunca ninguém me queria. Nem um maldito ser das trevas das profundezas do oceano me aguentou por muito tempo. Ok, eu não me importo, eu supero essa também, só preciso ter uma conversinha com 10kg de chocolate maciço e tudo se resolve.


Não.

Eu vou é fazer um churrasco, tomar uma cerveja e dar uma surfada. Com sorte eu tenho uma indigestão, cãibra, tomo um caldo e morro afogado, e assim talvez minha vida fique menos chata.


Na verdade, acabei fazendo isso mesmo. Teoricamente. Tudo muito bastante devidamente macho. Nada de filmes românticos de madrugada Yuu, você já passou dessa fase.


O churrasco foi uma porção de takoyaki do velinho da esquina e a cerveja um tampico que eu achei na geladeira. Não que eu fosse pobre, sou só preguiçoso e desmotivado mesmo. Foi uma janta bastante saudável até, porque eu geralmente acabo em Mc Donalds e tele-entrega em dia de semana.


Fim de semana eu faço um grande esforço pra ir até o mercado comprar rámen instantâneo e comida congelada.


Só não contem isso pra minha mãe ou ela se muda aqui pra casa pra cozinhar pra mim.


Comi e comecei a ficar depressivo. Todas minhas decepções amorosas e rejeições dançando na minha mente e rindo de mim. Decidi realmente pegar minha prancha e ir pra praia esfriar a cabeça. Mesmo que já fosse noite.


Mesmo que estivesse chovendo.

Foda-se.

Foda-se que eu tinha que acordar cedo pra trabalhar amanhã também.


Entrei no mar incrivelmente gelado e fui andando contra as ondas fortes que batiam em mim. Mas eu já estava encharcado pela chuva mesmo. Deitei na prancha e segui batendo os braços me levando até onde as ondas mais fortes estavam se formando.


Pronto, agora eu podia descontar qualquer tristeza. Qualquer coisa que estivesse me irritando.


A praia estava deserta e a luz de meia dúzia de postes iluminava a areia, ao longe.


Eu não percebi que havia perdido o controle até que a prancha quase me escapou. Chovia cada vez mais forte e eu já não enxergava direito. Foi aí que vi que já estava muito no fundo e o repuxo me arrastava cada vez mais pra trás. Permaneci deitado me agarrando à prancha tentando não entrar em pânico.


Eu e minha boca grande dizendo que seria mais interessante se eu morresse. Agora talvez eu morresse mesmo.


Lutei com todas as forças pra nadar pra frente, sem resultado. Continuei no mesmo lugar sendo chacoalhado pela força da água.


Uma onda gigantesca começou a se eguer atrás de mim e eu tive certeza que não ia sobreviver. Tentei fugir. Ela quebrou bem em cima de mim, estrondosamente, e minha prancha escapou e sumiu enquanto fui soterrado por litros e mais litros de água.


Jogado de um lado pro outro, rolando em baixo da água violentamente, eu não sabia mais nem em que direção ficava a superfície.


Até que me choquei com força contra uma parede de rocha.

Pronto, agora sim eu vou morrer. Se bater com a cabeça naquele lugar, adeus.


Consegui pegar um pouco de ar, mas engoli um pouco de água salgada no processo e quase sufoquei. Outra onda desceu com tudo e fui afogado novamente. Em direção às rochas.


Contei os segundos para o baque.

Meus últimos momentos de vida.

Adeus mãe, pai, vibrador, filmes pornô. Foi bom enquanto durou.


Se eu me arrependo de alguma coisa?

Devia ter tomado aquele toddynho que também tava na geladeira.



Quanto tempo vão levar pra achar o meu corpo?

Quem vai sentir minha falta primeiro?



Bem, ainda não vou ficar sabendo disso, pois fui envolvido por braços fortes e levado rapidamente para o lado contrário da morte certa.


Se eu não estivesse embaixo da água, teria respirado aliviado. Descobri que não queria morrer ainda. Eu era muito burro e queria aprender muita coisa antes disso. Queria comer mais também e fazer alguns amigos quem sabe. Passar uns dias de férias com minha mãe.


Fui largado de costas na areia molhada e gelada. Chovia na minha cara, mas o que eram gotas perto de ondas de 2 metros? Me segurei pra não chorar. Meu braço doía no lugar em que havia me batido na pedra.


Abri os olhos.

Debruçado sobre mim, o rosto tão perto do meu, estava meu salvador. Meu anjo da guarda.


–Uruha...


–Yuu, você tá bem!? Me desculpe, eu demorei, me desculpe...!! — Ele quase gritou comigo, aflito, eu via medo e alívio mesclados em seus olhos.


–Uruha... você não pode sair da água... — Falei preocupado e minha voz saiu rouca. Me apoiei nos cotovelos, erguendo meu tronco. Uruha se afastou um pouco, sentando ao meu lado.


–Eu nunca tinha tentado... — Falou baixinho olhando pra baixo. — Mas pelo visto eu posso...


Terminei de me sentar na areia, olhando na mesma direção que ele.


Onde devia estar sua cauda gigantesca e azul, haviam... pernas.


Uruha tinha pernas. Com coxas lisas e roliças, devo acrescentar.

E o brinde que vinha no meio delas.


Me senti meio tonto e achei que fosse desmaiar.


Como assim? Eu tinha tocado nele, era um corpo de peixe, eu tinha visto também...!


Então... então... quando ele... sai da água...


–Uruha, você pode se transformar! Fora da água você é humano! — Comemorei, o coração acelerado.


Ele sorriu também, mas voltou a olhar pra baixo.


–Mas Yuu, o que que é isso...? — Perguntou curioso, apontando seu... seu... — Você também tem...?


Aí que me lembrei que ele estava nu.

Peladinho e molhado e bem perto de mim.

Não que qualquer adjetivo no diminutivo seja aplicável a ele.


Mas... mas...


Uruha, pelado, pelado, Uruha, pernas, pelado, Uruha, coxas, Uruha, Uruha, pode me comer, pelado, Uruha, na minha frente, Uruha, pelado, bug, pelado, pelado, pelado, 404 error not found, Uruha, pelado, pelado, We're sorry, Uruha, tem pernas, tela azul da morte, Uruha, pelado, Uruha, pelado, Uruha, crt+alt+del, pelado, Uruha, Uruha, Uruha, Uruha, enviar relatório de erros, Uruha, humano, pelado, over capacity, Uruha, fatal error, puta que pariu.



CALMA, CALMA YUU, INSPIRA, EXPIRA, ISSO. Normalidade estabilizada.



Sem esquecer o fato de ele ter voltado e salvado minha vida. Além de ter arriscado a sua saindo da água por mim.


–AAAAH, TIRA A MÃO DAÍ. — Alertei, olhando pro outro lado. -Sim, eu tenho, mas em casa eu te explico.


Levantei rapidamente, tirando meu calção, e ficando só com a boxer preta que eu estava por baixo.


–Coloca isso, vamos pra casa, rápido. — Olhei em volta pra ver se não tinha ninguém passando. Mas era tarde da noite e chovia então obviamente estava tudo deserto.


–Colocar? Eu não sei como... pode me ajudar? — Me olhou com olhos pidões, tão coitadinho, e eu fui obrigado a ajudar.


Segurei suas as mãos o puxando pra cima, mas ele teve dificuldade pra levantar. Tive que segurá-lo pelo tronco pra conseguir colocá-lo de pé.


Tudo isso evitando olhar para aquela área de qualquer jeito.


O loiro ficou equilibrado se segurando em meus ombros e eu segurei o calção aberto para que ele colocasse os pés dentro logo.


Estávamos sujos de areia, molhados, na chuva, no frio, mas eu nem percebia.

Com mais alguma ajuda minha, ele terminou de vestir a peça. Finalmente.


Imaginei que ele também fosse ter dificuldade pra andar.

Passei seu braço por meus ombros. Ele parecia muito ansioso e empolgado.


–Anda junto comigo. Uma perna de cada vez. Assim, tá? — Andei um passo e ele me imitou, cambaleando um pouco.


Ele era mais alto que eu. Comemorei internamente.

Todo aquele tempo eu ficara me segurando pra não encarar indiscretamente seu corpo, seu abdômen. Mas agora que o estava ensinando a caminhar, tinha desculpa pra ficar olhando.


E, meu amigo, não vou nem comentar sobre aquele corpo.

É mais do que eu poderia descrever.

Totalmente desprovido de pêlos, além do cabelo e sobrancelhas. E tão magro e esguio que fez eu perceber que precisava fazer um regime urgente.


Depois de uns 10 passos lentos e bem dados, ele começou a pegar o jeito, e quando estávamos perto da porta de minha casa, ele já estava caminhando sozinho, sem precisar se segurar em mim. Sorrindo pra si mesmo. Aquele sorriso que me derretia.


–Você vai me contar tudo, ok?



Notas finais
sim, eu criei um Uruha sereia, me processem, to esperando
altas dorgas da tia hoku aqui meu povo :333
óbvio que o Uru não vai ser mongo desse jeito, ele vai formar uma personalidade mais humana conforme vai aprendendo ♥