Water
2 Dois quilos de sal
Notas iniciais
nome original da história: O não-tão-pequeno Sereio -n
desculpa não ter respondido todos os reviews meus amores ;-;
Capítulo 2:
Dois quilos de sal
E agora, que que eu faço?
Certo. Trouxe o peixe pra casa. Entramos, fechei a porta, e ele me olhava, atento. Até que fiquei surpreso pelo jeito que ele aprendeu rápido a caminhar.
Mas não consigo pensar direito. Deixa eu organizar as coisas.
1: Quase morri.
2: Ele me salvou.
3: Ele virou humano quando saiu da água.
4: Ele tá na minha casa.
Acho que antes de tudo a gente precisa é de um banho quente porque eu pelo menos estou congelando, só de cueca e encharcado da chuva.
–Hum... então... Uruha, essa é minha casa... sabe o que é uma casa, né? Eu moro aqui, tem meu quarto onde eu durmo, cozinha, sala, banheiro. — Vai saber se eu não tava ofendendo ele, talvez ele morasse numa caverna úmida cheia de enguias e seres rastejantes do mau. Enguias. Hm. Isso me lembra... Esquece.
–Entendi. Você mora sozinho? — Perguntou.
–Sim, só eu e... — Porra. — Só eu, já que perdi minha prancha hoje...
Nem tive tempo de lamentar a perda da minha prancha de estimação. Tinha acabado de lembrar da existência dela. Enxuguei uma lágrima mentalmente pensando em quanto eu teria que desembolsar pra comprar uma nova.
–Então, você precisa de um banho quente, ou vai ficar doente. Vem comigo, vou te emprestar umas roupas... tomara que sirva.
Andei até meu quarto e ele me seguiu. Separei uma calça de moletom cinza e uma regata preta. Pensei em fazer uma maldade, mas mudei de ideia e peguei uma cueca também. O banheiro fazia parte do meu quarto, então abri a porta ao lado do guarda-roupa e coloquei as roupas dobradas em cima do balcão da pia.
Agora. Seguinte.
Eu ia ter que dar banho nele.
Fodeu amigo, fodeu.
–Você nem sabe o que é tomar banho, né... — Suspirei mais pra mim mesmo do que pra ele. — Entra aí...
Abri o box do chuveiro pra ele. Ele entrou e eu tive que entrar junto, fechando a porta de vidro atrás de mim. Ainda bem que era suficientemente espaçoso. Meu banheiro era bem grande, ao lado do chuveiro tinha um ofuro. Onde caberíamos nós dois. Mas isso fica pra mais tarde.
Peguei a mangueira do chuverinho e liguei. Uruha estava calmo e em silêncio, parecendo concentrado observando tudo que eu fazia. Assim que a água esquentou, apontei a mangueira pra ele o molhei como se fosse um cachorro.
–Isso aí que você perguntou o que era... bem... é, eu também, tenho, mas... — O que diabos eu deveria dizer? — Tem que deixar sempre escondido, ok? E não colocar a mão. Na frente dos outros pelo menos. É feio.
Me senti um retardado ensinando uma criança. Eu falava enquanto molhava ele de cima a baixo pra tirar toda a areia grudada em seu corpo.
–Ok. — Concordou a cabeça. — Por isso você ficou nervoso, então? Desculpa, não vou fazer de novo. Vou deixar sempre escondido.
–Tudo bem, você não tinha como saber... — Eu evitava encará-lo enquanto erguia a mangueira molhando todo seu cabelo. Coloquei um pouco de xampu na palma de sua mão e disse para ele passar no cabelo, massageando. Ele fez tudo perfeitamente, e então enxaguei seu cabelo. — Pronto, acho que tá bom agora.
Peguei a toalha que havia pendurado ali e passei por suas costas.
–Agora você se seca com essa toalha e tira esse calção molhado. Pode deixar aqui no chão. Eu vou sair pra você colocar as roupas. Já sabe como fazer, né? — Ele concordou, animado. — Depois ajudo com a camiseta se precisar. Me chama quando acabar.
Saí do banheiro apressado, e fiquei esperando no meu quarto, encarando a porta encostada. Não ia fechar completamente, talvez ele se sentisse, sei lá, aprisionado. Logo ele apareceu na porta, um pouco constrangido, pedindo ajuda com a regata.
Tive que fazer ele se dobrar pra eu conseguir colocar. Eu tentava não pensar muito no que estava fazendo. Vestindo aquele criatura. Tive até que amarrar os cordões da calça, em volta daquela cintura... argh. Era um desperdício ele vestir qualquer roupa. E, aliás, ERA PRA EU TÁ TIRANDO A ROUPA DELE, NÃO COLOCANDO, PORRA, ALGUÉM ME BATE.
Mas... mas... ele ficou lindo depois de vestido, o cabelo molhado e cheiroso colado no rosto.
–Obrigado Yuu, agora já sei como fazer. — Agradeceu. Tão sincero. Tão... tão... fofo. Ah...
–Espera aqui enquanto eu tomo banho também. Esfrega a toalha na cabeça, pra secar o cabelo. — Mostrei como ele devia fazer e o deixei ali, entretido.
Peguei qualquer roupa e me tranquei no banheiro. Me lavei e me vesti rapidamente, com medo de deixá-lo sozinho no quarto. Vai que ele colocasse fogo na casa, nunca se sabe.
Quando finalmente saí, ele estava parado de pé no mesmo lugar, o cabelo já seco e arrumado e a toalha nas mãos. Não conseguia parar de pensar que ele parecia um cachorro, só faltava abanar o rabo e latir.
–Nossa, já é meia noite... — Gemi quando vi o relógio ao lado da cama. — Tenho que acordar cedo pra trabalhar amanhã. Hm...
O que eu ofereço pra ele comer? Sashimi? Whiskas sachê? Espera aí, mas isso não seria canibalismo?
–Hm... — Continuei, pensativo. — Você quer comer alguma coisa? Eu to com fome... que tipo de coisa você gosta de comer...?
–Ah. Nem se preocupe. Eu não como. Sei que você precisa se alimentar, mas, eu... vivo só de água. — Me contou.
–SÉRIO? Você só toma água? Que coisa triste... — Fiquei pasmo com a informação.
–Não, eu não tomo água. Eu consigo energia só de estar dentro da água. — Explicou.
–... Tudo bem então. Olha, você vai dormir na minha cama, certo? Eu vou dormir no sofá. Pode ir deitar agora, se quiser. Eu vou comer alguma coisa e ir dormir também. Tenho que acordar cedo amanhã, mas você pode ficar dormindo. Volto pra casa no fim do dia. Pode explorar a casa se você quiser. Hm, hã... eu...
Não sabia como dizer aquilo. Mas sabia que precisava dizer.
–O-Obrigado... obrigado por ter salvo minha vida... eu não sei como te agradecer... — Os orbes castanhos estavam fixos nos meus, encantados.
–Não precisa agradecer, Yuu, eu não fiz mais que meu dever. Eu fico imensamente feliz por você estar bem. Eu mesmo morreria se acontecesse alguma coisa com você... — Soou tão verdadeiro que eu quase acreditei. — Mas já que você disse que quer me agradecer... tem uma coisa...
JÁ SEI. Um beijo. Isso, um beijo, por favor, pede um beijo! Ou uma noite de sexo selvagem.
–Pode pedir, o que você quiser! — Incentivei, ele estava um pouco hesitante.
–Eu quero aprender a ser um humano, você pode me ensinar?
Meu queixo caiu. E outra coisa também. Mas enfim, a fofura dele compensava tudo. Coisinha adorável.
–É claro que sim! Pode ficar aqui o tempo que você quiser. Vou te ensinar e passar meu tempo livre com você todos os dias. — Anunciei orgulhoso, ele respondeu com um sorriso.
–Obrigado! Mas... a cama é sua... eu que devia dormir no sofá...
Eu não fazia ideia de como ele sabia o nome das coisas e entendia tudo se nunca tinha saído do mar e nunca tinha falado com humanos antes. Talvez aquele fosse seu plano secreto desde o inicio. Esconder o ouro de mim e inventar uma desculpa pra ir parar lá em casa. Tudo um plano maligno pra conseguir me comer e ganhar meu coração. Só podia, é.
–Para com isso. Eu não me importo. Pelo menos hoje, durma na cama. Depois a gente vê. — Puxei o lençol indicando o lugar onde ele deveria deitar. — Vou apagar a luz então. Boa noite, Uruha, até amanhã. Bons sonhos.
–Boa noite, Yuu. Muito obrigado por tudo.
Sorri de volta e saí do quarto, apagando as luzes e encostando a porta. Será que ele ia ficar bem? Será que ele pelo menos dormia?
Eu estava tão esgotado que não conseguia nem pensar mais. Só tomei o toddynho da geladeira (com uma imensa felicidade. Não tenho mais arrependimentos. Toddynho seu lindo tá tudo bem agora) e me joguei no sofá, caindo no sono imediatamente. Sem gastar mais um segundo tentando entender aquele sereio safado misterioso.
Acordei com a porcaria do celular tocando a música do despertador. Não, muito cedo ainda, Yuu quer dormir, Yuu quer bater a cabeça na parede até parar de doer, ah, socorro.
Sol invadia a sala de todos os lados. Maldição, eu havia esquecido de fechar as cortinas. Eu me sentia acordando depois de uma ressaca. Metade do meu corpo doía por causa do jeito nada correto que eu havia dormido. A luz cegava meus olhos como se a dor de cabeça já não fosse o suficiente.
Aliás, eu nem lembrava de por que eu tinha dormido no sofá. Me sentei, gemendo, resmungando, e vi que já eram sete horas.
Passei reto por meu quarto e fui direto pro banheiro, escovei os dentes, depois voltei e abri o guarda-roupa, escolhendo uma camisa.
–Bom dia Yuu!
...
…......................................................................................................................
.........................................................................................................................
.........................................................................................................................
.........................................................................................................................
.........................................................................................................................
.........................................................................................................................
.........................................................................................................................
................................................... . . .
AHHHHHHHHHHHHH. MEU CORAÇÃO.
–NÃO ME ASSUSTA ASSIM PUTA QUE PARIU. — Gritei horrorizado depois de bater a cabeça na porta do armário.
Uruha, o sereio, dormindo no meu quarto, eu tinha esquecido completamente. Cenas do dia anterior começaram a surgir na minha cabeça e logo tudo fez sentido.
O loiro me olhava assustado, sentado na cama.
–D-Desculpa... — Gaguejou.
–Não fica assim, desculpa ter te acordado, eu que tinha esquecido que você tava aqui... — Expliquei, a respiração acelerada ainda. — Bom dia Uruha...
–Não tem problema, eu já tinha acordado...
Terminei de vestir meu uniforme rapidamente, consciente de que ele estava assistindo.
–Você vai sair agora...? — Perguntou, levantando.
–Vou. E vou te deixar a primeira lição: assistir TV. Se você assistir uns filmes e uns programas vai começar a entender um pouco os humanos e as coisas idiotas que a gente faz.
–O que é uma TV?
Levei ele pra sala comigo.
–Isso aqui é uma TV. Televisão é o nome certo. Você liga ela nesse botão... — Apertei, mostrando. — E mexe por esse controle. Tem vários canais. Você escolhe qual quer assistir e senta no sofá. Daí você assiste.
Peguei minha carteira e chaves da mesa, enfiando no bolso, perto das algemas.
Ah. Acho que não comentei ainda sobre o que faço da vida.
Sou chefe da polícia local.
Pois é.
Sexy, né? Eu sei.
Difícil de acreditar? Então você não contava com minha astúcia.
Ganho bem, trabalho pouco, todo mundo me conhece e todos me amam.
–Certo... — Ele disse, sentando no sofá. — Você não vai comer nada antes de ir?
–Não, quando eu chegar lá eu tomo um café... agora tenho que ir... tchau Uru... — De onde saiu esse apelido íntimo já, hein senhor Shiroyama? Quem te deu permissão?
–Tenha um bom dia, Yuu. Eu tenho umas perguntas. De noite você me responde?
–Aham. — Concordei, abrindo a porta já. — Um bom dia pra você também. Desculpa não poder ficar com você logo no seu... primeiro dia de aula...
Ele balançou a cabeça veementemente (palavra estranha essa) dizendo que não tinha problema e que ele não se importava em esperar. E também... disse...
Ele também disse... disse...
–Vou ficar com saudades.
xxx
Como seria fácil de se imaginar, passei o dia todo preocupado com ele. Não exatamente com ele, na verdade, mas com alguma besteira que ele poderia fazer.
Na metade da tarde já estava me remoendo de arrependimento por tê-lo deixado sozinho. Depois me odiei por não ter ensinado-o a usar o telefone pra ele me ligar se precisasse e para eu poder ligar a cada cinco minutos perguntar se estava tudo bem.
Além de tudo isso, o que não saíra de minha cabeça até agora foi seu tom de voz ao dizer que ficaria com saudade. Seu olhar. Kyaah.
Será que ele realmente não comia? Isso era uma coisa tão... estranha... Bem, ele é um sereio porra, não tem nada sobre ele que não seja estranho.
Quando finalmente consegui me liberar para ir pra casa, saí quase correndo.
Chega de viadagem Yuu. Hora de voltar pra casa e dar um beijo no marido. Sendo otimista e não considerando a possibilidade de ele ter tocado fogo/ demolido/ saqueado/ destruído/ alagado minha casa.
Chave, carro, rua, quase atropelar alguém, estacionar, casa. Pronto, cheguei. Parei na frente da porta, respirando fundo antes de entrar. Estava tudo calmo do jeito que eu havia deixado. Tudo no lugar.
Na verdade, estava tudo exatamente do mesmo jeito de quando eu havia saído. Uruha, sentado no sofá encarando a TV muito concentrado, virou a cabeça rapidamente ao me ouvir abrindo a porta. Com um sorriso de boas vindas de desmanchar qualquer um.
–Yuu! Tadaima. — Me cumprimentou, levantando e vindo até mim.
Ele parecia um pouco diferente. Parecia um pouco mais atento e... vivo.
E, para minha enorme surpresa, ele se adiantou e me deu um abraço.
Eu não lembrava nem da última vez que me minha mãe tinha me dado um abraço.
Imóvel, sem saber o que fazer, ainda tentava me recuperar do choque. Uruha me soltou, me olhando meio de lado.
–O que foi? Eu não devia ter feito isso? Você não gostou? — Quase gemeu, temeroso de ter errado.
–N-Não é isso! Eu gostei sim, obrigado... — Sorri. Ou pelo menos tentei. Eu quase tremia, ainda assustado pelo gesto. E por seu toque. E pelo carinho presente nele.
Agora que podia respirar aliviado por estar tudo bem, percebi o quanto estava cansado. Queria me jogar na minha cama, acordar pra comer, e voltar a dormir depois.
Mas havia um detalhe: meu... hóspede. Eu ainda tinha que “dar aula” pra ele né? Argh. Se ainda fosse dar outra coisa eu nem reclamava.
Ele estava me olhando tão diferente de sempre que comecei a me arrepender profundamente de ter mandado-o assistir filmes. Chegava a dar medo só de pensar, vai saber que merda ele podia ter assistido, e o que poderia ter assimilado errado por causa disso. Sei lá. O Poderoso Chefão. Dragon Ball Evolution.
Ou, o mais perigoso de todos: A Lagoa Azul.
–Você tá diferente, Uruha. Se divertiu hoje?
–Sim, aprendi bastante! Descobri que só de ver filmes eu consigo entender todos os assuntos tratados pelos personagens... foi bem fácil. Humanos são interessantes. — Disse animado, cruzando os braços, orgulhoso. — Você parece cansado. Posso pedir uma coisa?
Qualquer coisa.
–Fala.
–Posso fazer a janta pra você...?
O quê...!?
–Mas você disse que não come! — Me indignei. — E nem sabe cozinhar.
–Eu não como, mas queria cozinhar pra você. Não quero te ver comendo só porcaria. E eu assisti um programa de culinária de manhã, confie em mim, me deixa tentar, por favor...! — Pediu tão sorridente que não tive que recusar.
A não ser que ele fizesse uma papa de areia, água salgada e algas, acho que ia dar pra comer.
–Tudo bem. Vamos ver o quanto você aprendeu hoje. Que ingredientes você precisa? — Já perguntei de uma vez porque sabia que eu não tinha quase nada cozinhável na geladeira.
Ele me entregou um papelzinho com uma pequena lista.
–Você que escreveu? — Arqueei as sobrancelhas. A caligrafia era perfeita. Cada traço de cada kanji, impecável. Parecia impresso.
–Uhum. — Concordou com a cabeça. O jeito que ele ficava sempre sorrindo, sempre feliz, me irritaria se não fosse um sorriso tão incrivelmente lindo.
Realmente ele aprende rápido. Eu nunca conseguiria escrever tão bonito assim.
–Ok, então eu vou ali no mercado buscar rapidinho e você cozinha pra mim enquanto eu tomo banho depois, combinado?
Ele não pediu pra ir junto mas acabei me sentindo um pouco culpado por não ter o levado. A única coisa que eu tinha feito até agora era deixá-lo trancado em casa.
Fui no mercadinho da esquina e em quinze minutos estava de volta. Coloquei a sacola em cima do balcão da pia.
–Só me mostra onde você guarda as coisas que eu consigo fazer sozinho. Pode ir tomar banho com calma. — Ele falou, abrindo a sacola e tirando os ingredientes que havia encomendado.
Certo, maridão, mandou eu obedeço.
–Qualquer coisa me chama, tá? — Comentei depois de mostrar os armários e as gavetas pra ele. Deixei a cozinha um pouco hesitante ainda.
Bem, a burrada tá feita, agora sim ele tem uma chance de colocar fogo na casa e eu ainda fico sem comer. Mas, paciência.
Dexei o ofurô enchendo enquanto tomei uma ducha. A água quente fez passar um pouco minha dor de cabeça. Entrei no ofurô cheio até a metade e fiquei ali descansando por longos minutos, de olhos fechados, respirando calmamente. Quando a fome começou a me incomodar, saí dali me enrolando numa toalha macia.
Calma Yuu, não tem com o que se estressar, é só um colega de quarto gostoso que precisa de ajuda com a matéria. Nada demais. Não antecipe as coisas. Não aja diferente do normal.
Fui para o meu quarto me vestir e meus sentidos foram inundados por um cheiro maravilhoso de comida. Maravilhoso mesmo. E não era só porque eu estava morrendo de fome. Terminei de me vestir correndo e quando cheguei na sala, ansioso, encontrei um Uruha sorridente terminando de colocar a mesa.
–O cheiro tá ótimo. — Confessei, me aproximando. — O que você fez?
–Curry. — Disse, terminando o que estava fazendo. Afastou a cadeira para que eu me sentasse, e então se sentou ao meu lado. — Espero que goste, acho que ficou bom.
Meu prato já estava servido, então apenas me sentei e coloquei uma garfada na boca.
Meu Deus.
Meu Santo Hide abençoado que estais no céu.
CASE-SE COMIGO AGORA, URUHA, ISSO É UMA ORDEM.
Se ele aprender tão rápido assim a lavar e passar roupa eu to feito na vida.
–Isso aqui ficou muito bom! Nossa, Uruha, você é incrível!! — Falei, exultante, e na emoção do momento, me inclinei lhe dei um beijo na bochecha.
Não percebi o que havia feito até ele olhar pra mim com os olhos mais brilhantes que o habitual.
Ai, cacete. Que foi que eu fiz.
–Posso cozinhar pra você todos os dias, se quiser. — Disse com um tom sedutor, sua face levemente corada. — Ainda bem que gostou.
–Eu quero, com certeza. — Fui sincero sem medo. De preferência se você estiver usando só um avental, gato.
Continuei comendo sentindo que ele tinha seus olhos em mim. Começou a me deixar nervoso.
–Que foi? — Perguntei, entre os dentes.
–Yuu você é tão lindo.
Me engasguei com o que estava comendo. Me engasguei violentamente e comecei a tossir meus pulmões pra fora até conseguir voltar a respirar. Era isso? Ele queria me matar do coração, então?
–Puta que pariu, não fala assim uma coisa dessas... Então, como foi hoje? Aprendeu bastante coisas? — Mudei de assunto rapidamente.
–Aprendi. Deixa eu ver se tá certo: você trabalha pra ganhar dinheiro por isso e poder comprar as coisas que você precisa pra viver. Acertei?
–Isso mesmo.
–Hmm... e a sua família? Você tem pai e mãe, né?
–Sim. Eles moram aqui na cidade, um pouco pra fora.
–E... e n-namorada...? — Hesitou.
–NÃO! Não, claro que não. — Respondi na hora, quase gritando.
Ele apenas sorriu pra si mesmo e abaixou o olhar.
AAAAH QUE COISA MAIS FOFA, PORRA CARA, NÃO PODE ISSO, NÃO PODE.
Eu já tinha terminado de comer quando percebi que ele estava com a cabeça baixa em silêncio, coisa que nunca fazia.
–Uruha? Tá tudo bem...? — Perguntei, preocupado. — Ei...
Toquei seu ombro, ele levantou a cabeça, os olhos um pouco fechados.
–Você tá bem? — Perguntei de novo, ficando assustado.
–Eu to me sentindo... um pouco tonto... fraco... não sei...
E AGORA, O QUE EU FAÇO!?
–Calma. Vem cá, consegue levantar? Vou te levar pra cama.
–Não... deitar é pior... eu só... — Ele nem falava direito mais. O que estava acontecendo? Por que ele ficaria mal assim? Ele não precisa comer, ora, ele só precisa... ficar... na água....
–Você ficou muito tempo fora da água, é isso!! Vem, vou te levar pra banheira. — Ajudei-o a levantar, eu estava tão nervoso e preocupado que nem sabia mais o que estava fazendo.
Tive que passar um braço seu por meus ombros como ontem quando estava lhe ensinando como caminhar. Ele estava de olhos fechados e não respondia mais.
Droga, como eu fui tão burro a ponto de deixar isso acontecer? É óbvio que se ele não se alimenta, então precisa ficar na água pra recarregar. E ele nunca tinha saído da água antes, e muito menos ficado tanto tempo fora dela, então não teria como saber.
E lá estava eu de novo sendo obrigado a tocar em seu corpo. Tirei suas roupas tentando não olhar muito e lhe fiz entrar no ofurô que ainda estava cheio de água morna.
Esperei ansioso por um tempo. Por um momento minha visão embaçou, e quando percebi o que estava acontecendo, vi que ele estava novamente em sua forma original. Em vez das belas pernas agora ele tinha um belo rabo (hm) azul elétrico. Até que ele voltou a abrir os olhos.
–Melhor agora? — Perguntei.
–Sim... obrigado Yuu, era exatamente isso que eu estava precisando...
–Vou ficar aqui cuidando de você. Pode ficar o tempo que quiser, até se sentir bem de novo. Não gosta de água muito quente né?, acho que tá bom assim.
Ele concordou e voltou a fechar os olhos, recostando a cabeça na beirada, depois de ajeitar a cauda no espaço agora quase apertado.
Achei que eu fosse adormecer ali também, só de ficar perto do vapor quente que subia da água e fascinado admirando seu corpo fantástico meio-a-meio. Só de ficar perto de seu rosto, ouvindo sua respiração calma.
Mas aí meu celular tocou.
E eu tive que ir atender para que o barulho não o acordasse.
Devia ser engano, obviamente, quando é coisa do trabalho sempre ligam pra minha casa primeiro. A não ser que fosse uma emergência.
"-Shiroyama! Há quanto tempo! Nunca mais apareceu no msn, anda muito ocupado? Mas tem um tempinho pra mim agora, né?”
Hitsugi.
Ai
Ai. Ai. Ai. Fodeu.
Como diria Jack: vamos começar por partes.
Primeiro, Histugi era amigo do meu melhor amigo (que foi pra cidade grande e me abandonou) e tínhamos saído juntos algumas vezes. Agora alguns fatos interessantes:
–Ele tem pelo menos uns 9 piercings espalhados pela cara, a maioria perto do lábio inferior.
–Tem cabelo pintado meio de vermelho.
–Tudo isso é citado acima é sexy pra caralho, mas eu me esforço pra disfarçar a atração que sinto por ele desde que o conheci.
–Obviamente que ele não era romântico que nem o Uruha, mas ainda assim, se ele quisesse alguma coisa comigo... eu não sei se recusaria.
Por que afinal, Uruha era um peixe, não um humano. Nunca poderia comer comigo ou passar um dia inteiro sem ficar numa banheira. Nunca entenderia realmente o que é ser como nós e nunca poderia ter filhos comigo.
Espera aí.
Tá, de qualquer jeito ele nunca poderia nem adotar porque não tem nem certidão de nascimento, CPF ou RG. Tecnicamente falando, Uruha não existe.
E, aliás, eu ia ter que sair comprar roupas pra ele, porque as minhas ficavam um pouco pequenas.
Mas enfim, eu tava falando era do Hitsu que acabou de me ligar e passar meia hora comigo no celular falando bobagem e colocando a conversa em dia.
Nunca que eu ia esperar que ele sequer se lembrasse de mim. Será que...?
Calma, não vou me precipitar. Não ainda.
Mas se eu tivesse que escolher entre os dois, obviamente que a opção mais fácil seria o Hitsugi... Já que a natureza do loiro adormecido na banheira nunca poderia ser mudada. Não seria a escolha certa, abandonar e machucar o coitado que só tem a mim e é tão adorável e carinhoso, mas seria a mais fácil.
Eu já estava me sentindo mal com isso enquanto conversava no telefone. Enfim ele disse que tinha que ir e que precisava desligar, mas me convidou pra sair com ele pra beber um dia desses. Quase implorou na verdade. Fiquei muito em dúvida na hora, mas disse que “pode ser". O outro disse que ligaria de novo pra confirmar.
Hitsugi era legal, bonito e engraçado. Tudo que eu queria. Se eu tivesse uma chance, arriscaria jogar ela fora por causa do ser mágico que estava morando comigo...?
Voltei ao banheiro pesaroso. Caralho, passo dois anos na seca e agora tenho dois gostosos apaixonantes na mão. Ao mesmo tempo. Vida bandida essa.
–Já quer sair, Uruha? — Entrei no banheiro, e parei, assustado, ao deparar com aquilo.
O loiro estava... inchado. Um braço caído pra fora do ofurô. Seu rosto estava virado pro teto e ele parecia desmaiado.
Droga, droga, DROGA! O que foi que aconteceu agora? Que foi que eu fiz de errado?
–Uruha, Uruha, acorda! Vou te tirar daí. Acorda! — Cutuquei seu braço extremamente inchado, assim como o resto do corpo.
Por que ele estava tão inchado assim? Ele... ele nem...
Ai meu deus.
Alguém me acerte uma viga de concreto na minha testa por favor, porque EU SOU BURRO DEMAIS.
EU COLOQUEI UM PEIXE DE ÁGUA SALGADA. NA ÁGUA DOCE.
Eu sou muito, muito, mas MUITO burro.
Coloquei meu peixão delicioso NA ÁGUA DA TORNEIRA. É ÓBVIO QUE IA ACONTECER ISSO. E ainda por cima esqueci dele ali por quase uma hora enquanto falava no telefone rebolando e saltitando pela sala feito uma bicha.
Corri pra cozinha e abri os armários desesperado, procurando sal. Só achei um saleiro de mesa. Não devia ter nem um punhado de sal ali, mas era só o que eu tinha. Voltei correndo pra banheira e despejei o conteúdo dentro dá água. Não adiantou nada.
Sal. Sal. Sal. Onde eu poderia conseguir sal? Será que eu não tinha um saco guardado em nenhum lugar? Eu não tinha condições de arrastá-lo sozinho até a praia. Abri os armários do banheiro também, procurando por qualquer coisa, qualquer coisa, antes que... fosse tarde demais.
E achei.
Um pote maravilho de sais-de-banho com fragrância de Essência Gay Cheia de Florzinhas na Embalagem. Devia ter uns 2kg de sal ali. Abri o pote e joguei ele inteiro dentro da água, mergulhando os braços até os cotovelos para misturar tudo.
Uruha voltou a se mexer. Misturei mais rápido e logo ele abriu os olhou. Despejei um balde de desculpas nele, quase sem respirar.
–Por favor, fala comigo, você tá bem? Me desculpe, eu fui um retardado, não percebi que te coloquei na água errada, eu não queria te machucar, desculpa, desculpa!
–Tá melhor agora... — Resmungou, sua voz saindo embolada.
Como eu pude ser tão cretino a ponto de ter ficado de mimimi “escolhendo” um deles enquanto o abandonei aqui sem conseguir pedir ajuda? Eu não o merecia. De jeito nenhum.
–Você quer sair? — Perguntei depois de um tempo, quando constatei que ele já estava menos inchado.
–Quero... mas não sei como... — Pediu, constrangido, encarando sua cauda.
–Eu te ajudo... — Falei enquanto o segurei pelas axilas, puxando-o pra cima e pra fora, até conseguir arrastá-lo completamente pra fora da água.
E como mágica, suas pernas estavam de volta novamente. Respirei aliviado. Deu tudo certo.
Ignorei o fato de ele estar praticamente deitado sobre mim, molhado e nu, e fui buscar um roupão. Ele o colocou e eu amarrei a faixa em sua cintura esguia. Uruha cheirava a sais de banho, um cheiro tão bom que me fez querer abraçá-lo e afundar meu rosto naqueles cabelos molhados.
–Me desculpa? Por favor? — Pedi novamente.
–É claro que sim. Você não precisa pedir desculpas... — Sorriu, simplista, e me odiei por ter pensado tão mal dele. Como eu poderia abandoná-lo?
–Pode me pedir o que você quiser. Depois dessa besteira eu vou fazer absolutamente tudo que você quiser.
–Então... dorme comigo?
Pelo fogo no rabo de mil leões no cio Uruha, nunca repita isso com toda essa inocência e carência.
Não pede assim. Não pede que eu não resisto.
–Você dormiu mal no sofá ontem. E eu não quero dormir sozinho de novo. — Continuou. -As lontras se abraçam quando vão dormir para que uma não se separe da outra. Também não quero me separar de você, Yuu.
–Mas... mas... mas... — Empaquei. Quase uma pane de novo. — Mas você não ficou bravo comigo...? Eu esqueci você na água sem sal...
–Yuu, eu nunca vou ficar bravo com você. Nunca.
Meu coração falhou uma batida.
– Eu não vou encostar em você, só quero você por perto. — Insistiu mais um pouco. Depois, bocejou. Ele ainda estava cansado e um pouco inchado.
–Tudo bem. — Suspirei. — Quer ir deitar já? Eu vou arrumar a cozinha primeiro, mas depois venho...
–Não, pode deixar, amanhã eu limpo tudo. Vem deitar...
Alguém me segure ou eu vou sair gritando feito uma garotinha daqui um pouco.
–Tá bom. Só vou escovar os dentes então. Você quer trocar de roupa ou vai dormir de roupão mesmo? — Detalhe: só de roupão.
–Vou ficar assim mesmo, é bem confortável, e tem o seu cheiro. — Comentou despreocupado, já deitando em seu lado da cama.
Primeiro dia aqui em casa e já conseguiu me aliciar, o maldito. Me esperando na cama. Vai se fuder, eu não vou nem conseguir dormir com ele do lado. Mas é impossível dizer não pra ele, principalmente quando ele pede daquele jeito.
Quando voltei pro quarto, a luz já estava apagada. Deitei sem fazer barulho achando que ele já estava dormindo, mas sua voz surgiu no escuro.
–Não foi só pela água que eu desmaiei. Na verdade eu sempre vou dormir quando o sol se põe, e acordo quando ele nasce. E agora já é tão tarde...
–Me desculpe, de qualquer jeito. — Calma Shiroyama, ele é só um bichinho de estimação, não precisa ficar nervoso. — E nem deu tempo de eu te ensinar mais coisas hoje...
–Não tem problema, amanhã a gente faz isso... — Falou baixinho, sonolento. — Boa noite Yuu, até amanhã, bons sonhos, e me desculpe por te incomodar tanto...
Se virou para o outro lado, me deixando encarando suas costas na escuridão. Demorei um pouco pra dormir. Ainda estava irrequieto por antes. Ele era tão dependente de mim...
E se eu realmente precisasse escolher...?
Notas finais
mas vocês tem que escolher: ou eu respondo os reviews, ou eu escrevo D:
porque, porra, responder os review sugou toda minha energia e fiquei sem conseguir escrever e perdi o prazo
sábado to saindo atravessar metade do Brasil pra ver o X e -Q
não sei como ficou esse cap, me digam vocês ;3;
Fale com o autor