Water

7 Sete litros de lágrimas


Notas iniciais
o Aoi tá assim no momento
http://media.tumblr.com/tumblr_lsi8fpYYjl1qdyz5v.gif
url do tumblr do Uruha
peischeapeishonado.tumblr.com
QQQQQQ n

Capítulo 7:

Sete litros de lágrimas

amargas lágrimas






Era só mais um dia normal lá em casa.

Mas toda desgraça que acontece comigo sempre começa do mesmo jeito: com um telefonema inesperado.


E agora era o viado do Reita, mais conhecido pela minha mãe por “Aki-kun”, brotando do nada dizendo que estava na cidade.


Não tive outra opção além de sair com ele e o xingar bastante por ter me abandonado, como eu fazia todas as vezes que ele vinha pra cá.


Deixei Kouyou, deprimido e conformado, em casa.

Ah, sabe aquela vez do pornô? Então, depois daquilo Uruha percebeu que meu computador estava infestado de vírus, por isso estava tão devagar e bugado. Sabe o que ele fez? Formatou pra mim.


Sim. O peixe é técnico de informática também.

Além de cozinheiro, faxineiro, encanador, eletricista, pintor, escritor, jardineiro e guitarrista. Só não era pedreiro também porque é romântico demais pra isso.


Sempre que eu ligava o pc, ia correndo dar uma stalkeada no tumblr dele. Claro que ele sempre limpava o histórico religiosamente agora, mas eu havia decorado a url na primeira vez. E eu lia coisas ali que me deixavam com um frio na barriga. Eu podia mesmo acreditar que ele gostava tanto assim de mim?


Ele andava meio quietinho ultimamente, nunca teve outro surto de sedução ou tentou me atacar e me levar pro seu lado das trevas, como naquela dia no almoço. Calmaria antes da tempestade? Estava planejando outra maneira de me emboscar? Assistindo anime gay o dia inteiro pra aprender como fazer?

Provavelmente.


Mas então, voltando pra noite com o Reita.

Era uma sexta-feira quando ele ligou, e saímos naquela noite mesmo. Na lanchonete de sempre, que íamos desde os tempos de escola.


Estávamos bebendo e conversando animadamente quando me bateu uma tristeza. E olha que eu nem tinha bebido muito. Mas tudo que havia acontecido nos últimos dois meses, desde o dia que Uruha apareceu na minha vida, caiu como uma geladeira nas minhas costas.


Comecei a me sentir extremamente tentado a contar tudo pra ele.

Apesar de distante, Reita era meu melhor amigo ainda.

Meio solitário chamar alguém que você só vê três vezes por ano de melhor amigo, mas enfim. Fiquei com vontade de contar tudo pra ele e pedir ajuda. Eu não sabia mais o que fazer, Uruha morava permanentemente lá em casa, sob a desculpa de aprender a ser humano (coisa que ele já aprendeu há muito tempo, e fazia melhor do que eu), e eu havia saído com Hitsugi mais umas duas vezes.


Sem falar no meu assistente uke que às vezes se insinuava e me deixava nervoso e com vontade sair correndo.


Eu precisava de apoio, precisava de uma opinião, e ele era a única pessoa em que eu podia confiar pra isso.


–Tem alguma coisa te incomodando, né? — Ele percebeu antes mesmo que eu começasse a falar. — Você tá diferente.


–Diferente?


Droga. Não tem coisa pior pra dizer do que falar que eu mudei. É tão terrível quanto dizer na cara que eu engordei.


–É, você parece mais... sei lá, com mais auto-estima. — Girou o copo nas mãos. — Além de preocupado. Pode começar a contar, tudo. Vai ajudar se colocar pra fora.


–Mas... é complicado...


–É óbvio que é! Você é policial, já passou por todo tipo de situação complicada, mas eu nunca tinha te visto desse jeito. É um cara, não é?


–É... mas...


–Nada de “mas”, Shiro. Tá vendo esse anel aqui? — Me indicou uma aliança na mão direita. — Eu estou noivo.


–VOCÊ O QUÊ? — Gritei, esquecendo de todo e qualquer problema. — Noivo? Você? O Reita, noivo?


Comecei a rir. Eu nem tinha reparado naquele anel, ele sempre usou tantos.


–Quem foi que fez essa proeza, esse milagre divino...?


–Conheci ele na faculdade. Um baixinho rico e metido conhecido como “O Rei da Moda”, do curso de Design. Namoramos há anos, e mês passado pedi ele em casamento.


Traição.

Traição completa múltipla atípica qualificável culposa.


–Por que... por que você nunca me contou...?


Então eu não era considerado “melhor amigo” pra ele. Era só mais um amigo da cidade natal, esquecido e ignorado pelo tempo. Com certeza ele me contaria... uma coisa dessas...


–Porque era complicado. Sempre foi complicado, lidar com ele, e nosso relacionamento sempre foi instável. É isso que eu estou tentando dizer. Você é a primeira pessoa que eu conto isso, minha família não sabe ainda.


Melhorou agora...


–Pretendo contar pra eles antes de ir embora. E, se aceitarem, trago ele junto da próxima vez. Mas a questão é, admita que eu tenho mais experiência do que você. Nós já estamos morando juntos também. Chegar nesse ponto foi a maior conquista, por mais complicado que tenha sido o caminho até as coisas darem certo.


Continuei em silêncio, me ajeitando no confortável banco de couro do estabelecimento, ainda processando as notícias.


Reita, na escola, sempre foi rebelde, pintava o cabelo de loiro, tinha brincos e fazia todo o contrário do que sua família queria. Se formou e passou alguns anos sem estudar, até que subitamente resolver se mudar pra Tokyo e fazer Direito numa universidade de lá. Também não acreditei quando ele me contou aquela notícia. Depois que voltou a estudar, virou outra pessoa: certinho, calmo e estudioso, muito focado no seu sonho de se formar.


Algumas vezes cheguei a pensar que a única coisa que ele fazia era estudar, de tão grande sua expectativa e paixão pelo que fazia. Aquele tipo de pessoa que não para nunca pra estudar ou se divertir. Então ele se formou e começou a trabalhar, e eu tive certeza de que ele continuaria o solteirão de sempre.


Mas agora... o que ele acabou de dizer mudou tudo que eu pensava... então sua paixão nos últimos anos não era só pelo estudo...


–Eu já contei minha história... agora você pode contar o que está acontecendo nessa cabecinha oca...


–Eu invejo a sua história, eu queria uma vida normal assim...


–Normal? — Ele riu. — Conviver com o Takanori é qualquer coisa, menos normal.


Takanori, então esse é o nome do sujeito.


–Eu quero contar. Eu preciso contar. E você é a única pessoa que eu confio, Reita, mas... mas é difícil de acreditar. Você vai achar que eu estou enlouquecendo.


–Hmm... Eu prometo que eu vou tentar acreditar, ok? Mas fala logo que treta é essa que você se meteu, agora sim eu to ficando curioso.


–Tá bom. Vamos começar do começo. Um dia, eu estava na praia, seduzindo geral, e um cara na água veio falar comigo.


–Bonito?


–Extremamente bonito. Ele era meio estranho, mas a gente ficou conversando, e nos encontramos ali de novo no outro dia. E... E... — Respirei fundo pra juntar coragem. — E ele disse que não podia sair da água. Colocou minhas mãos no corpo dele e-


–Yuu, calma aí, tem crianças aqui em volta, não vai ficar narrando tuas aventuras sexuais selvagens em público.


–Cala a boca e deixa eu continuar, seu infeliz. Ele colocou minhas mãos no corpo dele, e as deslizou até onde ele deveria ter pernas, mas...


–Deveria? O quê!?


–Ele não tinha pernas...


–Ele é deficiente físico...? — Me encarou sério.


–Não! Quer dizer, mais ou menos, err... em vez de pernas, ele tinha... um rabo... de peixe... ele... ele... ele é uma maldita SEREIA! Sereia macho, mas deu pra entender. É. Essa é a minha desgraça.


–Espera aí, Yuu... mas o que... você tá falando sério...? Você viu...?


–Se eu vi? Ele tá morando na minha casa há dois meses.


– QUÊ? Ok, me conta tudo direitinho.


–Em outro dia, eu fui surfar de noite, e tava chovendo, acabei sendo levado pelas ondas e quase bati a cabeça numa rocha, mas ele me salvou e me levou pra areia... e quando ele saiu da água... ele ficou completamente humano, com pernas e tudo...


–Menos mal então... — Reita respirou aliviado, ouvia a história com toda a atenção do mundo, concentrado e com cara de quem estava acreditando.


–Eu levei ele pra casa. E em troca de ter salvo minha vida, ele pediu pra eu ensiná-lo a ser um humano. Desde então, ele está morando comigo, dorme na minha cama, cozinha pra mim e limpa a casa todos os dias, e me enche de elogios... e...


–E você se apaixonou?


–NÃO ME APAIXONEI PORRA. — Acabei gritando sem perceber, me defendendo. — Ele que tá apaixonado por mim. Me trata com todo amor e carinho possível e faz tudo pra mim e por mim.


Ele ficou em silêncio por um tempo, até se pronunciar.


–E qual o problema que não deixa você corresponder?


–Ele não é humano, droga. Ele não come, não bebe, dorme quando sol se põe e acorda quando ele nasce, todo dia precisa ficar na banheira pra “recarregar”, e volta a ser sereio quando tá dentro da água.


–Se isso é motivo suficiente pra você, então dê um jeito de dizer que não quer nada com ele...


–Mas... mas...


De algum jeito eu fiquei desolado com a resposta. Talvez eu queria ouvir um discurso romântico de contos de fada dizendo que o amor supera todas essas coisas e que eu devia aceitá-lo logo porque fomos feitos um pro outro e etc etc.


–Ah, tem outra coisa também... só eu posso ver ele.


– ... Oi…? Certo, agora a coisa complicou. Explica isso direito.


–Ninguém pode ver, tocar ou ouvir ele, só eu.


–Por quê?


–Não sei. Ele não quis me dizer. É um segredo maligno que supostamente eu tenho que descobrir sozinho. Também diz que só eu posso vê-lo "por enquanto.”, e não faço ideia do que esse por enquanto quer dizer.


–O que levaria qualquer ser racional a acreditar que ele é só fruto da sua imaginação e que você precisa ser internado numa clínica psiquiátrica imediatamente. Mas eu não sou um ser racional, sou teu amigo, então... estou tentando acreditar. E pensar numa resposta pra possibilidade de isso ser tudo verdade mesmo.


Apenas observei sua expressão enquando pensava mais um pouco, o rosto apoiado na mão.


–Acho que se você realmente não gostasse dele, não ia deixar ele ficar morando na sua casa. E dormindo na sua cama. Tem mais alguma coisa que eu não to sabendo...?


–Tem. O Hitsugi. Lembra dele...?


–Hitsugi...? Ah! Meu deus, faz anos que eu não falo com ele! Como foi que ele entrou na história?


–Nós saímos algumas vezes... ele é tão legal comigo e tá sempre me procurando e querendo conversar...


–E você tá em dúvida se escolhe o cara estranho sobrenatural ou o seu velho amigo que está interessado?


Não era à toa que ele era Promotor, em algum momento em que eu não estava perto havia brotado um cérebro naquela cabeça oxigenada. Quem diria isso do velho Reita hardcore que tocava a campainha das casas e saía correndo...


–Exatamente. Te amo Reita, só tu me entende mesmo.


–É bem fácil de entender agora... — Riu. — Quer meu conselho como amigo?


–Qualquer ajuda... eu não sei mais o que pensar.


–Como amigo, eu diria pra esperar e tentar esclarecer melhor o que você tá sentindo. Tem muita tensão com esse sereio aí, dá pra ver só do jeito que você fala dele. E ao mesmo tempo você tenta se livrar dele colocando a responsabilidade de gostar de você no Hitsugi... A questão é, qual deles te faz sentir melhor? Com qual deles você consegue conversar livremente? Qual deles demonstra mais interesse em você...?


A resposta era a mesma pra todas.


–Será que você não tá confundindo a amizade do Hitsu com outra coisa? Espera, não quero te deixar mais confuso do que você já tá, só estou tentando pensar num jeito de ajudar... hm... agora, por outro lado... o problema com o sereio...


–Uruha. — Acrescentei.


–O problema com o Uruha... — Continuou. — É que ele não é humano, certo? E que esconde algumas coisas de você, além de todo esse mistério e esses problemas. Se isso realmente te incomoda, eu diria pra focar no Hitsu então. Você não tem obrigação de gostar dele, sabe, mesmo que ele faça todas essas coisas que você diz.


–Te incomodaria? Se fosse o teu Takanori, e vocês fossem diferentes assim, e você tivesse que ir contra todos que não acreditariam em você... o que você faria, Reita...?


–É difícil... é difícil perguntar assim porque ele é meu noivo, a resposta seria diferente hoje do que seria quando nos conhecemos. Mas eu amaria ele independente do que os outros falassem, é minha vida, minha realidade, eu não o deixaria apenas por ser diferente. Na verdade, eu encararia como uma bênção, ele ter me encontrado e gostar de mim.


Continuei em silêncio. As batidas do meu coração se alteraram por um momento.


–Mas é você quem está colocando ele nesse patamar. Minha declaração final é: se quer evitar problemas e desconforto, escolha o Hitsugi. Porém, lembre-se que o jeito mais fácil nem sempre é o certo. Quanto mais difícil for o caminho, mais o final valerá a pena.


–Quer passar lá em casa depois...? Eu acho que sei um jeito de provar que ele existe...


–Claro. — Concordou. Depois, deu um tapinha animador nas minhas costas. — Espero que eu tenha ajudado. Sei que logo você vai ter certeza do que fazer, as coisas começam a se ajeitar sozinhas e vai ficar claro o que você quer...


–Ajudou sim, obrigado, tenho bastante coisa pra pensar agora... não sei como eu ia aguentar sem ouvir tudo isso agora, e foi ótimo também finalmente poder contar pra alguém...


Meu celular vibrou no bolso da calça. Uma mensagem. Do Uruha.


“Espero que esteja se divertindo. Estou com saudade. Você tá lindo. Até depois.”


Sim, eu havia comprado um celular pra ele, assim podíamos nos comunicar durante o dia, e ele podia continuar me derretendo mesmo enquanto eu estava fora.


“Como você sabe que eu to lindo se nem tá me vendo?” — Digitei rapidamente e enviei a resposta.


“Yuu, eu não preciso te ver pra saber que você está lindo.”


–Olha só, é isso que eu to falando, não dá pra resistir. — Entreguei o celular pro loiro, que leu as mensagens com um sorrisinho.


–É... esse aí sabe como te pegar de jeito. — Riu, devolvendo o celular. — Eu acredito em você, mas quero ir na tua casa sim, fiquei curioso agora.


–Só vai ser meio arriscado, ele ficou morrendo de ciúmes de você quando eu saí, cuidado se uma cadeira voar do nada na tua cara quando a gente entrar.


–Ah, outra análise da tua história: você se refere a ele como um animal às vezes, como se fosse só teu cachorrinho que abana o rabo o dia inteiro sem se magoar nunca.


–Descreveu ele perfeitamente agora... isso é outra coisa que me irrita, ele tinha que arranjar mais coisas pra fazer além de ficar me mimando. A vida dele é me amar, sabe.


Aquelas últimas palavras pesaram na minha consciência depois que as pronunciei. Nunca tinha pensado nisso, e era verdade. O que seria dele se eu o rejeitasse? Voltaria pro mar, pra sua solidão, pro seu golfinho? Sendo que sua única motivação era me fazer feliz? Como eu poderia fazer uma sacanagem dessas...?


Entretanto, como o Reita disse, eu não tenho obrigação de corresponder... eu até queria... mas meu medo e preconceito não deixam...


Encerramos o assunto ali, e ficamos conversando coisas mais agradáveis, até ficar tarde e irmos pra minha casa.


Como daquela vez com meus pais, eu estava nervoso. Mas por um motivo diferente.

O que o Uruha ia pensar de eu levando um cara pra casa...?


–Cheguei... — Comentei, depois de abrir a porta. Entramos, e avistei o loiro deitado no sofá, lendo um livro. Cena perfeita, só faltava um óculos pra ele ficar mais gostoso ainda.


Deixou o livro de lado e levantou, feliz. Mas seu sorriso morreu ao ver Reita parado ao meu lado.


–Hmm... Kou, esse aqui é o Reita, meu melhor amigo...


Sua expressão caiu mais ainda. Puta que pariu, e se eu o magoei por que achava que era meu melhor amigo!?


–Quer dizer, hm, meu amigo de infância. Eu contei a ele sobre você.


–Sério? — Se animou um pouco.


–Sim... e trouxe ele aqui pra provar que você existe.


–Muito legal ver você conversando sozinho Yuu, vamos logo com isso que tá me dando nos nervos já. — Reita se meteu na conversa, me olhando estranho.


–Reita, pede uma comida.


–O quê?


–Pede uma comida, difícil de fazer, e o Uruha vai fazer ela pra nós. É assim que eu vou provar pra você.


–Tem razão, é uma boa ideia, eu sei que você não sabe nem fritar ovo... então, er... cookies...? Pode ser, Uruha?


Falou pro nada, olhando pra direção errada, tentando ser gentil com a criatura que ele não via.


–Claro que sim, volto em meia hora! — Foi direto pra cozinha. Mas parou no meio do caminho, deu meia volta, voltando seus passos, e me abraçou.


–Obrigado por não ter vergonha de mim... — Falou, mal se contendo de felicidade, enquanto me envolvia com força em seus braços, e rapidamente voltou pra cozinha, como se nada tivesse acontecido.


–Espera... o que foi que acabou de acontecer aqui? — Reita comentou, divertido.


–O-O quê?


–Você ficou vermelho do nada. Cara, foi muito engraçado! — Ficou rindo, e eu fiquei mais vermelho ainda. — Que foi que ele fez...?


–Me abraçou... — Resmunguei, me jogando no sofá, sendo acompanhado pelo outro, que seguiu rindo da minha cara.


–Sempre soube que você não era seme...


–Eu, seme? — Ri. — Pff. Nem de mulher eu seria seme, meu filho.


Ficamos vendo TV ali até que Kouyou voltou, com uma forma de cookies nas mãos protegidas por luvas.


–Olha, Reita, presta atenção.


–Onde?


–Na mesinha de centro. Uruha, coloca a forma aí, por favor. — Apontei pra mesinha na nossa frente.


Ele fez isso, e tirou as luvas.


–Viu? Tá vendo essa forma ali em cima que ele acabou de tirar do forno?


–Tem uma forma ali agora... mas antes não tinha. Não vi exatamente como ela foi parar ali mas simplesmente apareceu. — Olhava para a mesa muito intrigado. — Ok, você me convenceu. Espero que eu possa ver ele logo pra poder rir da tua cara junto com ele.


Uruha riu também, e se sentou ao meu lado.


Reita se adiantou, e pegou um cookie, comendo um pedaço.


Agora sim você me convenceu. Isso aqui tá bom demais, nunca você cozinharia um negócio maravilhoso dessses. Também não é comprado pronto. E tá quente, acabou de sair do forno, sendo que nenhum de nós foi na cozinha. Sem falar na forma que se materializou aqui na frente do nada.


Peguei um também, sorrindo, vitorioso. Então eu realmente não estava ficando louco.


–Gostei do seu amigo. — Kouyou comentou, assistindo a cena.


–Ele disse que gostou de você. — Repassei a informação.


–Ah é? — Reita riu, comendo mais um cookie. — Ficaram ótimos Uruha, parabéns... Droga, já tá bem tarde e eu tenho que voltar pra casa, ou minha mãe me mata por vir pra cá e passar metade do dia dormindo...


Levantou, ajeitando o casaco. Levantei junto, e nos despedimos.


–Foi ótimo te ver, Shiro.


–Eu que o diga! Você precisa vir mais vezes, seu canalha. E trate de me apresentar o Takanori na próxima, quero rir de você com ele. — Revidei.


–Ah, sobre o assunto de antes... Não mudo minha opnião. Pense bem nas coisas que eu te disse. Quando as coisas se resolverem, me ligue, vou querer saber, ok? E se precisar de mais ajuda, ligue também.


Abri a porta e senti outra tristeza, a de ter que ver meu amigo ir embora sem saber quando o veria de novo.


Distância é uma merda.

Tanto a distância física, quanto a distância em si de uma amizade. Eu ainda estava me sentindo abandonado por ele nunca ter me contado do namorado. Ele morar em outra cidade não seria tão ruim se a gente tivesse mais contato e proximidade quanto antigamente...


–Vai logo embora ou eu vou chorar. — O expulsei, rindo. — Até mais, Rei, se cuida...


–Até mais Shiro, se cuida também... — Piscou um olho e apertamos as mãos.


Fiquei esperando até ver seu carro sumir dobrando a esquina.

Eu não lembrava que ele me fazia tanta falta.


–Quem é Takanori?


Uruha perguntou, depois que eu entrei.


–O noivo dele.


–Noivo...? — Começou a sorrir, provavelmente aliviado por ele ser comprometido. — Mas... mas homossexuais não podem se casar no Japão...


–Não precisa de um idiota pra assinar um papel pra você ser casado ou não com quem você quer.


–Hmm... que bom que você pensa assim... Yuu, você... gosta de mulheres?


Eu. Mulheres. Erro. HAHAHA, que piada de mau gosto, chega a me ofender perguntando uma barbaridade dessas, Kou.


–Não. — Respondi rápido. Já achei que gostava uma vez, mas estava só tentando me enganar.


Ele apenas concordou com a cabeça, pensativo.


–Acho que vou ir deitar, to ficando muito cansado indo dormir tarde assim todo dia. — Concluiu.


–Mas você pode dormir até mais tarde de manhã.


–Não consigo dormir sabendo que é dia lá fora... — Deu de ombros.


Ele foi dormir e eu fiquei pela sala, arrumando algumas coisas. Só fui deitar uma hora depois. Fiquei jogado no sofá, pensando em tudo aquilo, tentando entender, tentando decidir.


Primeiramente, achei tentadora a opção de escolher Hitsugi, e não ter que me incomodar com nada. Me peguei pensando se o que eu sentia por Uruha era só pena de ter que abandoná-lo em algum momento. Será que era isso? Só pena?


Quando me deitei na cama, silencioso, para não acordá-lo, fui abraçado novamente. Seus braços me envolveram, por trás, e não pude me mover.


E aquela sensação era tão, mas tão boa, que fez minhas dúvidas voltarem ao ponto zero.


E se fosse só egoísmo? Afinal, até agora, a única que ele fazia era me amar. Eu adorava isso. Mas não correpondia de qualquer forma. Nenhuma vez eu tentei fazê-lo feliz.

Seria dez vezes pior se eu estivesse-o mantendo ali apenas pra manter meu ego elevado ao ouví-lo dizer que eu estou lindo todos dias.


Ainda não estava claro pra mim o que quer que fosse o que eu sentia por ele. E agora ele estava agarrado em mim na cama, e seu abraço era tão quente e carinhoso...

Não sei dizer se foi um movimento involuntário e ele me abraçou dormindo ou se esperou eu vir pra cama pra me emboscar. Não acho que ele fosse aguentar acordado mais tanto tempo, mas enfim.


Sim, eu estava amando ter ele abraçado em mim na cama.

Sim, eu ia dormir muito bem aquela noite.

Sim, meu coração estava batendo fora de ritmo.


Mas isso não queria dizer nada.


Não quer dizer que eu gosto dele... e não quer dizer que eu não me sinto um filho da puta por ser tão egoísta e nunca fazer nada por ele além de chamá-lo de peixe...



No outro dia, Hitsugi me ligou. Eu aceitei sair com ele.

EI, VOCÊ AÍ. NÃO FIQUE ME JULGANDO, OK?. Ok.


E obviamente eu ainda estava encarando ele como amigo.


Mas dessa vez Uruha não ficou nada contente de ser deixado em casa. No Reita ele confiava, mas era só citar o Hitsu que seus olhos faiscavam de ódio.


–Você parece tão cansado, Yuu. — Hitsugi comentou. Estávamos num bar, bebendo e conversando como sempre fazíamos, mas eu realmente estava com a cabeça perdida em outro lugar.


–É? Desculpa, ando preocupado com algumas coisas...


–Deixa eu cuidar de você. Vou te fazer esquecer qualquer coisa que te deixe preocupado...


Err... o quê?


O ruivo se aproximou de mim no banco, chegando perigosamente perto.

Perigosamente porque ele podia furar um olho meu com aqueles ferros, sabe.


–Yuu... quantas vezes eu vou ter que te convidar pra sair pra você perceber o que eu quero...?


CARALHO, O QUE EU FAÇO, O QUE EU FAÇO? ELE VAI... ELE VAI...


Ele... ele me beijou.


E eu não consegui reagir, nem antes nem durante, apenas fiquei imóvel, petrificado de surpresa.

Realmente, aqueles piercings eram muito bons de beijar... e...


SHIROYAMA YUU, QUE PORRA É ESSA, VOCÊ TÁ CORRENSPONDENDO? TÁ ABRINDO A BOCA? TÁ DEIXANDO ELE...?


Oh Deus, eu não sei mais o que fazer.

Deixei que ele me beijasse e aproveitei o momento.


Comecei a me animar com o beijo initerrupto e acabei pensando que seria tão fácil, tão certo desse jeito. Que tudo seria mais fácil se Uruha não existisse, se eu nunca tivesse o conhecido, e pudesse seguir o rumo normal da minha vida, sem sereia mágica nenhuma pra atrapalhar as coisas.


Mas então voltei a ficar confuso e me afastei de Hitsugi, quebrando o contato.


Ele me fitava na expectativa.


–Perdão... — Se desculpou. — Eu não devia ter feito isso, né?


–Não, Hitsu, eu só... só estou muito confuso... eu acho que eu vou pra casa, ok? Nos falamos por aí.


Levantei, peguei meu casaco e saí correndo, o coração na mão.


Tudo confuso demais pra mim, queria apenas ter que me preocupar com as coisas do meu trabalho, como antigamente.


Cheguei no meu carro e tive a desgraçada sensação de perceber que havia esquecido as chaves. Procurei nos bolsos, em tudo, mas não achei. Então fui obrigado à voltar pro bar.


–Esqueci minhas chaves... — Falei enquanto me aproximei da mesa onde estávamos, poucos minutos atrás.


Hitsugi não estava sozinho, como eu o havia deixado.

Na verdade, estava se agarrando com uma puta qualquer.


Completamente chocado, peguei as chaves e saí correndo de novo. Ele enfim percebeu que eu havia voltado, e me puxou pelo braço.


–ME SOLTA! — Gritei. — O que você tá fazendo? Quem é essa aí?


–Eu que pergunto. Quem é esse aí, Hitsu? — Gemeu a mulher, com uma voz forçada de vagabunda. Com aquele vestido dava quase pra ver seu útero.


–É, Hitsu, quem sou eu? — Debochei, alterado. Já estava quase fazendo um barraco ali no meio, outros paravam pra olhar.


–Não é ninguém, amor, só um amigo. Eu amo você, ok?


Falou pra ela. Não pra mim.


FILHO DA PUTA, CANALHA, SEM VERGONHA, ARROMBADO DA PORRA, ENTÃO NÃO ERA SÓ COMIGO? EU ERA SÓ MAIS UM? EU ESTAVA CONSIDERANDO DEIXAR MEU PEIXE POR VOCÊ?


Eles voltaram a se comer e eu saí dali imediatamente.

Aquele beijo antes não foi nada então... aquelas palavras... e nem bêbado ele estava, era tudo de propósito... Hide-sama... olha onde eu fui me meter... eu achava que ele era meu amigo...


Nenhum xingamento seria digno o suficiente pra expressar tudo que eu queria gritar.

Dirigi de volta pra casa, as mãos tremendo, não querendo pensar em nada.


Entrei, bati a porta, e joguei as chaves e o casaco no chão.


–Voltou cedo, Aoi, o que... o que houve? — Uruha levantou do sofá onde estava deitado, vindo até mim, surpreso pela minha violência.


–Não quero conversar. — Desviei dele e fui direto pro quarto. Ele me segurou pelo braço, exatamente como o outro havia feito. — EU DISSE QUE NÃO QUERO CONVERSAR, ME DEIXA EM PAZ, VAI EMBORA!


Não consegui me arrepender pelo que havia gritado pois comecei a chorar naquele exato momento. Cheguei no meu limite, é agora que eu desabo de vez.


Fiquei parado ali mesmo, escondendo o rosto nas mãos, chorando, e morrendo de vontade de jogar uma cadeira numa janela, quebrar o armário de pratos, colocar fogo no sofá, qualquer coisa que tirasse aquela raiva do meu coração.


–Me abraça... — Pedi assim que consegui respirar um pouco. Kouyou hesitou por um segundo, mas então me abraçou ternamente, e por longos minutos eu me agarrei naquela pessoa que eu achava que também podia confiar.


Ele não falou nem uma palavra, apenas me segurou, secando minhas lágrimas, mexendo no meu cabelo.


Obviamente, ele era parte do problema, mas por enquanto estava tudo bem em abrir aquela brecha. Eu precisava de um ombro amigo agora, e ele era a pessoa mais apta pra isso. Mesmo que metade daquelas lágrimas fosse por causa da confusão sentimental em relação a ele também.


–Não sei o que foi que ele fez... mas eu nunca vou te deixar assim... nunca... — Falou baixinho, enquanto eu me acalmava, sem nunca soltá-lo.


–Eu q-quase... quase fiz uma besteira Kou...


–Shiu. Não precisa falar. Amanhã você me conta, se ainda quiser. Primeiro espere passar... Quer ir pra cama?


Concordei com a cabeça e ele me levou até lá. Eu nem estava enxergando direito, os olhos inchados, uma dor no peito que só diminuía quando eu o abraçava mais forte ainda.


Deitei sem nem trocar de roupa e me aninhei em seu peito, no escuro. Seus braços me envolveram novamente, e eu comecei a me acalmar.


–Obrigado por estar aqui... — Falei, a voz embargada.


–Eu vou sempre estar aqui, enquanto você quiser.


–Eu não queria chorar na sua frente...


–Não tem problema em chorar. Agora só durma... enquanto eu estiver por perto, não vou deixar mais ninguém te machucar... nem você mesmo...


Obrigado...

Obrigado, Kou...

Notas finais
oi :3
vim postar rápido mesmo que o último tenha tido bem poucos reviews (ninguém gostou dele, fu), porque eu sou uma carente sem vida
capítulo tenso esse, mas amei ele sz
gostaram do Reita?
A parte do Hitsugi era pra ter sido diferente, mas acabou ficando assim...
aproveitando o dia de comemorações #Toxic... REVIEWS, COME AT ME BRO