Water
6 Seis tempos do modo indicativo
Notas iniciais
Capítulo 6:
Seis tempos do modo indicativo
Presente, pretérito Uruha, pretérito imperfeito, pretérito mais que Uruha, futuro do presente, futuro do pretérito.
Ficamos um pouco constrangidos pelo resto daquela noite.
Kouyou pareceu se arrepender do que havia feito, e tentou compensar isso me entupindo da sobremesa que fez. Voltou pro seu jeito de sempre, talvez um pouco mais silencioso.
Foi estranho ir dormir ao seu lado. Suas perguntas sobre sexo não deixavam minha cabeça, e certamente a dele também não. Mas não havia muito o que dizer.
Fomos deitar. Uruha parecia inquieto e ficava me olhando e desviando toda hora. Perguntei o que havia de errado.
–Aoi... eu queria perguntar outra coisa... mas não sei se posso... e não sei se você vai ficar bravo comigo...
–Pode perguntar. — Lá vem...
–Hmm... esses dias eu tava arrumando a cama e o quarto... e eu encontrei uma coisa... — Estava hesitando demais, fiquei com medo só de pensar no que diabos ele tinha encontrado.
–Uma coisa?
–É... eu queria saber por que... você tem uma coisa cor de rosa... de plástico... daquele formato... na gaveta...?
–Que formato...? Cor de rosa...-! AH. AH MEU DEUS, O HIDE-KUN, AAAAAH, NÃO, NÃO, NÃO.
Lá estava eu gritando desesperado de novo. Então o que ele achou foi o Hide-kun, meu consolo de estimação.
–POR QUE VOCÊ MEXEU NA MINHA GAVETA? NÃO ERA PRA ENCONTRAR AQUILO, URUHA.
–Você disse que eu podia perguntar...
–EU-. MAS-. É QUE-...! — Respira Yuu.
Vi a sombra de um sorrisinho em seu rosto. Filho da puta tava rindo da minha desgraça.
–Ok, certo. Quer saber por que eu tenho aquilo? Porque eu não tenho namorado.
–Hmm... — Ficou pensativo, assimilando as informações. — E você quer um namorado?
. . .
Não ia adiantar mentir.
–Quero.
Um cara lindo, deitado do meu lado, na minha cama, perguntando se eu queria um namorado. Se ele não fosse um peixe, eu tava até pagando.
Kouyou continuou me alisando.
–Obrigado, era isso que eu queria saber. Desculpa por te constranger de novo, sei que é desconfortável pra você falar sobre isso.
–É claro que é desconfortável! Eu não vou ficar falando dessas coisas com você.
–Ah é...? — Ele não sabia se ficava triste ou com raiva. — Tudo bem, eu não mereço mesmo...
–Não é isso...
–É o que então, além de você ter nojo de mim...?
–É porque é você. Pronto. Só por isso. Por que você me deixa nervoso e eu fico vermelho.
E eu não gosto de falar, gosto de fazer.
–Ah... — Ele abriu um sorriso desafiador. — Ah bom, agora sim...
–Tá, que seja. — Resmunguei, o rosto quente. — Boa noite Kouyou.
Apaguei as luzes e deitei, virado pra parede, de costas pra ele. Meu coração ainda estava acelerado depois de outra sessão de constrangimento com o loiro.
Não respondeu. Fiquei quieto no meu canto, imóvel, e já estava quase pegando no sono, quando ele voltou a falar.
–Me desculpe Yuu, eu nunca mais vou gritar com você, eu fui um idiota hoje... — Murmurou no silêncio da noite.
–Eu que peço desculpas, eu devia te tratar melhor... — Eu não podia vê-lo no escuro, mas sabia o quão perto estava, a cabeça deitada no travesseiro.
–Não peça desculpas pra mim. Nunca. Você não fez nada. E era um assunto delicado, certo? Eu que fiz tudo errado. Você não tem obrigação de me explicar nada que não quiser...
–Tá tudo bem, mesmo. Chega de pedir desculpas.
–Que bom então... boa noite Aoi, durma bem, tenha ótimos sonhos, até amanhã.
No dia seguinte, recebi uma ligação inesperada.
Adivinha de quem?
Não, não foi do Hitsugi.
Foi da minha mãe.
–Yuu! Que saudade, você ficou tanto tempo sem ligar! Precisamos almoçar juntos.
–Ah... ok, mãe... eu vou aí então...
–Não. Nós vamos aí. Quero ver se está arrumando sua casa direitinho, e se aprendeu a cozinhar comida decente. E, ah, venha nos buscar, o carro do seu pai estragou. Até amanhã meu amor.
Sempre assim, minha mãe. O que ela falar é ordem absoluta. E curta e grossa como sempre.
Nem preciso comentar que ela se preocupa demais comigo.
Nâo soube como dizer aquilo pro loiro. Ia ser uma situação no mínimo estranha, mesmo que eles não pudessem vê-lo.
–Hmm... Kou... meus pais vão vir almoçar aqui amanhã... — Comentei, era sábado de tarde e tínhamos acabado de voltar da praia.
Ele me encarou com um sorriso.
–O que vai querer que eu faça de almoço? E de sobremesa? Temos que fazer uma coisa muito especial, é a sua família...!
Do nada ele ficou muito ansioso e animado.
–Mas... eles não vão ver você... achei que fosse querer sair enquanto eles estivessem aqui, ou sei lá...
Eu e minha arte de brochar todo mundo.
–Se você quer que eu saia, tudo bem. Eu não vou atrapalhar. Desculpe.
–Não. Uruha, não é isso! Só não queria que fosse ficar chateado por não poder... conversar com eles...
–Não importa, eu queria ficar aqui com vocês... e um dia vou poder falar com eles.
–É? Quando? E o que falta pra isso acontecer?
–É só você querer.
Para de me encarar desse jeito, filho da puta.
–Aham, ok. Certo, quero um almoço bem tradicional japonês, pode ser?
Combinamos e arrumamos tudo na noite anterior. No fundo, eu me sentia idiotamente nervoso. Afinal, eu aceitando isso ou não, tinha um cara morando comigo.
Ah, sim: meus pais sabem que eu sou homossexual. Mas nunca conheceram nenhum namorado meu.
De algum jeito eu achava que era isso que minha mãe queria conferir. Ela tinha um sexto sentido pra essas coisas. No mínimo marcou esse almoço só pra vir revistar minha casa e procurar evidências de que eu tinha algum relacionamento sério e tomado rumo na vida finalmente.
Leia-se: ela não queria que eu ficasse sozinho o tempo todo, achava minha vida muito solitária.
Se meu irmão não fosse casado aposto que ela já teria tentado me obrigar a ir morar com ele.
Era o fatídico domingo, Kouyou acordou cedo como sempre, assim que o sol nasceu, e foi arrumar a casa. Mas só fez isso porque eu dormi até as 10h e não estava ali para impedi-lo. Quando acordei, estava tudo perfeitamente organizado e com cheiro de limpeza, e ele me esperava com meu café da manhã pronto.
Tudo completamente normal, aquele gostoso cozinhando pra mim e fazendo todo o possível pra me deixar feliz.
–Bom dia Aoi~, dormiu bem? — Mais animado do que seria humanamente possível em uma manhã de domingo.
–Bom dia... — Resmunguei, ainda acordando. Só minha mãe mesmo pra me obrigar a acordar às 10 da madrugada num final de semana. — Sim, dormi bem, e você?
–Muito bem... quando acordei você estava dormindo encostado em mim...
Sufoquei com o chá que estava tomando.
Ele devia abusar da minha inocência enquanto eu dormia, no mínimo.
–Ah... desculpa...
Ele apenas riu.
–Só vou me arrumar e já vou ir buscar eles... — Comentei enquanto terminava de comer. — Estava ótimo, obrigado Kou.
Agradeci pela comida e levei a louça pra pia.
–Vai demorar muito?
–O quê?
–Pra voltar...
–Uns 45 minutos.
–Ok... posso pegar a sua guitarra?
–É toda sua.
Saí da cozinha e terminei de me arrumar no quarto. Só queria que aquele domingo passasse logo, eu estava voltando a ficar ansioso.
Eu ia ter que passar o dia ignorando Uruha, não ia poder falar com ele na frente dos meus pais.
Quando voltei pra cozinha, pronto pra sair, comentei isso com ele.
–Não vamos poder conversar nesse tempo né... desculpa.
–Ok, eu fico falando sozinho, não tem problema.
Pior que ele estava falando normalmente, não estava sendo sarcástico.
–Não vai ficar reclamando depois? Sabe que não é porque eu não quero, nem por vergonha.
–Yuu. Eu sei. — Colocou as mãos nos meus ombros. — Não precisa se preocupar. E você tá muito tenso. O que tá te incomodando?
–N-Nada...
Tire as mãos de mim pelo amor da minha sanidade. E pare de me olhar tão fundo nos olhos.
–Então vai logo buscar eles, e para de se estressar tanto, ok?
–Ok... até depois...
Peguei as chaves do carro e saí rapidamente.
Por mais que eu resistisse, ele sempre conseguia fazer eu parar de sentir minhas pernas. Só de manter seus olhos cor de chocolate fixos nos meus.
E não consegui tirar seu olhar da cabeça enquanto dirigia. Não vi o tempo passar, e logo já estava estacionado na frente da casa dos meus pais.
Minha mãe me abraçou calorosamente.
–Yuu, graças a deus você não está mais tão magro!
–Eu não engordei! — Quase me ofendi com essa. Me chama de gordo de novo que eu proíbo o peixe de cozinhar e vivo só de água que nem ele.
–Não engordou, mas não tá mais esquelético daquele jeito. Agora tá no ponto. Quem anda cozinhando pra você?
–Eu mesmo.
Estávamos parados na calçada conversando, até que meu pai apareceu e o cumprimentei também.
–Pare de incomodar o Yuu, querida. — Já se meteu na conversa, como sempre fazia.
–No caminho a gente conversa. — Abri a porta de trás pra minha mãe, e meu pai sentou ao meu lado, no banco de passageiro.
Durante o trajeto, minha mãe não parou de falar um segundo sequer. Meu pai só me olhava com uma cara de “fazer o quê”.
Mal chegamos na minha casa e ela já começou a me atacar.
–Por que tem dois chinelos aqui na porta Yuu?
–Eu não posso ter dois chinelos?
–Um par é maior que o outro.
–Comprei errado, não vi o número direito, então tive que comprar outro.
–Por que simplesmente não trocou na loja?
–Mãe. Chega.
–É Jou, vai com calma. — Meu pai concordou. — Não sei se lembra mas seu filho tem 30 aninhos.
–E daí?, vai ser sempre meu bebê. E eu quero saber como anda a sua vida Yuu, coisa que obviamente você não quer me contar.
–Que tal entrarmos primeiro?
Já estava me deixando irritado e ainda estávamos do lado de fora.
Eles se acomodaram na sala e ficamos ali conversando, agora, assuntos melhores.
–Que cheiro bom é esse...? Não me diga que você finalmente aprendeu a cozinhar?
–Sim, eu deixei as coisas assando quando saí... aliás, eu vou ali dar uma olhada no almoço, ok? Já volto.
Deixei os dois na sala e fui pra cozinha, onde Uruha cozinhava muito empolgado, finalizando seus pratos.
–Tá quase pronto. Já deixei a mesa arrumada também. É só servir. — Sorriu, contente.
–Nem sei como te agradecer...
–Continue sorrindo assim...
–Ah Uruha, cala a boca, não é hora pra isso.
Não me vem com esse romantismo que minha mãe já tá me dando nos nervos o suficiente.
E eu nem podia falar alto. Mesmo que a televisão estivesse ligada na sala, daria pra me ouvir falando sozinho ali.
–Desculpa. — Parou o que estava fazendo e desligou o fogão. — Tudo pronto, só levar pra mesa.
Fiz isso, e então chamei meus pais para que viessem sentar.
Não sabia dizer qual dos dois estava mais admirado com a enorme variedade de pratos japoneses que Kouyou tinha feito.
Voltamos a conversar, enquanto comíamos, sem pressa. Me esqueci do loiro até ele aparecer no canto da sala.
Tentei não ficar olhando muito e fingi que ele não estava ali.
Acabei levando um susto quando ele se aproximou sem eu ver e sentou na cadeira vazia ao meu lado.
Meu pai estava contando uma história engraçada sobre como seu carro havia estragado, mas perdi completamente o foco quando senti os lábios de Kouyou quase encostando na minha orelha.
–Eu já disse... que você tá lindo hoje...? — Sussurrou, a voz rouca.
Eu tive um ataque do coração e morri pelo menos umas cinco vezes. Me engasguei, comecei a tossir, derrubei meus hashis, e fiquei vermelho como um morango.
–Tá tudo bem querido? — Minha mãe perguntou, diante do meu súbito ataque sem motivo nenhum.
–Só... me engasguei... — Afirmei, tossindo ainda.
Em uma olhada rápida, vi que o loiro sorria safadamente ao meu lado. Se aproveitando da situação. Que vontade de sair correndo dali pra bem longe dele antes que ele começasse a passar a mão em mim durante o almoço de família.
Algo que eu nem duvido que faria.
Dei um cutucão nele com o cotovelo. Ele só riu, divertido, apreciando a cena da minha desgraça.
Cinco minutos depois, quando eu já estava ouvindo outra história que minha mãe contava, agora sobre meu irmão e minha cunhada, quando senti sua respiração em meu ouvido de novo.
–Fiquei com saudades, Yuu... — Seus lábios roçaram em minha pele enquanto ele falou aquilo. Senti um arrepio na espinha.
Por que me maltratar tanto assim, meu peixe? Por quê?
Na frente dos meus pais, droga! Só porque eu não posso reagir, te xingar, gritar, te estapear...
Aposto que ele não teria coragem de fazer aquilo se estivéssemos sozinhos. Tenho certeza. Só estava fazendo isso porque eu não podia falar nada, só ser abusado por ele.
Era o que ele estava prestes a fazer pois seus lábios depositaram um beijo leve no meu pescoço.
AH NÃO, DAÍ JÁ É DEMAIS, PODE IR PARANDO POR AÍ OU A COISA VAI FICAR FEIA.
Levantei num salto, me afastando dele.
Meus pais me encaravam assutados.
–O que houve?
–Tinha um bicho em mim... acho que era uma abelha... — Espantei um inseto invisível e voltei a sentar. Com muito medo do próximo ataque.
Mas ele não fez mais nada. O resto da refeição prosseguiu completamente normal, Kouyou continuava sentado quietinho do meu lado, dentro do seu escudo de força invisível e inacessível através do qual só eu tinha acesso.
Terminamos de comer, e tirei a mesa com alguma ajuda, logo trazendo a sobremesa. Levei um xingão da mãe por ter tanto sal estocado no armário, como ela acabou descobrindo ao abrir um deles, e tive que ouvir todo um sermão sobre comida muito salgada fazer mal pra saúde.
Depois, deixei que eles falassem o quanto quisessem, apenas rindo ou concordando em algumas partes, mas não estava de fato prestando atenção.
Tudo culpa de quem? Sim, dele mesmo.
–Yuu... sua casa tão limpa e arrumada assim... essa comida fantástica... aconteceu alguma coisa muito séria com você. Está tentando impressionar algum moço, é?
–Não, mãe... — Respondi a contragosto.
–Ou alguém fez isso por você? Não precisa ter vergonha de dizer que tem um namorado. E se tiver mesmo, nós queremos conhecê-lo!
–Um dia, talvez... — Uruha comentou, alheio na conversa.
–Hã? — Minha mãe disse.
–O quê? — Me assustei.
–Você disse alguma coisa?
–Não. Eu não disse nada.
–Eu não disse nem ouvi nada. — Meu pai confirmou.
–Que estranho... juro que ouvi alguma coisa...
O QUÊ? ELA OUVIU O URUHA? COMO?
–Mas enfim, Yuu, se você estiver escondendo alguém no seu quarto, não tem problema, pode contar. Eu quase sinto a presença de outra pessoa nessa casa, sabe?
Que diabos de sexto sentido é esse mãe, não me assusta desse jeito.
–E o Aki-kun? Não falou mais com ele?
–Não mãe, ele não vem pra cá desde o natal...
“Aki-kun” era o meu amigo da escola que foi pra Tokyo e me abandonou nesse fim do mundo. Como toda a família dele mora aqui, e são amigos dos meus pais, ele sempre vem pra cá umas duas ou três vezes por ano, e dá uma saída comigo também.
–E o Hitsu-kun?
–O que tem ele?
–Ele tem aqueles pregos na cara, mas é um bom menino, eu sempre gostei dele... Sempre que encontro ele na rua ele me cumprimenta e é muito gentil...
–Mãe, eu não quero falar disso, ok?
De algum jeito eu sabia que o loiro estava deprimido nesse momento, mesmo sem olhar pra confirmar.
Fizemos mais algumas coisas e continuamos conversando, até que na metade da tarde eles decidiram ir embora. Disseram que iriam de ônibus então eu não precisaria levá-los.
Fui com eles até a estação e nos despedimos, combinando de marcar outro almoço.
Voltei pra casa.
Furioso.
Hora de acertar as contas com o marido.
Atravessei a porta dramaticamente e apontei um dedo para o loiro que dedilhava minha guitarra sentado no sofá.
–QUE HISTÓRIA FOI ESSA DE ME ATACAR NA FRENTE DOS MEUS PAIS, SENHOR TAKASHIMA? PODE COMEÇAR A SE EXPLICAR.
Cruzei os braços.
–Você gostou? — Largou a guitarra e veio até mim. — Eu posso fazer de novo...
–E-E-E-E-Eu... E-Eu... — Cacete, ele estava perto demais.
–Gostou ou não? — Perguntou, sugestivo. Com uma cara de “é óbvio que você gostou, tava quase gemendo”.
–Não te interessa! — Fiquei mais bravo ainda. Ele riu da minha cara.
–Você tá lindo... — Comentou.
–Não tô não, fica quietinho aí.
Dois meses se passaram daquele jeito.
Entre oscilações do Kouyou romântico, pro Kouyou pervertido, pro Kouyou depressivo. Eu gostava dos três, mas como nenhum era humano, eu não gostava de nenhum.
E esse é meu único e mais forte argumento.
Todos os dias eu era lembrado disso, quando ele se transformava na banheira. Ele não era humano, e seria errado eu me apaixonar.
Notas finais
na verdade ele não tava no roteiro, mas assim vai fechar certo 10 capítulos
daqui pra frente começa a pegar fogo a coisa, e não no bom sentido :
obrigada por todos os reviews maravilhosos e me desculpem pelo atraso ;A;
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