Water
4 Quatro patinhos foram passear
Notas iniciais
Capítulo 4:
Quatro patinhos foram passear
mentira, foram só dois
Mais um dia passou naquela rotina. Já era quarta-feira.
Eu ainda estava tentando digerir o fato de Uruha realmente estar apaixonado por mim. Naquela noite eu fiquei na sala até começar a pegar no sono, e só então fui pro quarto. Deitei bem na beirada da cama, ficando o mais longe dele possível.
De manhã, lá estava ele, fazendo café pra mim de novo. Sorrindo. Empolgado. Bem disposto. Como sempre.
E agora estou aqui na minha sala, brincando com uma caneta esperando alguém aparecer com algum problema pra eu, poderoso chefão, resolver. Tipo um gato preso numa árvore ou coisa parecida.
Sobre o loiro, eu ia continuar neutro, só observando seus movimentos. Ou, pelo menos, ia tentar.
Eu não estava com vontade nem de mexer no computador que eu tinha ao lado. Só liguei uma música baixinho pra tentar pensar em outra coisa que não fosse o peixe lá de casa.
O que acabou me dando uma ideia interessante.
Se Uruha aprendia tudo tão rápido, será que isso também se aplicava pra música?
Fui pra casa mais cedo. Ninguém precisava mais de mim ali mesmo, e podiam se virar sozinhos se alguma coisa acontecesse.
Abri a porta de casa animado, e o loiro, no computador, se virou surpreso.
–Voltou cedo, Aoi. Aconteceu alguma coisa? — Levantou vindo até mim, curioso.
–Não. Consegui sair mais cedo hoje, e vim rápido pra casa passar um tempo com você.
Seus olhos sorriram pra mim, os lábios permaneceram entreabertos.
É uma sensação tão boa, deixar as pessoas felizes.
–Eu tive uma ideia. O que você sabe sobre música? — Falei enquanto ia até meu quarto, trocar de roupa.
–Música? — Ele respondeu lá da sala. — Não estudei ainda. Fiquei assistindo canais de notícias internacionais hoje... sobre a crise nos Estados Unidos... guerras do Oriente Médio... coisas assim. Mas sobre música não parei pra ouvir com atenção ainda.
Eu tenho uma guitarra velha esquecida no canto de um armário. Terminei de me trocar e procurei por ela, testando se ainda estava usável.
É.
O braço tava quase quebrando, mas dava pro gasto ainda.
–Então vem aqui que eu quero te mostrar. — Encostei a guitarra na parede da sala e sentei na cadeira do computador, procurando nele meus vídeos e arquivos de música.
Disse para ele pegar uma cadeira da mesa da cozinha e sentar ao meu lado. Quando estava posicionado, me olhando curioso, abri o vídeo de uma música do X Japan tocada ao vivo, e assistimos em silêncio.
Por um momento desviei meus olhos do monitor para seu rosto, e percebi o quão concentrado ele estava. O olhar fixo e pensativo analisando cada segundo do vídeo.
–E aí, o que achou? — Perguntei quando acabou. Agora eu que estava ansioso de novo.
–É linda. Adorei. — Declarou, admirado.
Peguei a guitarra e coloquei em seu colo.
–Acha que consegue arriscar alguma coisa...?
Ficou assustado por um momento, segurando o instrumento. Então ficou de pé, e disse:
–Quer que eu toque inteira?
O QUÊ?
–Essa música...? Não, eu só... achei que... conseguisse tirar alguma melodia ou coisa assim... mas... vai lá, me surpreenda.
Uruha concordou com a cabeça, confiante. Testou a afinação de cada corda, e corrigiu calmamente. Quando estava pronto, começou a tocar.
Meu coração quase parou ao assisti-lo tocar Silent Jealousy perfeitamente. Mesmo sem amplificador, dava pra ter certeza que todos os riffs estavam certos. Tocou o solo mesmo sem sair som, cada dedo no lugar certo, na hora certa, cada movimento impecável.
Então ele realmente aprendia rápido. E qualquer coisa. Ele é perfeito.
–Você... você é incrível... cara... — Falei quando ele terminou. — Você não precisa de aula de nada... pode aprender qualquer coisa sozinho. E fazer melhor que todo mundo.
–Eu vou fazer o que você quiser que eu faça. Qualquer coisa. É só pedir que eu dou um jeito de conseguir. — Sorriu.
Então me come, seu lindo. Opa, quase respondi em voz alta. Foi por pouco dessa vez.
Notei que ele havia fechado todas as janelas do computador quando eu cheguei. Espertinho. Não queria que eu visse o que andava fazendo então, é?
E pelo jeito pensou na mesma coisa na mesma hora que eu.
–Me desculpe por ter esquecido o computador ligado ontem, Aoi. Não vai acontecer de novo.
–Nem se preocupe, tudo bem, eu desliguei depois...
–Mas... mas... você viu... alguma coisa?
Uruha hesitando. Nervoso. Essa era uma novidade.
–Só fechei tudo e desliguei, nem prestei atenção... — O poupei do constrangimento e o vi respirar aliviado.
Que coisa mais linda, alguém me segure.
Tudo seguiu bem até o final do dia. O de sempre, ele cozinhou, a gente conversou enquanto eu jantava, banho depois, arrumar a casa, e enfim ir dormir. Ele se ofereceu pra lavar e passar minhas roupas enquanto eu trabalhava, mas eu disse que não precisava, de jeito nenhum, eu levava na lavanderia sempre e ninguém precisava se incomodar.
Quinta-feira eu acordei com o toque do celular mais cedo do que o normal. Era uma emergência e eu precisava chegar no local imediatamente. Me vesti correndo e nem tive tempo de deixar um bilhete pro loiro que dormia tranquilamente.
O sol não havia nascido ainda, e parecia que ele não iria acordar até lá. Então fiz uma pequena marotagem e lhe dei um leve beijo no rosto antes de sair. Me senti o maior criminoso do mundo e o maior gay saltitante da face da Terra por ter sentido sua pele macia em meus lábios.
Trabalhei duro naquele dia, uma compensação divina pela vagabundagem do anterior. Fazia tempo que não surgia tanta treta assim pra eu comandar e resolver. Sem falar no estagiário novo que precisava ser corrigido toda hora.
Já estava escuro quando finalmente pude voltar pra casa. Mas fui interrompido pelo meu celular antes de chegar no carro.
E sabe quem era?
Hitsugi.
E sabe o que ele fez?
Me aliciou e me convidou pra ir beber com ele agora de noite.
E sabe o que eu fiz?
Aceitei sem arrependimento nenhum e saí com ele.
Afinal eu estava cansado do dia longo de trabalho e merecia um descanso.
Mas saímos como amigos apenas, tudo completamente macho e normal. Era só fruto da minha imaginação perturbada achar que ele estava flertando comigo às vezes.
Não bebi muito, só uma cerveja ou duas, mas foi extremamente revigorante revê-lo e dar muita risada junto com ele. Não faltou assunto. Foi maravilhoso. Fazia tanto tempo que eu não encontrava um amigo que nem lembrava mais o que era ter um. E ele estava lindo pra caralho, me deixando com uma vontade imensa de sentir todos aqueles piercings da sua boca com minha língua.
Você aí deve estar se perguntando uma coisa muito importante.
Pois é.
Foi quando estava indo embora, horas depois, e fui pegar as chaves do carro, que me lembrei que abandonei Uruha sozinho em casa sem avisar nada.
Saí antes de ele acordar e não voltei no fim do dia. Já era uma da manhã e ele devia ter caído no sono há muito tempo. Será que ele ficou me esperando e passou mal ou foi tomar seu banho salgado direitinho?
Me senti uma vadia burra oxigenada traidora infiel.
Também lembrei que não havia deixado o número do meu celular pra ele.
Me odiei por cada segundo que passou até que eu chegasse em casa. Não me perdoaria se tivesse acontecido alguma coisa com ele.
PORRA YUU, PORRA! COMO ASSIM TU ESQUECEU COMPLETAMENTE DELE? PORRA MANO, NÃO FODE. O PEIXE LOIROSO QUE DORME NA TUA CAMA. O CARA PERFEITO APAIXONADO E LOUCO PRA DAR PRA VOCÊ.
Espera.
Correção: O CARA PERFEITO APAIXONADO E LOUCO PRA COMER VOCÊ.
COMO QUE EU FUI ESQUECER?
Eu podia sentir o perfume do Hitsu em mim, que ficou do abraço que ele me deu antes de ir embora. Agora sim eu me sentia uma vadia.
Entrei em casa devagarinho, largando as chaves e carteira em cima da mesa. Podia ver dali que a luz do abajur do meu quarto estava acesa. Ou seria nosso quarto?
Fui andando até lá sem fazer barulho, e encontrei um Uruha adormecido sentado na cama, a cabeça apoiada na parede. Normal e cheiroso, o peito subindo e descendo lentamente com sua respiração. Então ele tinha feito tudo certo.
Me aproximei e tentei puxá-lo para que ficasse deitado e não dormisse daquele jeito desconfortável a noite inteira.
Achei que não fosse acordá-lo, mas bastou encostar as patinhas nele que o loiro acordou, sobressaltado, como se tivesse acabado de pegar no sono, sem perceber.
Me encarou com seus orbes castanhos assustados por um longo momento. Eu ainda estava com as mãos em seus braços. Por dentro eu me remoía de arrependimento. Até que enfim ele quebrou o silêncio da madrugada.
–Shiroyama Yuu, nunca, nunca mais me deixe sozinho desse jeito. -Me olhou nos olhos, vi desespero e alívio misturados nos seus. — Achei que não fosse mais voltar. Achei que eu fosse ter de viver sozinho pra sempre. Foi alguma coisa que eu fiz? Você ficou irritado porque eu toco guitarra melhor do que você? Foi isso? Foi insuportável passar um dia inteiro sem você... por favor me desculpe... me avisa se eu te chatear, mas nunca mais suma desse jeito...
Vontade gigantesca de bater com a cabeça no chão pela besteira que eu havia feito.
Antes que eu respondesse ele me puxou pra perto e me abraçou forte, muito forte. E demorou pra soltar.
Encostei o rosto em seu pescoço, seu cabelo estava com um cheiro delicioso de xampu.
–Desculpe... — Murmurei, cada vez mais abalado pelo que eu havia feito com ele.
Nunca que eu ia imaginar que ele ia estar nesse estado. Nunca tinha percebido o quão dependente de mim ele era, nem toda a carência que sentia.
Ele não respondeu. Tentei me soltar do abraço e não houve protesto.
Uruha tinha dormido me abraçando. Ou eu sou chato demais ou só agora ele ficou em paz e conseguiu dormir direito.
Meu coração doía um pouco de pena dele.
Apaguei o abajur e deitei no meu lado da cama.
Inconsciente, ele se virou um pouco, se ajeitando, e senti sua mão procurando a minha.
Hesitei.
Hesitei muito, mas enfim, a peguei.
E acabei dormindo também. Com nossos dedos entrelaçados.
Uma promessa silenciosa, um “sim” silencioso. Não era preciso dizer nada, era apenas natural.
E certo.
Por mais que eu continuasse negando isso pra mim mesmo.
•••
Acordei com Uruha me chamando gentilmente e dizendo que eu estava atrasado. Uma xícara de chá e um onigiri já me esperavam no criado-mudo ao lado da cama.
O loiro estava sorridente como sempre, como se o acontecido de ontem não tivesse sido nada demais. Aproveitei a chance pra implorar por desculpas enquanto me vestia. Ele apenas balançou a cabeça dizendo que não tinha problema e que agora estava tudo bem.
Decidi dar um jeito de recompensá-lo, tentando concertar minha burrada, e lhe fiz uma proposta.
–Quer ir comigo hoje?
–O quê?
–Quer ir pro trabalho comigo...? Acho que faria bem um pouco de contato com outros lugares e outras pessoas já.
–Sério? Eu posso ir? Mesmo? — Olhos brilhando novamente.
Tudo bem que eu estava feliz por ter saído com o Hitsugi ontem. Não havia me arrependido por ter estado com ele, mas por não ter avisado Uruha. Só por isso. Hitsu era meu amigo e nada mais, nunca iria querer alguma coisa comigo. Pronto. Sem estress, Yuu.
Dei pra ele vestir uma jeans e uma regata e já ficou perfeito. Não precisava de muito pra deixar ele bonito. Nem se eu ficasse uma hora me arrumando ia ficar bonito daquele jeito.
Entrou saltitante no carro e ficou explorando com o olhar tudo ali dentro, e depois as ruas e os pedrestes, as lojas e casas no caminho. Abri a janela para que ele visse melhor e ficou parecendo um cachorro com as orelhas voando no vento.
Nem duvido que se eu deixasse ele sentar no meu lugar ele ia saber dirigir e ainda saía fazendo drift pelas esquinas.
Chegamos na sede da polícia e ele andou ao meu lado até minha sala, completamente admirado com tudo.
Disse para que ele se sentasse na poltrona na frente de minha mesa e comecei a arrumar a papelada que havia abandonado sem arrumar ontem à noite. Ele não aguentou parado e levantou, explorando o resto da sala.
Alguém bateu na porta. Kazuki, o estagiário, meu assistente.
–Bom dia, Shiroyama-san. — Me cumprimentou com seu jeito todo uke e submisso numa reverência.
Um detalhe que vale a pena acrescentar: ele era um puta de um uke, e ainda por cima, era meu fã. Tanto no trabalho quanto no surf.
Só que eu sou tão uke que ele, então não rola.
Mas que ele era fofinho e mordível, era.
–Trouxe os relatórios de segurança comunitária... mais uma declaração de carteira perdida... e esses outros papéis aqui...
Entrou na sala e fechou a porta atrás de si, vindo decidido até minha mesa. Ignorando Uruha completamente.
–Aceita um café...? Eu vou buscar pro senhor... — Sugeriu, depois de empilhar tudo bonitinho e em seu lugar, além de arrumar o resto da minha bagunça. Tinha cara de colegial, com a camisa e gravata que usava.
–Não, obrigado, já tomei em casa... Aliás... Kazuki, esse aqui é o Uruha... — Indiquei o loiro ao lado dele, que observava a vista da janela à esquerda. — Um amigo que está passando um tempo lá em casa...
Kazuki olhou vagamente pra direção que eu apontei.
–Hã? Desculpa, acho que ouvi errado. — Não soube dizer se era ciúmes ou o que aquele tom.
–Esse aqui é o Uruha. — Fui até o seu lado, colocando a mão em seu ombro, lhe apresentando. — Veio passar o dia comigo.
O estagiário olhou pra mim um pouco preocupado.
–Shiroyama-san... não tem ninguém aí... só tem nós dois nessa sala... você anda trabalhando demais... tem certeza que não quer outro café...?
Notas finais
passando por um momento muito incrivelmente fudido e como sempre a única coisa que me resta é aoiha
nem sei como eu consegui escrever nesse estado que to
sejam gentis e me deixem reviews, se não for pedir demais
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