Water
5 Cinco atitudes práticas
Notas iniciais
–Shiroyama-san... não tem ninguém aí... só tem nós dois nessa sala... você anda trabalhando demais... tem certeza que não quer outro café...?
Capítulo 5:
Cinco atitudes práticas
para alavancar sua vida amorosa já
–O... O quê? Kazuki, não tem graça. Esse loiro alto aqui do meu lado, como assim não tá vendo?
Caralho, que porra é essa? Tô me segurando pra não me desesperar.
–E-Eu... vou buscar um café... sente-se um pouco... – Ele respondeu ainda nervoso.
Uruha olhava pro nada, sem expressão.
Quando Kazuki saiu, comecei a gritar com ele.
–O que tá acontecendo aqui? Por que ele não pode te ver? Por que você não fala nada?
–Os outros não podem me ver, me ouvir ou me tocar... por enquanto. Só você pode, Aoi. – Falou, voltando os olhos, um tanto tristes, pra mim.
–Ah, é? E posso saber por quê?
–Porque sim. – Me cortou.
–Então você sabia disso? Por que nunca disse nada?
–Você nunca perguntou.
Ah, então é assim seu canalha?
–Quantas coisas mais você tá escondendo?
–Não posso contar. Você precisa descobrir sozinho. – Vi ele usar um tom firme pela primeira vez, superior, deixando claro que o assunto estava encerrado.
Decidi ficar quieto para que quando meu assistente voltasse não me encontrasse gritando sozinho.
Talvez eu estivesse ficando louco. Talvez ele realmente fosse fruto da minha imaginação problemática.
Não.
NÃO, NÃO PODE, ELE É REAL. Está bem aqui do meu lado, eu tenho certeza... todos os momentos junto com ele até agora, as duas vezes que ele salvou minha vida, ele é real, eu sei disso...
–Desculpa. Não falo mais nada. Vou ficar quietinho aqui. Se quiser eu vou pra casa, sei o caminho.
–Não, Uruha... desculpa... mas... como eu ia saber? Isso me pegou de surpresa! Ninguém mesmo? Ninguém pode te ver, só eu!?
–Sim, só você. Por enquanto...
–Por enquanto? Que por enquanto é esse?
–Não posso falar. Já disse, você precisa descobrir sozinho. – Me cortou novamente.
–Como que eu vou descobrir sozinho, você não vem com manual!
–Você nem tenta né... eu sou só animal de estimação pra você...
–Nem vem Uruha, não vai ficar se fazendo de coitado aí.
Kazuki entrou na sala naquele momento, e me calei imediatamente. O loiro voltou a desabar na poltrona, me ignorando, como se nem estivesse ali.
–Tá tudo bem chefe? Não quer ir pra casa, tirar um dia livre, ou dois? A gente dá um jeito por aqui, pode ir... – Largou o copo do meu café preferido na minha mesa e cruzou os braços, hesitante.
–Tudo bem. Eu vou, já que ofereceram, preciso pensar um pouco mesmo, mas segunda estou de volta, não se preocupem, e qualquer coisa me liguem, ok...? Ok. – Peguei o café e minha pasta, indo em direção à saída, sem nem olhar direito pra ele.
Cutuquei Uruha enquanto passava e ele levantou, me seguindo, cabisbaixo.
Nem dei tchau pro coitado e saí porta a fora, andando rápido, tomando grandes goles do café fervendo.
Só parei pra respirar quando estávamos no carro. Escondi o rosto com as mãos por um momento, e então voltei a encarar o loiro silencioso.
–Você é de verdade, não é? Eu não estou imaginando tudo isso...? – Temi a resposta.
–Calma Aoi, não fica assim... eu sou de verdade, olha... – Segurou minhas mãos com as suas, quentes, e eu tive certeza de que do ele havia falado.
–Mas por quê? Por quê os outros não podem te ver...? – Soltei minhas mãos das suas, seu toque me deixava nervoso.
Ele apenas desviou o olhar, como se estivesse se segurando pra não me contar.
Ficamos alguns minutos em silêncio. Não ousei ligar o carro ainda, estava muito abalado com a informação.
Até que sua voz, baixinha, rouca, perguntou:
–O café dele é melhor do que o meu?
Sorri de leve, involuntariamente.
–Ficou com ciúmes, é?
–Eu não quero que você goste mais dele do que de mim... meu coração dói quando eu penso nisso... isso é ciúmes?
Lindo como sempre.
Voltei a me acalmar.
Certo, eu podia começar a viver com o fato de que ele era exclusiva e literalmente meu.
–Vamos aproveitar o dia pra fazer o que temos pra fazer. Comprar roupas pra você, passar no mercado... ir pra praia...
–Praia? Sério? Você vai ir nadar comigo? – Me olhou realizado, radiante.
–Vou... – Ri da sua animação infantil. – Ei. Eu nunca deixei você ir pra praia sozinho porque ia sair pelado da água, depois de se transformar, mas... já que ninguém pode te ver... então a partir de agora você pode ir sozinho todo dia, enquanto eu trabalho...
–Mas... mas... – Voltou a ficar tristinho. – Mas eu gosto de ficar na banheira conversando com você... não me importo de só ir pro mar no final de semana...
CALMA YUU, CALMA, EU SEI QUE É FOFO DEMAIS, MAS SE SEGURA E NÃO AGARRA ELE AINDA.
–Então vamos fazer assim então, não tem problema, o que você quiser... só achei que ficasse com saudade de nadar todo dia...
–Eu fico... mas a saudade de você é maior... então eu me ocupo de tarde estudando as coisas humanas pra que você possa gostar de mim um dia...
Parada cardíaca. Respiração boca a boca, agora, seu peixe perfeito.
–Mas eu gosto de você... quer dizer... ah.... – Fiquei sem jeito. Entendi o que ele queria dizer e ele entendeu o que eu estava resmungando. O jeito que eu “gostava” dele ainda não era o jeito que ele quis dizer.
Ok, eu tinha ataques por ele, era 200% atraído por ele, mas não queria me apaixonar.
Liguei o carro, mudando de assunto.
–Vamos pro shopping então.
–Já disse que você tá lindo hoje? – Comentou, sorrindo de lado.
– ... Cala a boca Uruha. – Respondi. Me deixou nervoso de novo, o maldito. Ele ficou meio confuso, mas trocamos um olhar e desatamos a rir juntos.
Tão bom rir junto com ele.
O silêncio predominou durante o trajeto, então, liguei o rádio pra nos distrair, enquanto dirigia.
Mas acho... só acho... que ouvi ele sussurrar pra si mesmo, bem baixinho... “Vem calar então...”
•••
Chegamos no shopping e o levei direito pra uma loja de departamento. Não aguentava mais ter que vê-lo usando minhas roupas, que não lhe serviam direito.
Mas, obviamente, já que ninguém podia ver aquela criatura, tive que entrar junto no provador para fingir que era eu quem ia experimentar aquelas roupas. Passei por grandes apertos amigo, acredite. Fiquei virado de costas no espaço apertado, me segurando muito pra não espiar pelo espelho ele se trocando.
Compramos uma sacolada de roupa e então passamos no mercado, fazer o rancho da semana.
–Vai dizendo os ingredientes que você precisa, pra o que seja lá que vai fazer de janta essa semana...
Nem preciso dizer que ele estava absurdamente deslumbrado com tudo, as lojas, as pessoas, os produtos.
–Mas, Aoi-shi... eu não estou gastando demais seu dinheiro...? Eu queria poder trabalhar... pra comprar presentes pra você... — Resmungou, ficando pra baixo de novo.
–Isso não é problema, para de falar besteira! Eu ganho o suficiente pra sustentar nós dois, e, aliás, você nem come, eu só gasto em sal com você. — Procurei seus olhos enquanto falei aquilo, para que ele voltasse a se animar em vez de ficar preocupado com isso.
E fodam-se as pessoas que passavam em volta e provavelmente me viam falando sozinho. Era o meu peixe ali e eu não tinha vergonha de falar com ele em público mesmo que eu parecesse um idiota.
–Hmm... Aoi... — Começou. Andávamos lado a lado pelos corredores do mercado, eu levando o carrinho.
–O quê?
–Você gosta de doces?
–Amo. Por quê?
–Eu planejei sobremesas pra essa semana... se você quiser que eu faça...
–Uruha, você já faz tanta comida boa a semana inteira, eu ando me empanturrando de noite pra não sobrar as maravilhas que você faz... se fizer doce também... eu vou engordar.
–Mas daí é mais Yuu pra eu amar. — Disse com sua cara mais pura de “ :3 “. Simples assim. Puto. Viado. Sem-vergonha. Pra que ser perfeito desse jeito, hein?
–Ok, vai lá então, me encha de açúcar e chocolate. — E depois me lambe. — Só não reclame quando eu virar uma morsa, a culpa é toda sua.
Ele riu e eu acabei rindo junto.
–Você é lindo de qualquer jeito. E não me importo com a forma do seu corpo. Seus olhos são simplesmente-...
–YUU! E aí, cara!
A declaração melodramática romântica idealista do sereio-fantasma foi interrompida por ninguém mais ninguém menos que...
Hitsugi.
Me avistou vindo do outro lado do corredor e vinha andando faceiro com uma cesta de compras.
–Oi, Hitsu~! — Cumprimentei de volta. Ele se aproximou e deu um tapa amigável nas minhas costas.
Não ousei olhar para Uruha. Além de ter sua declaração interrompida, devia estar se mordendo de ciúmes. Só sentia sua presença imóvel ao meu lado.
–Eu tava pensando em você. Obrigado pelo sms de ontem.
–Eu não sei de nada, seu traidor. — Não sabia o que ele ia inventar, mas entrei no jogo.
–Traidor? Pff. Não lembra o que me mandou, é?
–Ah... melhor ir parando por aqui... não me responsabilizo pelo o que eu faço depois da meia noite... — Brinquei.
Ele, troll como sempre, pegou o celular do bolso e começou a ler qualquer coisa que não existia e que eu nunca mandaria pra ele.
–”De: Shiroyama. Horário: 1h da manhã. Hitsu-kun... você perdeu o interesse em mim? Você já esqueceu de mim? (・`д・).” Boa tentativa, Yuu. — Riu.
–Só porque eu não tinha nada pra fazer. E achei que a gente podia sair de novo. — Ri também, um pouco constrangido por Uruha estar ouvindo a conversa.
Mas era tudo simplesmente normal, ele era só meu amigo, droga!
–Então vamos, assim que nós dois pudermos! Ok, deixando a putaria de lado, foi ótimo sair com você, temos que repetir.
–É o amor. Sabia que você não ia aguentar muito tempo sem minha maravilhosa companhia.
Queria que ele fosse embora logo pra eu poder voltar pras altas conversas com o loiro.
–Amanhã quem sabe? Se você puder...?
Eu odeio ter que inventar desculpas. Odeio ter que mentir. É simplesmente minha natureza, então, mais uma vez...
–Pode ser.
… Acabei aceitando.
–Eu te ligo então. A gente se fala. Vê se aparece no msn também, tenho aqueles vídeos pra te mostrar. — Bateu de novo nas minhas costas e piscou um olho, se afastando.
Bastante seme e macho ele era, com todos aqueles piercings e cabelo vermelho rebelde.
Mas a questão agora era o meu verdadeiro seme, que eu não ainda tivera coragem de encarar. Esperei que Hitsugi se afastasse o sufuciente e sumisse no fim do corredor para voltar a falar com ele.
Achei que ele estivesse furioso. Achei que ele quisesse me matar com as próprias unhas, ou enfiar sem dó um pote de nutella no meu rabo.
Mas não.
Estava com a cabeça caída e o olhar mais triste do mundo.
–O que foi, Uru...? — Perguntei na maior cara de pau. Não obtive resposta. — Ei. Era tudo brincadeira. Eu não mandei mensagem pra ele nem nada. É só um velho amigo...
–Era com ele que você estava quando sumiu sem me avisar, né...?
Um caminhão direto na minha cabeça. Peso na consciência over 8000. O arrependimento daquela noite voltou com toda força depois do comentário.
–Sim, eu saí com ele. Mas ele é só meu amigo, ok? Eu não sinto nada por ele...
–Mas ele sente.
–E como você sabe?
–Dá pra sentir no ar. Eu simplesmente sei.
Não duvidei.
Se der um baralho de cartas pra ele, é capaz de ele prever o futuro da humanidade. Peixão mil e uma utilidades.
–Mas pode ir lá com ele, eu não me importo. Me deixe apodrecendo em casa de novo. Não tem problema. Se você soubesse as coisas que ele quer fazer com você...
O quê...!?
Estávamos parados no meio do corredor de farinhas, discutindo a relação. Eu tinha os dedos agarrados no carrinho do mercado.
–Esquece. Não vamos brigar. A questão é que eu disse que só gosto dele como amigo e queria que você confiasse em mim. — Retruquei.
–Eu confio em você. Mas não confio nele. Não gosto de pensar no que ele poderia fazer... se vocês dois... sozinhos... — Me olhou horrorizado.
–É você que dorme na minha cama todos os dias, não ele, então chega desse assunto. Se não quiser mesmo, eu invento alguma coisa e não vou amanhã. Mas agora vamos continuar nossas compras.
Voltei a caminhar pelo corredor e ele me seguiu, quietinho. Mas logo já voltou a tagalerar falando sobre comida e as coisas que ele planejava fazer pra mim.
Eu não podia deixar de sorrir, analisando por esse lado. Era como se eu finalmente, depois de tanto tempo, tivesse um namorado. E o namorado mais perfeito do mundo.
Cof, cof.
Ignorando o minúsculo detalhe de ele não ser humano e ser praticamente um fantasma.
Terminamos as compras, coloquei tudo no porta-malas e voltamos pra casa. Separei um pedaço do meu guarda-roupa pra ele, onde guardou suas peças novas.
–Obrigado pelos presentes, Aoi. Um dia eu te recompenso, ok?
–Recompensar? E todo o trabalho que você já faz aqui em casa? E toda a companhia que você me dá? Eu é que preciso te recompensar ainda.
–Não precisa me dar nada, eu fico feliz só por estar com você.
Lá vem a enxurrada de elogios derretedores. Até quando eu ia lutar contra eles?
–Enquanto eu puder olhar nos seus olhos... eu sou a criatura mais feliz do mundo... — Disse, me encarando profundamente, como se enxergasse minha alma. Senti meu coração dar um único salto dolorido.
Só nos dois, sozinhos, no silêncio da minha casa, no quarto que dividíamos.
Socorro.
–Eu queria pedir uma coisa... — Ele continuou, falando devagar, sem tirar os olhos dos meus.
–Pode pedir... — Nem sei como minha voz saiu.
–Eu quero que você me dê um nome.
Hã?
–Mas você tem um nome...
–Eu quero um nome, humano. E quero você escolha ele pra mim.
–Mas... Mas...! É muito difícil escolher um nome... Tá... Tá bom, eu faço isso... — Me rendi ao seu olhar implorante. — Deixa eu ver...
Não tem como eu pegar um nome, assim, do nada. Então vou formar um ao acaso.
–Já sei. — Peguei um livro na estante do meu quarto. — Diz um número.
–Vinte e quatro. — Agora esperava, ansioso, tentando entender o que eu estava fazendo. E, ei, aposto que não foi por acaso esse número, ele tá ficando espertinho.
Abri o livro que eu segurava na página 24. Com um lápis, circulei a primeira sílaba da primeira palavra de cada linha. Acho que com quatro dá pra formar uma boa palavra.
–Shi. Ka. Ta. Ma. Hmm... Tamakashi... não... Katamashi... também não... Takashima... hm. Takashima. Esse é o seu sobrenome, Takashima-san. Agora me diz outro número.
Ele sorriu e disse “Quarenta e dois”. Abri nesta página e fiz a mesma coisa. Como tinha vogais no meio, peguei mais algumas.
–U. Yo. U. Ko. Hm... Esse vai ser de primeira. Kouyou. Parabéns Takashima Kouyou, você acaba de ganhar um nome humano completo.
Antes que eu pudesse reagir, ele se adiantou e beijou rapidamente minha bochecha. Senti meu rosto começar a queimar.
–Obrigado.
Respondi do jeito mais fácil: mudando de assunto.
–Tô com fome, o almoço sai quando?
•••
Depois de comer uma comida deliciosa, obriguei ele a deixar eu ajudar a arrumar a cozinha. Após isso, ficamos assistindo TV juntos. Já eram três da tarde quando eu perguntei se ele queria ir pra praia e por um segundo achei que ele fosse me beijar na boca de tanta felicidade.
Podia ter feito isso, eu não ia reclamar.
Na loja eu havia escolhido pra ele, sem nenhuma segunda, terceira ou quarta intenção, uma sunga preta justinha, larga dos lados. Perdi o ar quando ele saiu do quarto vestindo só isso, com toda a empolgação possível pra ir logo pra água.
Afinal, o mar era a casa dele. Eu o manti preso aqui durante uma semana, ele devia estar agonizando de vontade há dias.
Eu já estava pronto também, com meu calção de sempre, então saímos de casa.
Foi preciso um esforço gigantesco pra não ficar olhando pras coxas lisinhas, roliças e macias dele.
Chegamos na areia e ele respirou fundo, fechando os olhos, sentindo o sol e a brisa marinha por um momento. Pareceu até mais vivo e animado que antes. Realmente, ele precisava voltar pro seu habitat de vez em quando, a água com sal da banheira quebrava o galho, mas nunca seria a mesma coisa.
–Ok. Você vai ter que tirar isso antes de entrar na água ou vai rasgar. Eu vou me virar de costas, você deixa a sunga no chão e me avisa quando já estiver dentro da água, Uruh-
–Kouyou. Esse é meu nome agora. — Me corrigiu. — Certo, entendi.
Não consegui não ficar temeroso pelas pessoas em volta que aproveitavam a tarde na praia também. Eles realmente não o viam? Porque, afinal, ele ia ficar pelado ali, e se os outros vissem eu também queria ver.
Esquece.
–Pronto! — Gritou de longe, e quando me virei, o vi dentro da água, extremamente feliz.
Juntei a sunga e a guardei nas minhas coisas que deixei na areia, para então me juntar a ele.
Uruha nadava pra lá e pra cá rapidamente, mergulhando de um lado e reaparecendo bem longe em dois segundos. Era como se estivesse voando. Um pássaro que ficou preso numa gaiola.
Fiquei parado numa parte menos funda observando ele se divertir. Por vários minutos ele nadou, usando toda sua energia, a cauda às vezes emergia na superfície e o brilho azul das escamas no sol ficava dez vezes mais bonito.
Até que apareceu na minha frente, e segurou minha mão embaixo da água.
–Quero te apresentar pra alguém. Sobe nas minhas costas.
MAAAAAAAASSSSSSSSS O QUEEEEEÊ?!?1!?1!!!!!
Alguém? Como assim alguém? Outra sereia? Algum parente dele? Será que eu ia poder ver o infeliz?
IMAGINA SE FOR A MÃE DELE SENHORA MINHA SOGRA O QUE QUE EU FAÇO, SANTO HIDETO!?
–E-Eu... eu posso ver outras sereias também...? — Perguntei hesitante, enlaçando seu pescoço com meus braços, enquanto ele segurava minhas pernas ao redor de sua cintura.
–Não. Você só pode me ver. Não pode ver os outros. Mas quem eu vou te apresentar não é uma sereia.
Uffa, ainda bem. Menos mal assim.
Começou a nadar me levando junto, me segurei com mais força conforme ele aumentava a velocidade. Me senti praticamente dirigindo um jetsky. Ou um cavalo marinho.
Íamos em direção às rochas, onde a encosta fazia uma curva. Naquela parte, na terra, só havia mato, então era um lugar que ninguém ia, apenas barcos passavam por ali.
Avançamos mais um pouco até que ele parou bem no meio da água. Devia ter sei lá, uns 200 metros de profundidade ali. Fiquei com medo e colei meu peito nas suas costas, me agarrando a ele com toda força.
–Calma Yuu, eu não vou deixar você cair. — Safado, devia estar adorando ter eu agarradinho nele. Devia ser tudo de propósito.
Ele se deixou afundar um pouco, mergulhando a cabeça na água. Eu não fazia a menor ideia do que ele estava fazendo. Só tinha consciência de que a praia, a terra firme, estava muito longe dali, e meus traumas com água não estavam ajudando muito. Sem falar que dessa vez eu não tinha mais nem minha prancha.
–Ele já está vindo. — Falou depois de voltar pra superfície, voltando a segurar minhas pernas em torno de si, me dando mais segurança.
–Ele quem?
–Ele. Iruka-san.
O convidado acabara de chegar.
E sabe quem era? Quem?
Um maldito golfinho sorridente.
CARALHO ENTÃO REALMENTE TEM GOLFINHOS POR AQUI? EU SABIA, EU SEMPRE SOUBE!
O golfinho respondeu com barulho de golfinho que parecia uma risada. Devia ser um “prazer em conhêce-lo”. Ou um “vai se foder”. Eu não saberia dizer a diferença.
–Iruka-san, esse aqui é o Yuu, meu humano.
O outro peixe riu novamente.
–Sim, ele está me tratando bem. Sim. Sim. — Ficaram conversando por um momento, e eu alheio ali no vácuo. — Ainda não...
Dessa vez o animal fez um barulho indignado e eu tive certeza que estavam falando de mim.
–O-Oi... — Falei.
–Ele é meu melhor amigo. O único amigo que eu tenho. — Uruha me apresentou ele, que mantinha a cabeça fora da água, nos olhando. — Ele queria saber se eu estava bem. E disse que você tem cara de idiota mas parece uma boa pessoa.
O golfinho deu uma cambalhota na água, voltando à posição original.
–Uru... Quer dizer... Kou... — Era estranho chamá-lo pelo novo nome, mas já que insistia... — Uma vez... quando eu era criança, eu estava me afogando... foi ele que me salvou?
Iruka-san confirmou com a cabeça antes que o loiro pudesse responder.
–Ah... eu achei que tivesse sido você...
–Naquela época eu ainda não sabia que você podia me tocar... então pedi pro Iruka-san ir no meu lugar e salvar você...
Que amor.
–Muito obrigado, aos dois. Devo minha vida a vocês.
É uma coisa estranha chamar um golfinho de “você”, sabendo que ele estava supostamente entendendo.
Eles conversaram mais um pouco.
–Você já tem que ir? Tudo bem. Sim, eu volto amanhã. Pode deixar. — Depois Uruha riu nervoso. — Não, ele não quer. Mas eu dou um jeito. Tenho tempo ainda.
–Tempo pra quê? — Me meti na conversa.
–Quietinho aí, não te interessa. — Me cortou e voltou a falar com o amigo. — Eu acho que eu consigo. Se chegar muito perto e eu não tiver mais certeza, venho me despedir sim. Mas tem tempo ainda! Ok, ok. Até amanhã. — Terminou passando a mão carinhosamente na cabeça do golfinho, que riu mais um pouco e deslizou pela água, indo embora.
O que diabos acabou de acontecer aqui?
–Tempo pra quê? — Insisti.
–É uma das coisas que eu não posso contar e você vai ter que descobrir sozinho. Iruka-san disse que eu estou com cheiro de humano já... é um bom sinal. E foi ótimo ele ter gostado de você, ele odeia humanos geralmente.
–Podemos voltar? Por favor? Só de pensar na profundidade daqui to ficando enjoado. — Pedi antes que eu começasse a entrar em pânico por estar em alto-mar. — Depois posso fazer algumas perguntas?
–Não garanto que vou poder responder, mas pode pedir. — Falou, dando meia volta e nos levando de volta pra areia a toda velocidade.
Quando pude colocar os pés no chão, tive uma sensação maravilhosa de alívio e o enjoo passou. “Desmontei” dele, mesmo que quisesse ficar agarrado nele assim sem camisa pelo resto do dia.
Agora eu tinha água na altura do peito mas estava de pé, firme, e pude começar a perguntar.
–Cadê sua família?
–Minha família? Você quer dizer... meu bando? Hm... Eles... Eles me expulsaram...
–Te expulsaram!? — Não esperava por essa. — O que foi que você fez de errado?
–Nasci... — Completou, o olhar se perdendo em algum lugar ao longe. — Eles tinham inveja de mim, meus irmãos. Usaram essa desculpa pra me expulsar. Fizeram todos se afastarem de mim e me odiarem também. Mas eu nunca fiz mal pra ninguém...
–Inveja por quê? — Por que você é incrivelmente lindo?
–Porque eu sou... especial... — Disse lentamente, medindo palavras.
–Especial...?
Não obtive resposta. Soube na hora que ele não iria me dizer o porquê.
–Quando foi isso? O que você fez? Ficou abandonado sozinho?
–Faz bastante tempo... muitos anos, como vocês contam o tempo... eles me largaram não muito longe daqui e me proibiram de voltar. Então acabei ficando por essas águas... e conheci o Iruka-san que me ajudou...
–Mas como você conseguiu viver longe... do seu bando? Quer dizer, o que você ficou fazendo esse tempo todo? — Cada vez ele me deixava mais curioso. Não imaginei que sua história era cheia de... cicatrizes.
–Esperando.
Esperando o quê demonho, fala logo, eu tenho que perguntar tudo.
–Esperando... você. — Concluiu.
–Mas eu venho pra praia desde que eu era criança... podia ter vindo falar comigo antes...
–Há bem mais tempo tempo que isso eu estava aqui esperando...
Ok. Agora foi pra matar. Me pede em casamento de uma vez.
Perdi todas as palavras depois de ouvi aquilo. Não conseguia nem pensar direito. Seus olhos castanhos profundos tão firmes nos meus que não ousei desviar. Passaram-se longos minutos até que eu consegui falar alguma coisa.
–Hã.... ah... acho que vou sair da água, ok? Vou deitar ali na areia um pouco, pode ficar nadando por mais o tempo que quiser, só me avise quando for sair... — Gaguejei, à beira de um ataque de nervos, e saí da água o mais rápido possível, o deixando ali.
Deitei na areia sem nem saber o que estava fazendo, cobrindo o rosto com as mãos. A situação mudava todos os dias e era difícil raciocinar sobre o que estava acontecendo.
E eu não conseguia parar de repetir pra mim mesmo que ele não era humano e que tudo isso estava muito errado. Principalmente agora que sabia que ele era como um fantasma pros outros.
Nessa semana que passou, tínhamos ficado cada dia mais próximos. E ao mesmo, a cada dia que passava, eu queria me afastar mais. Seria melhor evitar um problema gigantesco desde o começo. Enquanto fosse possível lutar contra isso, eu ia fazer questão de não me deixar apaixonar.
Mas quando é “tarde demais”? Eu havia dado um nome pra ele. Um lugar no meu guarda-roupa e um na minha cama. Era questão de tempo até ele conquistar um espaço no meu coração também.
Quanto mais ele se aproximava, mais eu me sentia distante de Hitsugi. E aquela sensação de oportunidade jogada fora só aumentava.
Certo, só sei de uma coisa: eu estou completamente confuso e não sei de mais nada. Fim. Não me encham mais o saco.
–Vamos pra casa?
O infeliz quase me matou do coração ao aparecer, vestindo sua sunguinha, do meu lado.
–Você tá bem? Me desculpe se eu falei demais antes. Minha história não é problema seu. Eu não devia ter te incomodado com isso.
Me levantei aos poucos.
–Esquece isso, não foi nada... eu só ando muito confuso... é difícil acreditar em tudo isso... e o fato de só eu te ver não ajuda muito... como vou saber que não estou ficando louco?
–É só confiar em mim.
Agora, sentado, olhei direito pra ele. Inteiramente molhado, os cabelos colados no rosto, as coxas deslizantes... resbalantes... me seduzindo... ah... não consigo para de olhar... não consigo... alguém... arranque meus olhos... socorro...
–Você quer tocar?
–O QUÊ?
–Quer tocar em mim? Não para de me olhar... Ou tem alguma coisa errada? Mas se quiser, você pode.
–Cala a boca Takashima, para de me aliciar, vamos logo pra casa. — Deixei tudo de lado e comecei a rir. Ele riu junto e me ajudou a levantar.
Chegamos em casa e o obriguei a tomar uma ducha primeiro. Fiquei esperando do lado de fora de casa pois estava todo empanado de areia e não queria sujar o chão. Em pouco tempo ele apareceu na porta, vestido com uma de suas roupas novas. Uma jeans preta rasgada com uma camisa branca.
–Não consigo abotoar. Me ajuda? — Pediu, mostrando a camisa aberta que usava. Seu abdômen delicioso me encarando e me chamando pra uma festa. Filho da puta, tenho certeza que é tudo de propósito. Se ele não fosse tão puro-animalzinho-inocente-da-natureza-peixinho-que-nada-no-mar-salvem-o-planeta-diga-não-à-poluição-dos-rios-e-à-devastação-das-florestas eu podia jurar que o sorriso na sua cara era malicioso.
Percebi que também estava usando o perfume que eu comprei pra ele.
Eu sou muito burro mesmo, cavei meu próprio túmulo.
Só faltava ele dizer “se ajoelha vadia, vamos ver se consegue falar de boca cheia”.
Fechei os botões com as mãos trêmulas. Deixei os últimos abertos. O que aqui significa: suícidio.
Se eu queria tanto assim me afastar dele teria fechado os malditos botões até a gola. Mas não. Deixei aberto quase até a metade pra ficar encarando, como sempre.
–Fica fazendo alguma coisa enquanto eu tomo banho, tá? — Falei e passei rápido por ele, indo direto pro quarto. Meu coração estava acelarado.
E percebi que não queria ficar longe dele então tomei banho bem rápido. Estava no quarto me vestindo com a porta encostada, mas ouvi alguns sons vindo da direção que ficava o computador. Ao que tudo indicava, Kouyou estava vendo algum vídeo. Talvez uma entrevista do X. Que orgulho do meu menino.
Cheguei na sala depois de pronto.
O loiro estava no computador, os cabelos já secos, uma mão no mouse, outra apoiando o rosto, o cotovelo na mesa. Agora eu podia ouvir melhor... e... e... espera... eu to ouvindo... gemidos...?
–Yuu, o que é isso aqui que eu achei no teu histórico?
Para.
Para tudo e chama os bombeiros porque meu peixe tá assistindo pornô.
–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH. DESLIGA. FECHA. FECHA ISSO. AGORA. — Gritei desesperado tentando arrancar o mouse de sua mão. Me joguei por cima dele brigando pelo mouse e tentando reiniciar o computador pela CPU, e acabei derrubando as caixas de som e fazendo o volume aumentar.
Depois de quase derrubar tudo no chão, consegui fazê-lo pausar o vídeo pelo menos. A tela se encheu de pop-ups do tipo:
"TEMOS OS MELHORES GAROTOS. REINALDO POSTOU UM NOVO VÍDEO E VOCÊ TEM DUAS NOVAS MENSAGENS, DOIS CONVITES DE FERNANDINHO_FOGOSO_801 E FOI MARCADO NO VÍDEO "BOQUETEIRO DAS GALÁXIAS" E "MANUAL DAS FRUTAS FÁLICAS"
Parei pra respirar. Pelo menos os gemidos e gritos pararam. Kouyou me olhava sem entender nada.
–O que era isso? E o que aconteceu... aqui? — Perguntou, confuso, apontando pra si mesmo. Sim, naquele lugar. A jeans que já era justa estava muito mais apertada agora e o grande volume escondido ali era... era...
Abençoado Hide me ajude nesse momento de dificuldade.
–Aquilo... é uma coisa feia. E isso aí... — Me referi a ele. — É um problema. Não põe a mão aí. Vai tomar outra ducha, agora, e bem gelada.
Ordenei, frio. Ele levantou da cadeira e eu desliguei o computador direto no estabilzador. Foda-se. Só queria voltar a me acalmar.
–Mas se é uma coisa feia, por que as pessoas fazem isso e gostam? E por que outras assistem? — Se referiu a mim, seu tom me atingindo como uma faca.
Seu olhar era desafiador como uma criança exigindo saber de onde vêm os bebês. Ao mesmo tempo parecia querer me convidar a imitar os caras do vídeo.
Não respondi e ele atacou novamente.
–Não minta pra mim. Eu não sou mais tão burro assim. Eu sei que não quer que eu faça aquilo com você, mas não precisa ter medo, eu não vou fazer nada que você não queira. Eu só queria saber se é bom mesmo.
Era a primeira vez que ele falava daquele jeito amargo. Estava quase gritando, mas sem gritar. Profundamente irritado comigo.
–É... é bom sim... desculpa...
–Não precisa pedir desculpa... eu que foi grosso com você... — NÃO PENSE BESTEIRA YUU, POR FAVOR, ESTE É UM MOMENTO MUITO DELICADO.
Estava de volta na sua aura de sempre, parecendo arrependido por ter sido estúpido comigo. Mas, realmente, era uma verdade que eu precisava ouvir.
Percebi que ele não ia mais precisar do banho, o problema estava se resolvendo sozinho.
–Pense em gatinhos mortos. Golfinhos mortos. — Sugeri pra ajudar.
–O quê!? Isso é horrível... oh... — Passou a ficar indignado, até que percebeu o efeito gerado em seu corpo.
–Pronto, resolvido, não precisa mais da ducha agora. Mais alguma pergunta? Tudo bem, eu respondo o que você quiser, de homem pra homem, vamos lá, pode pedir.
–Você tem nojo de mim por eu não ter nascido humano?
–Não, eu não tenho nojo de você. — Respondi sinceramente. Ele cruzou os braços, me analisando, sério, pensativo.
–Você tem vergonha de andar na rua comigo porque os outros não me veem?
–Não.
–O que te impede de me amar então?
–... Eu... Eu... e-eu... Não é assim! Isso é uma coisa que leva tempo... as pessoas não se apaixonam do nada... e eu nem te conheço direito ainda...
Me fitou pensativo. Eu sabia que nem tudo naquela frase era verdade. E ele também, pelo jeito que me olhou.
Então, usou a minha tática suprema de encerrar o assunto.
–Quer o que de janta hoje?
Notas finais
se aquietem aí e parem de me aporrinhar com quem é o uke e quem é o seme
tá UxA na sinopse, o que implica em U>A
mas se continuarem enchendo o saco fica todo mundo de castigo e não vai ter lemon e_e
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