Water
9 Nove capítulos
Notas iniciais
OBRIGADA PELOS REVIEWS S2
Capítulo 9:
Nove capítulos
e só agora eu percebi
Passaram os dias e eu acabei me afastando de Kouyou. Se antes eu já estava confuso, agora sim eu não sabia mais o que pensar. E não era só ele que andava me incomodando, e sim, meu trabalho.
Uma criança estava desaparecida na cidade há três dias.
Eu já estava enlouquecendo de tantos problemas. Assim, acabei me distanciando do loiro, conversando menos com ele, pois sempre chegava acabado em casa. E ele mesmo estava sempre cansado e ia dormir ainda mais cedo que antes, então poupávamos esforços.
Claro que toda vez que eu olhava pro meu iPad um calorzinho se espalhava em meu coração ao lembrar que ele havia trabalhado só pra me comprar aquele presente. Com o dinheiro que havia ganhado ele também comprou uma guitarra nova pra ele, e depositou na minha conta o que sobrou.
Mas o dia de hoje em especial, foi o mais estressante de toda minha vida.
Encontramos a criança, um menino, 10 anos. Num mato.
Morto. Estuprado.
Nunca alguém imaginaria que uma atrocidade dessas aconteceria em nossa pequena e tranquila cidade. Foi um desespero total. Tive que entrar em contato com a família, depois de identificado o corpo, encaminhar o cadáver, organizar a confusão na cena do crime, deixando apenas as pessoas certas se aproximarem do local, e mandar repórteres embora.
Um caos.
Eu senti em mim mesmo a dor dos pais da criança, que tive que acompanhar até a delegacia. Passei o resto da tarde com eles, a mãe aos prantos, o pai em choque, e toda aquela bagunça lá fora e os repórteres insistentes sem coração batendo na porta. Queriam saber se já tínhamos pistas sobre o culpado. Sobre o monstro que fez aquilo.
Obviamente, toda pressão caía sobre mim, já que era eu quem mandava naquela porra. As pessoa queriam respostas, e queriam ouvi-las de mim. Cabia a mim continuar firme e dar as ordens certas, para meus colegas que estavam tão abalados quanto a população. Eu não podia demonstrar fraqueza, e de quebra ainda tinha o dever de reconfortar todos e prometer coisas que na verdade não podiam ser garantidas.
Mas não havia nenhuma evidência, nada, e eu duvidava muito que encontrássemos o sujeito que havia violentado e sufocado uma criança. Provavelmente era de outro lugar, não morava aqui. É o que acontece sempre.
Eu estava uma pilha de nervos, e quando anoiteceu, me obrigaram a ir pra casa descansar. Duvido que eu vá consegir dormir, a imagem do corpo continuava bem viva em minha mente, assim como o desespero da família diante da cruel perda.
Sem querer, acabei descontando tudo que não pude deixar transpassar durante o dia na pessoa que estava me esperando em casa. Toda angústia, toda raiva, toda frustração diante do fato de que nada podia ser feito, e que mais crianças poderiam estar em perigo. Joguei tudo pra cima dele, porque era a única pessoa que eu tinha.
E deu tudo errado do pior jeito possível.
Passei dos limites. Muito além dos limites.
Eu não sabia da importância do dia hoje pra ele.
Pra nós.
• • •
Cheguei em casa, e me deparei com as coisas um pouco diferentes do normal.
A mesa da sala estava arrumada e enfeitada, cheia de comida. Cupcakes, bombons em formato de coração, sorvete, pizza e batata frita.
Ele realmente esperava que eu fosse comer aquilo tudo sozinho?
Veio correndo me cumprimentar, mas parou, me encarando, preocupado.
–Você tá com uma cara horrível, aconteceu alguma coisa?
–Eu sei que minha cara é horrível, nasci assim, não sei se não percebeu até agora. — Retruquei, e então reparei que ele também estava diferente do normal.
Não que ele não fosse irritantemente lindo todos os dias, mas hoje estava um espetáculo em particular. Vestia uma camisa branca com os primeiros botões abertos, um calção preto e botas. Cabelo arrumado e maquiagem. E animadinho demais pro meu gosto.
–Qual é a ocasião? Virou stripper?
–Hoje é um dia especial... hoje... hoje faz 100 dias que eu saí da água e vim morar com você! Resolvi fazer uma “festinha” pra gente comemorar. — “ :3 “ Sorria, quase saltitando de empolgação.
–Nossa, que legal, parabéns. Uhul, vamos comemorar, então já faz 100 dias que minha vida virou um inferno. Palmas pra você Uruha. Quer um prêmio por isso? Quer uma recompensa? Se é uma noite de sexo que você quer fala que eu dou logo pra você e então você finalmente vai embora e me deixa em paz.
O sorriso derreteu em seu rosto. Ele me olhou apavorado.
Silêncio.
Me aproximei da mesa, calmamente, analisando as comidas, ignorando o maravilhoso cheiro de pizza caseira no ar. Eu não estava com fome, mesmo não tendo almoçado. Depois de ter visto uma criança naquele estado, fiquei completamente enjoado. Uma náusea violenta que não passou até agora.
–Eu não quero porra de bolinho gay nenhum. — Peguei um cupcake da mesa e joguei na parede com toda força, onde ele ficou grudado, esparramado, e depois caiu no chão. — Coma você tudo sozinho e engorde por mim. Ah é, esqueci, você é um peixe mágico e não pode comer. Então espero que coma e passe mal, bem mal.
–Aoi... o que foi que eu...
–“Aoi você tá lindo” “Aoi você é perfeito” “Aoi mimimi” para com esse apelido idiota e me chama pelo meu nome, cacete. E para com essa babação romântica que eu sei que não é verdade. Você só quer meu corpo pra depois me largar.
–Não quero seu corpo! Yuu...
–Então nem pra isso eu sirvo. O que você quer de mim afinal? Dinheiro? Rir da minha cara? Me esnobar com essa boca de pato?
–Não é isso! — Exclamou, indignado. — Para de ser idiota! Yuu, eu te-
–Cala a boca. — Interrompi. Não queria ouvir aquilo. — Chega. Não aguento mais. Não viu o noticiário hoje?
–Não, esqueci, estava ocupado cozinhando... por quê? O que houve? — Me encarava muito preocupado, sem saber o que fazer, ou como me responder.
Nem eu saberia. Eu já estava fora de mim naquele momento.
–Ocupado, na cozinha como sempre, hnf... — Ri, ironicamente. — Sempre tão ocupado.
–Tem alguma coisa muito errada com você, o que foi que aconteceu? Foi alguma coisa que eu fiz? Por favor, você tá me assustando desse jeito... — Gemeu.
–Vou ir dormir, não entre no quarto, fique no sofá. Se quiser aproveitar e me fazer um favor, vá embora de uma vez.
–Eu queria te contar coisas importantes hoje... o que eu não podia te contar até agora, eu quero te contar tudo... é a única e última chance...
–Não quero saber. Foda-se você e seus draminhas. Guarde esse super mistério pra você, não quero mais saber, não me importo. Não quis me contar agora então engole isso aí.
–Yuu... volta aqui... não faz isso... pelo menos come alguma coisa, você tá muito pálido... — Implorou, me puxando pela camisa.
Me soltei dele bruscamente e fui pro quarto, batendo a porta, sem olhar pra trás.
Me joguei na cama.
Implorei pelo sono por horas, mas ele não veio.
A única coisa que veio...
Foi o arrependimento.
Aos poucos, muito, muito devagar, como ondas fracas e calmas, comecei a perceber tudo que havia falado sem pensar. Sendo que nem metade foi verdade.
Quanto mais eu me acalmava, mais eu percebia o quão filho da puta havia sido com Kouyou. A pessoa incrível que merecia toda felicidade do mundo.
Não devia ter gritado aquelas coisas.
Eu o ofendi de um jeito imperdoável.
Rejeitei a comida que ele passou horas fazendo.
E então, qualquer resto de pensamentos sobre o dia de hoje sumiu, e a única coisa na minha cabeça era o loiro, que devia estar sozinho lá na sala agora, encolhido no sofá, se odiando, se perguntando onde foi que errou, e nunca me julgando.
Ele pensaria qualquer coisa, mas nunca me odiaria. Sua paciência comigo era infinita. Isso era uma das coisas que eu achava incrível nele. Por mais estressado que estivesse, mesmo se tivesse passado pelo dia de hoje no meu lugar, ele teria feito diferente, e não teria me xingado como eu fiz.
Era a primeira vez que eu deitava na cama sem ele ali. Era estranho. Vazio. Eu sentia sua falta do meu lado, respirando profundamente enquanto dormia.
Eu queria fazê-lo feliz também... eu queria retribuir ao dobro tudo que ele fez por mim até hoje... eu queria vê-lo sorrir, com aqueles lábios tão perfeitos... e nunca mais ser estúpido desse jeito. Nunca mais cogitar a ideia de mandá-lo embora da minha casa. Era nossa casa agora. Lembrei daquela noite que ouvi secretamente ele comentar alguma coisa sobre ir embora. Eu não ia deixar, mesmo que ele quisesse. Nunca.
O lugar dele era aqui do meu lado, mesmo que não seja seu habitat adequado.
E o meu lugar era nos seus braços.
Mesmo que ele fosse um peixe.
Mesmo que ele não fosse completamente humano.
Mesmo que ele se transformasse dentro da água, e não pudesse comer.
Ele não é a pessoa que eu sempre desejei. Ele é muito mais do que isso, muito além do possível, muito além do que eu mereço, e apesar das nossas diferenças... eu o amo.
Eu amo Kouyou... e levei 100 dias pra perceber isso...
Eu o amo, é verdade...
Comecei a rir na cama, no escuro, sozinho. Como eu fui tão idiota a ponto de só perceber isso agora?
Peguei meu celular. Eram duas da manhã.
Levantei e fui até a sala, o coração quase saltando pela boca. Eu precisava contar pra ele imediatamente.
Era tão óbvio... esse tempo todo eu só estive inventando desculpas... ele é meu...
Agora vai ficar tudo bem, nós vamos poder ser felizes juntos e eu não vou continuar o magoando.
Acabaram meus problemas amorosos. Simples assim. Eu finalmente ia poder ser feliz.
–Kou, me desculpa... vem pra cama, se ainda quiser... eu prometo te abraçar a noite inteirinha...
Me aproximei do sofá, ansioso.
Mas ele não estava ali.
–Kou? — Chamei.
Não houve resposta.
Acendi as luzes da sala. A mesa estava arrumada, mas ele não estava em lugar nenhum.
–Kou? Uruha? — Chamei, procurando na cozinha, abrindo a porta das fundos, a área de serviço.
–KOUYOU? Cadê você!?
Meu coração apertou.
E se ele tivesse realmente ido embora como eu havia pedido?
E se ele tivesse desmaiado na rua por ter gastado toda sua energia cozinhando, se arrumando e ficando acordado até tarde por mim?
Procurei por tudo de novo, até no meu quarto, no banheiro, no jardim da frente, chamando seu nome.
Nada.
Nenhuma resposta.
Meu peito doía. Lágrimas amargas caíram.
Eu sou realmente... muito idiota...
Ele não perdoaria minhas palavras cortantes...
Ele havia dito que ia ter que ir embora, e eu mesmo acabei causando isso... talvez ele soubesse que eu era um idiota completo e não estava me aguentando mais...
–Kouyou... — Sentei na mesa da cozinha, escondendo o rosto nas mãos.
A casa estava vazia. Eu estava sozinho de novo. Sozinho como estive a vida inteira.
Lembrei que ele havia dito que queria me contar seus segredos. Que ia me contar tudo que eu estive morrendo de curiosidade até hoje pra saber, e nunca consegui adivinhar. E eu não dei nem uma chance...
E se tudo fosse realmente uma ilusão, e ele nunca tivesse existido?
Só havia um jeito de saber.
Abri a geladeira.
A comida de antes estava toda ali, organizada em potes de plástico. Não, não era só um sonho bom demais pra ser verdade. Uruha estava em algum lugar por aí ferido por minhas palavras.
Eu tinha que sair procurá-lo, não importa aonde fosse. Eu ia trazê-lo de volta pra perto de mim e obrigá-lo a ficar.
Peguei um bombom. Ele mesmo havia feito, em formato de coração. E tinha gosto de carinho e dedicação. Mais lágrimas vieram.
Fechei a geladeira, pronto pra sair na rua de madrugada procurá-lo, mas uma folha de papel na porta da geladeira me chamou atenção.
Não estava ali antes, e era grande demais pra ser uma lista de mercado. Era sua letra, seus kanjis e traçado impecável.
Era uma carta, pra mim.
Tirei o imã que a prendia, os dedos trêmulos, e temi o que as palavras escritas ali me diriam. Respirei fundo antes de começar a ler.
「Yuu...
Eu nem sei por onde começar. Ah, Yuu... você é tão complicado, eu nunca consegui realmente te entender, em todo esse tempo...
Mas antes de dizer qualquer coisa... eu preciso te contar a verdade. A verdade que eu estive proibido de dizer até hoje, mas que agora já não faz mais diferença. Eu sei que você disse que não quer saber, mas eu vou contar mesmo assim, na esperança de que você fique sabendo. Eu quero muito que você saiba.
Essa história é sobre o meu povo. Todos aprendem, desde pequenos, a nossa história, assim como as crianças humanas aprendem sobre o passado na escola. A história que eu estou falando, é sobre um fato peculiar. Uma vez, a cada centenas de anos, em algum lugar do mundo, nasce uma sereia de olhos castanhos. Sabia que todas as sereias tem olhos azuis? Elas tem olhos azuis, porque nasceram detinadas a viver e morrer na água. Quando, a cada muito, muito tempo, nasce uma com olhos castanhos, é porque esta é destinada a viver na terra... com um humano.
Não sei se algum dia você percebeu, mas meus olhos são castanhos.
É... eu sou essa criatura lendária... que todos ao invés de comemorarem, apenas invejaram e desprezaram.
Por isso que meus irmãos me odiavam... eles tinham inveja de mim porque meu destino era diferente do deles, porque eu era especial. Então conseguiram me expulsar... mas eu nunca fiz nada de mau pra ninguém. Eles, todos eles, apenas quiseram esquecer que eu havia nascido, e levado essa história que eu contei como lenda. Era mais fácil acreditar que eu não existia do que se sentirem obrigados a me venerar. Coisa que eu nunca quis... eu só queria uma família que me amasse... mas isso eles nunca fizeram...
Então, voltando à história... essa sereia especial, na verdade é um erro, pois sua alma gêmea é um humano, e não outra sereia, como deveria ser. Um dos dois nasceu no lugar errado, e a missão é conseguir se reecontrar.
E como essa sereia saberia quem é o seu humano? Porque é a única pessoa no mundo que pode vê-la e tocá-la.
Depois que fui expulso, eu estivesse esperando você por muito tempo. E, quando criança, começou a vir brincar na praia, eu meio que senti alguma coisa. Mas eu nunca teria certeza. Eu não fazia ideia de que você poderia me tocar, ficava apenas observando de longe, cuidando de você. Até aquele dia que eu precisei mandar o Iruka-san te salvar. Eu achava que você era só um humano normal.
Mas então, naquele dia em que eu resolvi te observar de perto, e você se assustou comigo, eu soube que era você. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida até ali. Eu fiquei tão emocionado por finalmente ter te encontrado que nem conseguia me conter de felicidade.
A partir daí vinha a parte mais difícil. Eu tinha que fazer você confiar em mim, gostar de mim, virar meu amigo. Tudo isso sendo que eu não sabia absolutamente nada sobre humanos. Sabe porque eu tenho a capacidade de aprender tudo tão rápido? Pra poder me adaptar à sua realidade e poder entender os humanos mais rápido. E a forma que eu nasci, meu corpo, é um conjunto de todas as características que você gostaria em alguém. Eu sou assim porque é a sua preferência, sob medida.
Tudo isso pra facilitar o processo.
E por um acidente, acabei vindo parar na sua casa, e tudo pareceu se encaixar.
Contando desde esse dia, eu tinha 100 dias pra fazer você me aceitar. Não precisava nem gostar de mim ou me achar atraente, só me aceitar como igual, mesmo eu não sendo humano. Essa era a prova que você tinha que passar... e infelizmente não passou. Se em algum momento você tivesse me aceitado de verdade, eu não estaria longe agora, e sim aí do seu lado te enchendo de beijos. Eu fiquei fraco nas últimas semanas porque ficar mudando de forma estava exigindo demais de mim, e porque o prazo estava chegando ao fim e eu não tive muito progresso em te fazer me aceitar.
Agora vem a última parte da história sobre a sereia rara. Se ela encontrar seu humano destinado, e ele aceitar sua companhia, independente da sua forma, ela se transforma em humano permamentemente, em um humano normal, para que assim possam ficar juntos.
Porém... se dentro do prazo, isso não acontecer...
Ela morre.
Sim.
Quando amanhecer eu já não estarei mais nesse mundo.
E sabe como ela morre? Chorando toda água que há em seu corpo. Não vai doer... não mais do que meu coração já está doendo, e só isso poderia me matar... mas não vai doer, eu vou simplesmente secar... não que você se importe com isso.
Eu não podia te contar tudo isso, era contra as regras. Influenciaria na sua decisão. Mesmo assim, no último momento, numa tentativa desesperada, eu decidi te contar, mas você não quis ouvir. Então era pra ser assim...
Não vou te incomodar mais, meu querido.
Obrigado pelos melhores dias da minha vida.
Eu esperei tanto tempo pra te conhecer... e com certeza valeu a pena.
Eu te amo. Eu vou te amar pra sempre, independente do que você pense de mim, e mesmo que eu não esteja mais aqui.
Você é incrível. Você nunca vai ter ideia do quão incrível você é, e do quanto eu te amo.
Me desculpe por não ter conseguido te fazer feliz... eu fiz o melhor que eu pude.
Mas não foi o suficiente... então apenas espero que você seja muito feliz, e tenha uma longa vida.
Eu nunca vou esquecer de cada segundo que passei com você, mesmo nossas brigas e meu ciúme incontrolável.
Eu te amo, Yuu.
Adeus.
Obrigado por ter lido.
Uruha」
Ps: Eu já disse que você está lindo hoje?
Eu estava me acabando em lágrimas quando terminei de ler aquilo.
Eu te amo Kou... eu também te amo...
De tudo que eu havia acabado de descobrir, a parte que mais me perturbava era: quando amanhecer eu já não vou estar mais aqui.
Isso siginificava que eu tinha menos de quatro horas para encontrá-lo e dizer o que eu precisava dizer. Enfiei o papel no bolso e saí correndo porta afora. Não disperdiçaria um segundo que fosse me xingando por ter sido tão redondamente idiota e preconceituoso esse tempo todo.
Só havia um lugar onde ele poderia estar.
Na água.
Corri a distância entre minha casa e a areia e adentrei direito no mar gelado da madrugada.
–URUHA! URUHA! — Chamei, aos berros, sem me importar se ia acordar alguém com isso. — URUHAA!
Continuei entrando na água, que agora já estava na minha cintura.
Chamei, chamei, e nenhum sinal. Nada. A iluminação da rua era pouca, então eu não via muita coisa.
Será que se eu tentasse me afogar ele vinha me salvar...?
Não, ele estava esperando que eu lesse aquela carta só de manhã, quando já fosse tarde demais...
Ao pensar naquilo tudo voltou a doer, e mais lágrimas rolaram, se misturando ao mar.
Comecei a nadar, sempre em frente. Eu precisava achá-lo, eu tinha certeza que ele estava ali, em algum lugar.
As ondas batiam na minha cara e eu não me importava.
Ele realmente me amava muito mais do que eu poderia imaginar.
E então, só eu podia vê-lo porque... sou sua “alma gêmea”. Porque estávamos destinados a ficar juntos, se eu fosse menos burro e lerdo.
Parei de nadar. Já estava longe demais, e se fosse mais pra frente, não poderia voltar.
Mas que diferença isso faria?
Já era pra eu ter morrido duas vezes. Se não fosse por ele, eu não estaria vivo agora. Era pra eu ter morrido mesmo. Se fosse pra ser assim, que eu morresse de uma vez mesmo. Melhor do que ficar sem ele. Eu não merecia viver se não pudesse ao menos pedir desculpas e lhe contar o que eu sentia, e que só percebi agora.
Uma coisa estranha aconteceu, interrompendo meus pensamentos.
“Sua lágrimas são verdadeiras."
Uma voz infantil ecoou na minha cabeça.
Agora sim eu estava tendo alunicinações.
"Seus sentimentos são verdadeiros.”
Uma cabeça de golfinho emergiu bem na frente.
"Vou te levar até onde ele está.”
Ele estava falando comigo mentalmente.
Nunca fiquei tão feliz por ver um golfinho.
–Por favor! Me leve, ou me diga onde ele está, eu imploro!! — Respondi exaltado, sem saber se ele entenderia.
Iruka-san, eu nunca vou ser grato o suficiente.
Ele se virou permitindo que eu me aproximasse, e então me segurei na sua nadadeira das costas. Era tão escorregadio, tive que me agarrar com mais força quando ele saiu nadando.
Não sabia aonde estávamos indo, até que ele fez a curva no final da ponta da praia, e eu soube que estávamos indo para a parte das rochas. Não dava pra chegar por ali por terra, só pela água. Eu devia ter adivinhado que Uruha estaria ali, era perto do lugar em que ele havia me salvado.
Depois de seguirmos mais um pouco, finalmente o avistei.
Sentado numa pedra, na sua forma original, com metade da cauda dentro da água. Uma tonelada saiu do meu coração ao vê-lo ali.
Ainda havia tempo então.
Parecia um anjo, o cabelo loiro caído sobre o rosto, tão lindo em sua beleza natural, o azul vivo da cauda delicada brilhando à luz da lua cheia.
Mas o que estragava aquela visão era o fato de ele estar chorando. Solunçando. Os ombros tremendo quase sem força.
Era como ele havia contado na carta, o natural, já que eu não havia o aceitado, era ele morrer chorando...
–KOU! — Gritei enquanto nos aproximávamos, tentando soar mais alto que o barulho do mar. — KOU!
Chamei mais uma vez, me afogando com um pouco de água enquanto viajava de golfinho, quase caindo. Ele ergueu o rosto molhado das lágrimas que não paravam de rolar.
–Yuu...? — Perguntou com uma voz mínima, sem acreditar que estava me vendo ali.
O golfinho me deixou na frente das pedras e eu subi rapidamente, congelando na brisa fria da noite ao sair da água.
Uruha me encarava como se eu fosse uma assombração, os olhos arregalados, a boca aberta de surpresa.
Me ajoelhei ao seu lado na pedra, e não hesitei nem mais um segundo antes de abracá-lo forte, muito forte, apertando seu corpo contra mim, não querendo nunca mais soltar, nunca mais cogitar perdê-lo.
Minhas próprias lágrimas voltaram.
–Eu não acredito que eu te achei... Kouyou, por favor, me perdoe por antes, as coisas que eu disse não eram verdade! Por favor, me perdoe, eu... — Fixei meus olhos nos seus, marejados. Nossos rostos estavam muito próximos. — Eu te amo.
Vi ele voltar a chorar, mas agora... estava sorrindo.
–Ainda dá tempo? Ainda vai fazer efeito? É verdade, eu te amo, só demorei demais pra perceber isso. Eu fui um imbecil esse tempo todo, eu te tratei tão mal, mas eu não quero ficar sem você, me diz que vai dar tudo certo...?
–Eu também te amo Yuu... — Sussurrou, levando as pontas dos dedos até meu rosto, me acariciando calmamente. — Mas acho que já é tarde demais...
–CALA A BOCA! Não diz isso! Não é tarde demais! Não pode ser tarde demais! Eu te amo, do jeito que você é, mesmo se você continuasse assim fora da água, nós temos que ir pra casa Kou!
Comecei a me desesperar diante da sua passividade.
Avancei sobre ele, sentando sobre sua cauda, e uni nossos lábios apaixonadamente.
Seus lábios incrivelmente macios e quentinhos deslizavam contra os meus. Enrosquei meus dedos em seus cabelos, os braços envolvendo seu pescoço, aprofundando o beijo cada vez mais.
Eu não ia deixar ele ir embora. E se ele fosse, eu ia junto.
Abri a boca e ele imitou o gesto, sem pressa. Nossas línguas se encontraram. Nada mais importava. Continuei o beijando sem soltar, apenas me colando nele mais ainda, a cada segundo que passava. O calor da sua boca... toda aquela maciez... eu não precisava de mais nada além disso.
Uma lágrima quente escorreu por meu rosto. Meu coração doía.
Ele não podia morrer, não, não, não...
Depois de alguns longos minutos, os melhores da minha vida, quebrei o contato pra respirar. Seus olhos chamaram os meus, e ficamos em silêncio, apenas um encarando o outro, meus braços ainda em seu pescoço, seus braços ainda em minha cintura.
Ele encostou sua testa na minha, e me enroscou com mais força. Eu sentia sua respiração em meu rosto, nossos lábios se encostando levemente, e comecei a ficar mais calmo com isso.
–Você não vai me deixar, né...? — Perguntei, enfim.
–Olhe você mesmo... — Respondeu, rouco.
Não entendi o que ele queria dizer. Me afastei um pouco, pois ele havia me soltado, e então..
Então... percebi que não estava mais sentado sobre sua cauda, e sim sobre suas pernas.
Que continuavam dentro da água.
Saí de cima dele, fascinado. Ele balançava os pés dentro da água, sorridente.
–Você... você... VOCÊ É HUMANO AGORA? — Comemorei, não conseguindo segurar um enorme sorriso de felicidade. — Você vai ficar comigo? Não vai me deixar?
–Até que você me mande embora de novo. — Riu. — Sim, eu sou humano agora. Agora somos iguais.
–Então os outros podem te ver!? Você pode comer!? Não precisa mais ficar de molho na banheira com sal!?
–Exatamente! — Sorriu assim como eu. Pegou alguma coisa que logo reconheci como o calção que estava usando antes, e o vestiu, tapando sua nudez que eu estava me controlando pra não olhar. — E agora eu vou envelhecer normalmente também.
–Envelhecer...? Como assim, você era, tipo... imortal?
–Sim... mas nem pergunte. Não vou te dizer quantos anos eu tenho. Agora tenho a mesmo a idade que você e sou um humano normal daqui pra frente.
Dessa vez, ele avançou sobre mim, fazendo eu deitar na pedra extensa e plana em que estávamos, e me beijou novamente, com vontade.
–Eu te amo. — Sussurrou no meu ouvido, depois de encerrar o beijo, me abraçando forte novo. Pude sentir meu coração batendo acelerado contra o seu.
–Eu sei. Muito obrigado por essa honra, meu peixão. — Brinquei, e ele riu, me fazendo cócegas como punição pelo apelido. — Mas espera aí... você vai me perdoar mesmo?
–Nem lembro mais o que aconteceu. Eu sei que seu dia foi péssimo. Não tem problema, mesmo. Deu tudo certo. Você é inteirinho meu agora, seus sentimentos foram fortes o suficientes pra me transformar mesmo em cima da hora, eu não tenho motivo nenhum pra não ficar feliz.
Fiquei sorrindo que nem um idiota.
Ele me abraçou de novo. Eu nunca ia me cansar disso.
–Vamos pra sua casa agora? — Perguntou. — Estou com fome. Quer dizer, acho que essa dor na minha barriga é fome. E você está enxarcado, tremendo de frio, e precisa colocar roupas secas.
–Vamos sim Kouyou. Vamos pra nossa casa.
Notas finais
chorei demais escrevendo esse -s
limonada inclusa no próximo pra matar a sede de vocês nomnomnomn
só falta mais um capítulo WATER VAI ACABAR O QUE VAI SER DE MIM SOCORR Dx
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