Watashi no taiyo

1 River of cry


Notas iniciais
oie

Lidar com a tecnologia não é fácil. Mas nem sempre foi assim. Dez anos atrás, fora criado uma tecnologia de simulação tão real que as pessoas nunca mais saem de casa. Porque lá, no mundo virtual, você pode ser como quiser, no lugar que quiser. É possível sentir cheiro, o toque das pessoas e até mesmo a dor ou o prazer. O mundo não poderia estar melhor. Não existe medo de comer por engordar, ou a vontade de ir em um lugar longe demais. Basta criar um servidor onde se parece exatamente como a França, ou fazer com que você emagreça cinco, dez, vinte quilos.

Ninguém ia mais a escola, bastava apenas trinta minutos por dia conectar-se ao servidor de conhecimento e tudo simplesmente fixava em sua cabeça. No entanto, isso pode sobrecarregar uma pessoa. O ser humano apenas aguenta duas horas por dia de conhecimento ou pode ficar sobrecarregado. Uma pessoa sobrecarregada por muito tempo desenvolve uma lesão cerebral que provoca a morte ou um coma não induzido. E fora isso que acontecera com a minha irmã.

Alegre, desbravadora e muito curiosa com os conhecimentos que o mundo pode nos trazer decidiu burlar as regras e entrara em um servidor clandestino para aprender mais. Com apenas quinze anos ela foi apenas mais uma das estatísticas de pessoas que entraram em um coma profundo por abusar do sistema. Nunca ninguém acordara nos últimos dez anos de coma nenhum, e não sei como isso pode ser diferente com Hanabi. Ao menos nisso concordo com o meu pai.

— Vamos Hinata, tome a sua pílula. — e claro que com um sistema tão avançado de simulação as pessoas simplesmente perderam o interesse em comer na realidade, já que pelo mundo virtual você pode sentir o gosto de qualquer coisa sem ao menos comer.

Todas as vitaminas, proteínas, carboidratos ou qualquer alimento necessário para a vida de um humano já eram vendidas em pílulas.

— Está bem. — coloco a minha na boca por pura obrigação; não sinto mais vontade de comer.

Afinal, o que poderia me esperar de bom nesse mundo? Não há mais ninguém lá fora, ao menos ninguém que realmente queira ficar por lá. E desde o coma da minha irmã, meu pai nunca mais me dera acesso aos servidores alternativos, com medo de que aconteça o mesmo comigo. Mas nunca fui muito interessada por descobrir todos os dilemas do mundo.

— Não fique com essa cara. — ele ralha comigo. — Sabe que não posso mais perder ninguém.

Como se ele ficasse em casa e ao menos conversasse comigo. A única coisa que Hyūga Hiashi faz é se conectar ao servidor onde ele criara inteligências artificiais simulando a nossa vida antes da perda de Hanabi e da mamãe, que faleceu no parto da minha irmã. Hiashi já havia me chamado para entrar nesse único servidor, mas eu não teria acesso a nada fora ver duas simulações da minha família que já não estava mais aqui. E me iludir dessa forma não diminuiria a dor da perda de nenhuma das duas. E do meu pai também. Eu apenas o via por breves vinte minutos por dia, e esses breves momentos não saciavam a minha vontade de conversar, de conhecer pessoas novas. Isso está me matando.

— Eu também as perdi, pai. — a minha voz sai vazia, oca. — E eu preciso de você.

Mas ele já havia ido para o seu quarto.

Ligo o meu computador com uma expressão apática. Qual fórum entrar hoje? Já estão esgotando o número de pessoas que os utilizam, e sempre quando faço alguma amizade as pessoas marcam encontros via simulação. Mas eu nunca posso ir. E, com o tempo, elas perdem o interesse em mim. Sinceramente, já nem sei mais como é socializar com uma pessoa normal.

Fico dez minutos vagando em um site quase vazio até desistir. Tento deitar na minha cama mas olho percebo que, diferente da minha, a cama de Hanabi não está vazia. Ela ainda jaz lá, deitada em coma. E mais uma vez sinto o baque da perda.

Sei que ela não morreu de verdade, mas já faz quatro anos sem nenhuma resposta. E com um total de zero por cento de melhora de todos os pacientes com a Síndrome da sobrecarga mental, ou apenas SSM, a dor me corrói todos os dias. Como os poucos hospitais existentes não podem alocar um lugar para as pessoas com SSM? Por que eu tenho que ver todos os dias da minha vida minha irmã deitada, pálida e cada dia mais magra no meu quarto? Levanto-me da minha cama e vou até a porta de casa com as lágrimas caindo de meus olhos como se fossem torneiras abertas. Eu precisava sair daqui. Eu precisava sumir agora.

A rua era deserta e cheia de poeira. Alguns móveis de madeira se encontravam puídos em locais sem sentido e tudo isso apenas piorava a sensação. O coração batendo rápido e forte, as lágrimas incessáveis, a dificuldade de respirar e a vontade imensa de correr e fugir de tudo e todos.

Quando dou por mim estou em um lugar desconhecido. Havia uma ponte alta e embaixo dela um rio límpido. Vou até a borda da ponte e observo atentamente o rio. O barulho calmo da pequena correnteza me acalma o suficiente para voltar a raciocinar melhor. Respiro fundo e fecho os olhos por alguns segundos, mas o silêncio continua a me perseguir por onde quer que eu esteja.

— Eu só queria sumir… — sussurro triste, para mim mesma.

Veja só a que ponto chegamos. Eu apenas consigo conversar comigo mesma, pois não há mais ninguém nesse mundo que se importe comigo. Não existe mais ninguém que me faça sorrir, ninguém que se dê o trabalho de ficar comigo por mais de vinte minutos. Uma pergunta faísca em minha cabeça e tudo começa a fazer mais sentido eu ter parado exatamente neste local. “E se eu me jogasse nesse rio?” A pergunta continua a pairar na minha mente e a cada segundo ela parece mais viável para mim. Dou um passo para frente. Agora falta apenas mais um, e conhecerei um mundo novo. Mas antes que eu concretize o meu desejo, algo, ou melhor, alguém puxa o meu pulso.

— Eu não faria isso se fosse você. — quando olho para trás vejo um garoto.

Ele aparenta ter mais ou menos a minha idade e os seus olhos são azuis como os do rio. Fico hipnotizada com o seu olhar e o brilho que insiste em continuar em seus olhos. O garoto loiro dos cabelos espetados abre um sorriso tão grande quanto uma pessoa consegue esticar a sua boca. Isso faz me acordar do transe. Fazia tanto tempo que eu não via uma pessoa fora o meu pai ou o corpo quase inanimado de minha irmã que eu havia ficado realmente surpresa. Quando isso passa olho dentro dos olhos dele e faço a única coisa que eu poderia fazer com um desconhecido que me impede de aliviar a minha dor: levanto a minha mão direita e estalo ela em sua bochecha, dando um tapa na sua cara.

Notas finais
Nossa quem será esse homem?