Watashi no taiyo
2 Sunny place
Notas iniciais
O garoto fixa seus olhos azuis em meu rosto, completamente embabascado com o que acabara de acontecer. Seus lábios estão entreabertos, e imagino que se continuasse assim por mais dois minutos poderia começar a babar. Isso, de alguma forma, me dá força para que eu consiga reagir e xingue o desconhecido por ter me “salvado”. Como se ficar aqui fosse uma salvação para mim.
— Eu não sei o que você esperava que fosse acontecer depois de me impedir, mas não vou te agradecer jamais seu… — penso em uma palavra ofensiva, mas estou a tanto tempo sem ter uma conversação com alguém fora de um fórum que não sei bem o que dizer. — Ignóbil!
Pensei que fosse debochar, ficar bravo ou triste comigo. Mas o seu rosto de surpresa muda rapidamente para um sorriso e ele se desmancha em uma risada. Pura e inocente, até. Não há nada de deboche nela, e isso me deixa sem reação. Sinto as minhas bochechas esquentarem depois de perceber o quão bonito o seu rosto fica quando distorce em uma risada escandalosa e o quanto bonito é a sua voz. Tudo nesse garoto esbanja felicidade e espontaneidade, entrando em um tremendo contraste com o meu estado patético.
— O-o que foi? — indago encabulada.
Ele encerra a sua risada e coça a sua pele acima de seus lábios, mas ainda sorrindo. O garoto loiro continua a me olhar fixamente.
— Nunca na minha vida eu tinha visto alguém usar essa palavra, foi engraçado… — agora sinto que ele está debochado disso, e franzo o cenho. — Poxa, não me olhe assim, estou apenas falando a verdade!
É tão frustrante e irritante, mas é impossível para mim. Eu sempre fico vermelha quando estou com raiva, isso quando não começo a chorar… Sei que é nítido a minha falta de controle dos meus próprios sentimentos apenas com isso, mas forço a respondê-lo ainda que o meu rosto esteja vermelho como um pimentão.
— Só porque ninguém usa não quer dizer que não posso utilizá-la… — sussurro.
— Eita, mas eu não disse isso, calma aí! — ele coloca rapidamente a mão em meu ombro, e como se lembrasse que não me conhece retira ela tão rápido quanto colocou. — Foi mal. Aliás, o meu nome é Naruto. E naquela hora eu te segurei porque deu vontade, não fiz pra receber agradecimento de ninguém.
Seu rosto é tão sereno que me deixa até um pouco mais calma. Ainda que eu tenha batido nele e xingado o garoto continua a me tratar bem, e continua a puxar assunto como se estivesse mesmo interessado no que eu tenho a dizer. Fico surpresa com tamanha gentileza. Em comparação às conversas fúteis e ligeiras que tenho com o meu pai, esse é o auge desde que Hanabi virou uma SSM.
— Meu nome é Hinata. — respondo.
— Uhm… Um nome bonito, mas sua personalidade está meio invertida, não? — ele indaga com um sorriso diferente no rosto.
Tá, beleza, agora ele certamente está zombando de mim! De novo sinto o meu rosto queimar, e até mesmo a minha orelha. Inflo as minhas bochechas de raiva.
— Vo-você não sabe nada sobre mim! — rebato.
De alguma forma ele parece ainda mais surpreso com a minha reação de que quando fez no momento em que bati nele. Mas esse momento dura alguns poucos segundo, e o tal Naruto volta com o seu sorriso assustadoramente bonito.
— Calma aí, eu não disse que sabia, poxa, eu não posso nem fazer uma piada Hinata? — ele me pergunta.
A realidade bate na minha cara e me vem um pensamento que faz-me sentir o peso da culpa. Eu sou tão desatualizada com conversações e deslocada que não consigo nem ao menos perceber quando as pessoas estão brincando comigo. Isso é horrível. Abaixo a cabeça, triste com o meu comportamento.
— … Desculpa. — digo bastante arrependida.
— Não precisa pedir desculpa, eu não fiquei chateado ou coisa assim. Na verdade estou bem acostumado com as pessoas reclamarem das minhas piadas.
Ainda que sua resposta tenha sido autodepreciativa, Naruto continua com o seu sorriso genuíno e cintilante em seu rosto. Como uma pessoa não fica cansada de sorrir? Será que todos são assim e eu não me lembro mais, presa em meus próprios demônios?
— Então porque continua? — indago curiosa.
Se é que tem como, Naruto alarga o seu sorriso.
— Porque esse é o meu jeito ninja. — olho para ele como se tivesse falado em alguma língua que eu não começo e o loiro começa a rir. — Calma, foi uma brincadeira. Desculpa aí, é que eu não consigo evitar.
É, sua personalidade peculiar é definitivamente muito inversa à minha. Eu jamais brincava, ou ao menos não me lembro da última vez que fazia tal proeza. Hanabi, no entanto, sempre fazia piadas estranhas e inteligentes. Papai adorava. Pensar nos dois ainda dói, mesmo que eu os veja todos os dias, de certa forma. Tento tirar esses pensamentos da minha cabeça e foco no garoto que está na minha frente.
— Por que está aqui fora? — indago, já me arrependendo. — Q-quer dizer… Não é da minha conta, esqueça.
Tenho que parar de ser intrometida dessa forma. As pessoas não devem gostar de serem indagadas sobre coisas que são apenas do interesse dela. Eu nem o conheço, por que ele sequer iria me responder?
— Bem… O mundo virtual é super legal e tudo mais, mas a realidade é mais cativante… Lá, cê sabe onde está, o que vai fazer… O clima, temperatura… Até mesmo se vai aparecer alguma pessoa nova, mesmo que não conheça. — Naruto ignora quando digo para não falar e responde tranquilamente, talvez até mais aberto do que eu jamais iria sonhar alguém fazer comigo. — Ter controle sobre as coisas é bom, mas isso cansa. Você não acha?
Ele olha para mim em uma expressão mais séria agora, ainda que continue com um sorriso no rosto. O garoto é tão bonito que imagino que não ficaria cansada de olhar para o seu rosto por durante muito tempo. Mas isso é inadequado e eu também não tenho a coragem para fazer, portanto desvio o olhar e mexo nas minhas mãos envergonhada.
— Não. Tudo que eu queria era ter um pouco mais de controle. — admito.
Naruto parece fascinado com a minha resposta, principalmente por ter sido o contrário a minha. Pensei que fôssemos entrar em uma discussão/debate por isso, mas ele aprova a discordância e olho para ele confusa.
— É incrível como cada um vê as coisas de um jeito né? ‘Cê vê aqui como um jeito de se controlar, e eu acho que o mundo real é a liberdade em sua forma mais pura.
Naruto está bastante relaxado ao meu lado, e até um pouco feliz, ou ao menos sorri muito para mim. Ele continua me olhando com uma expressão serena, esperando a minha resposta, mas de última hora eu começo a ficar nervosa de novo. Não com ele, mas comigo mesma. Isso está bom demais para ser verdade. Eu preciso ir embora antes que eu estrague uma boa memória.
— E-eu acho que preciso de ir embora.
Pode ter sido uma impressão minha, mas Naruto fica genuinamente decepcionado e triste com a minha resposta. Bem, como eu disse, eu sempre estrago as coisas de algum jeito.
— Que pena! Ei, quer saber? Por que não vem aqui amanhã? Podemos conversar mais.
Esse tipo de pergunta é o que sempre me deixa mais nervosa e triste. As pessoas sempre desejam coisas que não posso dar. Na maioria das vezes que consigo enfim conhecer e fazer uma “amizade” em algum fórum, a pessoa acaba pedindo para nos encontrarmos via mundo virtual, mas eu nunca posso devido ao meu pai. Dessa vez eu não tenho certeza, mas não posso prometer algo que não sei. Duvido muito que meu pai vá deixar que eu saia de casa se ele souber.
— Não sei se vou poder amanhã. — sou direta e sincera, já esperando o pior e o usual.
— Está tudo bem! Olha, vou te dar um endereço. — ele pega algum papel, e sabe-se lá porque, tem uma caneta no seu bolso. — Aqui. — ele diz após anotar algo. — Eu não conheço você e o que ‘cê tá passando, mas tenho certeza de que eu e o pessoal jamais vamos tentar te controlar, viu? Quando precisar de ficar bem longe… Só venha. Gostei de conhecer você, Hinata. Até algum dia por aí! — ele se despede sem que eu diga algo.
Como se não aceitasse uma resposta definitiva ainda. Como se ele estivesse bem com o meu tempo, com a minha escolha. Isso aquece meu coração de certa forma e apenas quando ele se afasta percebo que eu estava, de fato, com o coração batendo forte, além da rigidez do corpo. Esse garoto tinha me afetado de um jeito que eu nem sequer imaginaria que poderia acontecer, mas não foi algo ruim. Pela primeira vez, em muito tempo, dou um sorriso, e é dessa maneira que volto para a minha casa.
Mas assim que entro lá, lembro-me do porquê que eu havia sumido, mesmo que por pouco tempo. Aquele silêncio. Aquela escuridão. O quarto fechado de meu pai.
— Pai? — sussurro, sem resposta.
É claro que ele está no mundo virtual, se divertindo com a falsa crença de que todos da nossa família estão bem, vivos e com consciência. Abaixo o meu rosto e volto para o meu quarto e um nó se prende em minha garganta quando vejo o rosto magro e pálido de Hanabi deitada em sua cama, ao lado da minha. Respiro fundo e deito, mas dessa vez não me permito chorar. Pois agora eu tinha um lugar para onde ir, um refúgio. Naruto… Era engraçado, mesmo que o meu nome significasse local ensolarado era ele quem tinha essa característica.
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