Notas iniciais
Aproveitem ;)

Fazia três semanas desde que Miyabi havia se fechado. Nesse tempo, percebi uma melhora em seu comportamento. Ela estava se alimentando um pouco melhor, não ficava mais só em seu quarto, voltou a falar (mesmo que só respondendo às perguntas com poucas palavras) e vez ou outra esboçava um pequeno sorriso quando brincava com Shiro. Era um bom sinal, mas eu ainda estava bastante preocupada.

Meu despertador tocou, mas tive a impressão de que tinha acabado de deitar. Passei a noite me revirando na cama tentando dormir. Já era a quinta noite seguida que isso acontecia. Eu estava exausta. Minha vontade era a de não ir para a escola, mas eu precisava de uma distração. Seria um dia difícil e, para piorar, eu estava começando a sentir dor de cabeça.

Passei as primeiras aulas lutando para prestar atenção, mas a única coisa que consegui foi pescar bastante. No intervalo, após quase todos da sala terem saído, eu, Aoi e Misae estávamos passando pela porta quando Yoshikawa (que estava no corredor) debochou: – “Você tá com uma cara péssima, Sakamoto.”

Como se passaram várias semanas, nossos colegas foram informados sobre o motivo da ausência de Miyabi e, apesar de a maioria ter sido compreensiva, Yoshikawa foi diferente. Ela passou a me provocar ainda mais. Sinceramente, eu não entendia por que. Todo dia era sempre a mesma coisa, mas eu apenas a ignorava. Naquele dia foi diferente. Minha paciência estava no limite. Parei e me virei para ela sentindo muita raiva. – “Qual o seu problema, Yoshikawa?”

“Nossa! Quanta agressividade. A sua dona não está aqui para te colocar na coleira? Ah, é mesmo, ela deve estar em casa chorando.”

Cerrei os punhos e tive vontade de avançar para cima dela, mas Aoi se colocou na minha frente para me impedir – “Não faça isso, Tomo, não vale a pena.”

“Por que você não deixa a Tomo em paz? Você não percebe que é pior para você?” – Misae me defendeu.

“Oh, agora você precisa que falem por você, que decadência.” – Yoshikawa debochou.

“Já chega, cansei dessa sua atitude infantil. Eu não fiz nada para você, então faz o favor de cuidar da sua própria vida.” – falei bastante irritada e minha dor de cabeça estava piorando.

“Não fez nada? Por sua causa minhas amigas me abandonaram e todos me tratam como uma vilã!” – Yoshikawa estava gritando, o que começou a atrair audiência.

“Quem causou isso a você foi você mesma, porque você tratava Miyabi-chan injustamente.”

“Pessoas como ela são má influência. O modo de viver dela é nojento.”

“Como você pode ser tão ignorante?” – falei me segurando para não explodir.

“O quê? Estou enganada? Não me venha dizer que é natural duas garotas se beijarem. Eca.” – Yoshikawa falou com uma expressão de nojo. – “Isso é errado. É uma aberração! Gente assim podia morrer que não faria diferença. Na verdade, seria até um alívio.”

Aquela foi a gota d’água. Quando dei por mim, meu punho direito já estava indo em direção ao rosto de Yoshikawa e segundos depois, ela caiu no chão gritando de dor segurando o nariz quebrado. A encarei com frieza: – “Você não merece a amiga que tem.”

Nesse momento, a melhor amiga de Yoshikawa apareceu para acudi-la e pedir para paramos para ela poder levá-la à enfermaria. Eu sentia pena dela, mas por outro lado também a admirava por ser uma boa amiga mesmo sabendo que não seria aceita por ser lésbica. Vê-la tão preocupada me fez sentir um pouco de remorso. Eu esperava que meu comentário não tivesse levantado suspeitas. – “Melhor você ir logo.”

Depois disso, corri em direção à sala dos professores. Eu sabia que estava encrencada, então que pelo menos os professores soubessem o que aconteceu por mim. Aoi e Misae estavam me seguindo e não demorou muito para chegarmos à sala. Respirei fundo, bati na porta e entrei. Todos os professores estavam presentes e ao se virarem para mim, ficaram espantados. Eu não estava entendendo o motivo da reação, então Hanajima-sensei se aproximou preocupada.

“Meu Deus, Tomo! O que aconteceu?” – ao perceber que eu estava confusa com a pergunta ela explicou – “Sua mão está sangrando, como você se machucou?”

“Ah...” – eu nem tinha percebido que havia me machucado – “É sobre isso que vim falar. Eu tive um desentendimento há pouco com Yoshikawa e acabei me descontrolando e... batendo nela. Acho que ela está com o nariz quebrado.”

“Onde ela está agora? Já a levaram para a enfermaria?”

“Sim.”

“Que bom. Tomo, mesmo que você esteja passando por muito estresse ultimamente, você sabe que não se resolve as coisas com violência.” – Hanajima-sensei falou compassivamente.

“Eu sei, mas as coisas que Yoshikawa falou... Eu perdi a cabeça.”

“Eu sei que não típico de você agir dessa forma, por isso não vou levar este caso para a Diretora, mas terei que te suspender por alguns dias.” – ela fez sinal para eu entrar e me guiou para sua mesa – “Assim que cuidarmos do seu machucado vou ver como Yoshikawa-san está.”

Assim que Hanajima-sensei começou a tirar os materiais necessários do kit de primeiro socorros, o professor de biologia a chamou para conversar. Dessa forma, Aoi me ajudou com o corte em minha mão que, apesar de pequeno, sangrava bastante e começou a arder.

“Não se sinta culpada, Tomo. A Yoshikawa estava pedindo para levar uma surra. E, sinceramente, se você não tivesse batido nela, eu teria.” – Misae tentou me consolar.

“Obrigada, Misae, mas você não teria.” – falei com um pequeno sorriso. Mesmo que Misae fosse cabeça quente, ela dificilmente bateria em alguém fora do clube.

“Talvez.”

Do outro lado da sala, ouvimos o professor de biologia falar: – “Você não pode fazer isso. Ela agrediu uma colega, isso é grave, merece uma expulsão. Com certeza o pai de Yoshikawa-san não vai ficar satisfeito com isso.”

“Oh, é disso que se trata. Não se preocupe, eu assumo total responsabilidade e não é como se eu fosse esconder da Diretora o que aconteceu. Além disso, você não deveria ter medo do senhor Yoshikawa. Ele pode ser rico e ter grande influência, mas não é ele quem manda nessa escola, muito menos na nossa Diretora.”

“Uh... pelo seu bem, espero que tenha razão.” – dito isso eles voltaram para suas mesas.

Como meu curativo já estava feito, Hanajima-sensei falou: – “Vá para casa e descanse, Tomo, você parece exausta. Amanhã nós conversaremos antes das aulas. Quanto a vocês, Aoi-san e Misae-san, gostaria que me contassem os detalhes no caminho para a enfermaria.”

“Obrigada, sensei. E desculpa pelo transtorno.”

Ela simplesmente sorriu e deu uns tapinhas no meu ombro dizendo: – “Vá descansar, você está precisando.”

Fiz o que Hanajima-sensei recomendou, peguei minhas coisas e fui embora. Só que não fui para minha casa, fui para a de Miyabi, pois estava precisando da companhia da minha amiga. Durante o trajeto, minha dor de cabeça estava insuportável e o calor provocava uma leve tontura.

Quando cheguei à casa, eu mal me aguentava em pé. Fumiko-san atendeu à porta e ficou bastante preocupada em me ver mal, então me guiou até o sofá da sala. Eu estava suando frio, sentia meu rosto formigar, enjôo, forte dor de cabeça e tontura. Antes de chegar na sala, senti meu corpo amolecer e, em seguida, minha vista escureceu. Momentos depois, percebi que estava deitada em algo duro. Pisquei várias vezes para tentar focar minha visão. Ao poucos conseguir ver o rosto preocupado de Miyabi. Havia lágrimas escorrendo por seu rosto.

“Mi...-chan...” – tentei falar, mas minha voz falhou. Pigarreei, então perguntei: – “Por quanto tempo fiquei desacordada?”

“Não muito. Um minuto talvez. Mas você nos deu um baita susto.” – Fumiko falou ao se aproximar com o telefone em mãos. – “Liguei para Ryuuji-kun. Ele já vai chegar para te examinar. Enquanto isso, acho melhor você sentar em um lugar mais confortável.”

As duas me ajudaram a sentar no sofá, então Fumiko foi para a cozinha preparar um chá. – “Desculpa.” – falei para Miyabi.

Ela me abraçou forte e disse: – “Fiquei com muito medo. Não posso te perder também.” – aquelas palavras foram como se enfiassem uma faca em meu peito. A fragilidade em sua voz era dolorosa demais.

“Não vai. Se depender de mim, ficarei ao seu lado sempre.” – falei retribuindo o abraço apertado.

“Promete?”

“Prometo.”

Miyabi se afastou um pouco, enxugando suas lágrimas. – “É bom mesmo, porque você não vai se livrar de mim facilmente.” – ela falou com um sorriso brincalhão.

Antes que eu pudesse responder, Ryuuji-san chegou fazendo muito barulho e visivelmente preocupado. Ele me examinou e concluiu que a causa do desmaio foi estresse, por isso aconselhou que eu descansasse, mas caso eu ainda não me sentisse bem era para ligar para ele imediatamente. Depois de se certificar de que foi mais um susto, ele voltou para o hospital. Logo depois, Fumiko-san me entregou o chá e insistiu para que eu dormisse um pouco no quarto de hóspedes. Miyabi me acompanhou e acariciou meus cabelos até eu adormecer.

Horas depois, acordei com Miyabi ao meu lado perdida em seus pensamentos. – “Você não ficou me vendo dormindo, né?” – falei brincando.

Ela se assustou um pouco, mas se recuperou rápido. – “Você me pegou. Você é uma gracinha dormindo, não pude resistir. Dá até vontade de morder.” – ela brincou me fazendo rir.

“Posso usar o telefone? Preciso ligar para minha mãe.” – falei sentando.

“Minha mãe já ligou e explicou o que aconteceu. Daqui a pouco ela chega para jantar com a gente.” – ela disse. – “O que aconteceu com a sua mão?”

“Ah... Isso?... Me envolvi numa briga na escola.” – contei constrangida e vi a surpresa na expressão de Miyabi – “É, eu sei. Não foi um dos meus melhores momentos.”

“Com quem você brigou?”

“Yoshikawa.”

“Devia ter imaginado... O que ela fez?”

“Me provocou e perdi a cabeça.”

“Você não é de cair nas provocações dela. O que ela falou?”

“Umas coisas ruins sobre você, mas eu já estava um pouco estressada.” – disse tentando me desvencilhar do assunto.

“O que ela falou?” – Miyabi falou num tom sério.

“Que ela tem nojo de lésbicas. Acha que são uma aberração. E que se morressem ela não iria se importar, na verdade seria um alívio.” – contei cerrando os punhos de raiva.

“Quão feio foi o estrago?” – Miyabi perguntou visivelmente irritada, mas não entendi o que ela quis dizer. – “Você bateu nela, certo? Por isso machucou a mão. E ela?

“Acho que quebrou o nariz.”

“Há! Bem feito.” – fiquei surpresa com a reação de Miyabi. Normalmente ela é compassiva, mesmo se tratando de Yoshikawa. – “O quê? Ela mereceu mesmo. Isso vai ensiná-la a não mexer mais com você.”

Miyabi estava rindo, visivelmente mais relaxada do que nas últimas semanas. Eu estava sentindo falta do sorriso dela. – “É bom ver você sorrindo, Miyabi-chan.”

Ela ficou um pouco encabulada. – “Obrigada, Tomo-chan. Esses dias têm sido muito difíceis. Eu sinto muita falta da Isuzu-chan. Nem dá pra acreditar que ela se foi.” – Miyabi falou emocionada.

“Eu sei como é. Passei por algo parecido quando tinha 13 anos.” – comentei colocando minha mão sobre a dela para reconfortá-la.

“O que aconteceu? Se você não se importa em me contar.” – ela perguntou.

“Tudo bem. Meu primo era 4 anos mais velho do que eu, mas crescemos juntos por isso ele era como um irmão e meu melhor amigo. Foi ele quem me incentivou a treinar kendô, mas aos 15 anos ele foi diagnosticado com leucemia e fez o tratamento por dois anos. Infelizmente, o tratamento não teve o efeito esperado.”

“Sinto muito.”

“Ele poderia ter continuado o tratamento e prolongado sua vida por mais um ano, mas optou por aproveitar o máximo possível o resto de seus dias. Na época eu fiquei brava com ele por ter desistido do tratamento, mas agora percebo que foi o melhor para ele.” – enxuguei uma lágrima que escorria. – “Meu primo e Isuzu partiram muito cedo, mas eu acredito que a vontade deles é que sejamos felizes. Sem contar que eles sempre estarão conosco, em nossos corações e lembranças.”

“Sim. Você tem razão.” – ela falou com os olhos marejados.

“Sabe, por um bom tempo eu pensei que nunca mais teria alguém que eu pudesse considerar um melhor amigo. Até que eu conheci você. Você é minha melhor amiga, Miyabi-chan.” – falar aquelas coisas me deixou bastante envergonhada, mas era pura verdade.

“Você também é minha melhor amiga, Tomo-chan!” – ela disse me dando um abraço apertado. Aquilo deixou muito feliz e ao mesmo tempo corei encabulada. Depois disso, ela pulou da cama dizendo para irmos jantar porque estava quase na hora. Era ótimo ver a espontaneidade dela de volta.

***

“Aaah! Não agüento mais!” – reclamei me jogando na cama.

“Não seja assim Tomo-chan, amanhã é a última prova. Além disso, só falta revisar essa parte aqui.” – Miyabi falou apontando no livro.

“Você disse que ia ser divertido.” – resmunguei.

“Quando a companhia é boa, tudo fica divertido. Ou você não gosta da minha companhia?” – ela disse com um tom magoado e fazendo biquinho.

Sentei num pulo. – “Não! Eu adoro sua companhia, eu só...” – quando Miyabi começou a rir percebi que ela só estava brincando comigo e eu caí direitinho. – “Você adora fazer isso, né? Tá... Só mais essa lição.”

As provam finais do segundo período chegaram num piscar de olhos; logo seriam as férias de inverno e eu mal podia esperar. Eu sempre gostei das férias de inverno, o que era sinônimo de festa e presentes. Normalmente, passávamos o Natal e o Ano Novo em família, mas dessa vez a família Himemiya iria se juntar a nós. Seria uma bagunça, principalmente porque meu pai viria nos visitar. Eu sentia a falta dele.

Estudar com alguém era uma experiência nova para mim. Meu costume era revisar rapidamente a matéria no dia anterior à prova. Não era o ideal, mas era o suficiente (além de eu ter dificuldade em passar horas estudando). Apesar disso, não estava sendo ruim estudar com Miyabi; pelo contrário, estava sendo proveitoso.

“Faz tempo que o Shimada-san parou de falar com você. Aconteceu alguma coisa?” – Miyabi perguntou quando decidimos que estávamos prontas para o dia seguinte.

“Eu recusei o convite dele e expliquei o motivo. Pensei que ele ia entender, mas parece que ele ficou bravo comigo.” – falei um pouco chateada.

“Às vezes isso acontece. Principalmente com meninos, quando eles não conseguem o que querem. Quando você falou com ele?”

“Na semana depois do funeral.”

“Ah.” – Miyabi ficou um pouco pensativa. – “Você já se apaixonou por alguém e não foi correspondida?”

“Na verdade, nunca me apaixonei.” – falei enrubescendo levemente.

“Mas já se interessou por alguém, certo?” – balancei a cabeça negando. – “Uau. Não é a toa que sua mãe vive insistindo no assunto. Eu não acho que isso seja algo ruim. Na verdade, eu já deveria esperar isso de você.”

“O que você quer dizer com isso?” – perguntei confusa.

“Nada de mais. Só que você fica constrangida muito fácil quando vê casais se beijando. É até bonitinho esse seu jeito.” – o comentário dela me fez corar mais. – “De qualquer forma, a atitude do Shimada-san é típica de alguém que só se aproximou de você com segundas intenções.”

“Será?”

“É uma possibilidade. E se for isso mesmo, não se preocupe em não tê-lo como amigo, porque você já tem a melhor amiga do mundo. Eu.” – Miyabi falou cheia de si.

“Convencida.” – provoquei.

“Convencida, eu? Vou fazer você retirar o que disse.” – de repente, Miyabi pulou em cima de mim e começou a fazer cócegas.

“Não! Pára! Por favor, pára.” – eu tentava dizer entre as gargalhadas, mas ela só fazia mais. – “Eu desisto! Retiro o que disse!”

“Mesmo? E o que você disse?”

“Você não é convencida! Por favor, não aguento mais!”

Finalmente Miyabi parou, mas não saiu de cima de mim. Ela estava sentada em cima do meu quadril com as mãos apoiadas na minha barriga. Eu estava ofegante e pude ver que Miyabi estava se divertindo demais em me ver naquele estado.

“Vai ter revanche.” – consegui achar minha voz.

“Duvido. Você é boazinha demais para fazer isso comigo.” – ela falou com um sorriso provocativo.

“Não me provoque ou você não vai agüentar.” – brinquei cutucando-a nas costelas que a fez dar um pequeno pulo.

“Tá bom, já entendi.” – ela se rendeu e deitou ao meu lado. Ficamos um tempo em silêncio. Eu tentando acalmar minha respiração e ela pensativa. – “Posso te perguntar uma coisa?” — estranhei a insegurança em sua voz, mas assenti. – “Você acha que poderia se interessar por uma garota?” – a pergunta me pegou de surpresa, mas meu silêncio deu a entender que fiquei ofendida porque Miyabi se sentou e começou a gesticular nervosamente. – “Eu não quis insinuar nem nada, é só curiosidade e como você falou que não se interessou por ninguém eu pensei que...”

“Calma, Miyabi-chan.” – a interrompi sentando também. – “Não me importo em você ter perguntado. Na verdade, eu já me questionei sobre isso.” – Miyabi relaxou. – “Eu não descarto a possibilidade, mas não tenho certeza. Eu acredito que sou do tipo que se apaixona pela pessoa e não pelo gênero. Faz sentido?”

“Faz sim. Francamente, não esperaria outra coisa de você. Você acha que teria um tipo? ” – Miyabi perguntou já mais a vontade no assunto.

“Difícil de dizer, né? Se tratando da aparência não tenho preferência, apesar de acharlindo olhos claros. Acho que eu gostaria de me apaixonar por alguém que me fizesse sentir especial, que me aceitasse como sou e principalmente que me fizesse feliz só de estar perto.” – contei sentindo minhas bochechas esquentarem. – “E você, tem alguma preferência?”

“Garotas como a Isuzu-chan. Meigas, carinhosas, divertidas, leais e compreensivas. – Miyabi suspirou de saudade, depois assumiu um tom brincalhão. – “E é claro que ela tem que ser bonita e sexy.”

“Nada exigente.” – brinquei.

Miyabi mostrou a língua, mas riu em seguida. – “Você vai descobrir que na verdade não escolhemos por quem nos apaixonamos e acontece quando você menos espera.”

***

Meu pai havia chegado há cinco dias e estava sendo maravilhoso tê-lo por perto. Diferente da minha mãe, que era uma pessoa muito agitada, meu pai era mais tranquilo e quieto. Se expressar com palavras nunca foi seu forte, mas era fácil de perceber suas emoções em suas expressões. Na verdade era fácil para mim, porque minha mãe vivia reclamando que eu entendia meu pai melhor do que ela, até parecia que éramos cúmplices. Acho que nos entendíamos bem por termos personalidades parecidas.

Porém, se tinha um lugar onde meu pai era proibido de entrar era a cozinha. Sua inabilidade para cozinhar era incrível, a ponto de conseguir queimar lámen* instantâneo. Minha mãe até brincava que foi por isso que ele se casou com ela, já que ela tinha um restaurante. Mesmo não sabendo cozinhar, meu pai gostava de observar ou ajudar nas tarefas simples.

Chegada a véspera de Natal, a cozinha ficou uma bagunça com os preparativos para a ceia. Combinamos de fazer na nossa casa e acabamos deixando as compras para a última hora. Infelizmente o mercado estava cheio, o que nos atrasou bastante no cronograma. Sendo assim apenas eu e minha mãe não daríamos conta e meu pai acabaria nos atrasando (coitado). Ainda bem que Miyabi apareceu mais cedo porque ela queria algumas dicas de cozinha. Minha mãe resolveu fazer kani* inteiro cozido, sushi* e sashimi*, enquanto isso Miyabi me ajudaria a fazer cookies e bolo de chantilly e morango, tradição do Natal japonês. Na maioria das vezes nós comprávamos o bolo, mas meu pai pediu que esse ano eu o fizesse porque ele gostava do meu mais do que da confeitaria. Sinceramente, eu achava que era coisa de pai e que ele estava exagerando, mas, já que foi um pedido dele, eu faria com o maior prazer.

“Quando eu sei que a massa está boa?” – Miyabi perguntou enquanto misturava a massa do cookie com a batedeira.

“Quando estiver uniforme e consistente.” – respondi batendo à mão a massa para o bolo.

“É para ficar assim?” – ela perguntou ao levantar a batedeira da bacia, mas como ainda estava ligada, voou um pouco de massa para todos os lados inclusive em seu rosto.

“Você tem que desligar a batedeira antes.” – falei rindo. Aproximei-me e limpei a massa que estava em sua bochecha. – “Não se preocupe, fiz muito disso quando era criança. E por sinal, a massa está perfeita, é só colocar na fôrma.”

Tive a impressão de que ela estava um pouco corada. – “Esse com formato de árvore ou de boneco?”

“Pode escolher.” – disse voltando a bater a massa.

“Boneco, então.” – Miyabi decidiu animada. – “Depois o que posso fazer?”

“Me ajudar a montar os pratos do sushi.” – minha mãe sugeriu.

Pouco depois, os pais de Miyabi chegaram e servimos o jantar. Eles adoraram a ideia do kani, pois era costume para eles ter peru no Natal. Tudo acontecia tão naturalmente que parecia que nos reuníamos há anos. O mais impressionante foi ver meu pai à vontade com os pais de Miyabi em tão pouco tempo. Faltava pouco para a meia noite, por isso decidimos trocar os presentes antes de comer a sobremesa. Miyabi se prontificou a entregar o primeiro presente. Fiquei surpresa quando ela escolheu dar para mim primeiro, depois para seus pais e para os meus.

“Miyabi-chan, obrigada.” – falei emocionada segurando o colar de ouro com um pingente do kanji* de “amizade”. – “Adorei. Pode me ajudar a colocar?”

“Claro. Fico feliz que gostou, achei que combinava demais com você.” – Miyabi comentou enquanto colocava o colar em mim. – “Ah! Tenho um presente pro Shiro também.”

Ao ouvir seu nome, Shiro se aproximou correndo e abanando o rabo. Miyabi pegou um brinquedo de borracha em formato de osso e deu para ele, que adorou ficar mordendo. Shiro não gostava muito de brinquedos, mas aquele ele adorou.

“Tomo, que tal você ser a próxima?” – meu pai sugeriu.

Eu dei para meus pais um cupom de um jantar romântico na noite seguinte no restaurante preferido deles. Para os pais de Miyabi, dei um conjunto para chá. Também dei um osso de verdade para Shiro e por fim, entreguei para Miyabium strap com enfeite de kokeshi* e um figure* de uma personagem que ela queria fazia bastante tempo.

“Meu Deus Tomo-chan, onde você achou esse figure? Eu não estava achando em lugar nenhum!” – Miyabi falou eufórica.

“Bom, o dono da loja onde compro meus mangás conhecia alguém que estava vendendo. Esse é o lado bom de ser uma cliente fiel.” – respondi.

“Muito obrigada! Adorei! E esse strap também. Vai ficar sempre comigo.” – ela disse enquanto prendia o strap no celular.

Depois que nossos pais entregaram os presentes deles, comemos os cookies e o bolo de morango. O bolo foi bastante elogiado, o que me deixou envergonhada, mas eu tinha que admitir que daquela vez eu tinha me superado e feito um bolo delicioso. Então os adultos resolveram jogar cartas, enquanto eu e Miyabi decidimos ir para meu quarto jogar vídeo-game. Horas depois, Fumiko-san e Ryuuji-san voltaram para casa, mas não sei quando, porque eu e Miyabi já estávamos dormindo. Aquele foi o Natal mais divertido que tive nos últimos quatro anos.

Uma semana se passou e chegou o Ano Novo. Na virada do ano nos reunimos na casa de Miyabi e passamos outra noite divertida e incrível. No dia seguinte, nós fomos ao templo desejar um ano próspero. Em seguida, sugeri visitar o túmulo de Isuzu, pois fazia alguns meses que não íamos lá. Como nossos pais tinham outros planos para o resto do dia, fomos só eu, Miyabi e Shiro, que estava nos acompanhando.

“Desculpa Isuzu-chan, eu deveria vir visitá-la com mais freqüência, mas foram dias difíceis. Prometo que virei mais vezes.” – Miyabi falou enquanto trocava os incensos e as flores enquanto eu limpava a lápide.

Conversamos com Isuzu durante um bom tempo. Contamos sobre como estava a escola, que lançou um jogo que ela iria adorar, como a semana das finais foi exaustiva, como nos divertimos muito no Natal e que sentíamos muito a falta dela. Então Miyabi tirou o cachecol que ela estava usando e reparei no pingente de pêssego do seu colar. Aquele pingente foi uma forma que ela encontrou de ter Isuzu sempre perto dela, por isso ela nunca o tirava. Ela amarrou o cachecol rosa, com bordado de pétalas brancas, em volta da lápide, comentando que estava muito frio.

Depois disso, Miyabi se despediu e foi em direção à saída com Shiro em seu encalço. Esperei ela se distanciar um pouco, então me agachei para falar com Isuzu. – “Miyabi parece bem melhor, não acha? Quase como ela era antes, né? Viu? Estou cuidando bem dela como você me pediu.” – brinquei. – “Pra não dizer que eu nunca te dei nada, aqui está o seu presente de Natal.” – tirei do bolso uma pequena estátua de uma princesa e coloquei próximo às flores. – “Achei parecida com Miyabi, então pensei que você iria gostar.”

“Tomo-chan! O que você está fazendo? – Miyabi me chamou.

“Nada não. Já estou indo.” – respondi. – “Tá na hora de ir. Nos falamos em breve, Isuzu-chan.” – me levantei e corri em direção a Miyabi e Shiro, com a impressão de que aquele seria um bom ano.

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Traduções:

1 – Lámen: é um prato de origem chinesa que se desenvolveu no Japão adaptando-se ao gosto dos japoneses e estabelecendo um estilo peculiar. O lamen é hoje um prato popular bastante apreciado e que representa a culinária japonesa. Ele é composto por macarrão mergulhados em caldo extraído de verduras, legumes, carcaça suína, bovina, de aves (frango) ou frutos do mar, temperados com shoyu, sal ou missô e decorados comumente com carne de porco, cebolinha e broto de bambu. O lamen instantâneo é como o miojo ou o Cup Noodles.

2 – Kani: significa caranguejo. No Japão existe uma espécie de caranguejo gigante que é muito usado na culinária.

3 – Sushi: tradicionalmente ele é feito com arroz temperado com molho de vinagre, açúcar e sal, combinado com algum tipo de peixe ou fruto do mar, vegetais ou ovo. A tradição japonesa é de servi-lo acompanhado de wasabi (pasta de raiz forte)

4 – Sashimi: é uma iguaria da culinária japonesa que consiste de peixes e frutos do mar muito frescos, fatiados em pequenos pedaços e servidos apenas como algum tipo de molho no qual ele pode ser mergulhado (geralmente shoyu, pasta de wasabi, condimentos como gengibre fresco ralado). Conhecido popularmente como peixe cru.

5 – Kanji: são caracteres da língua japonesa adquiridos a partir de caracteres chineses.

6 – Kokeshi: são bonecas tradicionais japonesas. São constituídas apenas por um tronco simples, com detalhes florais em vermelho, preto ou amarelo e na parte superior, uma esfera representando a cabeça com expressões faciais, tudo pintado à mão. Uma característica das bonecas kokeshi é a ausência de braços ou pernas.

7 – Figure: é uma figura plástica posável de um personagem, frequentemente de filmes, de video-games, de animes, etc.

Notas finais
O que acharam? Até o próximo capítulo o/