Watashi no Soba ni (Ao meu lado)
4 Capítulo 4
Notas iniciais
O dia do Campeonato Nacional de Kendô finalmente havia chegado, e nossa escola não mediu esforços para tornar este dia memorável. A cerimônia de abertura foi fantástica, assim como a quantidade de participantes e torcedores presentes.
Eram 48 equipes participantes, sendo metade para as categorias femininas e metade para as masculinas. Em ambas, as categorias eram divididas por idade: 12-14 anos e 15-17 anos, sendo a segunda a minha categoria. Cada categoria possuía 12 equipes de 5 atletas que seriam divididas em 2 chaves, onde as 6 equipes de cada chave lutariam entre si e, no final das 5 partidas, as quatro primeiras de cada chave avançariam para as quartas de final para então seguir para a semifinal e, então, disputar a final.
Quem chegasse à final teria que lutar em 8 partidas. Por isso, seria um torneio bastante cansativo e exigiria muito de nossa concentração e preparo físico. Quando estávamos nos preparando no vestiário para a primeira luta contra a equipe de Osaka, uma forte candidata à final, comecei a sentir meu nervosismo aumentar. Foi então que me lembrei da conversa que tive no dia anterior.
*Início do flashback*
Era o último treino antes do campeonato e todos estavam se esforçando ao máximo. O meu último treino de luta fiz com Aoi: estávamos lutando de igual para igual, ambas haviam conseguido um ponto, mas no momento em que tentei um golpe mirando o torso dela, senti uma fisgada em meu pulso que não me permitiu completar o movimento e minha guarde ficou aberta. Sendo assim, recebi um golpe na cabeça. Eu já havia perdido para Aoi algumas vezes, afinal ela era muito habilidosa, mas o motivo de minha derrota foi o que me deixou chateada.
“Não fique assim, Tomo. – Aoi veio me consolar. – Você nunca foi de deixar uma derrota te abalar. Sempre as usou como forma de melhorar cada vez mais. Além disso, você podia tentar alguns movimentos que não precisem tanto da mão direita. Se for você, tenho certeza que vai conseguir.”
*Fim do flashback*
Eu realmente levei o conselho de Aoi muito a sério, mas mesmo assim ainda tinha as minhas dúvidas se eu seria capaz de atender às expectativas de todos. Depois que todas terminaram de se preparar e saírem do vestiário, fiquei mais um pouco para tentar acalmar meus nervos, o que estava sendo bem difícil.
Conhecia bem os meus limites. Por isso, mesmo que minhas companheiras dissessem que eu era a chave para a vitória, eu não acreditava nisso. Eu sabia que minhas habilidades eram acima da média, mas eu não acreditava que fossem ao ponto de superar as de Eriko-senpai, sem contar que ela tinha mais experiência, mas, no estado em que eu estava, eu duvidava que poderia ter o mesmo rendimento que era esperado de mim. Poucos minutos depois percebi que não estava mais sozinha:
“Pra alguém que está prestes a ser campeã, você tá bem baixo astral.” – Isuzu e Miyabientraram e se aproximaram de mim. – Eu só vim mesmo desejar boa sorte e te dar um conselho que vale pra peça também: apesar de você ser a estrela, o sucesso do espetáculo não depende só de você. Por isso, tente não carregar todo esse fardo sozinha.”
Depois de dar um tapinha de encorajamento no meu ombro, Isuzu se despediu de Miyabi com um selinho, dizendo que estaria aguardando na arquibancada. Isuzu estava, como sempre, de bom humor e sendo simples e direta. Em compensação, Miyabi parecia estar chateada e bastante preocupada.
“Oi.” – ela disse timidamente sentando ao meu lado. – “Como está seu pulso?”
“Ainda dói um pouco, por isso o enfaixei. Mas isso restringe um pouco meus movimentos.”
“Desculpa. Por minha culpa, você pode não conseguir lutar direito.” – pelo jeito ela ainda se culpava pelo o que aconteceu naquele dia do queimado.
“Ei!” – segurei na mão dela para lhe chamar a atenção e enfatizar o que eu queria dizer. – “A culpa não foi sua. Yoshikawa e Omura que tiveram más intenções e eu não consegui me defender direito. Não me arrependo do que fiz, e com certeza faria de novo.”
“Hihi. Chiba-senpai pediu para tentarmos te animar, mas parece que os papéis se inverteram.”
“Na verdade, você me ajudou a lembrar que o mais importante é se esforçar ao máximo, mesmo que o resultado não seja o esperado. Assim você não vai se arrepender, nem ficar pensando no que poderia ter feito de diferente.”
“Fico feliz que pude deixar. Na verdade eu tinha outra coisa em mente para te animar. Que tal mais um incentivo? Se nossa escola ganhar, nós vamos naquela confeitaria que você tanto gosta e você pode escolher o que quiser.”
“Sério!? Tem certeza?” – eu simplesmente amo essa confeitaria a qual ela se referia, mas não vou com tanta frequência por ser muito cara.
“Tenho sim. E não se preocupe com o valor, porque será um simples presente se comparado com o valor da vitória.”
“Então está combinado. Ganhar esse torneio virou um objetivo de vida.” – todo o meu nervosismo desapareceu e, no lugar, surgiu uma determinação que eu não estava sentindo há algum tempo. A ideia de ser campeã de um torneio mundial era incrível, mas por mais que eu adorasse Kendô, eu simplesmente amava doces.
“Hihihi. Ah! Tem mais uma coisa.” – ela se aproximou mais e me deu um beijo na bochecha. Foi a primeira vez que ela fez isso, por isso, fiquei bastante envergonhada. – “Isso é para desejar boa sorte.”
Depois disso, ela simplesmente se levantou e saiu, mas antes de sumir da minha vista, ela se virou e deu uma piscadela em minha direção, o que me fez corar mais ainda. Demorei um pouco para me recuperar do gesto inesperado, mas quando me recuperei eu simplesmente ri com aquilo e percebi que estava muito mais tranquila em relação à competição. Era como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros. Com o espírito renovado, saí do vestiário para me juntar às minhas colegas e, assim, iniciar a primeira luta do torneio.
As regras num torneio de kendô são simples: assim como nas disputas individuais, é realizado um “round” único de cinco minutos, vencendo aquele que obter dois pontos, ou um ponto de vantagem ao término do tempo legal (4 minutos na fase classificatória e 5 minutos na fase final). Marcam-se um ponto quando se consegue atingir a cabeça (men), o tronco (dô), o pulso (kotê) ou o pescoço (tsuki) de forma clara.
Participam cinco lutadores, sempre um contra um. Em caso de empate ao final das cinco lutas, um membro é designado pelo técnico para uma luta final, sem tempo demarcado. Vencerá aquele que aplicar o ponto de ouro.
Em uma disputa por equipes, a ordem dos lutadores é fundamental para a vitória da equipe. Permita-me esclarecer as posições dos lutadores: aquele que entra para a primeira luta é chamado Senpô. Sua vitória é importante para elevar a moral do grupo. Em seguida, entra o Jihô. Tem por função a manutenção do resultado. Na terceira luta, é responsabilidade do Chuuken equilibrar (em caso de vantagem) ou iniciar a contra-ofensiva (caso estejam perdendo). A quarta luta é do Fukushô, o vice-líder. É decisivo para que a reta final esteja pavimentada, para que finalmente o Taishô, o capitão (o membro mais experiente e considerado mais “forte”) termine o trabalho e o grupo seja vencedor.
Sendo assim, na primeira luta foi decidido que a Senpô seria Aoi, pois seu controle emocional era admirável, o que se torna uma grande vantagem em uma luta de estreia. A Jihô seria Kobayashi Yuri, uma novata do primeiro ano que mostrou grande potencial e habilidade. A Chuuken seria Misae, pois tem a característica de lutar melhor quando em desvantagem. A Fukushô seria eu e, por fim, a Taishô seria Eriko-senpai.
A equipe de Osaka era muito boa, mas conseguimos fazer uma boa estreia. Aoi venceu seu “round” por dois pontos a um, já Kobayashi e Misae conseguiram um empate cada, sendo que Kobayashi marcou um ponto e Misae não conseguiu marcar. E tanto eu quanto Eriko-senpai conseguimos vencer por dois pontos a zero.
Nas três partidas seguintes, mantivemos o bom resultado anterior, sem perder nenhum “round”, mas com alguns empates. Porém na última partida dessa fase, se mostrou um grande desafio: a equipe que iríamos enfrentar era a de Kyoto, a campeã do ano passado. Era a equipe com os melhores resultados até o momento, pois assim como nós elas não haviam perdido nenhum “round”, mas possuíam mais pontos conquistados e menos empates. Além disso, a Taishô delas era Ishida Mei, uma pessoa extremamente habilidosa que possuía planos de ser atleta profissional.
Pouco antes da partida, estávamos discutindo se deveríamos mudar a ordem em que lutaríamos.
“Não precisamos mudar a Aoi-chan, a Yuri-chan, nem a Misao-chan, mas para essa partida seria melhor se a Tomo fosse a Taishô.” – Eriko-senpai falou.
“Mas Eriko-senpai, você é a nossa capitã. Sem contar que mesmo se eu estivesse 100% não acho que teria muitas chances vencer a Ishida-san.”
“Pare de se menosprezar, Tomo! Tanto você quanto Eriko-senpai têm condições de vencê-la. Além disso, também acho que você deveria ser a Taishô dessa vez porque o seu estilo de luta parece ser o mais adequado para enfrentá-la.” – disse Misae.
“Podemos usar essa partida para analisar melhor a equipe delas, principalmente Ishida-san. E como eu consigo analisar melhor observando e você lutando, acho que a melhor opção é trocarmos nossa ordem.” – Eriko-senpai conseguiu me convencer com este argumento.
As garotas de Kyoto eram realmente muito boas e era claro o porquê de elas terem sido campeãs, sendo que era praticamente certo que elas chegassem à final. Mesmo que elas fossem tão talentosas, nossa equipe não ficava muito atrás. Na verdade, acredito que a diferença entre as equipes não era a habilidade em si, mas sim a experiência.
No primeiro “round”, Aoi conseguiu marcar um ponto logo no começo, mas logo em seguida ela sofreu um e, como não conseguiram marcar mais nenhum, terminaram em empate. Na vez da Yuri, ela estava tendo muita dificuldade em acertar seus golpes, mas conseguia se defender bem; porém, faltando poucos segundos para o tempo acabar, a adversária conseguiu marcar um ponto com dô. Aos três minutos do terceiro “round”, quando Misae recebeu um golpe kotê, pareceu que algo mudou nela e em menos de vinte segundos conseguiu marcar dois pontos, um com kotê e outro com men. Dessa forma, ficamos em vantagem por um ponto. Já a luta de Eriko-senpai terminou sem que pontos fossem marcados, pois ela não conseguia encontrar brechas na defesa de sua adversária. Com isso, se minha luta terminasse com um empate, sairíamos vencedoras daquela partida e ficaríamos em primeiro da chave.
O meu estilo de luta se baseava em contra-ataque ou antecipação do ataque, ou seja, era mais defensivo e pelo o que vi nas outras lutas de Ishida, ela possuía um estilo ofensivo e muito agressivo. Por isso acharam que o estilo ofensivo de Eriko-senpai não seria tão adequado. Assim que o árbitro deu o sinal para o início do “round”, Ishida me atacou buscando um kotê no meu pulso direito. Ela era muito rápida, mas meus reflexos também eram, e por isso consegui me defender. Os próximos ataques foram mais agressivos e fortes utilizando uma sequência de pelo menos três golpes. Eu me defendia como podia e quando percebia uma brecha, contra-atacava, mas não conseguia acertar um golpe que pudesse contar um ponto.
Depois de 2 minutos do tempo limite, comecei a perceber a tática que ela estava usando: a sequência e intensidade dos ataques tinham o objetivo de me desgastar, e assim, me fazer abrir a guarda por causa do cansaço; mas como eu estava bem preparada fisicamente, essa tática não funcionaria. No entanto, acredito que o objetivo principal era forçar meu pulso machucado para eu ter menos mobilidade nos movimentos, o que infelizmente estava funcionando. Meus movimentos estavam menos precisos e minha defesa estava menos firme, por isso estava mais difícil realizar um contra-ataque.
Dessa forma, decidi mudar para uma estratégia mais ofensiva faltando um minuto e meio para o tempo acabar. Antes que ela pudesse tentar um golpe, ataquei buscando um men. Meu ataque foi preciso e atingiu o alvo em cheio, porém, ao mesmo tempo, não sei se por reflexo ou se ela havia antecipado meu movimento, Ishida golpeou meu pulso direito. Um árbitro considerou que eu consegui pontuar, mas outro achou que foi Ishida, enquanto o último interpretou que ninguém pontuou, então, após discutirem as opiniões, decidiram dar um ponto para cada uma. O problema foi que o impacto do golpe dela foi tão forte, que senti minha lesão piorar tornando difícil para eu segurar a shinai (espada de bambu). Nessa hora, eu percebi que havia perdido aquela luta.
Percebendo a minha dificuldade em continuar, os árbitros decidiram dar a vitória a Ishida Mei. Fiquei bastante decepcionada com a derrota e irritada por não ter conseguido terminar o “round”, mas fiquei irada com o comentário que Ishida fez na hora em que fomos nos cumprimentar. Quando apertamos as mãos, ela se aproximou do meu ouvido e sussurrou:
“Com uma aleijada no time não tem como serem campeãs.”
A princípio fiquei muito irritada, mas depois comecei a pensar que ela tinha razão. Se eu já estava com dificuldades antes, imagine agora que meu machucado tinha piorado? Do jeito que as coisas estavam, nós só conseguiríamos chegar à final por mérito das minhas companheiras.
Assim que a última partida da fase classificatória terminou, foram anunciadas as equipes que haviam passado para as quartas de final e qual equipe enfrentaria qual. Na nossa categoria ficou: Kyoto x Kobe, Fukuoka x Yokohama, Osaka x Okinawa e Tokyo x Nagoya. Depois disso, foi anunciado um intervalo de 30 minutos para as equipes se prepararem.
Sem falar com ninguém, fui para a enfermaria pegar um pouco de gelo e, depois, me dirigi ao terraço onde sempre almoçávamos para pensar um pouco e analisar a minha luta com Ishida. Afinal, caso nós enfrentássemos elas de novo, eu poderia ajudar Eriko-senpai a desenvolver uma estratégia contra ela.
“Sabia que você estaria aqui.” – eu estava tão perdida nos meus pensamentos que não percebi Miyabi se aproximando. – “As meninas estavam te procurando. O que aconteceu? Estamos todas preocupadas.”
“Nada não, estou bem. Só precisava de um tempo sozinha para esfriar a cabeça.”
“Não minta pra mim, Tomo-chan. Somos amigas, você pode me contar tudo.” – eu simplesmente baixei o olhar pensando como eu poderia falar. – “Você está assim por que não pôde terminar a luta? Por que você tem medo de decepcionar as outras? Ou por causa do que aquela garota falou?”
“É incrível como você adivinhou exatamente como estou me sentindo.” – sorri tristemente.
“É porque eu conheço a Tomo-chan bem e porque você é fácil de ler.” – Miyabi sorriu de forma a me encorajar. – “O que ela falou?”
“Ela falou: ‘Com uma aleijada no time não tem como serem campeãs’. Infelizmente eu acho que ela tem razão, porque, mesmo que a gente consiga enfrentá-las na final de novo, não teremos chances. Todas de Kyoto são muito boas, por isso, para vencê-las nós cinco deveríamos estar em condições de dar nosso máximo, o que não é o meu caso. Eu só vou atrapalhar.”
“Tomo-chan, você não me disse que iria ser esforçar ao máximo e que mesmo que perdesse não se arrependeria? Você se desvaloriza demais. Não deixe uma idiota que se acha a melhor do mundo fazer a sua cabeça. Até eu que não entendo nada de Kendô pude ver que você tinha chances de vencer se você não tivesse machucado o pulso de novo.”
Era raro ver a Miyabi tão exaltada, mas graças a isso pude ter uma nova perspectiva, além de me lembrar do apoio das minhas amigas.
“Obrigada, Miyabi, você me ajudou de novo.”
“Fico feliz em ajudar.” – ela apertou minha mão de forma carinhosa e se levantou. – “As meninas estão te esperando na enfermaria. Vamos?”
Quando nos reunimos com as outras ouvi sermões de todas sobre o meu comportamento enquanto fazia um novo curativo em meu pulso. Foi muito bom ver que eu tinha amigas que se preocupavam comigo.
Depois disso, Eriko-senpai decidiu falar sobre qual seria nossa estratégia para a próxima partida e que discutiríamos a minha luta com Ishida caso conseguíssemos enfrentá-las de novo ou após o fim do torneio.
Para a partida das quartas de final contra a equipe de Yokohama, decidimos que mudaríamos a nossa ordem: Yuri em primeiro, eu em segundo, Misae em terceiro, Aoi em quarto e Eriko-senpai por último. Essa foi minha sugestão, visto que a posição de Jihô é a que possui menos responsabilidade, apesar de também ser muito importante. A princípio elas foram contra, mas as convenci dizendo que confiava nelas para vencer.
Conseguimos passar para a semi-final sem perder um “round”, mas eu e Misae empatamos os nossos. Na semi-final contra Nagoya mantivemos a mesma formação e conseguimos vencer com um resultado parecido com o anterior, mas dessa vez, apenas Yuri e eu vencemos nossas lutas, cada uma pontuando apenas uma vez, enquanto as outras empataram. Com isso, conseguimos chegar à final e, como suspeitávamos, teríamos nossa revanche.
Foram dados 20 minutos de intervalo para as equipes se prepararem e para os organizadores montarem o local onde seria feita a premiação. Nós usamos esse tempo para recapitular nossa luta anterior com elas e definir qual seria a posição de cada uma.
“Como elas não mudaram a ordem nenhuma vez até agora, acho que deveríamos manter a formação da vez passada, só invertendo eu e a Eriko-senpai.” – sugeri para minhas companheiras.
“Concordo com a Tomo, pois nós já conhecemos o estilo de luta de quem vamos enfrentar, e a Fukushô delas é mais defensiva, o que exigirá mais da concentração da Tomo do que de seus movimentos.” – Aoi comentou.
“Também acho que é uma boa ideia, principalmente porque acho que seria melhor a Tomo-senpai não enfrentar a Ishida-san de novo. Vocês viram como ela fez de tudo para forçar seu machucado?” — Yuri falou com um pouco de receio.
“Vi sim. Ishida-san é muito habilidosa, mas seu caráter a torna uma péssima atleta. Quando nos acertamos ao mesmo tempo, ela poderia ter tido vantagem se não tivesse usado tanta força ou se tivesse optado pelo dô. Ela tem talento o suficiente para lutar de forma limpa, mas prefere explorar ao máximo o ponto fraco do adversário.”
“Também percebi isso. Nas outras lutas que observei dela, ela tentava forçar a outra a sair da área de combate ou golpeava para machucar. Eu já entendi os truques que ela usa, por isso acho que consigo vencê-la ou no mínimo empatar.” – Eriko-senpai estava muito determinada.
“Está decido? Porque a nossa luta já vai começar e eu não vejo a hora de conseguir aquele troféu.” – pelo visto, Misae parecia bastante animada.
O ginásio estava lotado só para ver a final. A torcida de Kyoto estava em peso, pois ela era a favorita, mas a nossa torcida não ficava muito atrás já que, além de sermos as anfitriãs, conseguimos conquistar torcedores.Os árbitros no chamaram para repassar as regras básicas e para cumprimentarmos nossas adversárias. Primeiro cumprimentamos quem iríamos enfrentar e depois as companheiras delas. Quando fui desejar uma boa partida para Ishida, ela sussurrou no meu ouvido provocando:
“Não quis uma revanche porque sabe que vai perder?”
Meu sangue ferveu com aquilo, por isso retruquei: “Estou te poupando da humilhação de perder para uma aleijada.”
Depois disso, voltamos para nossos lugares e foi dado o início à partida que decidiria quem seria a equipe campeã. Na primeira luta, Aoi teve dificuldade em pontuar, mas estava tendo facilidade para bloquear os ataques, dessa forma, terminaram em empate. O segundo round foi tão disputado quanto, porém Yuri conseguiu perceber uma brecha na defesa adversária e pontuou nos últimos segundos. Ao início da luta de Misae parecia que ela estava em desvantagem e acabou levando um ponto, só que ela se recuperou e conseguiu empatar o ‘round’. Em minha luta, minha adversária possuía uma defesa muito boa, por isso passamos a maior parte do tempo nos analisando para tentar encontrar uma brecha, mas como os poucos golpes que trocamos não surtiram efeito, também terminamos empatadas.
Com isso, estávamos em vantagem e só mais um empate nos daria a vitória, em compensação, uma derrota forçaria o ‘round’ de ouro. Pude ver que Ishida estava muito irritada por estar em desvantagem e tive um péssimo pressentimento quanto a isso.
As duas começaram muito agressivas e estavam em pé de igualdade. Depois do primeiro minuto, foi possível ver que Eriko-senpai começou a levar vantagem porque ela estava mais focada e seus movimentos mais precisos. Dessa forma, ela conseguiu um ponto com dô a 1 minuto e meio do ‘round’. Foi aí que as coisas complicaram: pela linguagem corporal de Ishida, pude perceber que ela ficou ainda mais irritada e eu sabia que ela faria de tudo para ganhar aquela luta, ou seja, iria apelar para golpes sujos, mas eu sabia que Eriko-senpai tinha consciência disso também.
Os golpes seguintes de Ishida foram com mais força e todos mirando a cabeça; além disso, eles eram consecutivos e rápidos de forma que estavam obrigando a senpai a recuar, o que a fez sair da área de combate e receber uma falta; caso isso acontecesse novamente, Ishida receberia um ponto. Percebendo que essa era estratégia dela, Eriko-senpai passou a ficar mais na defensiva de forma que não precisaria se deslocar tanto para evitar os ataques, mas dessa forma não conseguiria contra-atacar, por isso ela se defenderia até o tempo acabar. Contudo, Ishida se utilizou de um artifício sujo para conseguir um ponto: no momento que a senpai ia recuar um passo para se defender melhor do próximo ataque, Ishida pisou em seu pé desequilibrando-a e usou essa oportunidade para acertar um golpe tsuki, que é um golpe perigoso, pois o alvo é o pescoço (por isso, quem o utiliza deve controlar bem sua força, mas não foi esse o caso). Eriko-senpai foi jogada ao chão e pude perceber que o impacto a deixou atordoada, mas como os árbitros não perceberam a maldade de Ishida, validaram o ponto.
Aquilo me deixou possessa e fiquei ainda mais quando, por senpai ainda estar abalada, Ishida conseguiu o segundo ponto que a deu a vitória. Dessa forma teríamos mais uma luta.No ‘round’ de ouro a equipe teria a liberdade para escolher qualquer participante e venceria o primeiro que conseguisse pontuar. Além disso, não havia limite de tempo.Quando Eriko-senpai se juntou a nós, ela ainda estava atordoada e não teria condições de lutar de novo.
“Maldita, como eles não viram que foi golpe baixo! Eu vou acabar com ela!” – Misae esbravejou muito irritada.
“Controle-se Misae-chan, do jeito que você tá não vai conseguir derrotá-la. Eu também gostaria de ensinar pra ela uma lição, mas não sei se eu conseguiria evitar os truques sujos dela.” – Aoi disse sendo mais racional.
“Por favor, deixem essa luta comigo.” – todas me olharam bastante surpresas, mas eu sentia que nada poderia me impedir de dar uma lição em Ishida.
“Tem certeza, Tomo? Eu sei que você é capaz, mas não é uma boa idéia se arriscar se machucar ainda mais por estar com raiva.” – senpai falou com a voz um pouco rouca.
“Não se preocupe senpai, posso estar com raiva, mas nunca tive tanta certeza de que poderia vencer alguém. Além disso, não posso deixar que ela machuque mais uma de minhas companheiras.”
“Hahaha. Essa é a Tomo que eu conheço. Vai em frente e acabe com ela.” – Misae me encorajou enquanto as outras concordaram.
Decidi desenfaixar meu pulso porque precisaria de toda a mobilidade possível para executar o que eu tinha em mente. Eu iria sentir dor, mas a adrenalina a estava amortecendo. Quando fui para o meu lugar para iniciar a partida, ouvi Isuzu gritar da arquibancada:
“Tomo! Não se esqueça do que você combinou com a Miya-hime ou vai se ver comigo!” – eu vi que Miyabi ficou bastante envergonhada com aquilo, mas mesmo assim me deu dois sinais de positivo. O apoio delas aumentou ainda mais minha vontade de vencer. Eu iria terminar tudo aquilo rápido.
Enquanto esperávamos o sinal para o ‘round’ de ouro começar, estava claro que Ishida achava que a vitória estava garantida, o que era uma vantagem para mim, mas não poderia baixar a guarda. Assim que o árbitro deu início à luta, Ishida golpeou mirando minha mão machucada, mas consegui me defender com facilidade por já esperar isso e por ter mais mobilidade. Preferi não tentar um contra-ataque, pois eu planejava esperar o momento certo e acabar com aquilo com um único golpe. Como os ataques seguintes dela também não estavam surtindo efeito, ela começou a se irritar cada vez mais, até que numa hora em que nossas shinai estavam cruzadas, ela me empurrou com tanta força que me derrubou. Empurrar o adversário nessas horas acontece para fazer com que o outro abra a guarda, mas nunca com o intuito de derrubar, por isso ela recebeu uma advertência.
Estávamos a quase 1 minuto do ‘round’ quando percebi que aquela era o momento certo para acabar com aquilo. Me levantei e me posicionei para retornar ao duelo, mas dessa vez adotei uma guarda mais baixa. Quando foi dado o sinal, Ishida avançou com a espada acima da cabeça com a intenção de acertar um men em mim e era exatamente isso que eu esperava. Antes que ela pudesse completar o movimento, dei uma estocada rápida, forte e precisa mirando seu pescoço e gritei com toda a minha energia: “TSUKIIII!!”. A acertei em cheio e, como ela fez, com Eriko-senpai, a derrubei no chão. Durante alguns segundos, o ginásio ficou em silêncio, porém quando alguém soltou um grito estridente de comemoração (acho que foi Miyabi) o alvoroço e os aplausos foram extremos.
Como boa esportista que era, me aproximei de Ishida e ofereci minha mão esquerda para ajudá-la a se levantar, a qual ela recusou com um tapa. Depois disso, ela se levantou e saiu do ginásio muito irritada.
Minhas companheiras vieram correndo em minha direção e quando percebi, Yuri havia pulado em mim de tanta alegria que acabou me derrubando de costas no chão, mas eu estava feliz demais para me importar. Aquele sentimento de vitória e o gostinho de ter dado uma lição em Ishida eram maravilhosos, mas depois que recebemos nossas medalhas de ouro, ela eles foram sendo substituídos pelos meus pensamentos de experimentar o melhor sunday de morango da cidade.
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