Notas iniciais
Boa leitura! ;)

As aulas daquela sexta-feira passaram sem incidentes e, se não fosse pelos olhares pouco discretos em minha direção, diria que foi um dia de aula comum. Além disso, uma coisa inesperada aconteceu: eu, Miyabi, Aoi e Misae almoçamos juntas. Dessa vez, eu tinha preparado um bentô só com onigiris* (feitos com fôrma ao invés de à mão) para poder comer sozinha e não passar pelo mesmo constrangimento do dia anterior.

Quando percebi, já estava em frente à casa de Miyabi, a qual era grande, com dois andares, bonita, moderna e, aparentemente, bastante acolhedora. Assim que entramos, tiramos os sapatos e Miyabi anunciou nossa chegada. Logo em seguida, uma pessoa que poderia ser sua versão mais velha apareceu do que eu deduzi ser a cozinha.

“Bem vinda de volta, Miyabi-chan.”

“Kaa-chan, essa é a Tomo-chan. Tomo-chan, essa é minha mãe.”

A mãe de Miyabi tinha um sorriso amigável no rosto, mas mesmo assim eu estava um pouco nervosa em conhecê-la.

“B-boa tarde, Himemiya-san. Me chamo Sakamoto Tomo. É um prazer conhecê-la.” – cumprimentei com uma reverência.

“Miyabi-chan falou muito de você Tomo-chan. Pode me chamar de Fumiko. Por favor, entre e fique à vontade. Estou terminando o lanche da tarde.”

“Muito obrigada, Fumiko-san.”

“Ora, ora. Se não é a famosa Tomo sobre a qual a Miya-hime não para de falar.”

Virei-me em direção à pessoa que fez o comentário. Parada na entrada da cozinha estava uma garota muito bela que transmitia um ar de confiança e maturidade. Ela era alta, tinha cabelos curtos e pretos e olhos castanhos. Seu olhar era divertido, mas ao mesmo tempo penetrante, me fazendo ruborizar. Enquanto ela se aproximava, seus olhos continuavam fixos nos meus, e eu tentava ao máximo não desviar o olhar.

“Me chamo Isuzu. Sou a namorada de Miya-hime.” – ela falou estendendo a mão direita.

“S-sou Sakamoto Tomo. É um prazer, Isuzu-san.”

Sem hesitar, aceitei o cumprimento de mão, mesmo sabendo que teria que usar minha mão enfaixada. Eu não queria dar algum sinal de que o comentário de ela ser namorada de Miyabi me deixava desconfortável porque, na verdade, eu estava me sentindo um pouco intimidada pela Isuzu.

“Você é exatamente o que a Miya-hime me contou. Ela fala tanto de você que eu já estava ficando com ciúmes. Preciso me preocupar?”

“Quê!? Claro que não! Somos só amigas!”

Isuzu-san e Miyabi gargalharam com minha reação, provavelmente por eu estar tão vermelha quanto um tomate. Ainda bem que Miyabi logo me socorreu.

“Tomo-chan, ela só estava implicando com você. Ela gosta de deixar os outros constrangidos e, como você é bastante tímida, é um alvo fácil. Mas não se preocupe, ela não vai mais implicar tanto com você.” – depois de me consolar ela se virou para sua namorada. – “Certo, Mo-mo-cha-an?”

“Okay, okay. Mas não me chame assim na frente dos outros.” – pude ver que Isuzu corou levemente, mas ainda estava confusa quanto ao apelido.

“O sobrenome da Isuzu-chan é Momozono, mas ela odeia ser chamada por ele. Ela diz não combina com ela.”

“E não combina mesmo! Pode ter certeza de que quando eu virar atriz vou usar um nome artístico.”

Ela parecia muito decidida, principalmente porque aqui em Fukuoka não há tantas oportunidades para se desenvolver nessa profissão, pois a maior força da cidade está em desenvolver artistas musicais.

“Então quer dizer que você está fazendo Graduação em Artes Cênicas?”

“Isso mesmo. Estou no segundo ano do curso.”

“Ouvi dizer que Tóquio tem o melhor curso de Artes Cênicas. Você pensa em tentar uma transferência?”

“Estou analisando isso ainda.” – ela comentou vagamente. – “De qualquer forma, Miya-himeme pediu para ajudá-las a ensaiar. Podemos começar?

“Claro. Vamos subir então!” – Miyabi disse se aproximando de Isuzu-san e entrelaçando sua mão à dela.

Antes de começarem a andar, Isuzu-san se abaixou e capturou os lábios de Miyabi num beijo carinhoso. Mesmo não tendo sido demorado, fiquei envergonhada em presenciar a cena e olhei para outra direção, pois senti como se estivesse invadindo a privacidade das duas. Percebi pelo sorriso maroto de Isuzu-san que minha reação não passou despercebida, mas ela não comentou nada.

Durante o ensaio, eu e Miyabi nos preocupamos apenas com nossos papéis, enquanto Isuzu fazia os outros personagens. Comprovei que não tenho nenhum dom para atuar, pois, mesmo tendo conseguido decorar as primeiras falas, eu não conseguia transmitir a emoção desejada. Apesar disso, o ensaio foi bastante produtivo. Pude ver o porquê de a Hanajima-sensei ter escolhido Miyabi para fazer o papel principal, ela conseguiu encarnar o personagem. Também foi impressionante ver o talento de Isuzu-san e como ela conseguia representar perfeitamente personagens tão diferentes. Era claro que ela tinha potencial para se tornar uma atriz famosa e poderia receber muitos prêmios, ela só precisaria de uma oportunidade para explorar esse talento.

Depois de duas horas ensaiando, fizemos uma pausa quando Fumiko-san nos trouxe um lanche, que estava muito bom. Conversamos sobre diversas coisas, dentre elas descobri que as duas se conheceram há cinco anos, quando a mãe de Isuzu-san precisou fazer um tratamento de seis meses com o pai de Miyabi, mas perderam contato quando o tratamento acabou. Só foram se reencontrar no ano passado, quando Isuzu-san resolveu morar sozinha e se mudou para a casa em frente à de Miyabi.

“Não demorou muito para começarmos a namorar. Acho que estamos há seis meses juntas.” – Isuzu-san contou.

“Foi mais ou menos nessa época de começaram os boatos...” – comentei pensativa.

“Que boatos?”

Percebi que, para variar, falei algo que não devia. – “Desculpa, Miyabi, pensei que ela soubesse...”

“Tudo bem, Tomo-chan.” – Miyabi interrompeu – “Isuzu-chan já sabe.”

“Oh! Você diz o boato de a Miya-hime namorar uma garota da Universidade? Sim, ela me contou sobre isso. Também me contou o que você fez por ela na quarta e como conseguiu esse machucado no pulso.” – Isuzu fez uma pausa e me encarou com seriedade. – “Eu agradeço o que você fez por Miya-hime. Eu não podia fazer nada, por isso fico feliz que ela encontrou uma amiga que se preocupe tanto com ela. Estou em débito com você.”

“Isuzu-san, você está exagerando. Eu não fiz nada demais.”

“E se machucar no lugar dela é nada demais?” – ela me olhou incrédula. – “Sem contar que foi na quarta-feira a primeira vez, depois de muito tempo, que eu vi a Miya-hime sorrir de verdade.”

Miyabi ficou muito constrangida com o comentário, mas antes que alguém pudesse falar mais algo, a mãe de Miyabi chamou Isuzu-san para ajudá-la. Mesmo estando só nós duas no quarto, ela ainda estava envergonhada.

“Isuzu-san estava preocupada com você, Miyabi. Até eu já tinha percebido que nesse último mês tinha algo de estranho com você. Imagina ela sendo sua namorada!” – tentei animá-la um pouco. – “Enfim, é terrível como as pessoas são hipócritas.”

“Como assim?”

“Pra começar, as pessoas que falavam que eram suas amigas antes de o boato se espalhar eram só interesseiras. Além disso, tem os outros gays na escola que te discriminam. Esses são os piores.” – Miyabi me olhou espantada. – “Não vai me dizer que você pensou que era a única? Só na nossa sala tem mais três. O Okazaki-san e o Yamada-san são um casal. Eu os vi juntos um dia quando fui ao cinema. E, sabe a Kimura Inoue-san? A melhor amiga da Yoshikawa-san e uma das Top Five? Então, há algumas semanas eu a vi com uma garota nos fundos da escola.”

“Sério!? Estou surpresa. Apesar de achar que eles agem assim porque têm medo de serem excluídos também. Se só com um boato já fizeram isso comigo, imagina o que fariam se descobrissem a verdade sobre eles?”

“Pode ser, mas eles deveriam entender como você se sente melhor do que qualquer um da escola. Só não acho justo o jeito que eles estão agindo.”

“Eu gostaria que eles tivessem me apoiado no começo, mas não me importo agora, porque tenho você.”

Eu entendi que ela se referia à nossa amizade, mas acabei corando por causa das palavras que ela usou. E, para piorar minha situação, Isuzu-san voltou para o quarto nesse momento.

“Miya-hime, se você falar essas coisas,vou ficar com ciúmes. Desse jeito não vou poder deixá-las sozinhas.”

“Deixa disso, Isuzu-chan. Você sabe que não é esse o caso.”

“Hahaha. Eu sei. Mas é engraçado ver a Tomo envergonhada.”

Eu realmente estava com muita vergonha, por isso tentei mudar o assunto. – “Acho que podemos continuar o ensaio. Vamos para a próxima cena?”

“Na verdade, seria melhor se repassássemos o que já ensaiamos. Dificilmente amanhã vocês conseguirão avançar tanto nos ensaios. Afinal, é melhor ir com calma, ensaiar em pequenas partes, do que fazer tudo de uma vez.”

Ensaiamos por mais uma hora e meia e percebi que estava melhorando, mesmo sendo bem pouco. As duas foram muito pacientes comigo, além de me incentivarem dizendo que se eu conseguisse vencer minha timidez, eu conseguiria encarnar o personagem sem problemas. Quando voltei para casa já estava tardemas, mesmo assim, só fui dormir após repassar as cenas que ensaiamos uma última vez.

No dia seguinte, fizemos o ensaio com todos da turma, além de tirar as medidas para os trajes. Ter ensaiado no dia anterior ajudou bastante a me sentir mais confiante e consegui fazer uma representação aceitável. Porém, tivemos que repassar cada cena mais vezes porque, com exceção de Miyabi, ninguém tinha um talento próximo ao de Isuzu.

Além disso, os maiores problemas surgiram quando tive que contracenar com Yoshikawa, que estava fazendo o papel da mulher apaixonada pelo meu personagem. Ela dizia que minha atuação era ruim e por isso não conseguia fazer a parte dela direito (não que a atuação dela fosse tão boa).

“Isso não vai dar certo. Hanajima-sensei, como eu posso deixar essa cena perfeita se a Sakamoto não colabora!?”

“Yoshikawa-san, não vejo nenhum problema com a Sakamoto-san. Sim, tem algumas coisas que precisam melhorar, mas no geral está muito bom. E ninguém além de você teve problemas em contracenar com ela.”

“Mas é claro! Ela não se parece nem um pouco com Dom José. Por outro lado, Jun-kun seria perfeito, porque ele é cavalheiro, charmoso, forte, honesto e nobre!”

“É Joji, não Dom José. Lembre que mudamos os nomes para nomes japoneses. Enfim.” – Hanajima-sensei sabia que discutir não iria levar em nada. – “Já que as coisas não estão dando certo, faremos uma votação. Aqueles que quiserem o papel de Joji farão a cena do encontro dele com Karen (Carmen) e da luta com Eisuke (Escamillo), dessa forma vocês poderão decidir quem é o mais indicado para o papel.” – Yoshikawa pareceu contente com a proposta. – “Mas faremos isso após o intervalo. Quero todos aqui de volta em 40 minutos!”

Eu não acharia ruim entregar aquele papel para outra pessoa, mas, por causa da atitude de Yoshikawa, decidi fazer o possível para continuar com ele; eu não daria o gostinho da vitória a ela.

Fui com Miyabi, Misao e Aoi ao terraço para almoçarmos. Tinha feito onigiri, tempurá* de legumes e salsicha em formato de polvo para dividir com todas. Assim que começamos a comer, desabafei: – “Eu não entendo o que a Yoshikawa-san tem contra mim. Não me lembro de ter feito algo para ela.”

“Ela tem inveja de você.” – Aoi respondeu como se fosse óbvio.

“Por que ela teria inveja de mim?”

“Porque você é popular mesmo tentando não se destacar. Pode não parecer, por você não ser o centro das fofocas, mas todos na escola sabem quem você é.”

“É verdade. Além disso, a maioria te respeita, principalmente aqueles envolvidos com kendô e outros esportes.” – Misao complementou. – “Yoshikawa só tem mais influência por causa da família dela, por isso são poucos os que vão contra as vontades dela, mas mesmo assim você se opôs a ela para defender a Hime-chan. Isso feriu o ego dela.”

“Mas não se preocupe, Tomo-chan. Hanajima-sensei sabe o que está fazendo e não vai deixar Yoshikawa-san fazer o que quiser.” – Miyabi comentou.

Após almoçarmos, aproveitamos o tempo que tínhamos para repassar algumas falas.Quero dizer, eu e Miyabi repassamos as falas enquanto Aoi e Misae discutiram ideias para os cenários. Quando o tempo que nos foi dado acabou, voltamos para o auditório onde estávamos ensaiando.

Para minha surpresa, apenas Koizumi se candidatou para tentar ‘roubar’ o meu papel, pois eu esperava que houvessem mais interessados. Fiz a cena do encontro por primeiro e consegui fazê-la com confiança; afinal, eu a tinha feito centenas de vezes e achei que fiz um bom trabalho. Porém, Koizumi também se saiu bem, o que era de se esperar, já que ele era do tipo galã.

Na cena do duelo, foi decidido que não faríamos uma coreografia para deixar a cena o mais real possível, sendo que só deveríamos parar quando Hanajima-sensei falasse. Senti pena de Kamiya Akihiko, membro do clube de esgrima que fazia o papel de Eisuke, pois Koizumi simplesmente balançava a espada de madeira a esmo. Resumindo, foi uma cena sem emoção e pouco convincente.

Eu estava um pouco nervosa para fazer aquela cena porque não conseguiria segurar a espada direito, mas eu precisava mostrar como era uma luta de verdade se eu quisesse ficar com meu papel, por isso me concentrei como se estivesse em uma competição. Toda a minha atenção estava em Kamiya, e eu esperava que ele fizesse o mesmo.

Apesar de termos estilos de luta bem diferentes, conseguimos fazer aquele duelo parecer real. Tive muita dificuldade em acompanhar a agilidade de Kamiya, e a pouca mobilidade de meu pulso também não ajudava, mas não o deixei aliviar comigo só por causa disso. Quando Hanajima-sensei falou para pararmos, fomos aplaudidos e muito elogiados pelos nossos colegas. Nem foi preciso fazer a votação.

“Parece que temos já temos um favorito, não é, Yoshikawa-san? Eu sabia que Sakamoto-san era perfeita para o papel.”

Yoshikawa pareceu furiosa, mas tentou esconder com uma expressão de indiferença. – “Se é essa a vontade da maioria, então que seja.”

Com o problema de Yoshikawa parcialmente resolvido (afinal, ela ainda não se sentia à vontade comigo), conseguimos ensaiar por mais uma hora sem mais interrupções desnecessárias e passamos todas as cenas do primeiro ato, sendo que as do segundo ficariam para a próxima semana. Então, Hanajima-sensei lembrou a todos para treinarem em casa e nos dispensou.

Agora que eu havia assumido completamente a responsabilidade de ser um dos personagens principais, eu deveria me dedicar mais a essa peça. O problema é que, além da dela, eu ainda tinha que me preparar para o campeonato de kendô. Era muita responsabilidade em ambos os eventos, mas eu sabia que teria a ajuda de minhas amigas.

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– Traduções:

1 – Onigiri: é um bolinho de arroz japonês geralmente em forma de triângulo, ou de forma ovalada envolto por uma folha de nori (alga).

2 – Tempurá: é um prato clássico da culinária japonesa. Consiste de pedaços fritos de vegetais ou mariscos envoltos num polme fino.

Notas finais
O que acharam? Teremos ação no próximo capítulo. Até mais. xD