Warmness On The Soul
1 Porto Alegre
Notas iniciais
Warmness on the Soul é uma fic alternativa onde eu vou falar sobre amor proibido, profecias, ódio, honra, anjos caídos, demônios, céu, inferno e todas as coisas sobrenaturais que eu amo. Não sei ainda de quanto em quanto tempo vou postar, minha idéia é de uns 10 em 10 dias, vai depender muito de quem estiver acompanhando. Peço encarecidamente que deixem um review nos capítulos que lerem, preciso saber se vocês estão gostando, ou não, daí eu posso melhorar. Bom, esse primeiro capítulo tá meio chato, porque é explicativo e etc. O segundo vai estar melhor, porque vão entrar nossos garotos '-'
Espero que gostem.
Uma gota escorria pela janela embaçada, formando uma linha que se estendia pela superfície do vidro. Segundo o noticiário de ontem a noite não choveria hoje, seria um dia ensolarado e agradável. Mas são 06h27 da manhã e está escuro, frio e chovendo. Mais uma vez temos a prova de que não se pode tentar adivinhar o futuro. As pessoas passavam apressadas por mim, alguma nem percebiam que eu estava ali e quase me levavam junto com os esbarrões. Já faz umas duas horas que eu estou aqui perambulando pelo aeroporto com minha bagagem nem um pouco leve.
- Algum problema moça? – me perguntou um dos seguranças, tocando de leve meu ombro. O que uma garota sozinha, pequena e indefesa poderia fazer? Assaltar um aeroporto lotado com uma bagagem de mão? Porque não vão ver o cara que tá rodeando o portão 2, ele tá doidinho pra surrupiar uma carteira alheia.
- Nenhum. Só estou esperando meu tio, que se atrasou – se atrasou umas duas horas...
Não nenhum pouco comum meu tio se atrasar para alguma coisa, ele era tão organizado e cheio de regras que talvez até soubesse quantos grãos de arroz sobravam no pacote. E eu, a garota mais desorganizada do mundo, estava indo morar com ele.
Eu fui criada desde bebê em Washington, com meus pais médicos. Eu era uma pessoa normal, não tinha muitos amigos, sonhava em ter uma banda e estava me preparando para entrar em Harvard no futuro. Mas então, há dois meses, meus pais morreram.
Tio Lucius é o irmão mais novo do meu pai, e meu parente mais próximo. Eles não se davam muito bem, eles eram o ‘certinho e o problemático’ da família, como dizia meu pai. Então um se formou médico, e o outro se tornou padre. Mas mesmo assim Lucius compareceu na cansativa audiência de três horas em que o juiz o determinou meu guardião. Precisei de uma semana pra ajeitar tudo em Washington e vir pra Porto Alegre, minha cidade natal.
Mas cá estamos nós, e onde está meu querido tio?
Meus pensamentos foram desviados pelo barulho do meu celular. Tirei-o do bolso traseiro da calça e coloquei na orelha, tampando a outra com a mão, para bloquear o barulho.
- Oi?
- Diana.
- Tio – suspirei – porque não veio me encontrar? Não sei ir até sua casa sozinha.
- Tive uns problemas na igreja querida, me desculpe. Olha, consegue pegar um táxi? Eu moro bem no centro da cidade, te explico o caminho e você explica para o taxista ok? – que belo guardião eu fui arrumar.
- Tudo bem, vou ver se eu consigo um – desliguei o celular, pegando minhas bagagens e desviando das pessoas enfurecidas pelo atraso de alguns vôos. Sem querer ficar pra lá e pra cá, parei na recepção, onde uma ruiva de cabelos cacheados pedia calma a uma multidão de gente.
- Oi você podia me dar uma informação?
- Mocinha, pro final da fila, por favor – falou sem nem olhar pra minha cara. Coloquei as duas mãos em cima do balcão, enquanto várias pessoas me empurravam.
- Não, eu só quero saber onde eu posso achar um táxi... ?
- Final da fila, calma a todos, vou atender a todos – ela parecia um pouco desesperada. Desisti e fui me aventurar pelo aeroporto. Achei os banheiros, achei umas lojas, achei todos os portões, elevadores, bebedores, e enfim achei a saída. Devo dizer que a chuva estava mais forte do que eu esperava, assim que pus o pé pra fora das portas, fiquei encharcada. Meu, que raiva. Fui andando pela calçada, as ruas imparciais e escuras davam um ar meio sombrio. Não é meio idiota não haver táxis perto dos aeroportos? Digo, logo na saída. Como esse pessoal daqui faz pra ir pra casa, puta merda hein. Dobrei na esquina de uma loja de roupas, a garota loira atrás do vidro fez uma cara feia pra mim. Que foi minha filha? Nunca viu ninguém tomando um banho de chuva não? Andei mais alguns passos e quando eu estava prestes a desistir e voltar correndo pra Washington, uma figura vestida de preto vinha caminhando em meu encontro. Era um garoto, pela altura só poderia ser. Usava um moletom preto, não vi seu rosto, pois ele estava com o capuz. Esperei ele se aproximar de mim pra eu poder pedir informações.
- Oi, você pode me dar uma informação? – perguntei quando ele passou do meu lado, mas a criatura continuou andando como se eu não existisse.
- Ei, você – o chamei, mas ele não se virou. Corri até ele, antes que virasse a esquina e segurei seu braço – pode me dar uma informação, por favor? – repeti asperamente. Ele tirou o braço de entre meus dedos como se tivesse levado um choque. Em seguida segurou meu cotovelo com força, me jogando no chão, exatamente em cima de uma poça de água. Eu olhei descrente pra aquela criatura ignorante sob mim.
- meu, tu tem problema? – rosnei, um pouco histérica. O garoto não disse uma palavra, apenas se virou e continuou andando. Me levantei, mais encharcada do que antes.
- Seu estúpido!! – gritei. Minha vontade era de ir atrás e dar uns bons tapas pra ele aprender a deixar de ser mal educado, mas daí em vez de me jogar na poça de água ele me jogasse na frente de um carro. Loucos são complicados de entender. Continuei caminhando e xingando o desconhecido, até que para minha alegria apareceu um táxi. Quase pude dar pulinhos. O carro amarelo parou e o motorista me avaliou por um momento.
- hm, tu vai molhar todo o meu banco guria – ele franziu o cenho. Estreitei os olhos.
- Olha, eu vim lá dos Estados Unidos, fiquei duas horas mofando num aeroporto em caos, tomei um banho de chuva desgraçado, um retardado de TPM me jogou na poça de água, se você me disser que eu estou molhada demais pra entrar nesse carro e ir pra casa trocar essa roupa eu... – meu tom mortalmente ameaçador.
- Pode entrar, pode entrar! – falou o motorista abrindo a porta.
Depois de rodar pela cidade toda e gastar toda a bateria do meu celular com o ótimo senso de direção do meu tio. Cheguei em minha nova casa, que na verdade era uns bons quilômetros de distância do centro. Ainda dentro do carro, avaliei o prédio laranja, a fachada bonita, as janelas limpinhas. Eu nunca havia morado em um apartamento.
Lucius estava logo a frente, com sua batina e um guarda-chuva, se aproximou do carro com uma expressão curiosa.
- Você está diferente Diana – disse.
- É, eu cortei o cabelo – falei – faz cinco meses – ele assentiu, percebendo o corte que eu havia dado. O motorista estava recostado contra o banco e o taxímetro ligado. Marcando 147 reais. Que facada. Desci do carro e fui entrando dentro do prédio, parei na recepção, onde um gordo com farda de segurança sorria abestado. No crachá constava Marcos.
- Tu deve ser a Diana, Lucius falou muito sobre você...
- Onde é o apartamento do meu tio? – perguntei colocando uma mão sobre o balcão.
- 666 – falou ele. Franzi o cenho, estranhando um pouco essa combinação de números. Todos devem saber que 666, segundo crenças, é o número da besta. É tão estranho um padre morar logo nesse número. Me livrei do pensamento idiota e peguei o elevador, indo direto para o sexto andar. Entrei no apartamento e fui dar uma olhada. Tudo bem organizado, bonito. Espelhos por toda parte, deixavam o ambiente mais amplo do que realmente era. Numa estante haviam várias fotos, peguei o retrato onde dois homens sorriam felizes. Um loiro, de olhos castanhos profundos segurava um diploma, e o outro loiro de olhos azuis segurava uma taça. Formatura do meu pai.
- Não sei o que John te disse, mas nós costumávamos ser bem unidos numa certa época – falou Lucius, entrando pela porta e pondo minha bagagem perto do sofá – e ah propósito não foi muito educado me deixar sozinho lá embaixo pra carregar essas duas toneladas de mala. Está de castigo por uma semana – ele me encarou seriamente, enquanto eu tentava procurar traços de ironia e me perguntando se o excesso de responsabilidade pirou de vez a cabeça do meu tio. Percebi que era brincadeira quando ele começou a rir – é brincadeira.
- Vou acrescentar na minha lista que você é um bom piadista – falei.
- O que? Só porque sou padre tenho que ser chato? Vamos lá, estamos no século XXI.
- Eu não disse isso – rebati.
- Mas foi o que quis dizer – retrucou Lucius.
- Você só me conhece a alguns minutos, não pode tentar adivinhar o que eu quis ou não dizer – revirei os olhos. Até alguns dias atrás eu nem sabia se meu tio estava vivo, eu nunca o tinha visto na vida. Só no dia da audiência em que mal nos falamos, e agora.
- Tudo bem, tudo bem – disse ele abanando as mãos – não começamos bem.
- É – concordei. Olhei em volta novamente, um dos espelhos mostrando meu reflexo pálido, em contraste com meus olhos castanhos e cabelo vermelho vivo. A sombra preta borrava meu rosto, e minhas roupas ensopadas pingavam no chão.
- Ah me desculpe, você aí toda encharcada e eu aqui falando sem parar, ou sem saber o que falar... Bom, seu quarto é o último, no fim do corredor – começou Lucius apontando em direção ao corredor – a primeira porta é o meu quarto, a segunda é o banheiro. Aqui é a sala, e lá do outro lado é a cozinha, e depois dela tem a varanda.
- Ok, eu vou tomar um banho – disse indo pegar minha mala.
- eu levo pra você – ofereceu-se Lucius e eu rapidamente o interceptei.
- Não é preciso, sério, eu levo – fui até meu quarto e fechei a porta. As paredes verdes com branco, uma cama de casal com edredom combinando, um tapete, um guarda-roupa com dois espelhos. Bonitinho até.
Vasculhei minha mala até encontrar meu roupão de caveira e produtos de higiene, e fui tomar banho.
Enquanto eu terminava de retirar o shampoo que tentava me cegar, ouço batidas na porta.
- Diana? – chamou Lucius. Ah caralho, não dá nem pra tomar banho mais.
- fala – gritei.
- Eu achei que tu não ia querer ficar trancada nesse apartamento o dia todo, então já te matriculei na escola. Começa à 1h da tarde – disse. Opa, como é?
- O quê??? – berrei mais alto.
- Tá o endereço, as matérias, seus livros e dinheiro pro ônibus em cima da sua cama. To saindo!
- Volta aqui desgramado!! – tarde demais, ouvi a porta da frente abrir e fechar. Mas que diabos! Terminei o banho rapidamente, e olhei o relógio: 12h17minPM. É brincadeira né...
Catei uma calça skinny, um moletom aleatório, meu all star, fiz minha maquiagem e penteei os cabelos rapidamente. Não me dei ao trabalho de secá-los, sendo que era quase certo o banho de chuva. Em cima da cama tinha uma mochila totalmente preta com livros e cadernos dentro, pelo menos ele não comprou nada rosa ou com coraçõezinhos. O dinheiro eu coloquei no bolso, e no papel estava anotado o nome da escola. Instituto de Educação Estadual Rubén Darío.
Joguei a mochila no ombro e saí batendo a porta do apartamento. Ele podia ter me avisado antes, tipo bem antes de eu ter menos de meia hora pra chegar lá! Passei voando pela recepção, e de longe ouvi Marcos gritar “boa aula”.
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