Warmness On The Soul
5 Brigas
Notas iniciais
- o que... o que está fazendo aqui? – tentei deixar minha voz firme, mas acabei gaguejando.
- eu estava passando e te vi aqui, daí pensei “vou lá bater um papo” – falou casualmente. Franzi o cenho, não tem nada de inocente em entrar num vestiário feminino e encurralar uma garota contra seu armário. A tática agora é manter a calma, se correr o bicho pega se ficar o bicho come.
- certo, pode me dar a minha camiseta? – estendi a mão.
- porque? Você fica tão linda sem ela – Ben me olhou de cima abaixo — porque não tira o resto logo? – acrescentou apontando para a minha skinny.
- porque tu não bate com a cabeça nessa porta até morrer? – cuspi as palavras com raiva.
- ui, brava – Ben deu um sorriso malicioso, seus olhos faiscando – assim eu me apaixono – ele deu uma investida na minha direção e eu fechei a porta com tudo na direção dele, mas o desgraçado se esquivou milésimos antes. Agora fudeu de vez, ele estava bem na minha frente bloqueando a única saída, ao menos que eu pudesse atravessar paredes seria impossível sair dali.
Ficamos nos encarando, e minha mente disparava mil ideias pra fugir daquela situação, mas nenhuma 100% segura.
Minha atenção foi capturada por uma risada estridente que vinha do corredor, alguém estava vindo pra cá. Na minha distração, Ben me empurrou pra dentro do armário minúsculo, entrando em seguida e fechando a porta. Ficamos mais espremidos que sardinha na lata.
- quieta – ele sibilou pra mim colocando o indicador nos meus lábios. Eu teria mandado ele enfiar aquele dedo no rabo dele, mas fiquei de boca aberta quando vi uma loira semi nua entrando agarrada com o Gabriel vestiário adentro. Pela fresta da porta de metal, eu assistia a putaria do casalzinho. A loira estava só de saia, os peitos (grandes demais para serem naturais, aposto um dez mil em silicone ali) balançando pra cima e pra baixo. Já o queridinho, terminava de tirar a camiseta. O peitoral e os braços cheios de tatuagens, a skinny já com o zíper aberto, pendendo abaixo da linha da cintura. Me diz que eles não vão transar aqui! ... Ai que merda mesmo, eles vão. Fechei os olhos e me espremi mais pra trás quando ele começou a lamber aquela vagabunda como se fosse algo comestível, mas logo me arrependi. Arregalei os olhos sentindo um volume que antes não estava ali, me virei de lado e encontrei os olhos de Ben no escuro.
- vai tomar no cu! — falei indignada e tentando não gritar e bater naquela criatura pervertida dos infernos.
- ah meu, tu quer o que? Um filme pornô rolando na minha frente e tu não quer que eu fique excitado? — retrucou ele.
- SAI DE PERTO DE MIM COM ESSE TROÇO NOJENTO! — empurrei Ben mais pro fundo do armário e fiquei quase colada na porta do mesmo. Que maravilha, não posso ir pra frente por causa da putaria adolescente no meio do vestiário e também não posso ir pra trás porque tem um tarado pronto pra me estuprar. Olhei novamente pela fresta, o que essa vadia tem de mais? Dois pares de peitos comprados e um cabelo pura água oxigenada. Gabriel ficou de pé, segurando a loira pelo braço e jogando contra a porta do armário a minha frente. Ele ficou no meio das pernas dela, e algo nas costas dele me chamou atenção. Era um tipo de cicatriz, um V virado que ia até metade das costas. Como alguém podia ter uma marca tão grande assim? E como ele teria feito isso?
De repente minha visão escureceu e eu senti meu corpo todo amolecer, minhas pernas cederam e eu tive plena consciência de que não estava mais de pé. Imagens familiares passaram em frente aos meus olhos como se eu estivesse assistindo um filme 3D.
Um cemitério agonizante. Sons de risos, sons de choro. Frio. Gritos. Chuva. Dor. Um anjo negro ajoelhado em frente a um túmulo enquanto suas asas eram arrancadas. Suas costas transbordavam sangue. Ele chorava. Ele gritava. Diana.
Balancei a cabeça esperando o teto escuro do armário parar de se mexer, minha cabeça latejava.
- você tá bem? — a voz de Ben perto da minha orelha parecia distante.
- sim, foi só uma tontura — falei tentando me levantar. Foi ai que eu notei que estava deitada no colo dele, suas mãos em volta de mim... aí que eu quis levantar mais rápido. Ben me ajudou a ficar de pé, mas não tirava os braços de volta de mim.
- você tem isso frequentemente? — perguntou ele, de repente seu tom me pareceu preocupado demais.
- não — respondi. Um silêncio se estendeu por mais de dois segundos, e eu percebi que estava silencioso demais.
A porta do armário foi escancarada com violência.
- que porra é essa? — disse Gabriel trincando os dentes, sua expressão era meio... eu achei que ele ia arrancar a porta e nos bater com ela. Eu fiquei apavorada e ali encarando ele, as palavras não saiam de jeito nenhum. Olhei em volta e percebi que a loira havia sumido e ele estava vestindo a camiseta.
- a gente meio que ficou, trancado no armário... tipo, é — começou Ben com seu tom inocentemente falso.
- deu pra ver, pela gritaria que fizeram — falou apontando para o armário. — e saiam de dentro dessa porcaria! — rosnou.
- cara, tu tava praticamente comendo a Helena ali no corredor então não vem encher o saco — retrucou Ben. Gabriel o olhou seriamente.
- e vocês — ele me encarou — estavam jogando xadrez dentro do armário? — falou sarcástico, dando uma risada divertida.
- exatamente. Xadrez nível expert, é pra ver quem joga melhor sob pressão dentro de um armário minúsculo e sufocante — me meti sentindo uma onda de coragem repentina. Quem esse filho da puta pensa que é pra ficar me passando sermão? Porque ele acha que pode me passar sermão?
- claro que sim! — seu tom se elevou e ele estendeu os braços — agora se joga xadrez de sutiã e de pau duro, né Ben? — Gabriel fuzilou Ben com os olhos verdes. Opa, pera, para o mundo. Eu me lembro muito bem que esse desgraçado tinha olhos azuis, eu não sou louca, ele tinha olhos AZUIS. Eu o fitei por tempo o suficiente pra ele perceber.
- tu usa lente azul? — perguntei de sopetão.
- não — falou rápido demais. Ele pareceu desconcertado.
- ontem seus olhos eram azuis, e agora estão... — Gabriel virou a cara fechando os olhos — verde musgo...
- você é louca — murmurou com o olhar baixo em direção a porta.
Senti algo quente escorrer pela minha boca, passei a mão rapidamente e fiquei confusa ao ver aquele borrão vermelho.
- sangue — sussurrou Ben, os olhos grudados na minha mão.
- que tal levar a doidinha pro hospital? Ela tá precisando — Gabriel passou por mim e saiu do vestiário. Fitei a porta por alguns segundos, incrédula e com raiva. É um filha da puta mesmo.
- onde ele enfiou a peituda? Dentro do vaso? — retruquei retórica. Fui até o armário e catei minha pobre camiseta que jazia naquele chão sujo — ele acha que tem moral pra vir falar comigo desse jeito só porque tem aqueles dois step de caminhão nas orelhas?
- toma — Ben me estendeu um lenço branco com uns bordados estranhos.
- obrigada, mas não é necessário — recusei, mas ele segurou meu rosto e pressionou o pano delicado sobre o sangue várias vezes. — sinusite?
- não, isso — apertei os olhos — nunca aconteceu antes.
Porque algo dentro de mim me diz que esses sonhos, essas tonturas, e agora esse sangue estão ligados a essa escola e essas pessoas estranhas? Parece loucura, eu sei, mas é um pressentimento que não tem explicação.
- o ar de Washington é bem diferente do de Porto Alegre, talvez precise andar sempre com um lenço de agora em diante — Ben deu uma risada sem graça.
- como sabe que eu sou de Washington? — perguntei.
- o Tavares tem uma boca bem grande, e o Lucas tem um megafone no lugar da boca — falou — tu é desconfiada hein.
- É, sou sim – não faz dez minutos tu tava querendo me agarrar cara, tenho que desconfiar mesmo...
- pronto — disse, dobrando o lenço duas vezes e colocando sobre a minha palma — fica com ele, pode precisar mais tarde.
- obrigado — falei. Ben continuava me encarando, os olhos azuis vidrados nos meus.
- porque me encara tanto? Eu tenho algum tipo de anomalia genética que só tu consegue ver? — perguntei curiosa. Ele demorou alguns segundos pra me responder.
- pelo contrário, eu não consigo ver nada — disse, a voz tão baixa como um sussurro.
- TIRE AS PATAS IMUNDAS DELA! — o grito do Rodrigo me fez arregalar os olhos e dar dois passos pra trás. Ele estava parado na porta, a expressão tensa que logo virou debochada — peguei vocês!
- cabulando aula? – perguntei.
- Fomos expulsos lembra-se? – falou, vindo para o meu lado e colocando o braço sobre o meu ombro.
- Levando a garota pro mau caminho Tavares? Muito bonito. – balbuciou Ben com ar de tédio.
- Lindo demais até. E o que você está fazendo – Rodrigo apontou para a porta onde havia uma placa bem legível escrito ‘vestiário feminino’ – aqui?
- Vim conversar com a Diana, tenho que pegar senha contigo agora é? – ele cruzou os braços.
- Não, mas sugiro um lugar mais aberto.
- E eu suponho que tu vá me forçar a ir pra esse lugar mais aberto – o tom de Ben foi desafiador. Do jeito que a conversa estava indo, não completaria nem dois minutos pra esses dois descerem o nível pra porrada.
- Se é o que tu quer – disse Rodrigo já dando dois passos pra frente.
- PARA TUDO! – me meti no meio dos dois – Sem briga! Rodrigo se acalma, e Ben, vai embora por favor – pedi. Alguns segundos de silêncio e muita tensão se estabeleceram no ar, até que eu vi Ben caminhar até a porta e desaparecer pela mesma.
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