Warmata

3 Capítulo 3. Sagrad Прекрасный


Notas iniciais
Não vou nem falar nada, tchau. *Corre*.

Quando você tem algo para ocupar o seu tempo, esperar, por algo ou alguém, é algo tão insignificante como cerrar o punho, e pode passar tão despercebido quanto respirar automaticamente.

No litoral, a noite anunciava sua chegada estendendo o seu tapete azul-marinho, quase negro, pelo céu. Da janela do apartamento, Ícaro conseguia enxergar os primeiros postes de luz começando a acender, dando início ao início da noite nas ruas lá embaixo. Checou o celular novamente. Seis e sete da noite.

Ícaro não tinha comido nada além da pipoca do cinema desde então; e, provavelmente, não comeria nada até que chegasse na casa de Marcela. Mesmo assim, foi até a geladeira mais uma vez. Mais por força do hábito do que por vontade ou necessidade. Não tinha nada de interessante, de fato. Nada do que ele achava interessante, e nada que estivesse pronto. A maioria das coisas que estavam armazenadas na geladeira eram ingredientes de alguma coisa. Coisa essa que seu tédio não o permitia fazer.

Foi até a sala, que era um dos quartos, e se jogou no sofá. Pegou o celular que tinha deixado no braço do estofado, e começou a pensar que música iria ouvir. Era noite, e ele estava sozinho em casa. Isso significava que podia tentar cantar. Tentar. Abriu o gravador de voz no celular, e foi correndo até o quarto pegar o notebook. Tecnicamente, Ícaro só precisava do celular para gravar a voz, e deixar a música no fundo. Entretanto, quando se colocava a música e depois o gravador, a música simplesmente parava.

Ligou o aparelho, e, ignorando os programas que abriam sozinhos em toda inicialização, foi até a pasta onde estava a música. Ergueu a coluna, e se preparou. Quando Ícaro fazia esse tipo de coisa, às vezes, vinha a sua cabeça o pensamento de que simplesmente deitar ou assistir televisão ajudaria mais a “passar” o tempo. Afinal, uma música geralmente tem entre três e seis minutos. Mesmo assim, cantar era algo que o relaxava.

Abriu o Media Player do Windows, e colocou o volume no dezessete, para que a música em si não ficasse muito maior do que a sua voz. Com uma mão no play do celular, e outra sobre botão do mouse, com o cursor sobre o play do notebook, se esforçou ao máximo para apertar os dois ao mesmo tempo.

— I wanna be imortal — começou. — Like a god in the sky. — Fazer uma voz mais fina um tanto mais difícil. — I want to be silk flower, like I’m never gonna die.

Deixou o celular sobre o sofá, e se levantou.

— I wanna live forever, forever in your heart. — Ícaro fechou os olhos, e começou a rodar graciosamente com os braços abertos, confiando na sua noção de espaço sobre a sala da própria casa. — And we’ill Always be together... From the end to the start.

Sem perceber, Ícaro rodou demais, e acabou se batendo contra o hack. Abriu os olhos, e pôs as duas mãos no móvel de madeira, se certificando de que não tinha quebrado nada. Quando viu que não tinha, se permitiu rir de si mesmo, e se apressou para alcançar a canção.

— ... of the human race, râaaaaaaaaêce. — “Arrasei”, pensou. Tinha um fôlego bom. Pelo menos, achava que tinha.

Dessa vez, Ícaro não fechou os olhos. “O que o Lúcio ia pensar de mim se me visse agora?”, abriu um sorriso, “Tsc”.

Quando a música terminou, Ícaro se agachou, e fechou o player. Pegou o celular, e foi ver o resultado do seu próprio showzinho. O resultado não foi melhor do que ruim. Depois, Ícaro simplesmente desistiu de cantar. Fez uma playlist rápida no notebook, e pôs pra tocar. Cantar o tinha tirado do tédio, que é um nome bonitinho para a preguiça.

Àquela hora, o céu já estava totalmente negro. Ícaro foi até a cozinha, e começou a esquentar o óleo para fritar pastéis. “Olá, hipertensão”, pensou enquanto cortava fatias de queijo e fechava as pequenas massas com um garfo. “Olá, queimaduras de terceiro grau”, riu enquanto pulava para trás para evitar que o óleo quente voasse em seu rosto. Fez nove no total. Mas, quando colocou todos num prato grande, só havia oito pastéis, pois um, que tinha fritado antes, ele comera enquanto ainda estava fritando o resto.

Se deu conta de que não tinha pensado nem um pouco na playlist que fizera quando voltou para a sala com o prato cheio de pastéis em mãos, e percebeu que estava tocando rock psicodélico. Desligou o computador, e ligou a televisão. Passou a esmo os canais da tv a cabo, na esperança de encontrar alguma coisa que não fosse um filme que já tinha passado mil vezes, episódios de séries repetidas, ou Trato Feito. Acabou assistindo dois ou três episódios seguidos de um programa sobre uma loja de bolos, e voltou a si quando ouviu o toque do celular.

Como quem acaba de acordar, Ícaro pegou o celular com uma certa euforia. Atendeu rapidamente, sem nem olhar quem estava ligando.

— Alô? — Disse, bocejando.

— Ícaro, você já tá pronto? — perguntou Lúcio do outro lado da linha.

— Hein? Caralho, que horas são?! — Ícaro tirou o celular do ouvido, e olhou o relógio do celular que ficava no canto superior da tela. “Puta que pariu”, pensou. — Errr, tô quase. Tá vindo pra cá já? — Perguntou, enquanto levantava do sofá, e desligava a televisão.

— Acabei de sair de casa. — Quando Lúcio terminou de falar, Ícaro conseguiu ouvir o barulho de um portão se fechando, que provavelmente era o da portaria do prédio.

— Tá. Vou te esperar na portaria. — Concluiu, e desligou.

Ícaro foi correndo até o quarto buscar uma toalha, e depois, quase caiu correndo até o banheiro e esbarrando no balcão. Tomou um banho rápido; não lavou o cabelo. Nem sequer molhou, pois já o tinha lavado mais cedo, e ele se encontrava no que ele chamava de “posição legal”, que só o vento e o tempo conseguiam fazer. Quando terminou, enxugou-se rapidamente, e foi se trocar.

Normalmente, Ícaro não tinha frescurinha com roupas. Não dava a mínima para repetir roupa, nem se tivesse três ou quatro camisas quase iguais. Pôs uma camisa vermelha com mangas que se dobravam na metade do antebraço e uma calça jeans preta sem bainha, que ele teve de dobrar para calçar a meia e o tênis. Naquele momento, Ícaro agradeceu por ter nascido homem, e não ter a opção de ter várias opções de tipo de roupas. Foi até o banheiro com um pé só, pois o outro ainda tentava entrar no sapato, sem ajuda. Escovou os dentes, e se lembrou de que já tinha usado o desodorante quando o viu parado em cima do balcão.

Pegou o molho de chaves, e o celular, que tinha menos que trinta por cento da bateria. Saiu de casa e desceu as escadas correndo até a portaria, torcendo para que Lúcio não tivesse chegado ainda. Cumprimentou o porteiro com um singelo “boa noite”, e esperou. Não muito depois, avistou Lúcio subindo a rua. Se despediu do porteiro, e foi até o amigo.

Lúcio vestia uma camisa cinza, com uma espécie de mancha preta que tingia a parte inferior da vestimenta, e escalava até a metade da barriga, acabando em tiras espirais emaranhadas.

— Onde é a casa dela? — Ícaro perguntou enquanto se punha ao lado de Lúcio, que tinha aberto um sorriso largo ao vê-lo.

— Não é longe não. Vamos andando mesmo.

Notas finais
"Quando você vai parar de ficar colocando música no meio dos capítulos?" Nunca, talvez HAHAH