Warmata

4 Capítulo 4. Prodigal Sun


Notas iniciais
No capítulo final eu vou por uma lista das músicas que fizeram parte/deram nomes aos títulos dos capítulos.

Ícaro não era exatamente o tipo de pessoa que se cansava de andar, pelo menos, não facilmente. Entretanto, sempre chega a hora que os músculos não aguentam mais, e as pernas começam a doer e latejar, implorando por um pouco de descanso. Na rua, geralmente o ponto de descanso se torna um banco, uma calçada, ou até mesmo um poste para encostar-se em algumas vezes.

Há um tempo, Ícaro tinha se dado conta de que, se se prestar atenção suficiente, perceberá que não existe casa igual à outra. Você poderia andar por ruas e mais ruas em bairros pequenos e grandes de classe média, mas nunca encontraria duas casas iguais. De certa forma, as fórmulas eram poucas, mas que combinadas, faziam-se muitas. Casas de um andar com um muro alto, com apenas uma portinha de entrada; casas com muros baixos, com uma varanda grande, separadas da rua por grades verticais ou horizontais; àquelas que não tinham grades, mas só uma porta e uma janela que já davam de cara para a rua, com uma espécie de “cápsula” de grades sendo a única coisa que realmente impedia um arrombamento. Havia também aquelas com dois tipos de varandas; e, claro, os prédios, com as mais variadas colorações. Claro que esses não eram nem sequer um quarto de todos os estilos que podiam ser encontrados.

Era uma noite fria e sem nuvens no céu. A lua pairava alto, não cheia, nem minguante. Apenas um pequeno ponto branco muito distante. O vento soprava no rosto de Ícaro, fazendo seu cabelo esvoaçar para trás, o que seria bom, se seu cabelo estivesse molhado. Mas, como estava seco, só servia para bagunça-lo. Mas, apesar disso, Ícaro não dava a mínima. Às vezes, o preferia bagunçado de qualquer forma. Dirigiu o olhar para Lúcio, que não tinha esse “problema”. Lúcio tinha um cabelo relativamente pequeno. Grande o suficiente para passar a mão e sentir os fios entre os dedos, mas pequenos demais para bagunçar. Ele também usava uma touca preta, o que não ajudava o vento.

Os dois caminharam por alguns minutos, Ícaro contou dez ou onze. Ao invés de darem a volta por fora do bairro, eles foram por dentro, fazendo um trajeto de zigue-zague entre ruas largas e estreitas. Grandes e pequenas. E até uma ou duas ladeiras. Em parte do caminho, eles passaram por terrenos baldios que, supostamente, serviriam de fundação para casas que nunca tinham sido construídas. Passaram pelos muros de um ou dois condomínios de torres, onde as ruas pareciam caixas sob um teto negro. Na primeira ladeira, que era grande e extremamente larga, encontrava-se uma praça que dividia a rua em duas vias. Passando por ela, Ícaro e Lúcio seguiram por uma rua aparentemente nivelada; que depois, acabaram por descobrir que era somente um tipo de ligação. Depois, emergiram numa segunda ladeira. Esta, bastante íngreme.

Felizmente para os músculos dos dois, o caminho era descida.

— Tenta não ser um cuzão e aceite se a Marcela te oferecer alguma coisa. — Disse Lúcio, quebrando o silêncio. — Sério.

De vinte coisas que Ícaro podia falar naquele instante, a única coisa que disse foi:

— Tá.

Acabaram saindo numa avenida bem movimentada. Por um instante, Ícaro pensou que teriam de cruzá-la, o que seria um desafio, pois os carros não paravam sequer por um instante; e, se uma das vias parasse por causa do sinal mais à frente, a outra continuava livre. Porém, para a alegria dele, Lúcio foi seguindo pela calçada. Sem demora, chegaram à uma segunda praça. Desta vez, ela não cortava ruas nem nada do tipo. Servia apenas como um ponto central ao encontro de quatro ruas que “desembocavam” nas outras que circundavam a praça.

Em frente à praça, havia um condomínio pequeno, com nada mais do que uma torre e um pequeno estacionamento ao lado. Em vez de concreto, o muro consistia de grades horizontais negras com pontas de lança. Lúcio abriu o primeiro portão sem cerimônia e foi soltando-o lentamente para que Ícaro tivesse tempo o suficiente de entrar sem que a estrutura de metal batesse na sua cara. Era um daqueles edifícios de quatro andares sem porteiro, onde havia uma grande campainha com os números de todos os apartamentos do lugar. Ícaro observou Lúcio apertar o botão 304, e logo depois, ouvir uma foz feminina vindo do pequeno aparelho posto na parede.

— Marcela, é o Lúcio — ele se precipitou.

— Lúcio! Fica aí, já tô descendo! — E, sem dizer mais nada, desligou.

Lúcio se encostou na parede com uma cara de tédio, e pegou o celular para olhar o horário.

— Já deve ter começado. — Lúcio se pronunciou.

— Por que ela simplesmente não destravou o portão e mandou a gente subir? — Indagou Ícaro, ignorando o comentário. Mas, antes de Lúcio ter chance de responder, Marcela surgiu no portão. O cabelo estava solto, caindo pelas costas, e da orelha até a lateral do queixo. Pelo o que Ícaro conseguiu enxergar, Marcela usava pouca ou nenhuma maquiagem. Tinha traços de delineador acima da sobrancelha, e um pequeno brilho nos lábios, quase imperceptível. Usava um vestido relativamente curto e brilhante sem mangas, e uma espécie de jaqueta de algodão negra longa, com as mangas dobradas na altura do cotovelo. Quando ela finalmente abriu o portão, Ícaro pôde ver que ela usava também um tipo de calça leg por baixo do vestido, que cobria suas pernas até o começo do pé.

Com um abraço, Marcela cumprimentou os dois, e os acompanhou até o apartamento. A bota que calçava fazendo um som oco nos degraus da escada. No primeiro andar depois do térreo, Ícaro já podia ouvir a música alta vindo do lugar.

— Ninguém reclama de música alta não? — Perguntou.

— Nesse prédio só moram idosos — ela esclareceu, enquanto irrompia no terceiro andar. — E todos foram pra uma viagem aí não sei pra onde.

Caminharam até o apartamento. Marcela deu uma investida na porta na tentativa de abri-la, sem sucesso. Foi jogada de volta para trás e deu um risinho junto com Lúcio. Depois, girou a maçaneta calmamente e abriu a porta.

Num instante, a música que até agora estava um pouco abafada, entrou como uma enxurrada nos ouvidos de Ícaro. Quando percebeu que não era eletrônica que tocava, deu um suspiro de alívio. Os três entraram, Marcela deu um grito e todos se viraram, e, por um momento, Ícaro estacou. Todos olhavam para ele e Lúcio, que não parecia dar a mínima. Com uma olhadela rápida, varreu a sala de ponta a ponta, observando todos os rostos rapidamente. Reconheceu um ou dois do cinema. Mas, no geral, todos pareciam pessoas legais. O mais novo ali devia ter quinze anos, e, o mais velho, dezenove.

O lugar era supreendentemente grande para um apartamento. A sala era enorme. Coberta por um papel de parede neutro, e um piso de madeira. Ícaro percebeu que Marcela havia mudado um pouco as coisas de lugar, pois os dois sofás se encontravam um pouco mais distantes da mesinha de centro, mas longe o suficiente da parede para dar espaço a uma roda de pessoas sentadas atrás deles. De frente para a porta, havia um sofá que não parecia nem um pouco com os outros dois. Presumiu então que devia ser emprestado, ou de outro cômodo da casa. Em frente à mesinha de centro, havia uma estante enorme. Com uma televisão de plasma pregada na parede, rodeada por toras de madeira clara que formavam prateleiras num formato quase abstrato.

— Fiquem à vontade — declarou Marcela, de modo cortês, mas logo depois disse: — E quando eu digo à vontade, eu quero dizer “à vontade” mesmo. Só não quebrem a casa.

Ícaro riu, e Lúcio fez o mesmo. Os dois foram até um dos sofás, e se sentaram. Trocaram olhares, e Lúcio deu um sorriso de agradecimento. Ícaro retribuiu curvando a boca, e batendo na perna do amigo. Só então Ícaro percebeu que as luzes estavam baixas, dando a impressão de que estavam quase apagadas. O cômodo estava imerso num azul-marinho profundo, que tingia as paredes, os móveis e as pessoas nessa cor. Olhou em volta, tentando descobrir o que Marcela tinha feito para deixar a iluminação daquela forma, mas foi interrompido por um tapa no ombro.

— Já volto. — Lúcio disse, mas depois, Ícaro percebeu que ele tinha gritado. Quando olhou para ele, estava longe, indo ao encontro de Marcela, e logo depois, seguindo com ela até a cozinha.

Tentou identificar qual era a música que estava tocando. Tinha quase certeza de que já a tinha escutado a voz da cantora em algum lugar, e, de certa forma, sabia quem era. Só não lembrava o nome da música em si. Ícaro se preparava para tirar o celular do bolso, quando alguém caiu no sofá ao lado dele, com as costas envergadas, a cabeça para fora do sofá, e as pernas para cima. Tinha uma expressão de cansaço, que sumiu imediatamente do seu rosto quando ele se virou para Ícaro, e perguntou:

— Como você chama?

Notas finais
Beijos de luz