War of Hearts
8 Capítulo 7 - Empty hopes
Notas iniciais
Lost in skies of powdered gold
Caught in clouds of silver ropes
Showered by the empty hopes
As I tumble down
Falling fast to the ground
I know I'll wither
So peel away the bark
'cause nothing
Grows when it is dark
In spite of all my fears
I can see it all so clear
I see it all so clear
Ooh, cover your crystal eyes
And feel the tones
That tremble down your spine
Ooh, cover your crystal eyes
And let your colors bleed
And blend with mine
(Of Monsters and Men — Crystals)
Felicity Smoak
Oliver Queen.
Ele era a razão para eu estar deitada de costas sobre a cama, e olhando fixamente para o teto branco acima de mim. Ele havia me dito que convenceu meu pai a abrandar as minhas correntes, quase como se eu estivesse em uma espécie de condicional. Mas só porque a minha prisão se estendia para além das paredes do quarto e ia até os muros daquela mansão, não significava que eu me sentia menos confinada. De qualquer forma, eu era grata por pelo menos não ter dois idiotas parados a porta do quarto, por poder sair e caminhar sem ter alguém me seguindo, ou me puxando rudemente pelo braço.
Mas apesar da minha recém-adquirida “liberdade”, aqui estava eu, ainda nesse quarto olhando estupidamente para o teto, enquanto meus pensamentos simplesmente não me davam uma folga de Oliver Queen.
Eu estava tentando juntar as peças daquele quebra-cabeça que o formavam, mas era simplesmente difícil demais. Tudo o que eu sabia era que ele havia salvado a vida de Anatoly, e que era chamado de Kapitain Queen por alguns, enquanto outros se limitavam a lhe lançar olhares hostis. Eu não sabia exatamente qual era o papel dele dentro dessa organização criminosa, mas eu deduzia que para fazer parte disso, no mínimo era necessário demonstrar sangue frio e tendência à crueldade. Eu nunca tinha visto Oliver fazer nada realmente ruim ou cruel, tirando é claro o fato de me sequestrar, mas desde o meu primeiro contato com ele, ele nunca encostou em mim de forma violenta ou me destratou, diferente de todas as outras pessoas aqui, ele sempre foi mais cuidadoso.
Mas havia Anne, saber que ele deu a ideia a Anatoly para puni-la tão friamente na minha frente, ainda era algo que me causava certos arrepios. Eu sei que ele havia feito isso para me proteger, para que eu não fosse aquela a sofrer da crueldade do meu pai, mas isso não mudava sordidez do ato. Embora, o fato de eu ter visto culpa em seus olhos, me dizia que ele ao menos, não sentia prazer em ver outro ser humano sofrer. Já era algo que o diferenciava e muito de Anatoly.
E havia ainda mais a se considerar, seus últimos atos me revelavam que eu estava certa em acreditar que havia muito mais por trás das geleiras de seus olhos azuis. Oliver me mostrou compaixão, ele até mesmo prometeu me tirar daqui. Eu não queria me iludir e criar falsas expectativas, mas o que isso me dizia sobre ele?
Ele não era alguém ruim.
Seria impossível ser e me tratar da forma que ele me tratava aqui. Quando ninguém hesitaria em me puxar bruscamente e me arrastar até meu pai, para que eu fosse punida por minha desobediência, ou talvez até visse isso como forma de marcar pontos com o líder. Mas não Oliver, ele veio por mim, me tirou da linha de frente e me ofereceu certa proteção, colocando a si mesmo em risco ao fazê-lo.
E tinha bilhete que eu havia encontrado no bolso de seu casaco. Observei o pedaço de papel amassado em minhas mãos, onde havia os dizeres “0808RED2300”, eu já sabia que hoje era dia nove de agosto. O bilhete poderia estar se referindo ao dia de ontem, que curiosamente tinha sido o dia que Anatoly havia sido quase pego graças a uma emboscada de um suposto traidor dentro da organização. Eu sabia que minhas suposições não eram muito críveis, mas quando eu pensava que havia a mesma mensagem no celular que encontrei escondido em seu quarto... Meu estômago se contraía diante da possibilidade que se formava em minha mente.
Oliver Queen era o traidor.
Oliver Queen armara para Anatoly na noite passada.
Eu não entendia o porquê dele estar fazendo isso. Se ele queria destruir Anatoly, por que ele ainda atendia as suas ordens? Por que me sequestrar e me trazer para cá? Por que salvar a vida dele? Isso era o que a parte racional do meu cérebro me dizia, enquanto a outra parte, a mesma parte responsável pelo frio que eu sentia no estômago, essa estava estranhamente satisfeita em encontrar vários motivos para que Oliver fosse o traidor. Ao menos assim, eu não me sentiria tão culpada por estar sendo envolvida tão facilmente por ele.
Oh, e se acordar entre seus braços esta manhã tinha servido de algo, foi mostrar o quanto Oliver me afetava. E eu nem ao menos estava pensando no óbvio. Ele era lindo, vê-lo sem camisa me fez hiperventilar, mas havia aquele cuidado inesperado, seus olhos que não mais tinham as geleiras de antes, mas apenas fogo que ardia em minha direção. Dormir e acordar sentindo o calor de sua pele, a carícia de suas mãos em meu corpo fizera parte de mim querê-lo desesperadamente. Tanto, que eu não fazia ideia de como lidar com isso, não ter controle dessa atração irracional que ele exercia sobre mim. Eu apenas tentava colocar um espaço entre nós, porque apesar de tudo o que Oliver despertava em mim, ele ainda trabalhava para o meu pai. Ele ainda tinha sido aquele que me tirou da casa da minha mãe e me sequestrou, trazendo-me para esse inferno.
Eu queria que ele fosse o traidor, eu queria desesperadamente acreditar que ele estava fazendo tudo isso por um motivo maior, eu queria simplesmente confiar no que ele me oferecia cegamente. Assim seria muito mais fácil aceitar todos aqueles sentimentos e sensações, e me permitir ter esperanças de que eu não estava sozinha, e que ainda havia uma chance de escapar. Mas se meu tempo presa aqui na Rússia havia me ensinado algo era a não confiar em ninguém que pudesse estar associado a Anatoly.
Nem mesmo Oliver, não importa o que meu coração dizia.
Levantei-me da cama, já ciente do que eu deveria fazer. Eu ia atrás de algumas respostas, mas para obtê-las eu teria que fazer algo que não estava nenhum pouco confortável em fazer: Eu teria que jogar aquele jogo.
***
As pessoas me lançavam olhares desconfiados em cada parte da casa pela qual eu passava, e eu percebi que minha aparente liberdade nada significava. Outra coisa que eu percebi, era que na noite da minha tentativa de fuga eu tive sorte que a maioria dos homens estivesse ocupada com o descarregamento dos caminhões, porque agora por cada corredor em que eu passava, havia pelo menos um par deles armados. Eu estaria muito mais segura trancada dentro do meu quarto do que aqui, recebendo olhares de homens que pelos simples fato de trabalharem para Anatoly eu já os julgava como sendo da pior espécie.
Mas eu não era garota de abaixar a cabeça ou me esconder, por isso continuei o meu caminho, sem me deixar ser intimidada pelos olhares. E depois de um tempo, percebi que eles passaram a desviar o olhar de mim, talvez tivessem percebido que eu não era uma garotinha facilmente amedrontável ou ainda houvesse certa vantagem em ser filha do líder de uma grande organização criminosa. Eles não podiam tocar em mim sem permissão.
Estatisticamente tinha que ter ao menos uma vantagem em ser filha de Anatoly.
Eu não sabia exatamente onde eu estava indo, eu apenas aproveitava isso para explorar um pouco o lugar, fazendo uma planta mental, minha mente analisando cada ponto de saída, mas quanto mais eu procurava, mais eu chegava a conclusão de que Oliver estava certo e aquilo era uma fortaleza. Eu só conseguia pensar em uma maneira de sair dali, e era num caixão. Considerando que Anatoly tinha uma prisão no seu porão, talvez até mesmos os corpos ele enterrasse no quintal.
Balancei a cabeça me livrando daquele pensamento ruim, mas nem um pouco improvável. Virei em um corredor, e estanquei quando quase bati de frente com uma garota.
— Anne! — exclamei, ao me dar conta de que ela estava ali. A garota olhou para mim, seus olhos se arregalaram e sua tez já clara empalideceu deixando-a quase translúcida, evidenciando ainda mais as marcas que Anatoly deixara em seu rosto, e que agora tinham adquirido um tom arroxeado.
— Senhorita Knyazev, precisa de algo? — perguntou fazendo-me revirar os olhos ao escutar o sobre nome que ela usara, a voz fina da garota soou trêmula e temerosa, e suspirei chateada. Era medo o que eu via em Anne quando ela olhava para mim, não medo de mim propriamente, mas de que de algum modo eu, novamente lhe causasse problemas com Anatoly. Deixei aquele gosto amargo descer por minha garganta. Então, essa era a sensação de se sentir culpada por algo?
— Eu sinto muito. — me desculpei sinceramente.
Eu sabia que essencialmente nada daquilo era minha culpa. Não tinha sido eu quem levantara a mão para ela, não tinha sido eu quem lhe desferia aqueles golpes. Mas ainda assim, a culpa era algo engraçado, ela me fazia rever meus atos e me questionar se eu tivesse agido de modo diferente tudo aquilo teria sido evitado.
— Com licença. — Anne abaixou os olhos e passou por mim, sem me dizer mais nada. E nem precisava, eu sabia que por sua postura ela estava se afastado, temendo que eu lhe causasse maiores problemas.
— Anne... — chamei. — Por favor, se houver algo que eu possa fazer... — ela lançou um olhar urgente para mim.
— Não faça nada! Não me meta em mais problemas com o seu pai, essa é a sua vida agora, apenas aceite e será muito mais fácil. — alertou -me antes de voltar a seguir seu caminho.
Suspirei, acreditando que aquele seria um caso perdido. Anne era diferente de mim, ela foi criada para aceitar os castigos e abaixar a sua cabeça. Qualquer vontade nela de se rebelar já havia sido há muito tempo anulada. Ela não precisava de uma gaiola para prendê-la, a própria mente dela havia sido educada para mantê-la atrás de grossas grades. Ela nunca saberia o que era liberdade, na verdade eu chegava a acreditar que Anne até mesmo a temesse.
Continuei a andar, pensando em tomar o caminho para o lado de fora. Seria bom ter uma visão mais completa, e que ia além do que eu conseguia ver pela janela do meu quarto. Porém, no instante em que me virei no corredor, escutei a voz de Anatoly e imediatamente senti cada músculo do meu corpo se contrair, a raiva queimava dentro de mim juntamente com tantos outros sentimentos ruins que até então eu desconhecia, mas desde o momento em que tive o desprazer de conhecer o meu pai, eu passei a senti-los intensamente.
— Ora, se não é minha adorável filha. — virei-me, ficando de frente para a figura imponente que tinha seus olhos escuros e frios sobre mim, analisando-me — Aproveitando um pouco da liberdade? — Ele sorriu, um tipo de sorriso que fazia qualquer pessoa em sã consciência se assustar.
— Eu só queria passear pelos jardins. — Se ele me tomava como uma tola eu iria fazer esse papel.
— Por que não passeamos juntos então? — embora a pergunta tenha soado como um pedido, era óbvio que não era um. Ele nunca me daria ao direito a ter escolhas, essa era a única certeza que eu tinha sobre Anatoly — Será bom dar uma volta com o seu pai. Eu estou ansiando por um momento para conversar com você. Não tivemos muito tempo para estreitar os laços de amor entre pai e filha. — ofereceu o braço como um perfeito cavalheiro.
— Claro — respondi, sentindo as palavras passarem contrariadas por minha garganta. Mas ignorando completamente seu braço, uma repulsa crescia em mim com a mera ideia de tocá-lo e simplesmente comecei a caminhar. Minha recusa não passou despercebida, e obviamente Anatoly não aceitou isso simplesmente. Ele puxou o meu braço com mais força do que o necessário, o colocando junto ao seu com uma mensagem clara de quem dava as ordens aqui.
— Sua mãe era exatamente como você. — ele disse tão logo nos vimos do lado de fora da mansão. — Com uma beleza estonteante e uma boca atrevida. Era desobediente, não acatava minhas ordens. Fui condescendente com ela também, dei-lhe um pouco de liberdade assim como estou dando a você...
— E ela fugiu, não é mesmo?
Era suposto que eu agisse como uma filha obediente, mas não consegui resistir ao impulso. Senti o aperto de sua mão em meu braço, era forte, poderoso e opressor.
— Um fato intrigante sobre mim, eu nunca cometo o mesmo erro duas vezes, Felicity. — avisou com uma voz controlada que parecia destoar de seu semblante pesado. — E sou implacável com aqueles que me desafiam. Eu espero que a memória de Anne ainda esteja fresca na sua mente, e que essa pequena liberdade que estou te concedendo não a faça acreditar que pode fazer o mesmo que sua mãe. — seu tom foi aos poucos perdendo o controle e soando cada vez mais como um rosnado — Eu posso ser uma pessoa realmente ruim, mas até o momento eu não fui menos do que bondoso com você.
— Você é acha que é bondade me sequestrar e obrigar a casar com Vladmir? —inqueri, sem me dar o trabalho de esconder o sarcasmo, me esquecendo de que estava pisando em terreno minado.
— Oh, não leve para o pessoal isso são apenas negócios. — deu de ombros sem oferecer mais explicações.
— E como eu me encaixo nisso? Você poderia oferecer ao seu amigo qualquer mulher que colaborasse, eu não entendo para quê se dar ao trabalho de me buscar nos Estados Unidos! É algum tipo de vingança?
— Vingança contra a sua mãe? Claro que não, Donna Smoak terá o que merece por ter me feito de tolo. — meu coração pesou ao escutar aquilo, e temi por ela — Eu só estou me aproveitando da única coisa boa que ela me deu.
Quem escutasse a última frase de Anatoly poderia se confundir e realmente acreditar que era algo que um pai amoroso dizia, mas estando ali tão perto dele e olhando em seus olhos tão escuros quanto carvão, era óbvio que ele pouco se importava comigo.
— Obrigada por me considerar algo bom. — sarcasmo dominou o meu tom.
— Diga-me Felicity, você sabe o que eu realmente faço? — franzi o cenho com sua pergunta, Anatoly parou a caminhada, soltou o meu braço e virou-se ficando de frente para mim. Seus olhos escuros e vazios fitavam-me com expectativa.
— É um criminoso. — respondi, e ele simplesmente gargalhou de uma forma que me deixou incomodada, ele estava debochando de mim.
— Oh, não poderia estar mais errada, querida. — negou, deixando-me momentaneamente confusa — Um moleque que rouba uma bolsa é um criminoso, um traficantezinho de esquina é um criminoso. Um empresário que sonega impostos é um criminoso. Basicamente todo mundo que vai contra a lei em algum momento é considerado um criminoso. Eu não sou como eles, eu sou muito maior do que isso. Eu sou aquele que administra o crime, que decide quem será roubado, que tipo de drogas serão colocadas nas ruas, quem vive ou morre. E quando alguém vai contra minhas ordens e tenta sair do meu controle, aí eu entro com a parte realmente divertida, eu os torturo até que eles compreendam que agiram mal ao me desafiarem, e no fim, quando finalmente eu destruo todas as esperanças, quando os reduzo a simplesmente um corpo inútil eu lhes concedo uma morte rápida. — sua voz era um misto de orgulho e ameaça, e sim eu me sentia ameaçada diante dele, embora não tenha desviado o meu olhar do dele.
— Então, quem é você? — ele apenas riu.
— Agora eu até entendo um pouco desse brilho selvagem em seu olhar, dessa crença de que pode tentar fugir ou ser mais esperta do que eu. Querida, eu não sou um reles criminoso, eu sou o líder da máfia russa. — Aquela era uma informação nova — Por anos, minha família gerenciou cada pedacinho do crime nesse país, infelizmente só tive você como herdeira. E cá entre nós, você está muito aquém das minhas expectativas.
— Eu posso dizer o mesmo sobre você. — refutei, erguendo o queixo.
— Mas eu ainda posso te dar um uso no meu império. — continuou, me ignorando, mas suas palavras tiveram o poder de enviar um arrepio frio por toda a minha espinha — Tradicionalmente as filhas mulheres só servem para fazer casamentos vantajosos, produzir herdeiros e unir duas máfias tornando-as uma só, muito maior e poderosa. Entende o quanto isso é importante para mim? O quanto a sua cooperação é necessária? O quanto estou feliz por ter você como minha moeda de troca?
— Entendo. — respondi mecanicamente, minha mente ainda presa no que ele dizia querer de mim, mais especificamente na parte de “produzir herdeiros” que me deixava enjoada. Mas ao menos finalmente eu tinha um panorama geral de como a minha situação ali era ruim.
Eu tinha uma ligeira impressão, que ainda que eu conseguisse fugir, Anatoly iria atrás de mim, nem que fosse para me ensinar uma lição.
— Fico feliz que esteja mais... Amistosa. — completou com o rosto retorcendo-se e formando um sorriso cínico — Espero que continue assim daqui a três dias. — Informou, e o brilho perverso em seus olhos dizia-me que eu não gostaria daquilo.
— O que vai acontecer em três dias? — perguntei mais desesperada do que deveria. Mas Anatoly não me respondeu, seu olhar tinha sido atraído para alguém que estava atrás de mim.
— Oliver. — Anatoly cumprimentou e eu fechei meus olhos ao me dar conta de quem se tratava — O carro está pronto?
— Da ser. — escutei a voz dele pronunciar num russo perfeito. Eu me negava a me virar, eu tinha medo de olhar em seus olhos e não ser capaz de esconder todas as coisas que eu pensava sobre ele.
— Cuide de tudo por aqui, e fique de olhos abertos para qualquer coisa que pareça suspeito, eu não quero que o episódio de ontem na praça vermelha se repita.
Algo estalou na minha mente ao escutar aquilo, meu cérebro fazia uma conexão, mas tão breve quanto veio aquilo se foi. Escutei Oliver assentir, e então Anatoly começou a caminhar saindo da minha visão, virei-me indo até ele, ele não iria me deixar sem respostas. Percebi o olhar alarmado de Oliver em mim no instante em que toquei o braço de Anatoly.
— Espere... O que vai acontecer em três dias? — repeti a pergunta, mesmo sabendo que minha impertinência não seria vista com bom olhos. Anatoly virou o rosto para mim, novamente o sorriso cínico pendia em seus lábios.
— É a sua festa de noivado, minha querida. — percebi o prazer sádico em suas palavras, ele gostava de me atormentar — E dessa vez, tente sorrir mais. Ela tem um sorriso encantador, não é verdade Oliver?
Ele não respondeu. Olhei para Oliver, mas ele apenas desviou o olhar do meu. Não antes que eu pudesse notar que geleiras haviam retornado para lá. Sua postura era rígida e o rosto inexpressivo, contrastando com o Oliver com o qual eu havia acordado esta manhã. Como ele conseguia isso? Parecer ser duas pessoas completamente diferentes?
— A acompanhe para dentro, é provável que eu receba algumas mercadorias e não a quero andando pelo lado de fora, atrapalhando os meus homens. Conto com você para controlar tudo aqui. — Anatoly deu a ordem e depois partiu, senti as mãos de Oliver em minhas costas me guiando para dentro novamente, ele não me olhava, não falava comigo, mas de alguma forma eu era capaz de sentir que ele estava tenso e irritado.
— Você é como um maldito furacão, destruindo tudo o que eu tento fazer! —Desabafou tão logo estávamos de volta em meu quarto, ele fechou a porta e ficou de frente para mim. — Tinha que ser tão impertinente com Anatoly? Espero que ele apenas esqueça isso e não revogue a sua liberdade.
— Eu precisava de algumas respostas! — me defendi. — E poder andar pela mansão, sob os olhos dos homens de Anatoly não é exatamente o que eu chamo de liberdade, Oliver!
— Eu sei, mas ao menos significa a ausência de dois brutamontes na porta de seu quarto, eu posso vir aqui sem riscos de ser pego por eles.
Hum... Oliver queria vir ao meu quarto escondido? Sim, foi apenas nessa parte que minha mente se concentrou.
— Eu sinto muito, ok? — me desculpei — Mas é difícil para mim me controlar, ainda mais depois das coisas que Anatoly me disse.
— Eu sei. — ele concordou, respirando fundo e parecendo muito mais calmo dessa vez.
— Seria muito mais fácil se quando eu olhasse para você eu não visse o soldado perfeito de Anatoly.
— Como? — suas sobrancelhas se uniram, mostrando confusão.
— Você muda quando está ao lado dele, seus olhos ficam frios. E eu começo a me questionar, se tudo o que você disse para mim sobre me ajudar a sair daqui é verdadeiro, se você está brincando comigo ou que talvez você sofra de um transtorno grave de personalidade. — expliquei, deixando Oliver pensativo por um tempo.
— Eu vou agir diferente quando não estivermos a sós, talvez eu até tenha que tomar algumas atitudes que te contrariem ou assustem. Mas você precisa aprender a lidar com isso. — por algum motivo suas palavras me incomodaram — Eu não posso me dar ao luxo de jogar tudo para o alto e perder o controle só porque estou perto de você, Felicity. Tentar tirar você daqui é arriscado, um passo em falso e colocamos tudo a perder.
Suas palavras deixaram-me confusa, e um sentimento de frustração tomou conta de mim.
— Então, o que propõe que eu faça? Fique sentada em minha cama apenas esperando que você me tire daqui? Devo confiar em você cegamente? — refutei sem perceber que havia me aproximado, estávamos tão perto agora que eu conseguia distinguir os vários tons de azuis na íris dos olhos dele.
— Printsessa — murmurou meu apelido de uma forma doce, enquanto uma de suas mãos acariciou levemente meu rosto. Senti vontade de me inclinar sobre sua mão e receber mais daquele toque quente, mas não o fiz — Eu sei que nosso posso pedir sua confiança, não depois de ter feito o que fiz. Mas ainda assim, Felicity, tente confiar em mim, eu sou a sua melhor chance de sair desse lugar.
Eu apenas acenei com a cabeça e um pequeno sorriso satisfeito apareceu no rosto de Oliver, ficamos assim nos encarávamos por um tempo longo demais, nossos olhares desejando dizer as coisas que nossas bocas não tinham coragem de falar. Pensei que ele fosse puxar meu rosto em sua direção e me beijar, mas ao invés disso ele deu passos para trás se afastando enquanto meneava a cabeça.
— Oliver...
— Eu preciso ir, estar com você é perigoso demais para mim. — anunciou partido com rapidez.
Eu fiquei ali repetindo a frase final de Oliver em minha mente “estar com você é perigoso demais para mim” e pensando na ambiguidade que suas palavras tinham.
***
Não tornei a ver Oliver durante os três dias seguintes.
E Deus sabe o quanto eu precisava vê-lo, estava prestes a surtar com aquela palhaçada de noivado. Eu estava em meu quarto, observando o vestido vermelho, longo e sexy que Anne havia deixado sobre a cama. Ela havia arrumado o meu cabelo e me maquiado no mais completo silêncio, seu rosto ainda evidenciava a brutalidade de Anatoly, mas as marcas estavam mais suaves agora. Ela recusou todas as minhas tentativas de tentar conversar ou me desculpar, e por fim eu desisti e a deixei trabalhar em silêncio.
Vesti o vestido que Anatoly havia escolhido para mim, não podia negar que era lindo, porém sensual demais para mim. Era um tomara que caia com uma fenda lateral que ia até pouco acima do meio das coxas. Anatoly, como um bom pai que se preze, me buscou em meu quarto levando-me até o salão de festas. Surpreendi-me, eu não pensei que mafiosos tivessem tantos amigos, mas o lugar estava cheio principalmente com homens acompanhados por belas mulheres. Estava bem decorado também e com direito a garçons elegantemente vestidos, caminhando pelo salão servindo canapés taças de champanhes.
Até parecia uma festa de noivado real.
A maior parte daquela festa passou por mim como um borrão. Limitei-me a ficar calada e a procurar por Oliver entre os convidados, e ficando ainda mais frustrada e irritada toda vez que não o encontrava. O anúncio do noivado foi feito e agora eu ostentava um gigantesco anel de brilhantes em meu dedo anelar esquerdo. Eu estava me esforçando muito para jogar conforme o jogo, mas era difícil com o bafo de charuto de Vladmir respirando mais próximo de mim do que eu gostaria.
Em um determinado momento eu fui arrastada para o meio da pista de dança e forçada a dançar com o meu “noivo”, foi uma dança longa e tortuosa. Tentei-me manter o mais longe possível desse homem e retirar suas mãos de mim sem fazer uma cena, já que o olhar de Anatoly não me deixou nem mesmo por um segundo. Meu amado pai teve até mesmo a audácia de pedir que eu sorrisse e ao menos fingisse estar feliz. Seria suicídio fazer uma cena ali, no meio de tantas pessoas, por isso eu apenas sorri falsamente, eu não sabia que tinha tanto autocontrole, por fim encontrei um meio de canalizar toda a minha raiva: Pisando com meus saltos nos pés de Vladmir.
— Suka!
— Eu sinto muito, eu tenho dois pés esquerdos. — me desculpei, num tom exageradamente ingênuo, pela quinta e no fim Vladmir se irritou soltando uma profusão de palavrões em russo, desistindo de levar adiante aquela estupidez de dança.
Fechei meus olhos e respirei fundo, agradecendo por estar livre de sua presença desagradável, de seu cheiro enjoativo e de seu toque repulsivo. Dei uma olhada por cima dos meus ombros e vi Vladmir conversar com outro homem enquanto acendia um novo charuto, Anatoly parecia ocupado demais para prestar atenção em mim. Pensei em aproveitar que ambos estavam distraídos para escapar por um momento, talvez voltar ao meu quarto, eu só queria apenas não ter que ficar aqui. Virei-me abruptamente em minha ânsia de escapar dali, batendo diretamente no corpo de alguém.
— Oliver... — sussurrei seu nome com certo alívio, assim que ergui meus olhos e me vi de frente para ele. Nossos olhos se encontraram e sua boca se abriu para me dizer algo, mas sua atenção se desviou para um lugar atrás de mim.
— Seu noivo está requisitando a sua presença. — ele disse friamente enquanto olhava por cima do meu ombro, deu-me as costas e se afastou desaparecendo no meio de tantas pessoas.
Eu entendia sua atitude até certo ponto, mas seria pedir muito que ele ao menos ficasse por perto? Eu já estava cercada de pessoas da pior espécie, eu queria ao menos Oliver por perto para deixar tudo um pouco mais tolerável.
Olhei para Vladmir que requisitava a minha presença e lancei a ele o meu maior sorriso, peguei uma taça de vinho tinto de um dos garçons que passava por mim, fingi tropeçar nos meus próprios pés, e derramei com muito prazer o vinho sobre ele, manchando de vermelho sua camisa branca.
— Oh, me desculpe Vladmir! Eu sou tão desastrada. — eu disse, forçando-me novamente a me fazer de uma garota tola e desastrada. Mas dessa vez ele não comprou, acho que o sorriso que antecedeu a minha pequena cena havia me entregado. Vladmir se colocou a minha frente, seu corpo grande e imponente numa postura ameaçadora, sua mão forte se prendeu em meu pulso com força me restringindo.
— Eu sei o que está fazendo. — rosnou para mim — Cuidarei de seus modos selvagens, e dessa rebeldia uma vez que estejamos casados. Com sorte quem sabe até mesmo antes disso? — Apertou meu pulso um pouco mais dando ênfase a aquela ameaça e então finalmente o soltou, se afastando. Aproveitei a ausência de Anatoly e segui para o lado oposto de Vladmir, enquanto acariciava o meu pulso dolorido.
***
Tirei o maldito anel do meu dedo o colocando sobre a pia e deixei um pouco de água fria correr pelo pulso que ainda doía. Quando percebi que aquilo em nada melhorava, apenas apoiei minhas mãos sobre a bancada da pia e encarei meu reflexo no espelho do banheiro, eu odiava isso, eu odiava ter que fingir algo que eu não era, ter que me suprimir. Eu não aguentaria mais dessa tortura por muito tempo, eu estava sentindo saudades de estar trancada em meu quarto e não ter que olhar para a cara asquerosa de Vladmir, ou tentar mil firulas para me desviar de suas mãos nojentas que estavam sempre tentando encontrar uma forma inconveniente de me tocar.
Fechei meus olhos e suspirei profundamente, eu estava numa bela encrenca.
— Por que fez aquilo? — abri meus olhos assim que escutei a voz conhecida, vi pelo reflexo do espelho que era Oliver quem entrara e que ele trancara a porta atrás de si. Agora seus olhos queimavam sobre mim.
— O que? Derrubar vinho no Vladmir? Foi apenas um acidente... — fiz-me de inocente, eu não estava a fim de escutar reclamações de Oliver por eu não conseguir controlar o meu gênio ruim e apenas jogar aquele maldito jogo.
— Dançar com ele. — sua resposta me pegou desprevenida.
Virei-me de frente para Oliver e apoiei minhas mãos no encosto da pia. Eu devo ter me acostumado com geleiras nos olhos de Oliver, só assim para justificar a surpresa que senti ao vê-los expressar uma emoção tão diferente, tão viva que fazia suas íris azuis flamejarem como fogo na minha direção. Isso somado a respiração alterada e que saía em lufadas rápidas, me deu uma perspectiva do que Oliver sentia.
Era algo primitivo, possessivo e muito parecido com ciúmes. Perceber isso me deixou irritada. Primeiro, porque era estupidez sentir isso de Vladimir, alguém que eu não nutria nada menos do que aversão. E segundo, Oliver não tinha direito algum de se sentir assim, não tinha sido ele que me convencera a bancar a filha obediente?
— Não disse que eu deveria jogar conforme o jogo? — revidei sem fazer questão alguma de esconder a minha irritação — Aparentemente o jogo requer uma dança, com um verme asqueroso que por sinal é meu noivo. O que mais eu posso fazer? Eu não posso gritar a plenos pulmões no meio de um salão cheio dos mais variados tipos de criminosos para que Vladmir tire as suas mãos nojentas de cima de mim! Nem posso deixar a festa alegando que não estou me sentindo bem, porque obviamente ninguém aqui dá a mínima para o meu bem estar.
— Felicity, eu...
Oliver não completou a frase, mas pelo seu olhar eu diria que ele estava parecendo preocupado com meu pequeno surto, e com razão, podíamos estar trancados no banheiro, mas não estava sendo exatamente silenciosa. Parei por um momento e respirei fundo antes de continuar, mais controlada.
— Então Oliver, considerando que foi você quem me convenceu a fazer o papel de filha submissa e jogar esse jogo, o que mais eu poderia fazer?
— Eu não sei! — exclamou se aproximando mais — Apenas não deveria ter...
Arqueei minhas sobrancelhas ao perceber que o começo de sua sentença implicava que eu havia feito algo errado.
— O quê? O quê eu não deveria ter feito? Esclareça-me. Elenque cada um dos meus erros. — requeri, sem o mínimo de paciência com Oliver.
— Não deveria tê-lo deixado tocá-la! — declarou exasperado dando um passo mais a frente e invadindo completamente meu espaço pessoal, eu levei um choque com sua atitude. — Porque eu não posso lidar com isso, eu não posso conter a fúria que sinto ao ver aquele homem com suas mãos imundas tocando o seu corpo. — eu estava muda, completamente estática diante do que Oliver assumia. Havia algo entre nós, eu sempre soube que havia, era mais do que simples atração, era uma necessidade de estar perto, de querer cuidar, mas ele nunca tinha sido tão direto sobre isso antes.
— O que você quer de mim, Oliver?
— Eu quero tocá-la! Porque são meus braços que deveriam segurá-la dessa forma e puxá-la para mim. — uma de suas mãos puxou a minha cintura levando-me para ele fazendo nossos corpos se uniram tanto quanto era possível, engoli em seco ao senti-lo — São meus dedos que deveriam deslizar por sua pele delicada. — disse com suavidade enquanto realizava a carícia em minha face.
— Eu estou noiva. — o lembrei, apenas.
— Você sabe que é uma mentira. Sabe que eu não permitirei que isso chegue tão longe. — sua voz estava rouca, seus olhos fitavam meus lábios parecendo famintos por eles.
— Não permitirá? — repeti, e me surpreendi no instante em que ambas as suas mãos se colocaram ao redor da minha cintura e me suspenderam, sentando-me sobre a bancada da pia. Oliver tomava seu lugar no meio de minhas pernas, uma de suas mãos havia encontrado a fenda do vestido e agora ele acariciava minha coxa direita sem nenhuma barreira.
— Não.
— Oliver... O que está fazendo? — minha pergunta saiu abafada e descontrolada, estar perto de Oliver, sentir seu perfume, o seu toque quente e saber o que ele queria de mim deixava-me tonta.
— Aparentemente estou fazendo o que especificamente disse que não faria. — pisquei, confusa — Estou jogando tudo para o alto e perdendo todo o controle, printsessa.
Não pude fazer uma objeção contra aquilo, tampouco eu queria. No instante seguinte a boca de Oliver se aproximou da minha, e eu me inclinei em sua direção ansiosa demais por seu sentir seu beijo. Sua língua traçou lentamente a linha do meu lábio inferior fazendo-me suspirar audivelmente e agarrar Oliver pela lapela de seu paletó, tentando forçá-lo a me dar mais do quê isso, mas ele ainda parecia ainda parecia indeciso.
— Por favor, Oliver... — me vi implorando, e isso foi a válvula de escape para que Oliver tomasse minha boca na sua de modo feroz e urgente.
Sua língua deslizava sobre a minha provando o meu gosto com verdadeira luxúria, suas mãos apertavam-se ao redor das minhas coxas enquanto ele puxava meu corpo ainda mais para si, num encaixe tão perfeito que me fez gemer contra seus lábios, fazendo Oliver aprofundar ainda mais aquele beijo.
Eu não me importava se do lado de fora daquele banheiro havia perigosos membros da máfia Rússia, que poderiam nos matar se nos flagrassem. Eu não me importava com nada, apenas enlacei minhas mãos ao redor de seu pescoço desejando que aquele beijo nunca acabasse, tudo o que eu queria era jogar tudo para o alto e perder o controle com Oliver.
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