War of Hearts
9 Capítulo 8 - I don't deserve you
Notas iniciais
You're the first face that I see
And the last thing I think about
You're the reason that I'm alive
You're what I can't live without
You're what I can't live without
You never give up
When I'm falling apart
Your arms are always open wide
And you're quick to forgive
When I make a mistake
You love me in the blink of an eye
I don't deserve your love
But you give it to me anyway
Can't get enough
You're everything I need
And when I walk away
Take off running and come right after me
It's what you do
And I don't deserve you
(Don't Deserve You — Plumb)
Oliver Queen
Eu finalmente tinha Felicity onde eu queria.
Em meus braços, meu corpo comprimindo o dela, tanto quanto era possível. Seu corpo respondendo efusivamente a cada mínima carícia minha. Eu venho reprimindo isso, eu venho me negando a querer isso. Mas com ela em meus braços, quando finalmente posso provar do seu beijo mais uma vez, quando finalmente posso me dar ao luxo de escorregar minhas mãos por cada parte dela, eu simplesmente me esqueço de todos os motivos para mantê-la afastada.
Eu não sei se sou capaz de parar agora.
Eu a quero, aqui e agora.
“É perigoso” escutei minha consciência reprovar e eu a ignorei contente. Quando se tratava de Felicity já havia se tornado um hábito mandar meus pensamentos de cautela e censura para um lugar inóspito da minha mente, simplesmente porque por mais que eu tentasse me controlar quando estava perto dela, era quase impossível. Ela trazia a tona aquela parte de mim que eu cuidadosamente escondia. Ela via além da minha máscara.
Afastei meus lábios de sua boca, eu estava ansioso, sedento por provar mais dela, sentir tudo dela, que minha boca seguia o caminho até seu pescoço, onde passei a sugar a sua pele alva com vontade. Havia algo em mim, um desejo primitivo de marcá-la como minha, mesmo sabendo que ela não era. Eu sentia a respiração de Felicity quente e ofegante em meu ouvido, os gemidos abafados que cada vez ela conseguia segurar menos. Prendi a pele entre meus dentes e a escutei soltar um pequeno grito de dor, seguido de um languido suspiro de puro deleite quando amenizei a dor no local tocando com a língua.
Escutá-la gemer para mim, ter seu corpo me correspondendo, parecendo igualmente desejoso ao meu, me estimulou a não parar, a continuar tomando dela tudo o que eu queria. Voltei aos seus lábios, beijando-a com todo aquele fervor e sentimentos reprimidos, com toda a vontade que há tempos eu vinha me negado.
E para a minha surpresa Felicity continuava a me corresponder. Continuava a mover sua língua em sincronia com a minha, continuava a me puxar pela lapela do paletó para mais perto, aprofundando o beijo e parecendo tão insaciável quanto eu. Ela moveu seus dedos por entre nós descendo mais para baixo, circundando a área do cós da minha calça, puxou minha camisa para fora e desabotoou alguns botões as pressas, logo senti sua mão deslizando por meu abdômen buscando por um contato que não estivesse obstruído pela barreira das roupas.
Agarrei com mais força a sua coxa nua e subi a mão pela pele delicada com certa rudez, escutei um barulho de algo sendo rasgado, mas apenas continuei. Era fácil ignorar o que acontecia ao redor de nós quando eu a tinha em meus braços, quando ela não corria de mim, mas sim para mim. Subi ainda mais a mão, encontrando o tecido fino da calcinha que parecia ser feita de renda, Felicity estremeceu e arfou contra meus lábios ao sentir o meu toque sutil. Eu deveria parar, eu estava condenando a nós dois se seguisse em frente.
Afastei minimamente de seus lábios, tentando encontrar um pouco de sensatez. Mas Felicity estava decidida a me atormentar, seus dentes se prenderam na carne do meu lábio inferior, puxando-me para ela, exigindo que eu continuasse. Aquilo era o pior dos tormentos, querê-la da forma que eu queria, saber que de alguma forma ela correspondia aos meus desejos, e o quanto toda a nossa situação aqui estava fodida. Sem perceber sussurrei contra seus lábios minha frustração, ela abriu seus olhos, arregalando-os para mim em clara surpresa.
— O que disse? — sua voz soou curiosa e havia um brilho de excitação em seus olhos, quase sorrir ao ver aquilo. Ela parecia gostar de quando eu falava em russo.
— Eu não sou capaz de parar, printsessa, me obrigue a parar, me afaste de você. — supliquei, enquanto ainda brincava com o elástico da calcinha em meus dedos.
— Não. — ela disse resoluta.
Merda. Ela sequer piscou em sua resposta.
— Printsessa... — chamei num tom condescendente tentando fazê-la ceder, ela tinha que ser a racional entre nós dois. Eu precisava que ela se afastasse, que ela colocasse uma barreira entre nós, porque eu estava envolvido demais para fazê-lo.
— Não. — repetiu teimosamente.
Suas mãos colocaram-se ao redor do meu pescoço e ela novamente puxou-me para si, comprimindo nossos lábios, fazendo-os se perderem no prazer que era estar cheio um do outro.
Uma única palavra e ela me desarmava. Um único toque e ela me rendia. Era o inferno na terra. Ou o paraíso, considerando o que estar com Felicity me fazia sentir. O inferno viria logo depois. Queimando sobre nós dois se eu continuasse incapaz de me afastar. Mas eu não seria capaz de me afastar, talvez nem mesmo se Felicity me obrigasse a isso.
Eu precisava dela.
Minha mão, que não estava ocupada demais brincando com o elástico da sua calcinha, subiu pela frente do vestido acariciando seus seios por cima do tecido, perdi um tempo procurando pelo zíper, estava quase desistindo e rasgando aquele vestido tamanho era meu desespero, até que senti a mão de Felicity me guiando até ele. O maldito ficava escondido na lateral. Deslizei o zíper e puxei o tecido para baixo, revelando seus seios. Eles eram do tamanho perfeito para minhas mãos.
— São tão lindos. — admirei, não resistindo a vontade de apertá-los em minhas mãos. Ela não segurou seus gemidos enquanto eu a tocava, ao contrário eles se tornaram ainda mais audíveis quando resolvi prová-los com minha boca.
— Felicity Knyazev! — A voz dura de Anatoly juntamente com batidas brutas contra a porta me fez recuar imediatamente, dei passos para longe de Felicity — Abra a porta ou eu a derrubarei. — continuou naquele tom autoritário e decidido que eu conhecia tão bem.
— Eu... —ela olhou para mim atordoada e então pulou da bancada. — Já estou saindo.
Felicity tentava-se recompor, puxou o zíper do vestido enquanto eu tentava manter minhas mãos longe dela, que era tudo o que eu podia fazer para não garantir nenhum estrago maior. Eu havia perdido o controle, eu havia exposto a nós dois. Olhei para o seu semblante: bochechas coradas, lábios inchados, havia uma marca perfeita de meus dentes brilhando em seu pescoço, em minha ânsia por ela eu até mesmo havia rasgado o seu vestido, fazendo-o a abertura que antes ia até o meio das coxas subir muito mais.
— Não estou com paciência, Felicity. — Anatoly rugiu novamente atrás da porta.
Felicity olhou para mim, seus olhos fazendo tantas perguntas, as quais eu não queria dar uma resposta. Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo cobrindo a bela marca que lhe dei e então abriu a porta, enquanto eu me mantive encostado a parede atrás da mesma.
— Oh, pelo amor de Deus! Será que eu sequer posso usar o banheiro em paz? O que acharam? Que eu iria fugir pela janela minúscula? — respondeu ao pai, eu a teria repreendido por tratá-lo assim, com tanta insolência, quando ela já era ciente de que ele não admitia esse tipo de comportamento.
— Você sumiu por um tempo longo demais, o que estava fazendo no banheiro? — Eu conseguia detectar o timbre cheio de suspeitas em Anatoly. Felicity havia fechado a porta atrás de si, mas nada o impediria de abri-la apenas para checar o lugar. Se ele o fizesse, eu seria um homem morto e Felicity condenada a Vladmir.
— Meu vestido. Eu tropecei e ele rasgou, eu estava apenas tentando consertá-lo. —sorri ao perceber que Felicity tinha sido inteligente o suficiente para cobrir os rastros dos meus atos impulsivos.
— Eu não tenho paciência para esses dramas femininos. — Anatoly reclamou impaciente — Venha comigo, eu a levarei até seu quarto para que vista outro, não tente se afastar de Vladmir novamente, em breve ele será seu dono, não há sentido em continuar a brincar de gato e rato.
Senti a fúria correr em minhas veias, a forma como Anatoly tratou a própria filha, como uma mercadoria, dizendo que Vladmir seria seu proprietário. Aquilo não estava certo. Fazia-me doente e ainda mais desesperado para tirá-la dessa vida.
Eu não escutei mais nada depois disso, provavelmente Anatoly a havia arrastado dali. Eu me mantive preso aquela parede sentindo cada parte de mim aos poucos absorver tudo o que tinha acontecido. Eu havia perdido o controle, eu havia agido conforme meus desejos, eu fui egoísta e isso quase tinha sido a nossa ruína. Por mais que eu quisesse Felicity para mim, nesse momento eu precisava focar apenas em um modo de mantê-la a salvo da ira de Anatoly, e com sorte privá-la do destino que a esperava. Não era o momento de pensar no que eu queria, nos meus desejos.
Deixei o banheiro após alguns momentos, eu precisava me recompor também. Estar com Felicity era algo que sempre me confundia, me deixava diferente. Ela tornava mais difícil retornar ao personagem do capitão Bratva, que eu deveria orgulhosamente ostentar em meio as pessoas presentes aqui hoje. Ela me fazia ser apenas Oliver Queen.
Ela era meu calcanhar de Aquiles.
Caminhei pela festa por entre os convidados, tentando parecer impassível e desinteressado, quando na verdade tudo o que eu fazia era buscar por um sinal de Felicity. Ao não encontrá-la temi que Anatoly pudesse ter feito algo, puni-la por seu jeito insolente com ele. Mas não, ele não a machucaria enquanto estivesse acontecendo uma festa de noivado aqui. Ele queria uma exibição, era para isso que essa festa servia. Para mostrar a união dos dois grupos mais poderosos da máfia russa, eles queriam intimidar, mostrar aos outros criminosos a quem eles deviam obediência e respeito.
Tentei relaxar um pouco, a qualquer momento Felicity retornaria e eu manteria meu olhar sobre ela, garantiria de longe que ela estava bem, com sorte toda essa encenação acabaria logo e poderíamos nos concentrar em coisas mais importantes. Poucos minutos depois ela descia as escadas acompanhada de Anatoly, trajava outro vestido, desta vez era preto e que se agarrava a cada curva do seu corpo de uma forma que deixava muito pouco para imaginação. Senti uma vontade de ir até ela, de enlaçá-la pela cintura e mantê-la o tempo todo ao meu lado, longe de todos aqueles olhares dos abutres que estavam loucos por arrancar um pedaço dela, mas eu simplesmente não podia.
Por um milésimo de segundo, o olhar dela encontrou o meu, e ela se atreveu a erguer os cantos dos lábios num sorriso sedutor e misterioso para os outros, mas não para mim. Seu sorriso me dizia que talvez Felicity quisesse o mesmo que eu.
Seu sorriso fazia tudo dentro de mim mudar.
Me distraí por sua imagem tão bela até que uma conversa atrás de mim chamou a minha atenção.
— Quem diria que Anatoly teria uma filha tão deliciosa. — contive a vontade de me virar naquela direção, mas não seria prudente mostrar que eu estava atento. — Tens muita sorte, Vladmir, uma coisinha dessas, tão jovial e sexy é quase uma raridade. — congratulou.
— Algo de bom teria que vir dessa união com Anatoly, não é mesmo? — Vladmir riu roucamente — A garota vai me proporcionar uma boa dose de diversão, pelo menos até que eu me canse e ela se torne algo descartável. — trinquei os dentes e cerrei as mãos em punhos contendo a raiva que eu sentia desse homem — Na verdade eu tenho pensando muito nisso nessa noite. — Seu tom malicioso me dizia que ele tinha planos e que eu iria detestá-los.
— O que tem em mente? — o homem ao seu lado questionou.
— Eu apenas subornei um empregado de Anatoly, eles não são tão fieis quanto ele pensa. E agora tenho em minhas mãos a chave do quarto da garota! —tilintou as chaves na mão com certo orgulho. — Hoje a noite eu vou ensinar uma lição àquela pequena insubordinada, ela vai aprender que não deve me irritar. Talvez uma única vez comigo retire aquele ar petulante do seu rosto e a ensine ser mais obediente. — Ele continuava a rir ruidosamente juntamente com o amigo.
— Não há perigo dos homens de Anatoly te pegarem?
— Oh não, parece que o acesso ao quarto dela é livre, sem guardas ou algo do tipo. Parece que o papai Anatoly deu a filha certa liberdade. — respondeu satisfeito.
Me senti um pedaço de merda. Eu havia conseguido que Anatoly retirasse a guarda de cima de Felicity, e agora isso a deixava completamente vulnerável. Meu coração acelerou dentro do peito, o ódio me consumindo. Quase me virei, quase girei meu punho na cara dele. Só não o fiz porque naquele momento senti o toque de Anatoly em meu ombro.
— Oliver. — sua voz me chamando forçou-me a tentar conter a fúria.
— Ser. — respondi, pigarreando logo em seguida tentando esconder o quanto eu ainda estava fora de mim.
— Eu preciso que fique de olho em Felicity. — informou.
Meus olhos imediatamente foram para ela que estava atrás do pai, presa no aperto forte da mão de Anatoly ao redor de seu pulso. Eu queria soltá-la, eu queria obrigá-lo a tratá-la com o mínimo de suavidade, mas eu não podia. E a porra da minha impotência diante daquela situação, mandava o inferno para fora de mim.
— Por quê? — Me vi o questionando, suas sobrancelhas se uniram me analisando curiosamente. Eu raramente o questionava, simplesmente seguia suas ordens, mas apenas ter Felicity ali, já me fazia agir diferente.
— Preciso acertar algumas coisas com Vladmir e não quero me preocupar se a minha adorável filha está derrubando vinho em pessoas importantes, ou apenas fugindo da própria festa de noivado. E claro preciso mantê-la em segurança, há muitos aqui que não estão contentes com meus planos de casá-la. — assenti escutando sua explicação, embora não concordasse com nada daquilo.
— Mas acha seguro mantê-la perto de Vladmir? — a pergunta saiu antes que eu pudesse detê-la.
Eu ainda estava com os planos de Vladmir rodando em minha cabeça, ele iria até o quarto de Felicity, ele tinha a chave e a mera ideia de vê-la completamente indefesa e sujeita aquele homem não me deixava ser racional.
— O que quer dizer com isso, Oliver? — seu tom foi duro, ele se aproximou impondo sua presença. Eu via em seus olhos escuros que ele não estava contente com minha confrontação.
— Apenas que Vladmir é um criminoso vil, e ainda assim você a deixa sozinha com ele. — soltei.
— Isso soou quase como ciúmes Oliver. — seus olhos sequer piscaram enquanto ele fazia uma análise profunda em meu rosto. Contive-me e me esforcei para controlar todas as emoções que se agitavam em mim — Ele é o noivo, em breve ela terá que obedecê-lo, é melhor que comece a se acostumar. — assenti com a cabeça, forçando os meus músculos a realizarem uma ação contrária ao que eu pensava.
— Eu apenas não acho que ele é confiável, quem garante que ele não irá fazer algo a sua filha?
— Estou começando a preocupar com esse seu apreço à ela. — comentou interessando.
Eu havia cometido alguns deslizes, pequenos, porém suficientes para fazer Anatoly suspeitar do meu comportamento atípico. Eu precisava encontrar foco, voltar a ser o Capitão Bratva.
— Não é a ela o meu apreço, sabe que não me importo com garotinhas. — contornei a situação, cuspindo as palavras e lançando à Felicity um olhar rápido, ríspido e repleto de desprezo. Não demorei mais do que meio segundo naquilo, eu sabia que não era capaz de sustentar um olhar assim à ela por um tempo mais logo, ao menos meu aparente desprezo foi notado por Anatoly — É com a organização que me preocupo. Até onde sabemos Vladmir pode estar tramando contra você. Eu apenas não gosto de ter inimigos aqui dentro, debaixo do nosso teto, conspirando contra nós. Nós somos Bratvas, não oferecemos festas a eles, nós apenas esmagamos o inimigo. — falei sério, e Anatoly riu audivelmente, eu sentia o olhar de Felicity cravado em mim, mas eu não iria olhá-la e arriscar que ela me desfizesse com um simples olhar.
— Não se preocupe. — deu tapas amigáveis em meu ombro ainda sorridente — Eu lidarei com ele, apenas mantenha os olhos em minha filha e se ela tentar escapar não se reprima e use a força. Eu sei Oliver, ninguém gosta do serviço de babá, mas eu confio em você.
Assenti aceitando a ordem, embora tenha forçado um descontentamento com aquilo. Esperei que Anatoly se afastasse e levasse Vladmir consigo, quando ele não estava mais olhando, segurei Felicity delicadamente pelo braço e a afastei um pouco da multidão.
— Você não deveria ficar tão perto de mim. — ela reclamou, seu tom soando irritado e até mesmo um pouco afetado.
— Quer que eu me afaste? — perguntei num tom baixo, estranhando sua atitude.
— Estou lhe fazendo um favor, você não parecia particularmente contente com a ordem de cuidar da garotinha do Anatoly. — devolveu num tom ácido.
— Você sabe que eu não quis dizer aquilo realmente. — expliquei vagamente enquanto evitava olhá-la, precisava manter-me atento.
— Você foi bem convincente. — Ela estava magoada, embora tentasse fingir que não estava.
— Printsessa, eu tenho que ser convincente. É meu trabalho. — senti uma necessidade urgente de me explicar um pouco melhor — Mas se quiser eu posso me afastar um pouco. — Eu não queria me afastar, na verdade eu queria estar ainda mais perto dela.
— Não, claro que não. — se apressou em dizer — Apenas... — Ela deu um suspiro audível.
— Apenas... — encorajei.
— Nós temos que conversar sobre...
— Não aqui, e definitivamente não agora. — a interrompi tentando-me manter atento a tudo o que acontecia ao nosso redor.
Havia duas razões para que não falássemos sobre o que havia acontecido no banheiro. A primeira era que estávamos cercados por pessoas da máfia, não importa o quão discreto fôssemos, sempre havia um risco de sermos ouvidos. E segundo, eu não queria pensar nos momentos quentes que dividimos naquele banheiro, ou eu seria incapaz de manter a máscara fria de Capitão Bratva.
— Há alguma coisa errada? — ela perguntou, tentando ler meu rosto que eu mantinha voltado para frente, longe dos seus belos e hipnotizantes olhos azuis, longe de seu corpo perfeito que parecia ainda mais tentador sob aquele vestido de seda negra.
— Apenas tudo. — a respondi, me esforçando para ignorar a maldita atração entre nós e me concentrar no que era importante naquele momento. — Estamos cercados dos mais inescrupulosos tipos de criminosos do país, um deles é seu noivo. E eu preciso garantir que nada aconteça a você.
— Isso é ótimo, por um tempo terei uma folga daquele cheiro nauseante de charuto barato e das mãos bobas de Vladmir. — falou não escondendo o alívio.
— Mãos bobas? — virei-me para ela perdendo completamente o foco, a imagem daquele velho asqueroso a tocando simplesmente era demais para a minha sanidade. Eu sentia uma vontade insana de quebrar um por um os dedos de suas mãos para que nunca mais voltasse a tocá-la.
— Anatoly está vindo, Oliver. — avisou, mas eu não me virei continuei a encarando — Eu sei lidar com Vladmir, não se preocupe com isso.
Não me preocupar? Era impossível, se naquele momento eu havia me lembrando dos planos nada nobres do “noivo” dela.
— Nós precisamos conversar. — falei por fim, focando meu olhar para frente na direção de Anatoly, ele fazia o caminho até nós, mas ainda estava do outro lado do salão, tínhamos algum tempo. Eu precisava tomar uma decisão com relação a Felicity. Eu percebi que no momento em que eu perdi o controle e me atrevi a tomá-la em meus braços, a reivindicá-la, eu havia cruzado a linha tênue, eu não havia apenas me posicionado sobre o que eu queria, eu havia me exposto à ela. Seria muito mais fácil fazer o que eu havia lhe prometido, se ela não soubesse o quanto eu estava envolvido por ela.
— Definitivamente, temos muito para esclarecer. — seu tom me deixou curioso, ela falava como se houvesse algo mais a ser discutido, algo que eu desconhecesse.
— Você se lembra do caminho para o meu quarto? — lancei a pergunta.
— Sim, eu acho que sim.
— Acha ou tem certeza? — Eu precisava me certificar, Anatoly já estava a meio caminho até nós, e trazia Vladmir em seu encalço, eu não tinha mais tempo para lhe dar as direções corretas.
— Tenho certeza. — ela afirmou.
— Assim que a festa acabar, você irá direto para lá. Eu deixarei a porta destrancada para você. Não passe em seu quarto antes, não fale com ninguém. — falei numa voz urgente enquanto ainda olhava para os dois que vinham em nossa direção — Conversaremos lá, esclareceremos tudo.
— Mas, Oliver...
— Não é hora de ser teimosa, printsessa. — alertei. Felicity abriu a boca para protestar, mas calou-se quando viu os dois homens a nossa frente. A presença de Vladmir me irritava, ainda mais do que o normal agora.
— Vamos, querida, aposto que Oliver está ansioso para se ver livre do encargo que é cuidar de você. — disse, eu queria ter negado aquilo, mas não podia.
— É sempre um prazer acompanhar você, papai. — Felicity não economizou na ironia, mas Anatoly já parecia estar acostumado que simplesmente a ignorou e a arrastou para longe de mim.
***
Eu provavelmente tinha o semblante de um sociopata.
Eu havia me ausentado por pouco mais de vinte minutos e a primeira coisa que fiz quando retornei foi varrer o lugar em busca de Felicity, verificando se ela estava bem. Deixei o ar sair aliviado ao encontrá-la sentada em uma poltrona, parecendo aborrecida enquanto Anatoly conversava com Vladmir. Eles a ignoravam completamente, a tratavam como um mero bibelô, um objeto de adorno.
Voltei meus olhos para Vladmir, analisando cada mínimo movimento seu, desde as linhas duras de seu rosto à altivez que denotava seu sentimento de quem se achava muito esperto. Seu olhar frequentemente caía em Felicity e era quase indecente, ele praticamente a despia com os olhos. Eu conseguia adivinhar a merda que habitava seus pensamentos apenas em ver a forma em que ele a olhava, ou como sorria para si mesmo, parecendo satisfeito com a engenhosidade do seu plano.
O filho da puta pensava em tomá-la para si essa noite. Estuprá-la. Forcei a palavra, deixando que ela espalhasse o asco por todo o meu corpo. Eu me esforçava para manter esse pensamento fora da minha mente, porque por mais que eu estivesse de certa forma acostumado a manifestação de violência e até mesmo crueldade da máfia, havia limites que como homem, minha consciência rejeitava com fervor.
Eu não poderia permitir que ele a violasse. E isso não era apenas sobre os sentimentos que Felicity despertava em mim, sobre o quanto eu estava envolvido por ela. Isso era sobre fazer o que era certo. Por isso no meio tempo em que fiquei fora da festa eu troquei a tranca do quarto dela, isso talvez fosse o suficiente para fazer o bastardo desistir e recuar, ao menos por hora.
Eu adoraria ver o sorriso presunçoso deixar seu rosto ao perceber que seus planos haviam sido frustrados.
Na hora seguinte a festa começou a tomar outros ares, o clima até então elegante foi substituído por um ar mais podre regado a muita vodca e charutos. Criminosos eram interessantes, eles poderiam obter toda a grana que pudessem na ilicitude, mas nunca conseguiam deixar de ser o tipo mais sórdido e sujo de pessoas. Negócios começaram a serem tratados em uma mesa de jogos, até mesmo algumas prostitutas foram chamadas para serem companhia dos muitos criminosos que estavam ali.
Observei de longe o momento em Anatoly disse a Felicity que sua presença já não era mais necessária, e ela aliviada se apressou a se retirar. Vladmir a seguiu com os seus olhos famintos enquanto ela subia pela escada principal. Mantive meus olhos sobre ele, que logo em seguida anunciou a partida e se despediu de Anatoly. Mas ao invés de deixar a mansão, ele se aproveitou da distração de todos ali e auxiliado por um dos empregados foi direcionava para outro caminho, o qual eu sabia daria diretamente no quarto de Felicity.
Raiva me corroeu por dentro, mas seria tolice minha fazer algo agora. Apenas o segui de longe, alimentando o sentimento vil que eu nutria por aquele ser, que sequer poderia ser chamado de homem. Observei o momento em que ele tentou destrancar a porta do quarto e se irritou xingando uma profusão de palavrões em russo ao ver que ela não se abria. Eu esperava que Felicity tivesse feito o que eu havia pedido e não tivesse sido teimosa o suficiente para me ignorar. Porque nesse exato momento eu via um Vladmir furioso chutando a porta, tentando arrombá-la.
O verme não desistia. Eu teria que adotar outra tática.
— Algum problema? — quando dei por mim eu já estava me revelando, ao menos isso fez o desgraçado tomar alguma compostura e se afastar da porta.
— Ora, você trabalha para o Anatoly — apontou andando até mim com um sorriso falsamente amigável — Garoto, porque não me ajuda? Estou tendo problema em abrir essa porta, me deram a chave, mas ao que parece ela não abre. — Tentou me ludibriar.
— Porque o interesse em entrar aí? — questionei, apertando firme minhas mãos atrás das costas, a vontade de soca-lo era grande demais.
— Há algo de especial nesse. — ele piscou para mim. — Minha adorável noiva, aposto que entende minha necessidade de entrar não é mesmo?
Minha mão formigava enquanto o mais puro nojo por aquele homem se alastrava por mim. Eu não levaria mais do que um segundo para chegar a arma em minha cintura e acabar com a vida do desgraçado.
— Entendo.
— Aquela garota é um caminho direto para o inferno. — No que dependesse de mim, ele não precisaria de Felicity para ser enviado ao inferno, eu mesmo me certificaria de mandá-lo para lá.
Minha mão tremulou desejando acabar logo com isso. Eu normalmente não era movido a estímulos assassinos, por pior que a pessoa fosse eu era ciente de que eu não era um justiceiro. Mas esse maldito filho da mãe me fazia esquecer todas as minhas convicções. Tudo o que eu queria era o ter longe de Felicity.
Felicity. Seu nome em minha mente me trouxe um pouco de clareza, eu precisa me acalmar e não agir precipitadamente. Precisava me lembrar de que Felicity precisava de mim.
— O quarto da senhorita Felicity fica do outro lado da casa. — informei.
— Pode me mostrar? — pediu animado. — Eu posso pagar bem por sua ajuda. — Ofereceu dando-me o melhor sorriso canastrão.
— Sinto muito, Anatoly preza pela segurança da filha. — menti — A ala para o quarto dela é fechada e muito bem guardada sugiro que solicite o próprio Anatoly, ele é o único que poderá liberar a sua passagem.
— Certo, eu vou fazer isso. — disse, dando batidas em minhas costas enquanto passava por mim, eu escutei os seus bufos de raiva enquanto ele partia. E por minha vez, me vi aliviado por me livrar dele, pelo menos por enquanto.
Fiz o caminho para o meu quarto, eu precisava ver com meus próprios olhos que Felicity estava longe o suficiente do canalha aproveitador do Vladmir. Eu a queria longe dos seus olhos cheio de más intenções, longe de suas mãos imundas, mas, sobretudo eu a queria comigo.
— Oi. — ela disse e imediatamente me senti bem ao encontrá-la sentada em minha cama, assim que abri a porta, não impedi que um sorriso se espalhasse tranquilamente por meu rosto.
— Oi. — correspondi ao cumprimento e fechei a porta atrás de mim. Felicity lançava seu olhar questionador para mim. Eu tinha dito a ela que conversaríamos, mas vê-la tão linda naquele vestido preto e sentada em minha cama, fez meus pensamentos seguirem por uma linha perigosa.
— Eu acho que precisamos conversar. — Ela disse lançando-me um olhar decidido, embora suas mãos estavam postas sobre seu colo enquanto seus dedos brincavam um com o outro, evidenciando o quão nervosa ela estava.
— Precisamos. — confirmei, e me sentei ao lado dela. Busquei uma de suas mãos, e a segurei na minha. Eu só precisava sentir seu toque, eu só precisava tê-la comigo e saber que ela estava segura aqui. Mas eu sabia que isso era um erro.
Um belo erro. Um erro que eu adoraria cometer várias e várias vezes, um erro no qual eu estava disposto a aceitar tudo para ter, mas as consequências seriam desastrosas demais para Felicity suportar. E eu não poderia condená-la a mais problemas.
Deslizei meus dedos suavemente por sua clavícula tocando com reverência a pele delicada do lugar, encaixei a mão na curva do seu pescoço permitindo meus dedos se enredarem pela maciez do seu cabelo enquanto o polegar acariciava a face dela. Virei seu rosto na minha direção e o aproximei lentamente do meu, eu queria prolongar aquele momento ao máximo, eu vi a confusão nos olhos dela pouco antes dela os fechar e se entregar completamente.
E então eu a beijei de forma delicada, contendo toda aquela vontade desesperadora e a fome de antes. Eu apenas apreciei a sensação maravilhosa que era ter nossos lábios juntos um do outro, nossas línguas se conhecendo e apreciando o gosto uma da outra.
Aproveitei cada pequena parte daquele beijo, porque ele seria o último.
Seria o último, porque estar com Felicity fazia de mim um soldado pior. Apenas nessa noite eu havia corrido mais riscos do que em todos os outros dias desde minha entrada nos Bratva. Eu não conseguia esconder a parte de mim que se importava quando eu estava com ela, e eu quase demonstrei isso a Anatoly hoje. Era suposto que eu fosse alguém mais frio e sem emoções, e antes era fácil cumprir meu papel, mas com Felicity ao meu redor, tudo se complicava.
Aprecie seu gosto doce na minha boca, a forma com a qual ela se entregava sem medo aquele beijo, os pequenos suspiros que ela exalava quando eu me afastava ainda que minimamente e como nossas mãos ainda estavam unidas, se apertando. E então, muito antes do que eu gostaria, eu me afastei.
— O que estamos fazendo, Oliver? — Felicity me perguntou, seu hálito fresco soprando as palavras contra meu rosto e me fazendo desejar mandar minha maldita decisão para o inferno e ter muito mais do que apenas aquele singelo beijo. Seus lábios cheios e entreabertos também não me ajudavam, eles eram convidativos demais para mim.
— Aparentemente estamos brincando com o perigo, printsessa. — falei, soltando nossas mãos e me afastando ainda mais com um sorriso triste — E não podemos continuar. — sentenciei, suas sobrancelhas se uniram e seus olhos me seguiram enquanto eu me afastava dela e me colocava de pé, de modo a ficar de frente para ela, porém numa distância segura.
— Não acha que é muito tarde para dizer isso? Essa... — seus olhos buscaram nos meus uma maneira de nomear aquilo, não era apenas atração para ela também eu via isso, era um misto confuso de sentimentos novos. — ...coisa entre nós, eu não consigo desligar, ou fazer parar eu apenas... Quero você. — confessou com tanta honestidade, e eu vi o quanto aquilo a confundia, o quanto ela estava surpresa e até mesmo temerosa com seus próprios sentimentos. Não fui nobre naquela hora e me aproveitei daquela pequena confusão.
— Você não pode sentir isso por mim, Felicity! — a repreendi, ainda que a maior parte de mim estivesse exultante — Eu não sou bom para você.
— Sinto muito, Oliver — ela se ergueu da cama decidida, e se colocou de pé a minha frente. Ela estava demasiado próxima e isso aliado ao seu jeito petulante, a forma como seus olhos me encaravam furiosos e ao mesmo tempo cálidos, o queixo levemente erguido, aquela pose de printsessa a deixava perturbadoramente apelativa para mim. Era difícil controlar toda aquela merda que se agitava dentro do meu peito e fazer a coisa certa. — Sentimentos não são controláveis, Oliver, eu não posso simplesmente esquecer as coisas que você me faz sentir, ou mandar meu coração parar de se agitar quando você está perto. Não importa se você diga que não é bom para mim. Eu não tenho recebido bondade desde quando eu fui trazida para cá, você tem sido a única coisa boa e constante no meio desse inferno caótico. Você pode dizer que não é bom, mas o que você me faz sentir é. — Felicity deu mais um passo a frente, diminuindo ainda mais a distância, que já não era muita, ela continuava a me encarar, não se sentia intimidada por mais que eu me forçasse a me fazer de indiferente. Ela via através de mim.
Ela definitivamente era o meu calcanhar de Aquiles.
— Eu trabalho para a máfia russa com o seu pai, para o seu pai. — falei mais firme — Acredite em mim quando eu digo que sou ruim para você.
— Eu não compro isso, eu sei a verdade, Oliver. Eu sei a verdade, você é o traidor, eu vi a mensagem no seu celular e vi o papel que o homem te entregou naquela lanchonete nos Estados Unidos, você está aqui e está tentando derrubar Anatoly. — fechei meus olhos, como ela poderia saber? Não importava, se alguém a escutasse dizer isso poderia ser o meu fim. — Que outro motivo você faria tudo isso por mim? Você acha que eu não vejo, mas você tenta aliviar as coisas para mim aqui, tenta sempre me proteger, até mesmo prometeu que iria me tirar daqui. — seus olhos eram uma profusão só de esperança, eles olhavam para mim esperando por uma confirmação.
— Não se iluda, printsessa. Eu não faço isso por você, eu tenho a algo maior a ganhar. Isso tudo é um jogo perigoso demais, e você é uma peça importante que eu não quero ter Anatoly usando — blefei, mantendo a postura fria e rígida até mesmo eu havia mudado o tom da minha voz. Seus olhos azuis piscaram atônitos para mim enquanto ela dava um passo para trás e analisava meu rosto.
Eu a vejo tentar derrubar a barreira, mas eu a mantenho erguida. Eu posso ver em seus olhos que a afastei, mas não posso ter Felicity sabendo a verdade sobre mim. Não ainda, é arriscado demais. Então eu apenas a observo se afastar, sentindo aquele gosto amargo de culpa descer em minha garganta, naquele momento apenas o pensamento de que se ela soubesse a verdade, poderia colocá-la em um perigo muito maior, me mantinha firme apesar da dor em seus olhos quebrar algo dentro de mim. Uma coisa era ter um casamento em seu destino, era cruel, era uma merda, mas isso garantia ao menos que Anatoly a queria viva, que tínhamos algum tempo, uma chance. Outra coisa bem diferente seria se ela fosse associada a mim de alguma forma, o crime para traição nos Bratva era punido com a morte.
Eu não iria condená-la a isso.
Era isso o que me impedia de segui-la como eu gostaria, de puxá-la pela mão, jogá-la em minha cama e ser bom para ela. Porque Felicity estava certa. Eu estava fazendo tudo o possível para amenizar a crueldade da máfia, porque eu sabia que ela era alguém que não merecia nada disso.
— Felicity? — chamei seu nome ao invés do apelido que eu lhe dera, e a vi se virar para mim ainda tendo a mão na maçaneta da porta, seu rosto não escondendo um resquício de esperança.
— Essa é a nova chave do seu quarto, tranque-o. — ela pegou a chave em sua mão, eu a vi segurando uma pergunta nos lábios, mas ela desistiu e apenas me deu as costas, saindo pela porta logo em seguida sem sequer me dar um último olhar. Não que eu merecesse um.
Eu a afastei, porque eu precisava protegê-la. Era o certo a se fazer, mas por que eu sentia que a tinha ferido muito mais do que as crueldades de Anatoly?
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