War of Hearts

7 Capítulo 6 - I’ll be good


Notas iniciais
Hello, it's me! Eu nem sei como agradecer pelos comentários, favoritos e apoio de todos vocês que insistiram e não me deixaram parar de escrever. Como eu disse, eu prometo tentar e espero apenas que vocês entendam que as vezes eu vou demorar um pouco... E Ka Duarte, ahhh vc pensa que pode me comprar com recomendações? Está completamente certa!!! Obrigada por suas lindas palavras, significa muito para mim saber que você gosta tanto assim de War of Hearts, principalmente porque a história mostrou tão pouco! Enfim, esse capítulo é para você espero muito que goste dele! E que siga amando essa fic. A música do capítulo, é especial vem de um video olicity que eu amo, assistam e eu garanto que não irão se arrepender: https://youtu.be/dfdK_oZ420Y Beijos!

I thought I saw the devil, this morning

Looking in the mirror, drop of rum on my tongue

With the warning to help me see myself clearer

I never meant to start a fire

I never meant to make you bleed

I'll be a better man today

I'll be good, I'll be good

And I'll love the world, like I should

Yeah, I'll be good, I'll be good

For all of the times that I never could

My past has tasted bitter for years now

So I will deny and face crazes just weakness

Or so I've been told.

I've been cold, I've been merciless

But the blood on my hands scares me to death

Maybe I'm waking up today

(I’ll be good — Jaymes Young)

Oliver Queen

Eu sabia que ter Felicity dormindo ao meu lado era uma ideia terrível. Mas o que mais eu poderia fazer? Eu não poderia arriscá-la lá fora, sabendo que Anatoly, já estando furioso com a traição, se descobrisse da tentativa de fuga dela iria descontar toda a sua frustração em Felicity, e essa mera ideia me enlouquecia. Ao menos aqui, perto de mim, eu sabia que ela estava segura e protegida.

Eu me sentia bem.

E eu era egoísta o suficiente para querer prolongar essa sensação por mais tempo.

Aos poucos eu senti a respiração de Felicity diminuir se tornando leve e tranquila, o quarto estava escuro, a única janela que havia ali estava coberta por grossas persianas, eu não conseguia vê-la. Mas ainda assim eu tinha certeza que seu rosto refletia a face de um anjo. Eu já havia visto dormir o suficiente para saber como era, eu gostaria de poder vê-la agora, porque era quando Felicity dormia que toda a dor, raiva e mágoa deixavam seu rosto, e ela voltava a ser a inocente garota que eu tive a audácia de tirar de uma vida tranquila e trazer para todo esse terror. Em seus sonhos ela parecia feliz, ela podia viver longe desse mundo cruel que eu lhe impus.

Era curioso que Felicity tenha caído no sono tão rápido e fácil, enquanto eu simplesmente não conseguia sequer fechar meus olhos. Eu só podia supor que aquele dia todo foi um grande tormento para ela, começando com a crueldade de Anatoly e até mesmo a minha inércia diante disso, tudo isso culminando na tentativa dela de tentar fugir.

Eu não podia condená-la por tentar fugir. Se eu pudesse, eu mesmo abriria os portões e a mandaria para mais longe daqui.

— Sinto muito, printsessa. — sussurrei, tomando a liberdade de acariciar levemente seu rosto com meus dedos enquanto conversava com ela.

Será que algum dia eu diria a quantidade de desculpas suficientes para desfazer tudo o que eu fiz a ela? Ou ao menos tentar mudar a imagem terrível que ela tinha de mim? Provavelmente não.

— Você não merece isso, eu só queria que houvesse um modo simples de tirá-la daqui, queria ser suficiente para garantir sua segurança. Eu só peço que aguente um pouco mais, eu encontrarei uma forma, um meio de acabar com tudo e fazê-la sofrer o mínimo possível. E talvez, quem sabe, quando estivermos longe de tudo isso você poderá me perdoar e entender tudo o que eu fiz? — me atrevi a ser esperançoso.

Senti a distribuição de peso sobre o colchão mudar e retesei, imaginando se Felicity estava me ouvindo confessar sentimentos os quais eu não deveria ter. Um suspiro audível me indicou que ela permanecia adormecida, mas para minha completa surpresa ela se movimentou sobre a cama, girou o corpo em minha direção, e como se apreciasse o meu toque, senti seu rosto se inclinar ainda mais para ele, se arrastando cada vez mais até mim, parando tão somente quando seu corpo se encontrava completamente aninhado ao meu. Sua cabeça recostada tranquilamente sobre meu peitoral, era difícil manter a sanidade quando sua boca estava bem ali, inocentemente sob a minha pele. E suas mãos? Apoiadas na região do abdômen, assim como uma de suas pernas estava jogada sobre a minha, quase as entrelaçando. Eu esperava que ela não se movimentasse muito durante a noite, eu não era capaz de controlar as reações do meu corpo ao tê-la assim tão próxima a mim.

Como se soubesse da minha fraqueza e quisesse me provocar, Felicity ronronou, seu corpo remexendo-se junto ao meu e fazendo a sua mão deslizar um pouco mais para baixo. Fechei meus olhos fortemente e praguejei. Era difícil lidar com as sensações que ela despertava em mim, se fosse apenas atração seria mais simples de ignorar, mas não, havia sentimentos também, vários deles, os quais eu não poderia me dar ao luxo de demostrar.

— Foda-se! — desisti por fim, e a enlacei pela cintura fazendo cada curva do corpo dela se acomodar ao meu enquanto ela suspirava satisfeita. Eu sabia que não era certo fazer isso, eu precisava ser frio e racional, mas quando eu teria outra oportunidade de tê-la assim tão a vontade em meus braços?

Oh sim, Felicity me atormentava de uma forma quase injusta, mas eu sempre tive tendências um pouco masoquistas. Pensei, enquanto inspirava o perfume doce em seus cabelos e simplesmente adormeci. Meu corpo completamente relaxado e satisfeito por tê-la em meus braços e minha mente se atrevia a estar feliz, pelo mesmo motivo.

***

Acordei sentindo uma movimentação de um corpo quente ao redor de mim. Contive um sorriso ao me lembrar do motivo.

Felicity.

Ela estava nos meus braços, e eu era um homem contente em fingir que não havia nada demais nisso, que eu não tinha preocupações maiores para lidar agora. Mas o que eu poderia fazer se estava completamente enfeitiçado por sua presença ali? Se apenas isso já era capaz de me deixar tocado?

— Oh merda! — Felicity murmurou baixinho ao constatar a situação em que estávamos: completamente nos braços um do outro. Eu daria tudo para abrir meus olhos agora e apenas apreciar as bochechas coradas no rosto envergonhado dela, mas eu queria me divertir um pouco mais.

Felicity tentara mover a perna direita que estava entrelaçada nas minhas e em contra partida eu a segurei mais firme. Esse era o jogo, quanto mais ela tentava se afastar, menos espaço eu lhe dava e mais a apertava contra mim. Em um determinado momento, eu pressionei meus lábios em seu pescoço enquanto a minha mão se movera por sua coxa nua, deslizando sobre sua pele macia. Eu sabia que estava em um terreno perigoso, que mais um pouco e Felicity poderia simplesmente soltar sua fúria sobre mim, ou então eu teria que levantar abruptamente e tomar um banho gelado para resolver a situação caótica mais embaixo. Mas qual não foi a minha surpresa ao senti-la estremecer diante do toque de meus lábios em sua pele e soltar um gemido quase inaudível?

— Não dificulte as coisas para mim, Oliver. — ela pediu suspirando, me revelando o quanto aquilo havia mexido com ela.

Não. Ela definitivamente não era indiferente a mim, constatei sentindo uma satisfação que logo foi substituída por temor.

Isso não poderia ir a diante.

Era óbvio que qualquer coisa entre Felicity e eu só levaria a ruína de nós dois. Era suposto que eu fosse mais racional, e inteligente quando o assusto fosse a segurança dela.

A soltei de uma única vez quando percebi que brincava com fogo, e eu não seria o único a me queimar naquela história. Quando se viu livre do meu aperto tão abruptamente, seu corpo rolou rapidamente pela cama, e ela caiu ao chão.

— Você está bem? — perguntei preocupado, e imediatamente vi as bochechas de Felicity corarem, mas não era de vergonha. Era raiva, a minha reação rápida denunciava que eu estava acordado há algum tempo.

— Você estava esse tempo todo acordado! — acusou, seus olhos queimando como chamas flamejantes na minha direção.

— Não consegui resistir, printsessa, você é tentadora demais para o seu próprio bem. — revelei, estava cansado de me segurar, Felicity que lidasse com essa informação.

— Eu preciso voltar ao meu quarto. — declarou desviando o olhar do meu.

— E acha que o chão é o melhor caminho? — brinquei, e Felicity lançou-me um olhar estarrecido.

— Idiota.

Sorri. Vê-la furiosa comigo por algo tão trivial me causava essa estranha reação. Senti vontade de provocá-la um pouco mais, mesmo sabendo que era tolice, mas apenas queria me deliciar com sua reação, com o que ela acendia em mim. Quando eu voltaria a ter essa oportunidade de novo? Tão logo ela voltasse ao seu quarto, Anatoly a colocaria sobre a proteção de seus homens, e eu teria que me contentar com informações de terceiros, e pequenos e perigosos momentos roubados com ela.

— Pode tirar a roupa que está vestindo? — solicitei.

— O quê? — devolveu parecendo ultrajada.

— É que eu me lembrei que adoro essa blusa que você está vestindo, pode me devolvê-la? — pedi me levantando da cama e ficando a sua frente.

Felicity se levantou do chão e me encarou por longos momentos, eu não sabia dizer se ela conseguia ver o brilho de diversão em meus olhos, ou o sorriso que eu me esforçava tanto para segurar.

Mas diferente do que eu esperava, ela apenas passou por mim, recolheu suas roupas ao chão e caminhou altivamente para o banheiro, não se esquecendo de bater a porta com força. Poucos minutos depois escutei o som do chuveiro sendo ligado.

Não vou dizer que não fiquei decepcionado por um momento. Talvez parte de mim esperasse que Felicity repetisse o gesto e se despisse na minha frente. Havia algo sexy no modo em que ela retirou o meu paletó na outra manhã, tinha sido um ação movida principalmente por orgulho e raiva, mas ainda assim, deliberadamente sexy, talvez ela sequer tivesse consciência disso.

De todo modo, por mais que eu quisesse repetir o momento, para o bem da minha sanidade, era melhor assim.

Aproveitei sua ausência e troquei a calça de moletom por um terno escuro, iria falar com Anatoly em breve e ele não exigia menos do que uma aparência impecável de seus subordinados.

Lembrei-me do celular guardado em minha gaveta, as coisas tinham se complicado tanto ontem a noite que eu simplesmente esqueci que aguardava uma resposta. Não que eu ainda precisasse dela, pela comoção de ontem eu já tinha minha resposta, mas ainda assim retirei o celular da gaveta, li a mensagem e a deletei em seguida meneando a cabeça.

Eu precisava encontrar um momento propício para retornar, gostaria de redefinir os termos do acordo, acrescentando algo de vital importância. Mas não poderia fazer isso agora. Guardei o celular de volta em seu lugar.

— Sua blusa. — Felicity disse, jogando a peça de roupa na minha direção, assim que saiu do banheiro vestindo as roupas que usava ontem, sorri internamente, aquela blusa agora teria o cheiro dela. — Podemos ir agora? — perguntou enquanto penteava os cabelos molhados com os dedos. Fiquei aborrecido com seu tom de voz, era quase como se ela estivesse ansiosa para voltar a solidão do quarto, e se ver longe de mim.

— Coma algo e descanse um pouco mais. — eu ordenei, enquanto tentava realizar o nó complexo da gravata. Eu odiava essas coisas.

— Deixe-me fazê-lo para você. — Felicity se adiantou vindo até mim, tentei não me incomodar com seus dedos que me tocavam, e com a sua proximidade, logo eu encontraria Anatoly, não seria prudente demonstrar qualquer resquícios das sensações que Felicity causava em mim. — Pronto!

— Obrigado. — agradeci sorrindo ao ver a satisfação com que Felicity alisava o tecido da gravata. Por que coisas tão triviais com ela me faziam sorrir tolamente?

— Me desculpe por isso — pediu, me fazendo piscar confuso. Ela era a última pessoa que me devia desculpas, ao contrário de mim, que devia milhares dessas à ela.

— O quê...?

— Não está tão avermelhado, mas as marcas dos dentes estão bem visíveis. — seus dedos delicados tocaram a pele do meu pescoço e enrijeci, finalmente compreendendo a que ela se referia. Olhei em seus olhos e Inferno! Eu quase agir por impulso. Pigarreei dando passos para trás, buscando distância de seu toque, antes que eu perdesse o controle e a tomasse em meus braços como meu corpo ansiava por fazer.

— Eu preciso ir, não saia desse quarto.

— Por que você não quer que eu saia do seu quarto? — Felicity inqueriu no momento em que eu iria abrir a porta, virei-me para ela que agora se encontrava sentada no meio da cama.

Porque eu gosto da visão de você na minha cama, porque não quero que você vá. Porque eu não sei quando ou se a terei aqui novamente. Porque se eu pudesse, eu a trancaria nesse quarto e a manteria escondida de tudo o que há de ruim lá fora. A manteria apenas para mim.

Eu precisava tirá-la do meu sistema, ou isso acabaria mal. Eu já não raciocinava com muita clareza.

— Eu tenho que ver como tudo está antes de pensar num meio de tirar você daqui sem que alguém perceba que passou a noite fora do seu quarto. — respondi me controlando — Vou falar com Anatoly primeiro e checar seu quarto em seguida, então eu volto. Nesse meio tempo é imprescindível que não saia desse quarto, printsessa.

— Vai me trancar aqui? E então eu serei sua prisioneira? — havia algo em seu tom, uma mágoa contida era quase como se ela achasse que eu faria a mesma coisa que Anatoly e a deixaria trancada. Ela não sabia o quanto estava errada. Eu era o prisioneiro dela, prisioneiro de seus olhos cheios de vida e de seu sorriso que me aquecia por dentro. De sua fragrância única, que me fazia ter desejos que eu não deveria. Era eu que estava completamente de joelhos por aquela mulher, eu que estava disposto a arriscar tudo apenas para poder passar um pouco mais de tempo ao seu lado.

— Não, você ficará com a chave. — voltei para ela entregando a chave prateada que estava em minhas mãos, Felicity piscou sorrindo parecendo imensamente feliz com aquele gesto tão simples, sua mão se fechou ao redor da minha enquanto segurávamos a chave. Eu nunca tinha visto um brilho tão intenso e genuíno em seus olhos, e nem mesmo tantas palavras não ditas com um único olhar.

Demorei um pouco, porém finalmente compreendi. Eu estava confiando nela, na verdade eu estava basicamente lhe entregando um meio de fuga, se assim ela quisesse. Mas eu confiava que ela não faria isso.

— E como eu saberei que é você voltando? Teremos uma batida secreta de porta? — perguntou, e eu gostei do tom cúmplice da sentença, era quase divertido. Era algo raro, eu honestamente nunca a tinha visto assim antes. E eu gostei. Muito.

— Eu te chamarei, e você saberá que sou eu. — pisquei um dos olhos e sorri sugestivamente antes de sair.

***

Deixei o quarto, mas esperei escutar o barulho do trinco da porta girar, e ter certeza que Felicity estava segura antes de ir até Anatoly. Ter Felicity comigo essa noite tinha me deixado completamente louco, não apenas por que sua simples presença era capaz de provocar as mais distintas sensações em mim, mas também porque eu não conseguia mais suportar a ideia de vê-la sofrer tanto neste lugar. Ela não merecia e eu tinha medo que seu jeito impulsivo a colocasse em apuros ainda maiores. E se eu não tivesse a parado ontem? Alguns dos homens de Anatoly poderiam tê-lo feito, e com toda certeza não seriam pacientes ou delicados. Ela se machucaria, e isso por consequência me machucaria também.

Eu sabia que não havia um modo de tirar Felicity daqui em segurança, pelo menos não por enquanto, isso seria algo que demandaria tempo para ser planejado. Mas talvez eu pudesse fazer algo por ela agora, algo para ao menos deixá-la um pouco menos triste. Convencê-la a jogar o jogo até que nós tivéssemos um plano melhor.

Sim, eu havia pensado em um nós.

Eu tinha plena consciência do que eu estava decidido a fazer. Sabia que estaria arriscando muito por me importar com Felicity, mas não poderia ser apenas um observador, eu tendia a me eximir da culpa dizendo que todos que se envolviam com a máfia tinham um lado negro e que mereciam todo e qualquer infortúnio. Mas qual era a minha desculpa em relação a Felicity? Ou a Anne? A pobre garota que eu tive a audácia de condenar para que o objeto do meu afeto não se machucasse? Que tipo de homem eu estava me tornando?

Eu seria bom para ela, mesmo sabendo que não deveria, não aqui. Mas eu estava decidido a ser o estúpido príncipe encantado que tentaria a todo custo salvar sua printsessa.

Tentei banir Felicity dos meus pensamentos assim que bati a porta do escritório de Anatoly, quando ela ocupava minha mente eu era apenas Oliver, e agora eu precisava ser o Kapitain Queen. Entrei, quando escutei a ordem rude vindo do interior da sala, me ordenando que o fizesse.

— Está atrasado. — Anatoly resmungou, virando uma dose de vodca e batendo o copo na mesa. — Mas hoje irei relevar. Se satisfez com sua puta noite passada? — questionou, seus olhos duros me fitando.

Tentei não demonstrar nada, não queria que Anatoly sequer cogitasse que eu não estava com um prostituta ontem a noite. Eu seria um homem morto se ele descobrisse que a filha dormiu em meu quarto.

— Foi interessante. — dei de ombros, embora a imagem de Felicity enroscada em meus braços tenha imediatamente aparecido em minha mente e feito um quase sorriso aparecer.

— Pelo seu ar satisfeito eu diria que foi muito mais do que interessante. — deu um riso rouco — Preciso de algo assim para aliviar a tensão, se ela foi assim tão boa para você eu espero que tenha guardado o telefone do cafetão dela. Posso precisar dos serviços.

— Providenciarei a você. — eu disse mantendo o tom neutro, embora minhas mãos estivessem apertadas em punhos atrás das costas.

— Certo. Agora vamos falar de negócios. — para minha sorte Anatoly mudou o foco do assunto. Sentei-me na cadeira a sua frente, enquanto ele se servia de outra dose da bebida, dessa vez deslizando um copo para mim também — Ontem a noite eu deveria encontrar com o meu fornecedor de entorpecentes, era um simples encontro, iríamos acordar novas transações e eu estava preparado para adiantar uma quantia do próximo pagamento. Mas o local estava cheio de policiais, e não era da ralé, nada de guardinhas de trânsito e polícia local. Eu estou falando de agentes treinados e disfarçados, em cada canto da maldita praça vermelha. — bateu brutamente com as mãos sobre a mesa fazendo o copo com vodca estremecer — Eu não sou idiota, Oliver, eu estou há anos demais nesse trabalho, eu sinto o cheiro de emboscada.

— Podem ter obtido a informação por meio de grampo telefônico?

— Improvável, mandei checar todas as minhas linhas e elas estão perfeitamente seguras. Isso foi um ato interno! — cuspiu. Irritado não era a palavra certa para definir o quão puto ele estava com a situação. Eu via com perfeição a veia em sua têmpora esquerda pulsar rapidamente, e como seus olhos escuros tinham um brilho assassino, as mãos tencionadas com veias estufadas, bem como a mandíbula rígida evidenciavam a vontade daquele homem de matar alguém, não necessariamente o culpado, ele apenas necessitava extravasar a raiva.

— E quanto a Vladmir? Quais as chances dele ter armado isso? — tentei jogar a culpa em um antigo inimigo, se o conseguisse talvez fosse possível tirar um proveito de toda essa situação: Livrar Felicity do destino que Anatoly havia lhe condenado.

— Beba sua bebida. — exigiu. — Agora, Queen!

Não questionei. Regra número um dos bratvas: nunca questione seu líder. Regra número dois, nunca recuse uma dose de vodca, é praticamente um crime entre eles. Fiz o que Anatoly requisitou, virei o líquido incolor sentindo minha garganta arder a medida que passava. Meu paladar nunca apreciou o gosto de vodca, mas eu não poderia chegar na Rússia e requisitar um whisky, eu já era o inostranneye, não precisa dar ainda mais motivos.

— Eu cogitei Vladimir, embora minha prisão fosse, em teoria, algo bom para ele em termos de competitividade. — disse enquanto tornava a encher o copo, o meu e o dele — Ele sairia tão prejudicado quanto eu. Você não está há tanto tempo quanto eu na máfia, mas tomadas de poder por outras organizações, são sangrentas, caras e a lealdade obtida por meio da violência nunca é verdadeira. No fim mais se perde do que ganha. É por isso que todo grande acordo na máfia é feito por meio do casamento, sela confiança, e unifica as famílias. — assenti entendendo o seu ponto, embora não pudesse concordar com aquele tipo de arranjo que condenaria Felicity.

— Anatoly, tem certeza disso? Começar uma caça as bruxas dentro da sua organização pode dar aos seus inimigos a ideia errada de que seus subordinados não são tão leais.

— O que eu não posso aceitar é um traidor que se esconde bem debaixo do meu nariz!

— Tudo o que quero dizer é... — senti a mesa estremecer com quando o punho de Anatoly a acertou, me calei sabendo que aquela era uma batalha perdida.

— A partir de hoje você me acompanhará em cada transação, ficará de olho em tudo e me manterá informado. Qualquer ação que chegue perto de ser suspeita eu quero ser informado. — comunicou se levantando e dando a volta a mesa ficando quase ao meu lado. Girei meu corpo na cadeira ainda o fitando, eu o conhecia bem demais para saber o quanto ele considerava fraca pessoas incapazes de sustentar um olhar — Eu sei que você é um inostranneye, mas você salvou minha vida um par de vezes, e no momento é o único em que eu confio.

— Obrigado, ser.

— Não me agradeça! — cuspiu, sua face voltando a ser consumida pela máscara da raiva, seu olhar tão vazio de emoção e tão repleto de ódio que eu temia olhar neles e me ver preso no próprio inferno — Encontre o filho da puta e o entregue para mim. Eu quero olhar nos olhos dele e ver o medo estampado, eu o quero implorando pela morte quando eu colocar minhas mãos sobre a garganta dele e ver a vida se esvair dos seus olhos bem lentamente.

— Entendido. — respondi sem me abalar, sequer pisquei. Anatoly continuou me encarando com seu olhar feroz, e de repente começou a gargalhar.

— Você é durão. Vi homens saírem desse escritório hoje com lágrimas nos olhos. Mas não você. Kapitain Oliver Queen, se você fosse russo eu o treinaria para herdar minha organização. É uma pena que corra sangue americano em suas veias. Não é uma ironia? Minha filha carrega sangue russo forte e antigo, e ainda assim tem a mente americana. Já você, que não tem nenhuma gota é muito mais russo do que ela. — gargalhou, voltando para a sua posição inicial e virando mais uma dose de vodca.

Compartilhei de sua risada, embora não houvesse graça para mim em suas palavras, fiz apenas o que me era esperado. Mas não pude deixar de aproveitar a deixa, ele tocara no assunto, não seria suspeito se eu o continuasse.

— Já que estamos falando da sua filha...

— Não me diga que a garota ainda tem dado dor de cabeça? — sua expressão era de pura chateação.

— Não. Eu acredito que ela tenha aprendido a lição. — escondi meu desgosto ao me lembrar do que Felicity fora obrigada a presenciar — Ela permaneceu em seu quarto sem incomodar a ninguém.

— Provavelmente chorou a noite toda, essas garotas. É óbvio que ficou com medo, é isso o que ele causa nas pessoas fracas, as deixam acuadas. — Anatoly pareceu satisfeito.

Ah, se ele soubesse que tinha sido exatamente o contrário. A demonstração de poder dele por meio de atos cruéis certamente havia deixado Felicity com medo, mas ele se enganava muito se pensava que ela era o tipo de garota que recuava. Não, o medo havia a deixado ainda mais determinada e decidida a lutar contra ele, e isso era algo que me fascinava.

— Na verdade eu estava pensando em trabalhar de modo diferente. — eu disse cauteloso — A rebeldia dela é normal, ela é jovem, teve seu mundo virado de cabeça para baixo...

— Não me diga que ela o amoleceu! Está se compadecendo da pobre garota? — estreitou os olhos para mim tentando me ler.

— Até parece. — me recostei na poltrona como quem não se importava muito.

Depois da chegada de Felicity e todas as coisas que ela despertava em mim, estava se tornando um pouco difícil fazer esse jogo duplo, manipular Anatoly, então? Missão suicida, mas eu precisava ao menos tentar.

— Eu acredito que parte da rebeldia dela é condicionada as limitações e exigências impostas. O medo funciona até certo ponto, mas não é muito produtivo. Um pouco de liberdade como recompensa por seu bom comportamento, talvez a deixe mais maleável e você pode moldá-la aos seus interesses. — deixei a sugestão no ar.

— Está pensando em impor uma espécie de meritocracia? — moveu o corpo mais para frente parecendo interessado.

— O senhor ainda é o pai dela, o medo é bom, mas respeito seria ainda melhor. Já pensou em como seria mais simples? Até mesmo Vladmir — contive a raiva ao dizer aquele nome —, apreciaria isso.

— Certamente é algo a se pensar, teria mais vantagens e menos dores de cabeça. — ponderou, coçando a barba.

— Sim, analise a situação. Sei que tomará a melhor decisão para o caso. — bajulei, vendo Anatoly assentir parecendo pensativo. — Oh, antes que eu me esqueça, ontem quando estive no corredor do quarto dela, não vi Victor e Ivan postados a porta. O senhor os retirou da função? — Anatoly piscou.

— Não.

— Estranho.

— Sim, estranho. Que horas notou a ausência deles? — Eu podia ver o cérebro dele maquinando, suspeitando. Tentei não ficar satisfeito com aquilo.

— Pouco depois da sua saída. Até pensei que tivesse solicitado os dois para a transação de ontem. — respondi.

— Mande-os vir aqui. — ordenou — Acho que precisarei ter uma conversinha com eles, vou querer detalhes de onde passaram todo esse tempo em que deveriam estar cumprindo minhas ordens.

Assenti e me levantei. A suspeita de Anatoly com relação a traição interna era uma ótima carta para usar para manipulá-lo. Mas no momento eu usaria para fins mais simples, como ajudar Felicity a voltar ao seu quarto.

— E aproveite que vai estar lá e comunique Felicity da minha benevolência. Ela ficará sem guardas, poderá até mesmo andar livremente pela propriedade. Mas a lembre que qualquer pé que ela coloque fora da linha, haverá consequências desastrosas. Vamos ver como ela se sairá.

Da, Ser. — não sorri, embora estivesse ansioso para fazê-lo, porém ao sair do escritório senti o gosto daquela pequena vitória por todo o meu corpo.

Encontrei Victor e Ivan parados a porta do quarto de Felicity, olhando-me com o desprezo de sempre.

— Anatoly está requisitando a presença dos dois. — comuniquei.

— É verdade desta vez? — o mais alto, que eu supunha ser o Ivan questionou parecendo um tanto quanto cético. Sorri de canto ao me lembrar de que usei essa desculpa para livrar-me deles uma vez e conseguir mais tempo com Felicity.

— Aquilo foi um equívoco. — dei de ombros me encostando à parede, mas mantendo o sorriso — Mas se não quiserem atender a ordem tudo bem, tentarei demonstrar tristeza no enterro de vocês. — falei displicente, enquanto observava com diversão os dois trocando olhares.

No fim optaram por não contrariar uma possível ordem de Anatoly. Esperei que se afastassem o suficiente e voltei as pressas para o meu quarto. Agradeci pelo corredor estar vazio. Parei a porta e bati duas vezes, eu disse a Felicity que ela saberia que era eu.

Printsessa? — chamei, mas nada aconteceu. Senti um frio no estômago, e se ela tivesse tentado fugir ou alguém a tivesse achado? — Printsessa? Não brinque comigo, abra a porta. — falei mais urgente, eu já estava cogitando arrombar a porta, quando com um alívio imenso escutei o trinco girar.

— Oi. — a porta se abriu, e suspirei assim que vi o rosto dela.

— Você sente prazer em me ver desesperado, não é mesmo? — Felicity piscou. — Vem, eu limpei o caminho, vou te levar de volta ao seu quarto. — ofereci a minha mão.

— Não seria muito prudente eu andar de mãos dadas com você. — renunciou ao meu gesto, e senti algo em meu peito afundar. Mas ela estava certa, demonstrar carinho não era prudente.

— Me siga então. — Felicity o fez, mas pareceu emburrada durante todo o caminho.

Quando chegamos à porta do seu quarto eu não me contive.

— Alguma coisa a aborrece? — questionei, antes que ela pudesse entrar e fechar a porta. Felicity me lançou um olhar incrédulo e um riso sem humor algum.

— Meu pai é um criminoso sádico. Vou voltar a ser trancafiada, provavelmente obrigada a me casar com um porco nojento, nunca mais verei as pessoas que amo. Não, Oliver, alguma coisa não me aborrece! São várias delas! Talvez tentar fugir ontem tenha sido estupidez, talvez tudo tivesse acabado mal, mas ainda é melhor do que aceitar o futuro que me oferecem aqui. — Seu discurso era marcado pela raiva.

— Eu sei, printsessa, não é justo, mas...

— Justo? — repetiu a palavra com sarcasmo — Isso é desumano, Oliver! Não percebe? — Inspecionou meus olhos com os dela. Aquilo era golpe baixo, era difícil me concentrar quando seus olhos cheios de dor me fitavam daquela forma.

— Eu sei! Eu sei! — me vi ansioso, colocando ambas as mãos ao redor de seu corpo, eu precisava que ela se acalmasse. — Talvez seja difícil de acreditar ou compreender, mas eu não compactuo com isso, porém nós precisamos jogar o jogo, entende? — tentei acalmá-la, acariciando de leve seus braços.

— Não.

— Eu falei com Anatoly hoje. — Felicity ficou rígida. — O convenci a deixá-la livre, ao menos um pouco. Sem guardas, sem ser obrigada a ficar trancada no quarto. Mas eu vou precisar que você ao menos finja que está aceitando isso, finja que desistiu de lutar.

— Eu não posso prometer isso, Oliver. — respondeu sinceramente.

— Eu sei. — movi uma de minhas mãos até seu rosto, passando uma delicada mecha de cabelo para trás da orelha. — Eu vejo a determinação queimando em seus olhos azuis, eu vejo a vontade de se rebelar e de ser livre... E isso me fascina. — acabei confessando — Eu só peço que se segure um pouco, eu vou te ajudar. — Me vi fazendo uma promessa perigosa.

— Você vai? — Ela pareceu descrente.

— Eu não deixarei que nada de ruim lhe aconteça, encontrarei uma forma de tirá-la daqui. Confie em mim, printsessa.

Felicity e eu nos encaramos por um tempo consideravelmente longo, eu tinha feito uma grande confissão e ela tentava absorver o peso dela. Dei um passo para trás me afastando e deixando de tocá-la, eu precisava ir. Estar com Felicity ainda era confuso para mim, e por mais que eu gostasse de ficar perto dela, eu não poderia me permitir esquecer de que aqui eu era um kapitain bratva.

— Pode me responder algo antes de ir? — hesitei, eu ainda não estava pronto para suas inquisições cheias de porquês, já tinha revelado muito. Por que eu estava fazendo isso? Por que eu me importava com ela? Por que estava prometendo que iria salvá-la? Eu não queria ter que mentir a ela novamente, porque eu não estava certo se conseguiria conter meus sentimentos por muito mais tempo.

— Posso. — concedi, e para minha completa surpresa, Felicity não fez nenhuma das perguntas que eu esperava.

— Que dia do mês é hoje?

— Hoje é dia nove de agosto. — respondi ainda não entendendo o propósito daquela pergunta. Olhei para ela esperando por mais, esperando por explicações que não vieram. Nossos olhos permaneceram se fitando, como se sondassem o segredo um do outro.

E então ela simplesmente sorriu para mim.

Não um sorriso qualquer. Um sorriso amplo, completo e de puro contentamento. E era meu. Apenas meu.

Observei Felicity fechar a porta, enquanto meu coração acelerava dentro do peito, era absurdo o que um simples sorriso fizera comigo.

Ela estava mudando tudo.

Notas finais
Hey! Gostaram? Eu acho que deixei bem claro que Oliver tá caidinho pela Fel né? Daqui para frente o relacionamento vai começar a evoluir realmente... Falo com vocês nos comentários ♥