War of Hearts
13 Capítulo 12 - Dream On
Notas iniciais
I know, nobody knows
Where it comes and where it goes
I know it's everybody's sin
You got to lose to know how to win
Half my life's in books' written pages
Lived and learned from fools and from sages
You know it's true
All the things you do
Come back to you
Sing with me
Sing for the year
Sing for the laughter n' sing for the tear
Sing with me
If it's just for today
Maybe tomorrow the good lord will take you away
Dream on, dream on, dream on
Dream yourself a dream comes true
(Dream on- Boyce Avenue)
Oliver Queen
Sabe aquela estranha sensação de se sentir tão feliz que não se tem certeza de que aquilo não é um sonho? Eu me sentia assim todas as vezes em que eu acordava tendo Felicity em meus braços, o que foram incríveis três vezes. Abri meus olhos encontrando os dela me olhando, aquele azul claro translúcido que sempre me fascinara. Eles costumavam conter certa dor, um pouco de medo e uma alta dose de rebeldia desde que eu a trouxera para a Rússia.
Mas não dessa vez.
Seus olhos me fitavam parecendo nada menos do que felizes e apaixonados, não havia nenhum indício de qualquer tipo de sofrimento ou tristeza ali. Ela sorriu, e a imagem ficou ainda mais bela, fazendo o meu coração acelerar em resposta ao seu sorriso cálido. Coloquei minhas mãos em sua cintura e puxei seu corpo trazendo-o um pouco mais para o meu, seu calor me embalando. Rocei meu nariz com o dela num beijo de esquimó, enquanto nossos lábios apenas brincavam de se tocar. Eu não entendia a vontade irracional que eu sentia dela, era uma fome que nunca parecia ter fim. Prendi minhas mãos em sua cintura fina, acomodando seu corpo junto ao meu enquanto eu provava de seus lábios.
Beijar Felicity sempre provocara as mais distintas e desesperadas reações em mim, mas dessa vez o beijo avassalador que eu esperava não veio. E nem por isso ele deixou de ser igualmente magnífico. Nossos lábios moviam-se um com o outro com familiaridade e calma, como se não houvesse pressa em nos amarmos, como se tivéssemos todo o tempo do mundo para isso, para apenas apreciarmos a emoção de estarmos juntos. Seu beijo me trazia serenidade e felicidade de uma forma que nunca antes pensei ser possível.
Mas cedo demais nossos lábios se separaram, embora isso não me irritasse. Eu sabia que poderia tê-los a hora que eu quisesse. Felicity não estava indo a lugar nenhum para longe dos meus braços, e eu não estava indo ficar longe dela.
— Está com fome? — Felicity perguntou, espalmando as mãos em meu peitoral e se afastando o máximo que conseguiu. Eu teria ficado incomodado se suas palavras não soassem tão malditamente doces em sua boca, se não houvesse aquele sorriso feliz brincando em seus lábios e o brilho em seu olhar.
Eu amava vê-la feliz e tão leve. Eu me perguntava para onde tinha ido todos os nossos problemas, mas eu me sentia tão bem agora, que era melhor afastar todos os pensamentos ruins e aproveitar esse momento de paz.
— Defina estar com fome, printsessa? — devolvi movendo-me para ela e puxando entre meus dentes seu lábio inferior, não escondendo o tipo de fome que eu sentia dela, fazendo-a jogar a cabeça para trás e rir alto em resposta ao meu jeito nada sutil.
Sua risada preencheu todo o quarto com sua alegria, e causando uma estranha inquietação dentro de mim.
— Não podemos, amor. — pisquei confuso por ela me negar sexo e ao mesmo tempo feliz por escutar ela me chamar de “amor”.
— Por quê? — questionei, mas antes que ela pudesse me responder alguém abria a porta, o olhar de Felicity se desviou até lá dizendo que aquela era a minha resposta.
— Mamãe, papai! Mamãe, papai! Acordem! — paralisei ao ver a pequena garotinha loira que entrava no quarto saltitante e a todo o vapor, e que agora pulava com empolgação sobre a cama. Seus olhos azuis me eram tão conhecidos, talvez porque eu estivesse olhando para um par exatamente igual aquele segundos atrás.
— Ok, pequena, já estamos indo. — Felicity disse a ela, sua voz soando macia e carinhosa enquanto ela se levantava da cama.
A pequena continuava ali, me encarando com seus olhos vivos e cheios de expectativa, prendendo completamente minha atenção. Eu ainda estava em choque, tentando compreender o significado de sua presença, tentando entender porque eu me sentia tão absurdamente encantado e apavorado com ela.
— Papai, anda logo e vem com a gente. — Eu ainda estava absorto ao escutá-la me chamar por papai. Ela era nossa. Minha e de Felicity, embora ela parecesse muito com Felicity eu via pequenos nuances meus nela. Aquilo não fazia sentido, eu disse a mim mesmo. Mas no instante seguinte eu senti a sua pequena mãozinha segurar a minha e puxar-me para fora da cama, deixei meu corpo a seguir aonde quer que ela desejasse me levar.
Por que eu sabia que ela me levaria a algo bom.
Foi neste momento em que eu percebi que era tudo apenas um sonho.
Coisas tão boas e maravilhosas não aconteciam a Felicity e a mim.
Não enquanto estivéssemos na Rússia.
***
Despertei no meio da noite ainda sentindo o gosto doce dos lábios dela sobre os meus. Ainda sentido o calor ameno, confortável e tão carinhoso de seu abraço. E havia aquele estranho sentimento que borbulhava dentro de mim quando eu olhei para a pequena menina que pulava em nossa cama, com um sorriso reluzente de orelha à orelha me chamando de papai. Era uma sensação tão boa que começava no meu coração e se espalhava por cada parte de mim, me emocionando, me fazendo corresponder ao seu sorriso. Eu me sentia mais feliz do que já tinha sido algum dia, era uma felicidade tão pura que ultrapassava toda e qualquer expectativa que eu já havia criado. Mas aos poucos aqueles sentimentos de paz e completa felicidade iam me escapando, na medida em que eu me dava conta de que tinha sido apenas um sonho.
Não tinha sido real.
Aquele pequeno vislumbre de uma vida perfeita não tinha sido real. Aliás, nem sei como me deixei ser iludido por ela tão facilmente, aquele ideal estava muito longe de se tornar realidade. Ainda que eu salvasse Felicity da máfia, eu tinha consciência de que eu tinha muito trabalho a fazer aqui e meu destino era mais do que incerto. Por mais que eu estivesse me apaixonando por Felicity cada dia um pouco mais, eu não sabia o que um futuro com ela poderia me reservar. Eu mal sabia se o que vivíamos aqui era algo pelo qual ela iria querer esperar.
Talvez o que aconteça na Rússia, fique na Rússia.
Era um pensamento amargo.
Eu tinha tão somente certeza dos meus sentimentos por ela. Eu a amava. Eu havia dito isso a ela noite passada, embora eu tenha trapaceado e dito as palavras em russo. Ela as repetiu, sem sequer ter consciência do que as palavras realmente significavam. Eu fui um grande covarde nesta hora, mas em minha defesa eu não estava acostumado a me sentir assim. Amor era um sentimento que por tanto tempo eu acreditei que estivesse fora dos meus objetivos. E de repente me vejo sendo atingindo e completamente dominado por ele, quando eu menos esperava, e possivelmente quando eu mais precisava.
É difícil ser um agente infiltrado. Eu passei tanto tempo sendo um capitão Bratva, que aos poucos eu me esquecia de quem era Oliver Queen. Eu me apeguei ao personagem que eu criei, porque assim era mais fácil sobreviver em um ambiente tão hostil quanto a máfia russa.
Mas Felicity chegou, roubando toda a minha atenção. Me fascinando com o seu jeito impulsivo, com sua força e vontade de ser livre. Cada vez em que ela me confrontava, cada vez que seus belos olhos azuis crispavam em minha direção, ela desestruturava o capitão Bratva. Ela me fazia me lembrar de quem eu realmente era, e me fazia desejar ser apenas essa pessoa quando eu estava com ela. Até que chegamos em um ponto em que ela resgatara Oliver Queen. Meus sonhos, minhas vontades, Felicity trouxe cada parte de mim de volta.
E agora havia esse desejo de ter paz, de talvez construir uma família e ser feliz, era algo completamente novo para mim, e eu não via isso ficando para trás. Ele nunca tinha estado lá antes, eu estava confortável em ser um agente que apenas cumpri a sua missão, que faz de tudo para um bem maior, pelo menos até Felicity despertar os mais diversos sentimentos em mim.
Ela me fazia querer coisas que antes eu nunca quis.
Ela despertava em mim desejos e vontades que antes eu estava feliz em ignorar. Mas que agora gritavam em minha mente e exigiam ser ouvidos.
Eu não queria voltar a dormir. Eu não queria voltar a sonhar com o que agora parecia uma realidade tão impossível de ser alcançada. Então me concentrei na única coisa boa que havia tanto na realidade quanto nos meus sonhos.
Minha printsessa.
Puxei seu corpo quente para o meu e um sorriso feliz se espalhou em meu rosto enquanto ela se aconchegava ainda mais em mim. Ela murmurou meu nome com tanto carinho e suspirou logo depois, fazendo-me pensar que eu não era o único tendo bons sonhos naquela noite.
Pelo menos uma parte daquele sonho era real. Eu tinha Felicity, por pouco tempo, mas eu ainda a tinha. Falando sobre o tempo, ele tem o péssimo hábito de passar velozmente, quando mais você quer retardá-lo. Eu mantive Felicity em meus braços o máximo de tempo que pude, mas se eu queria que ela tivesse uma chance real de sair daqui eu precisa cumprir meu papel de capitão Bratva normalmente, sem que alguém pudesse levantar alguma suspeita.
Ela ainda dormia quando com muito custo eu deixei a cama. Pousei um suave beijo em seus lábios, acariciei seus cabelos sedosos e dei uma última olhada para seu corpo tentador tão precariamente enrolado em meus lençóis.
Desejei voltar à cama, para o calor do seu corpo.
Desejei desesperadamente poder deixar essa realidade e voltar para o mundo dos sonhos, que agora eu tinha certeza seria qualquer lugar em que eu tivesse Felicity comigo.
***
Anatoly me ligou.
Sua ligação veio como um tapa da realidade, eu precisava me controlar e impedir que a forma como eu me sentia por Felicity dominasse meus pensamentos. Ele me informou sobre os procedimentos para receber seu carregamento de armas e me questionou se algo de importante havia acontecido. Me lembrei de Vladmir, de sua presença no dia anterior e como possivelmente ele tinha algum infiltrado aqui facilitando a sua entrada. E me vi numa encruzilhada.
Eu poderia dizer a Anatoly, mas isto o deixaria furioso o suficiente para voltar e descobrir qual membro traía a sua confiança. Então eu omiti. Eu precisava manter Anatoly longe para que tudo desse certo com a fuga de Felicity hoje a noite.
Eu queria tanto vê-la.
Mas eu não queria retornar ao quarto.
Eu estava sendo contraditório.
Talvez eu tenha deliberadamente a evitado durante aquele dia, porque parte de mim sabia que por mais que eu a quisesse longe daqui e segura, o inferno se fazia dentro de mim, apenas com a mera ideia de não vê-la mais. Eu pensei que a evitando durante este dia, talvez fizesse da despedida algo menos cruel, talvez aquela maldita dor esmagando meu coração fosse embora mais rápido.
Eu percebi que estava errado no momento em que abri a porta do quarto e vi, sentada sobre a cama, com os braços cruzados e parecendo nenhum pouco feliz.
— Que surpresa! — Felicity se ergueu e tentava olhar-me apaticamente, mas eu via a raiva misturada a mágoa em seus olhos — Finalmente você se lembrou de que eu existo, pensei que eu fosse ficar trancada neste quarto pelo resto da minha vida.
Eu sabia que ela estava fazendo drama, mas eu sabia também que eu havia agido errado.
— Eu sinto muito. — falei minhas pobres desculpas, recebendo um arquear de sobrancelhas.
Sentei sobre a cama e olhei para ela. Tão furiosa, tão irritada e ainda assim tão perturbadoramente linda e apelativa para mim.
— Eu não consigo fazer isso.
Me senti vacilar, deixei o peso dos meus ombros cair sobre mim, abaixando minha cabeça, levei as mãos aos meus cabelos prendendo-os em meus dedos e os puxando com certa força, na esperança de encontrar alguma solução para o meu dilema.
Eu me sentia derrotado.
Senti pequenas e suaves mãos sobre as minhas, tirando-as delicadamente dos meus cabelos. Sendo atraído por seu toque eu ergui minha cabeça e encarei Felicity. Doía olhá-la e saber que essa poderia ser a última vez.
— Oliver? Você... Hum, está arrependido de tentar me ajudar a sair daqui? Ou de nós dois? — sua voz vacilou ao dizer a última frase, aquela pequena insegurança dela transparecendo.
— Eu não... Inferno, Felicity! De onde você tirou essa ideia absurda? — peguei as mãos dela, segurando-as com as minhas. Ela não via o quão absurdamente apaixonado por ela eu estava? O quanto a simples presença dela me abalava?
— Você me largou sozinha na cama, e não apareceu durante todo o dia. Minha mente teve muito tempo de ócio para pensar nos motivos disso. — se justificou, e detectei a mágoa ali.
— Printsessa, isso não é sobre nós. É sobre mim. — comecei a me explicar, mas seus olhos faiscaram na minha direção ultrajados.
— Isso soa como uma frase pronta de término de namoro. Não é você sou eu. — desdenhou — Não que nós sejamos namorados ou algo assim, afinal quem coloca nome em uma relação que aconteceu de forma tão confusa como a nossa? — aquilo me incomodou, me ergui ficando de frente a ela disposto a esclarecer aquilo.
— Você está entendendo tudo errado, printsessa. — ela me encarou, seus olhos fitando-me em busca da verdade. Malditos olhos azuis que roubavam a minha razão e me impediam de esconder qualquer coisa dela, me faziam querer se brutalmente honesto com ela. — Isso entre nós, não é algo simples de definir, não é um namoro qualquer, não é baseado nos bons momentos que tivemos na cama. É muito mais forte do que isso. A forma que eu me sinto quando estou com você, é a melhor parte da minha vida. Você trouxe a vida de volta para mim, me mostrou luz onde só havia escuridão. — encaixei minha mão em seu rosto, enquanto meus dedos se afundavam em seus cabelos sedosos, meu polegar acariciando seu rosto. Senti Felicity suspirar, parecendo muito mais leve com minhas palavras — E eu estou completamente, enlouquecidamente apaixonado por você, printsessa, como não vê isso? — ela falhou em tentar conter o sorriso de alegria ao me escutar.
— Então por que fugiu hoje cedo? — perguntou, eu fechei meus olhos por um segundo e meneei minha cabeça.
Ela era tão teimosa.
— Eu estava fugindo sim, mas não era porque eu não queria ficar com você. Era exatamente por querer muito ficar com você que eu não apareci. — vi a ligeira confusão tomar conta de seu semblante — Eu não consigo, eu não sei como te dizer adeus. Eu não quero. Eu pensei que te evitando a maior parte do tempo, que seria mais fácil lidar com a sua ausência depois. Tudo em mim se corrói ante a mera ideia de dizer essa palavra, parece errado, eu não quero dizer adeus, mas eu preciso. Entende a porra do conflito em que eu estou? — Expliquei tudo de uma única vez, sem sequer parar para respirar entre as frases.
Felicity se aproximou um pouco mais suas mãos buscando apoio em mim, instintivamente minhas mãos desceram até sua cintura mantendo Felicity o mais próximo de mim, ela sorriu, aprovando o modo como eu a reivindicava, seus olhos pareciam mais alegres agora.
— Eu me sinto da mesma forma, Oliver. Eu não quero deixar você, eu não quero deixar o que você me faz sentir. Mas eu acho que esse sentimento me acompanhará aonde quer que eu vá. — sua voz de certa forma era como um bálsamo para mim, me acalmando, me fazendo perceber que talvez Felicity tivesse razão, o que eu sentia por ela não era algo que desaparecia com a distância, era muito mais forte e estava marcado em mim. — Isso não será um adeus, Oliver. Nós diremos um até breve.
Ela tocou de leve o meu rosto, meu coração acelerou e eu fechei meus olhos absorvendo a sensação que seu toque carinhoso transmitia, como ela me marcava com um simples gesto.
— Nós vamos encontrar o caminho um para o outro, você me prometeu.
— Printsessa... —abri meus olhos encarando os dela, eles pareciam esperançosos, eles sabiam que logo haveria um adeus, mas mantinham-se firmes e crédulos na promessa que eu havia feito.
Eu odiava fazer promessas, o futuro era incerto demais para elas. Mas por um momento, me vi pensando em meu sonho, naquela pequena perspectiva do futuro e a resposta pareceu simples.
— Eu vou cumprir essa promessa, não importa o que fique no meu caminho. Eu irei até você e ficaremos juntos.
— Então eu prometo que vou esperar por você. — prometeu de volta, sua promessa emocionando-me de uma forma indescritível. — E se você demorar demais, eu te encontro no meio do caminho.
— Printsessa... — sussurrei seu apelido antes de selar a promessa com um beijo em seus lábios. Eu pretendia manter aquilo suave e sobre controle, eu havia sido um tolo por evitá-la a maior parte do dia e só aparecer tão somente quando já anoitecia, e agora eu tinha ainda menos tempo com ela.
Mas meu autocontrole ruía quando eu estava com Felicity.
O que deveria ter sido simples, logo se transformou em puro desespero e saudade antecipada. Eu puxei seu corpo para mim, acomodando suas curvas femininas em meu corpo, sentindo cada parte delas sob minhas mãos sedentas por sentir a maciez da sua pele. Eu beijei Felicity como um homem desesperado, mesclando sua respiração com a minha, sugando seus lábios, mordendo e tomando cada parte dela que ela estava disposta a me dar. Eu a beijava como alguém que havia encontrado o amor e queria mantê-lo vivo a todo e qualquer custo.
Dei passos me movendo com ela para trás, até alcançarmos a cama. Deitei seu corpo sobre o colchão colocando o meu sobre o dela, sem em nenhum momento parar de beijá-la, apreciando como nossos corpos já se conheciam e se encaixavam com naturalidade um no outro. Eu precisava mais uma vez sentir aquela conexão, sentir que estávamos juntos.
Meu coração não batia, ela retumbava dentro do peito em pura satisfação por estar com Felicity. E eu queria parar o maldito tempo agora, queria que tudo ao nosso redor congelasse e restasse apenas nós dois. Queria que não houvesse medo ou pressa em amar.
— O que foi isso? — a voz de Felicity soara afobada contra meus lábios, quebrando o nosso momento quando um irritante barulho semelhante a um zumbido se fez presente.
— Der’mo— praguejei em russo assim que retirei o celular do bolso e vi a mensagem ali. Meu tempo com ela estava acabando. — Eu sinto muito, printsessa. Mas está na hora de você ir.
Ela fechou os olhos escondeu o rosto em meu pescoço e respirou profundamente, assimilando aquelas palavras.
— Eu não quero, eu quero ficar com você. — falou baixinho demais, mordendo o lábio inferior parecendo receosa, quase como se aquele fosse um segredo entre nós dois. Uma parte de mim ficou exultante por ela querer permanecer comigo e enfrentar toda a máfia russa se fosse necessário.
— Eu vou encontrar meu caminho até você. — a lembrei da promessa sorrindo tristemente enquanto acariciava seu rosto com delicadeza e limpava a pequena lágrima quente que escorria por um de seus olhos.
Um peso se formou em meu peito. Felicity raramente chorava. Em todo o tempo em que passou presa aqui, ela segurou cada pequena lágrima no intuito de se mostrar forte, de esconder o que verdadeiramente sentia, ela jamais permitiu que os momentos ruins se abatessem sobre ela. Essa era primeira vez que ela se mostrava mais vulnerável, que ela se mostrava para mim.
E tudo o que eu via em seus olhos tristes e cheios de lágrimas era o quanto ela se importava comigo.
***
Eu apertava a mão dela tão firmemente na minha que eu tinha medo de estar a machucado. Mas Felicity não reclamou nenhuma vez, pelo contrário, seu aperto era igualmente forte, ela se segurava a mim como se eu fosse alguém que ela não desejava deixar ir.
Eu estava com ela em um canto mais escuro do quintal, próximo a algumas árvores. Eu havia solicitado que Diggle estacionasse o caminhão perto, de modo que a maioria das árvores desse cobertura a Felicity quando ela tivesse que correr e se esconder dentro dele.
— Printsessa... — falei o pequeno apelido que eu lhe dera de forma carinhosa, aquela era possivelmente uma das últimas vezes que eu a chamaria assim.
Felicity parecia consciente disso também, pois exalou um longo suspiro precedido de um sorriso sorrateiro ao ouvi-lo. Movi minha mão que não segurava a dela para seu rosto mantendo-o tão próximo que o gosto da respiração dela me atormentava, me fazia desejar inclinar e provar seu gosto. Eu queria tanto ser capaz de me perder dentro dos seus olhos que me fascinaram desde a primeira vez, mas estava escuro demais para isso. Talvez assim fosse melhor, me permitia ao menos um controle maior das minhas emoções.
— Eles estão acabando de descarregar o caminhão, eu preciso ir. Eu vou conferir a mercadoria, e enquanto eu estiver fazendo isso eu quero que você corra até o caminhão e se esconda lá dentro. Eu irei checá-lo e trancar você lá, e assim que Diggle sair pelo portão você será livre outra vez. — informei. Será que ela percebia o quanto minha voz estava embargada? — Printsessa? Você está pronta?
Felicity apenas assentiu, respirando de forma alterada. Ela estava nervosa, e eu precisava que ela se acalmasse para que tudo desse certo. Aproximei meu corpo do dela pressionando seu corpo contra a parede. Meus lábios instintivamente encontraram o caminho para os delas e se moveram vagarosamente, querendo acalmá-la. Mas inferno! Bastou sentir o gosto dela novamente para eu querer muito mais do que eu poderia e deveria tomar agora. Esse era para ser um beijo calmo e cálido, um beijo simples que a lembrasse de que eu estava aqui, a protegeria e que apesar de ser um adeus, nós nos veríamos outra vez.
Era para ser um beijo esperançoso.
Um ofego desejoso saiu de seus lábios, mesclando nossas respirações, nossas línguas se tocaram, não com a ânsia e vontade de sempre, mas com uma apreciação lenta, como se quisessem memorizar o gosto uma da outra, e transformar esse momento em uma memória permanente. E o que o que deveria ser um beijo simples se tornou algo marcante.
Todo o meu corpo se concentrara naquele beijo. No gosto, no cheiro, nas sensações do tato, no meu coração acelerado. Cada um dos meus sentidos estava mais aguçado e concentrado naquele momento que ambos queríamos que durasse para sempre.
Mas nada do que é bom dura para sempre.
Pelo menos, não na máfia russa.
Escutei algumas frases irritadas sendo proferidas em russo. Xingamentos e meu nome sendo dito várias vezes por mais de uma pessoa.
— Eu preciso ir. — me afastei de Felicity, eu precisava ir antes que minha ausência se tornasse suspeita demais e colocasse todo o plano em risco. — Até breve. — eu disse, me negando a dizer o fatídico adeus.
— Oliver... — a voz de Felicity foi hesitante, embora o aperto em minha mão me impedindo de ir tenha sido firme — Obrigada por tudo. — assenti, eu não precisava que ela me agradecesse — Eu sei que essa pode ser a pior hora para te contar isso, mas eu não poderia ir sem que você soubesse. — fiquei apreensivo pelo nervosismo em sua voz — Eu amo você. Eu amo você, Oliver Queen.
Meu coração falhou uma batida.
— Capitain Queen. — Alexis Lenov me chamava ele parecia ter identificado minha silhueta em meio as sombras, eu não poderia ignorá-lo ou ele poderia vir até onde eu estava com Felicity e seria uma grande merda.
— Printsessa... — eu precisava dizer a ela, o quanto eu a amava também, mas principalmente o quanto eu era grato por ela me amar de volta, parte de mim sabia que eu não a merecia.
— Vá, Oliver. — ela pediu e eu fui. Ainda desnorteado demais com a declaração dela, ainda feliz por saber que ela me amava e ao mesmo tempo puto demais com toda a situação que me impedia de ficar com ela.
Eu demorei um pouco mais do que deveria conferindo se todo o carregamento de Anatoly estava em ordem, apenas para dar mais tempo a Felicity. Eu fui o único a notá-la se esgueirando e entrando na parte de trás do caminhão, eu tomei o cuidado de garantir que cada um dos soldados de Anatoly estivesse longe o suficiente, concentrado em outra tarefa ou ainda de costas para o caminhão.
Quando eu terminei o trabalho, eu caminhei nervosamente até onde ela estava e fingi que checava se estava tudo em ordem.
— Eu a amo também, printsessa. — falei ainda que para a escuridão, mas eu sabia que ela estava ali, eu sabia que ela estava ouvindo e isso era o que importava para mim. Eu coloquei a mão em umas das portas, estava pronto para fechar quando escutei os passos dela lá dentro, se aproximando de mim e vindo para uma parte onde um dos postes de luz iluminava precariamente. Sorri ao vê-la mais uma vez, ao ver a felicidade com que ela recebera minhas palavras.
Meu coração se alegrou ao perceber que essa seria a minha última lembrança dela.
Mas algo estava errado, o semblante feliz dela não durou muito sendo substituído por verdadeiro terror logo em seguida. Eu iria questionar o que havia de errado, mas eu soube a resposta assim que senti um aperto forte em meu ombro e um sopro de ar gélido de uma respiração atrás de mim.
— Parece que você fez um bom trabalho encontrando uma pequena fugitiva, não é mesmo, Oliver? Vai me explicar o que está acontecendo ou terei que usar de métodos menos ortodoxos, porém muito mais divertidos?
Anatoly.
Não virei e o encarei. Meus olhos ainda estavam presos em Felicity, minha mente ainda tentando encontrar uma saída para ela. Eu não me importava com o que poderia acontecer comigo, mas eu estava aterrorizado com o que Anatoly poderia fazer a ela como punição.
Lancei um olhar por cima do ombro, apenas para encarar uma dúzia dos homens de Anatoly logo atrás dele. Não dava para sequer tentar agir, um movimento meu e logo estaríamos todos mortos.
Felicity parecia ciente disso também.
— Não pode me condenar por tentar fugir, papai. — Felicity devolveu com sarcasmo e raiva, voltando a agir como a garota destemida que me fascinava. — Não é como se eu recebesse um tratamento cinco estrelas aqui. — Lancei um olhar desesperado, nós dois tínhamos sidos pegos num momento crucial e ela ainda brincava com a paciência de Anatoly. Será que ela não sabia que não se deve atiçar o leão quando você está preso na jaula com ele?
— Anatoly, eu posso explicar... — Só que eu não podia, e antes que eu pudesse pensar em algo, Felicity me atropelou.
— Você tem sorte de que seu soldado aqui foi esperto o suficiente para me pegar, ele não terá sorte da próxima vez.
O quê ela disse?
Não.
Não.
Não.
Felicity não podia fazer isso.
Ela estava tentando me acobertar para me proteger. Isso era errado, era suposto que eu a protegesse e não o contrário. E aparentemente, para o meu desespero Anatoly estava acreditando nela, seu aperto opressor em meu ombro se desfez e ele deu um passo a frente ficando ao meu lado, impondo sua presença intimidadora à Felicity.
— Oh, querida, não haverá uma segunda vez, você só sairá desta casa quando eu assim desejar. — a voz de Anatoly era calma e polida demais, o que me dizia que ele não estava pensando em nada que fosse meramente bom. — Eu sinto muito se você se sentiu negligenciada, eu vou mostrá-la como tratamos os nossos hóspedes mais especiais, sobretudo você que é família. Eu tenho certeza que depois de hoje, você não pensará mais em fugas, apenas me obedecerá de bom grado.
A ameaça de Anatoly era clara, ele não seria condescendente dessa vez. Nada de punir Anne em seu lugar, Felicity receberia a punição diretamente. Meu sangue congelou em minhas veias, eu precisava encontrar uma forma de impedir aquilo e eu tinha que ser rápido.
— Agora desça desse caminhão, ou eu mesmo irei até aí e começarei o seu castigo mais cedo. — ordenou.
Felicity desceu do caminhão com o queixo erguido e imediatamente fiz menção de ir até ela, eu precisava segurar a sua mão, estar ao lado dela, eu apenas precisava senti-la ou sentir qualquer coisa.
Mas Felicity meneou quase que imperceptivelmente a cabeça para mim. Eu sabia o que ela estava dizendo, eu sabia que ela estava certa. Eu não deveria agir. Eu era a única chance dela sair daqui um dia, se eu me revelasse agora, o futuro de Felicity estaria perdido para sempre.
Merda de escolha impossível.
Eu pensei que era capaz de manter meu sangue frio e ser racional dentro da máfia russa, e por um longo tempo foi tudo o que fiz. Mas eu não conseguia suportar a ideia de ver a mulher que eu amo ser machucada, meu sangue fervilhava, as emoções dominavam, eu estava prestes a tomar uma atitude impulsiva.
Mas o olhar suplicante de Felicity para mim me fez recuar.
Eu tive que lutar contra todos os meus instintos ao ver Anatoly segurando-a rudemente pelo pulso e a puxando com ele. Fiz menção de acompanhar Anatoly, talvez eu pudesse fazê-lo pensar em uma punição menos severa, mas ele me deteve.
— Oliver, termine o seu trabalho que eu terei uma longa conversa com minha adorável filha. — comandou — Eu conversarei com você mais tarde sobre esse lapso de deixá-la quase escapar.
Eu não podia dizer não a Anatoly, e me expor. Eu não podia permitir que aquele homem fizesse Felicity sofrer. Eu não podia me sentar e aceitar aquela derrota! Mas porra, eu não conseguia encontrar a merda de uma solução.
Felicity sofreria, e eu não conseguiria evitar.
A culpa, o sentimento de impotência tudo isso me corroía por dentro. Eu era o bastardo que havia trazido ela para cá e era incompetente demais para salvá-la.
***
Meus passos eram tão fortes e urgentes que eu temia estar fazendo buracos pelo piso onde meus pés pisavam. Eu cheguei ao quarto de Felicity quase uma hora depois de termos sido pegos. Eu tentei chegar antes. Eu fiz de tudo para chegar antes, eu liberei Diggle, ele já havia percebido que havia dado merda e eu achei melhor tê-lo fora dali antes que algo recaísse sobre ele, não que fosse provável ele era apenas um motorista. E então corri até ela, apenas para me deparar com os dois soldados de Anatoly novamente parados a sua porta.
Eu escutei sons que vinham do seu quarto e me deixaram desesperado, eu tentei entrar, mas fui impedido. E tão logo Anatoly saiu de lá, ele recolheu a cópia da chave do quarto dela que estava comigo trancando-a.
Ao menos assim eu estava livre dos dois postes parados a porta do quarto dela.
Antes que pudesse checar Felicity eu ainda fui levado ao escritório de Anatoly onde fui repreendido por ter a deixado sair do quarto e quase fugir. Ele ressaltou o quanto ele perderia na negociação com Vladmir. Eu apenas aceitei todas as merdas que ele me disse e devolvi frases prontas que expressavam um respeito vazio e diziam que meu erro não voltaria a se repetir, meu cérebro não estava processando muito, eu mal conseguia ficar sentado me fazendo de impassível em frente aquele ser tão vil. Tudo em mim apenas se concentrando em Felicity, querendo chegar até ela e verificar se estava bem.
— De agora em diante, ser, eu prometo que cuidarei da vigilância da sua filha pessoalmente, no que depender de mim ela não irá dar um passo sem que eu seja a sombra dela. — ofereci, sabendo que esse era o único jeito de me aproximar dela.
— Eu aprecio o gesto, apenas certifique-se que a garota não me causará maiores danos. É provável que eu a mantenha trancada até que esse maldito casamento saia. — seu semblante pensativo me assustou de uma forma que eu não pensei ser possível, ele elaborava algum plano, e não iria me dizer nada sobre isso. — Vá, eu tenho algumas coisas para ponderar. — Me dispensou sem me despender um olhar sequer, não que eu me importasse, eu deixei o escritório e segundos despois eu estava a porta do quarto de Felicity.
— Printsessa? — chamei ao mesmo tempo em que deixava suaves batidas à porta— Por favor, me diga que está bem, me diga que ele não a machucou. — deixei meus medos mais urgentes saírem — Não me deixe surtando, ou eu não responderei por meus atos. Eu colocarei a porta abaixo em segundos se você não me responder. — falei aflito, mas não recebi uma resposta, eu estava pronto para arrombar a porta, os piores pensamentos me alcançando. E se ele a tivesse machucado tanto que agora ela estivesse inconsciente? Eu mataria o desgraçado, não importa o que me acontecesse, eu iria fazê-lo pagar por encostar um dedo que fosse na minha printsessa.
O barulho de trinco sendo girado me acalmou um pouco e me impediu de tomar uma atitude precipitada.
Graças a Deus ela ainda tinha a chave que eu havia lhe dado.
Ela abriu a porta vagarosamente e entrei no quarto, meus olhos indo imediatamente para ela. Meu coração partindo em vários pedaços.
Eu queria abraçá-la.
Eu queria segurá-la em meus braços e lhe dar tão somente amor.
— Ele te machucou. — levei minha mão querendo tocar o rosto dela, mas a recolhi temendo que meu toque fosse machucá-la ainda mais.
— Não é nada. — deu de ombros trancando a porta atrás de si.
— O inferno que não é! — gritei alto demais, jogando minha raiva erroneamente para ela — Você não deveria ter feito isso, eu não deveria ter deixado você assumir a culpa por isso, eu deveria...
— O quê? Enfrentado Anatoly? Você estaria morto em menos de dois segundos se o tivesse feito, Oliver. — me repreendeu, sua mão tocando em meu braço tentando me acalmar, mas seu pulso estava arroxeado lembrando-me da forma rude que Anatoly a arrastara.
Ergui meus olhos para o rosto dela, analisando os sinais da agressão que faziam meu sangue ferver. A bochecha estava avermelhada e havia um corte em seu lábio superior, que ainda sangrava e outro corte pequeno sobre a maça do rosto dela.
— Parece muito pior do que realmente é. — eu sabia que Felicity estava certa, eu já havia testemunhado a fúria de Anatoly vezes de mais para saber que ele havia pegado muito mais leve com ela. Mas ainda assim, qualquer mínimo arranhão nela me enlouquecia. — Anatoly sabe que me agredir não é a melhor maneira de me fazer cooperar.
— Eu sinto muito, printsessa. — minhas desculpas soaram pobres na minha voz embargada pelo choro que se misturava a raiva. — Eu nunca deveria ter te trazido para cá, eu sou culpado...
— Não. — Felicity me cortou, suas mãos se colocaram ao redor do meu rosto exigindo que eu olhasse para ela. — Você não irá remoer isso outra vez, o único culpado é Anatoly.
Eu vi além dos hematomas em seu rosto, eu vi além da dor em seus olhos, Felicity era forte, não importa o que a atingisse ela sobreviveria.
— Obrigado. — falei mais calidamente. — Eu deveria estar aqui, livrando você dos seus monstros, te acalmando e te dizendo que tudo vai ficar bem e é justamente o contrário que está acontecendo. É você quem está me acalmando. — Ela esboçou um sorriso, que se seguiu de uma careta e um pequeno grunhido de dor, que me fez a raiva ferver dentro de mim — Vem comigo e me deixe cuidar de você. — Segurei a mão dela o mais suavemente que consegui, e a levei comigo até o banheiro.
Coloquei Felicity cuidadosamente sentada sobre a bancada da pia do banheiro enquanto eu estava de pé a sua frente, nossa posição me lembrando de outro momento em que estivemos exatamente assim. Mas eu iria unicamente cuidar dela dessa vez. Peguei o kit de primeiro socorros e comecei a limpar o ferimento em seu lábio, aplicando um pouco de álcool para evitar que infeccionasse. Cada fez que o corpo dela arqueava para trás em reação ao meu toque ainda que suave sobre os ferimentos, era como levar um soco no estômago.
Me desvencilhei dos olhos dela que insistiam em procurar os meus e segui cuidando dela, tratando um a um de seus machucados, assegurando-me de que eles não tinham sidos tão graves e que ela teria uma recuperação rápida.
— Você está calado. — ela comentou enquanto eu aplicava uma loção para aliviar a dor no pulso dela e massageava o lugar com suavidade.
— Seria bom conseguir um pouco de gelo para seu lábio não inchar. — comentei, sem olhá-la, apenas queria preencher o silêncio já que ela parecia incomodada com isso.
— Está tentando conter a raiva? — sua mão tocou meu braço me impedindo de continuar enquanto eu não a respondesse.
— Eu estou tentando conter muita coisa. — resmunguei apenas.
— Eu não gosto de te ver assim, tentando ser inflexível e insensível. — ergui meus olhos para ela, eu estava sendo qualquer coisa menos insensível, era por sentir demais que eu estava me contendo, ela pareceu pegar isso em meu olhar — Sinto muito. Eu apenas me incomodo um pouco quando você está no modo capitão Bratva, eu fico um pouco temerosa de perder o meu Oliver.
Sorri para ela ao escutá-la me chamar de seu.
Meu sorriso era dela.
Meu coração era dela.
Eu era dela.
Inteiramente.
Completamente.
— Eu estou preocupado, printsessa. — revelei — Preocupado de que eu não consiga te tirar daqui, preocupado de falhar em te proteger e que você seja machucada novamente. Preocupado de não ser bom o suficiente para você.
— Você é mais do que suficiente para mim, Oliver. Você é necessário. — Felicity colocou a mão eu meu rosto, atraindo-me para ela, seus braços me abraçaram, seu corpo se acomodou ao meu com certa familiaridade. Fechei meus olhos encostando minha testa com a dela, e ficamos assim por um longo tempo, apenas juntos, respirando a exalação um do outro, apenas aproveitando o fato de que apesar dos pesares, nós estávamos juntos.
Apenas respirar nunca pareceu tão bom.
Houve um barulho ensurdecedor vindo do quarto dela, e imediatamente Felicity enrijeceu em meus braços, e em resposta a isso eu a segurei ainda mais firme. Batidas abrutas e insistentes estremeceram a porta do banheiro.
— Eu já decidi qual será sua punição, querida. Saia desse banheiro e a aceite como a garota corajosa que você gosta de ser.
Raiva queimou em minhas veias. Era Anatoly.
— Eu posso lidar com ele, Oliver. Por favor, fique aqui. — ela pediu numa voz baixa em meu ouvido. Inferno, eu não podia deixá-la ir. — Por favor, Oliver. — seus olhos me fitavam suplicantes, e eu me odiei por ceder à ela.
— Eu não sou conhecido por minha paciência. — Anatoly continuou a porta.
— Se ele tocar em você outra vez, eu não posso assegurar que vou me controlar. — Avisei, e Felicity assentiu descendo do balcão, esperou que eu me escondesse no box e então caminhou para fora fechando a porta do banheiro atrás de si.
Eu estava me segurando, se eu ouvisse qualquer coisa, um mínimo gemido de dor vindo de Felicity eu deixaria aquele banheiro e arrebentaria a cara de Anatoly, eu estava pouco me importando com a minha missão, ela passara a ser cuidar de Felicity no instante em que eu me atrevera a colocar meus olhos sobre ela, e a reivindicar como minha.
Mais cedo do que eu esperava Anatoly partiu. Eu escutei o barulho da porta do quarto sendo fechada e eu esperei por Felicity, e como ela não veio, eu me arrisquei a sair do banheiro. Ela estava parada de pé no meio do quarto, olhando fixamente para a porta.
— O que aconteceu? — questionei, analisando-a em busca de qualquer ferimento que fosse e me preocupando com a lividez em seu rosto. — Ele lhe disse algo? Como ele te machucou? Felicity, fale comigo. — pedi buscando sua mão a lembrando que eu estava aqui para ela.
— Anatoly sabe que suas agressões físicas não funcionam comigo. Ele encontrou uma nova forma de me punir.
— Como?
— Aparentemente eu vou me casar dentro de quinze dias.
Os olhos dela deixaram a porta e vieram até mim. Suspirei ao ver o medo, a aflição e tantos outros sentimentos ruins em seu olhar, eu tinha certeza que os meus refletiam as mesmas emoções conturbadas e desesperadas.
— Nós vamos encontrar um jeito, printsessa. — a abracei, mantendo seu corpo pequeno junto ao meu, enquanto deslizava minhas mãos em suas costas. Para ser honesto, eu não sabia quem estava acalmando quem, eu acho que no fim não importava, porque quando nos abraçávamos era o único momento em que tínhamos certeza que ainda tínhamos algo bom, apesar de tudo ao nosso redor desmoronar.
Nesse momento tão sombrio eu me lembrei do sonho feliz que eu havia tido aquela noite, e o qual eu me atrevi a pensar que poderia ser a perspectiva de uma vida que eu poderia ter com Felicity no futuro. Aquele sonho parecia tão distante agora, praticamente inalcançável.
Mas ainda assim, aquela vontade de viver o sonho e que dessa vez ele fosse real e não apenas uma ilusão da minha mente, era isso o que me motivava, me dava forças para lutar. Eu ainda não sabia como faria para resolver tudo, mas eu não desistiria sem tentar.
Eu iria até o inferno para fazer aquele sonho ser real.
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