War of Hearts
6 Capítulo 5 - Sweet Nothing
Notas iniciais
You took my heart and you handed in your mouth
And with the word all my love came rushing out
And every whisper it's the worst
Empty though by a single word
There is a hollow in me now, me now, me now
So I put my faith in something unknown
I'm living on such sweet nothing
But I'm tired of hope with nothing to hold
I'm living on such sweet nothing
And it's hard to learn
And it's hard to love
When you're giving me such sweet nothing
Sweet nothing
(Sweet nothing — Calvin Harris feat. Florence Welch)
Felicity Smoak
Deixei meu corpo deslizar atrás da porta até me ver sentada ao chão. Puxei meus joelhos para meu peito e encostei minha cabeça sobre eles. Abracei minhas pernas com meus braços e finalmente derramei todas as lágrimas que por tanto tempo eu segurei em minha tentativa de me fazer de forte, de esconder a dor que eu sentia. Eu não sei dizer por quanto tempo eu fiquei ali naquela posição, mas foi o tempo necessário para colocar tudo para fora, o tempo necessário para lamentar tudo aquilo que fazia meu coração sangrar por dentro.
Eu chorei por Anne, a garota tímida que tinha sido nada menos do que gentil comigo, e que agora deveria estar em alguma parte dessa casa agonizando de dor e morrendo de medo. Por minha culpa, porque eu tinha um pai completamente sádico e insano que acreditava que puni-la na minha frente era o melhor meio de me fazer obedecê-lo.
Chorei por mim. Porque eu não fazia ideia de como me livrar do que o futuro me esperava se eu continuasse aqui. Eu não suportaria ver Anne ou qualquer outra pessoa sendo machucada na minha frente outra vez, mas tão pouco eu poderia abaixar a cabeça e fazer todas as vontades sórdidas do meu pai, o que incluía me casar com o porco asqueroso que era Vladmir.
E quando eu pensei que já não havia mais motivos nem lágrimas para chorar, eu surpreendentemente chorei por Oliver. Chorei pelo homem bom que eu insistia em ver escondido atrás da expressão séria e do olhar taciturno. Chorei porque saber que ele havia compactuado com a atrocidade de hoje me enojava por dentro. E chorei, ainda mais porque ele admitiu ter feito isso por mim, porque de seu modo errado ele estava tentando me proteger, embora nada disso mudasse a perversidade da coisa.
Chorei ainda mais, porque eu sabia que havia uma parte de Oliver — uma grande parte dele eu deduzi — que se importava verdadeiramente comigo, que apesar de ter sido ele a me trazer a esse inferno, ele tinha sido o único até o momento que me tratava com o mínimo de respeito, ele me via como uma pessoa e não uma mercadoria.
Lembrei-me do beijo. Da forma como ele havia perdido completamente o controle quando me tomou em seus braços, e principalmente do fato de que eu, embora surpresa com a intensidade do que estava acontecendo, em nenhum momento recuei ou pedi para que ele parasse.
Eu havia desejado aquele beijo também.
Infelizmente, havia uma parte de mim, muito maior do que eu gostaria de admitir, que queria ser capaz de remover a frieza de seus olhos, que desejava tentar trazer o homem bom, que eu ainda acreditava que existia dentro dele.
Eu era uma tola.
Mamãe costumava me dizer que meus tipos de namorados eram sempre os emocionalmente quebrados e problemáticos, eu sempre tentava curá-los ou consertá-los de alguma forma, mas no final eu era a única que sempre saía magoada nesse tipo de relação.
Pensar em minha mãe trouxe um pequeno sorriso em meu rosto. O que ela diria se me visse sentada ao chão me lamentando por todos os meus problemas, ao invés de tentar buscar uma maneira inteligente de sair deles? Donna Smoak ficaria decepcionada, ela não havia me criado para ser fraca, muito menos uma desistente.
Respirei fundo várias vezes e controlei meu choro compulsivo, que aos poucos ia se reduzindo a apenas um lamento. Sequei as lágrimas com as costas das mãos e esperei o aperto em meu coração se abrandar um pouco. Levantei-me do chão e andei de um lado para o outro do quarto tentando ter uma ideia remotamente boa. Andei em círculos por tanto tempo que era provável que eu estivesse fazendo buracos no carpete. Parei por um momento ao escutar barulhos que pareciam vir do lado de fora da mansão, corri até a janela do quarto, me surpreendendo por já estar escuro, porém ainda assim consegui ver a chegada de quatro caminhões fechados que estacionaram na parte de lateral da mansão. Vários homens deixaram seus postos de vigia e se deslocaram até lá para ajudar a descarregar caixas e mais caixas dos caminhões.
Seria um momento perfeito para escapar, já que todos pareciam tão ocupados em descarregar a mercadoria. Ninguém notaria uma garota se esguelhando pelas sombras ao redor do muro, seria perfeito, mas eu me lembrava da ordem de Anatoly para que Oliver me deixasse trancada no quarto.
— Porcaria de porta! — reclamei aborrecida forçando a maçaneta.
Para minha completa surpresa a porta se abriu. Oliver não a havia trancado, ele deve ter se esquecido.
Meu coração acelerou dentro do peito quando coloquei um pé para fora, no corredor. Ele estava completamente vazio. Não havia guardas em minha porta, não havia nem mesmo um som sendo feito. Eu comecei a andar cautelosamente, ainda não acreditando na sorte que eu tinha. Tentei refazer o caminho que tinha feito com Oliver naquela manhã e que eu sabia passaria pela sala de estar. Sim, eu sairia dessa mansão e ainda seria pela porta da frente! Rezei a todo momento para que não houvesse ninguém de guarda nos corredores ou na porta, e para minha sorte a casa parecia silenciosa e vazia por dentro. Eu ainda estava incrédula quando abri porta e finalmente me vi do lado de fora daquela mansão gigante, porém tão confinadora.
Eu gostaria de dizer que a primeira sensação que tive ao deixar a casa tinha sido liberdade, que era bom respirar ar fresco novamente ou que por um momento a garota de Vegas em mim se viu deslumbrada com os pequenos flocos de neve que caiam sobre ela. Mas longe disso, o que eu senti mesmo foi frio, me congelando das pontas dos dedos até os fios dos meus cabelos, eu vestia nada mais do que jeans e uma fina blusa de mangas compridas. Mas entre morrer de frio e ficar para ser a nova esposa de Vladmir Dashkov, eu acho que a escolha era bem óbvia! Hipotermia sempre me pareceu uma morte não muito dolorosa. Além disso, talvez a adrenalina da fuga que mantivesse aquecida.
Me arrastei pelas laterais da casa, buscando ficar sempre nos cantos mais escuros. Tentei encontrar um modo fácil de sair, porém os muros eram altos demais para serem escalados, e o portão principal contava com dois homens e suas metralhadoras em suas mãos. Eu tinha tido sorte até o momento, e basicamente agido por impulso, mas algo me dizia que sair correndo por aí em direção a saída mais óbvia seria uma péssima ideia.
Pense Felicity! Ordenei a minha mente cansada. Eu era uma garota inteligente, por que quando eu mais precisava da ajuda do meu cérebro ele se recusava a trabalhar?
Observei de longe os homens descarregando o conteúdo de um dos caminhões que a essa hora já estava quase vazio. Se eu fosse rápida talvez eu conseguisse me enfiar dentro dele, o que me colocaria muito mais longe daqui do que se eu simplesmente saísse correndo a esmo.
É. Essa era a melhor saída, conclui.
Me aproximei um pouco mais, mantendo-me oculta nas sombras de um arbusto alto. A distância entre mim e o caminhão não era tão grande, alguns poucos metros, o problema era que correr até ele me deixaria exposta, eu teria que ser rápida e encontrar o momento perfeito em que ninguém estivesse olhando. Para minha sorte, após terminarem de descarregar o caminhão todos os homens se concentravam em descarregar os outros três, deixando apenas dois deles conferindo as caixas mercadoria.
Um deles retirou algo escuro de dentro das caixas. Era uma arma, percebi quando o homem a segurou em suas mãos testando o peso e em seguida mirou em minha direção, meu coração palpitou e me assustei quando escutei a pequena explosão. Dei um pulo para trás, levando a mão a boca na tentativa de reprimir um grito horrorizado, ele havia atirado e acertando uma árvore próxima a mim.
— Pridurok! — o segundo homem esbravejou parecendo muito irritado, e acertando tabefe na cabeça do outro.
Eles começaram a discutir em russo. Estavam distraídos o suficiente para talvez não me notarem, essa era a minha hora. Respirei fundo, me preparei para correr e movimentei meus pés.
Mas eu simplesmente não saí do lugar.
Algo me ergueu pela cintura e me colocou contra a parede.
Algo não. Alguém.
— Você está tentando se matar? — sua voz era baixa e meio rouca, mas ainda assim era impossível não notar o tom de raiva e repreensão presentes nela.
Era Oliver. Fechei meus olhos, eu não estava pronta para vê-lo ainda, não queria encarar seus olhos frios como dois icebergs. Minha mente ainda estava revoltada demais com tudo o que aconteceu aquele dia, com a parte feia de Oliver que ela havia conhecido.
— Me solte! — protestei, suas grandes mãos ainda seguravam firmemente em minha cintura, tornando impossível que eu me movesse. Ele estava próximo demais, sua respiração fria batia contra meu rosto e me fez estremecer violentamente.
— Meu Deus! Você está congelando, até seus lábios estão ficando azuis. — Oliver falou alarmado, sua mão veio até meu rosto, seu polegar tocando meu lábio inferior com uma suavidade da qual eu pensei que ele fosse incapaz. Estremeci novamente, sem saber se era de frio ou por causa de seu toque quente.
— Eu estou bem. — falei sentindo meus dentes baterem, revelando a mentira.
— Vista isso. — ele simplesmente ordenou, retirando o casaco que vestia.
— Qual o seu problema que está sempre me oferecendo suas roupas? — Oliver me ignorou propositalmente, e logo em seguida senti deslizar o pesado casaco sobre os meus ombros. Instantaneamente meus músculos relaxaram, contive um gemido de prazer ao sentir o calor dele se espalhar por mim. Maldito corpo traidor!
— Agora me diga o que você estava tentando fazer, printsessa? — Oliver questionou.
— Fugir! Não é óbvio? — devolvi com escárnio. — Eu pretendia entrar e um dos caminhões, se você me soltar agora talvez eu ainda tenha uma chance. — tentei soar mais suave, mas tudo o que saiu foi um pedido meio desesperado.
— Você seria pega em menos de três segundos. — Era consternação o que eu escutei em sua voz?
— Eu sou rápida. — me apressei em justificar, ainda tentando convencê-lo a me deixar ir. — Por favor, Oliver, me deixe ir! — Sim, eu vergonhosamente supliquei.
Oliver meneou a cabeça, um pequeno sorriso triste pendeu em seus lábios. Sua voz, quando finalmente disse algo a mim, foi delicada e condescendente como se dissesse à uma criança que papai Noel não iria vir esse ano.
— Há homens nos telhados com ordens de atirar em tudo o que se mova rápido demais, ainda que eles não a notasse e você conseguisse se esconder dentro do caminhão, tudo o que entra ou sai daqui é minuciosamente revistado. — apontou em direção ao portão principal por onde um dos caminhões saía, mas antes de sair foi completamente aberto e revistado pelos dois homens com metralhadoras — Eles te achariam, e eu não sei se seu pai concordaria em punir Anne novamente por suas transgressões. — estremeci ao me lembrar do rosto de Anne, agora marcado pela crueldade de Anatoly — Acredite em mim quando eu te digo, o que você viu hoje cedo não foi nada nem remotamente perto do que seu pai é capaz de fazer, printsessa.
— Eu não tenho medo do que ele pode fazer a mim. — retruquei erguendo o queixo desafiadoramente.
— Eu vejo isso. — algo queimou por trás das íris azuis sempre tão frias — Você vai me colocar em tanta confusão aqui. — Ele estava quase sorrindo quando disse isso, mas então ele virou a cabeça para o lado, observando algo e seu semblante mudou, ficando muito mais duro e urgente. — Esconda a sua cabeça na curva do meu pescoço, e tenha certeza que seu cabelo esta cobrindo o seu rosto.
— O quê? Por quê? — questionei, eu não queria ficar tão perto dele ainda mais quando Oliver ainda era uma grande incógnita para mim.
— Faça o que eu digo. —eu teria ignorado a ordem se não tivesse detectado certo medo em sua voz, e a forma urgente em que ele pressionou seu corpo contra o meu prensando-me na parede. Foi impossível não comparar com o momento em que ele me beijou, mas dessa vez, embora eu sentisse toda a extensão do corpo dele contra o meu, Oliver estava controlado e não fez nenhum movimento que demonstrasse sua vontade de me beijar novamente, pelo menos nenhum movimento intencional.
— Kapitan Oliver Queen. — escutei uma voz masculina dizer em um sotaque russo carregado, e gelei escondendo ainda mais meu rosto contra o pescoço dele. Inferno, para meu completo desespero seu cheiro másculo entrou por minhas narinas deixando-me momentaneamente inebriada. Oliver girou seu corpo invertendo nossas posições, de forma que ele ficasse escorado contra a parede e eu de costas para o nosso visitante. — Eu pensei que você estivesse de folga esta noite e que ia aproveitar a ausência de Anatoly para se divertir longe daqui. — o russo averiguou.
— Achei que seria mais prático trazer a diversão até mim. — Insinuou, suas mãos passeando por minhas costas, ao redor da linha do quadril e por fim segurando firme ali e puxando ainda mais meu corpo do seu. Bufei irritada contra seu pescoço, ele estava se aproveitando.
— Oh, entendo — o russo disse com um risinho — Quando ela tiver acabado com você, talvez possa pedi-la para passar em meu quarto? Estou me sentindo um tanto quanto solitário esses dias. — Senti o corpo de Oliver retesar e escutei os dentes trincarem, eu não conseguia vê-lo, mas imaginei com perfeição o olhar gélido e as linhas duras que tomaram conta de seu rosto.
— Sinto muito, Alexis, está daqui é exclusiva. — sua voz soou um tanto quanto territorialista.
Senti vontade de socar o desgraçado ao insinuar que eu era a sua prostituta particular, mas diante da impossibilidade de fazê-lo agi da forma que podia e prendi meus dentes com força na pele do seu pescoço. Eu não esperava obter o gemido contido em sua garganta como resposta, e muito menos que suas mãos se prendessem ao redor do meu quadril com tanta vontade.
— Posso ver o porquê, vou dar-lhe privacidade. — escutei os passos se afastarem até que não fui mais capaz de ouvi-los, Oliver ainda esperou por longos minutos, mantendo meu corpo junto ao seu de forma possessiva.
— Vamos! — soltou meu corpo abruptamente e começou a me puxar de volta para dentro da mansão.
— Que ideia é essa de dizer que sou sua prostituta particular? — acusei, parando e me recusando a segui-lo.
— E como eu deveria explicar a presença de uma mulher aqui? Alexis Lenov é um membro antigo, conhece todas as empregadas, e todos os membros da organização estão cientes da presença da filha de Anatoly nesta casa. É uma sorte que ele não tenha te visto antes e feito a conexão. — Hum, ele tinha um bom ponto.
— Você podia ao menos não ter me apertado tanto, estava se aproveitando de mim. — reclamei, fazendo um sorriso se insinuar no canto dos lábios de Oliver.
— Se eu me recordo bem foi você quem tirou proveito de mim, printsessa. — Disse levando as mãos a pele do pescoço onde estava estampado a marca dos meus dentes, senti meu rosto arder com seu comentário.
— Eu só fiz isso porque... — comecei a me explicar, mas um barulho alto desconcentrou-me por um instante, isso junto as luzes do lado de fora que se intensificaram passando pelas amplas janelas deixando-nos expostos.
— Podemos discutir isso em outro lugar? E de preferência em outro momento? —
Não pude deixar de notar o quanto Oliver havia ficado nervoso e não parava de olhar em direção a porta.
— Eu não quero ninguém questionando o porquê da printsessa estar aqui comigo quando deveria estar trancafiada em seu quarto, e, além disso, se o que acabamos de escutar foi o som de um helicóptero significa que Anatoly retornou mais cedo do que deveria.
Bufei contrariada, mas permiti que Oliver segurasse em minha mão e me guiasse escada acima, eu não queria voltar a ser confinada, mas tão pouco um confronto com meu pai seria algo bem-vindo. Depois do que tinha acontecido esta manhã, e de seu ultimato eu tenho certeza que minha tentativa de fuga traria graves consequências.
— Der'mo! — Oliver amaldiçoou assim que chegamos na interseção que dava para o corredor do meu quarto.
— O que há de errado? — falei baixo, sentindo a tensão passar da mão dele para a minha.
— Tem dois cães de guarda na porta do seu quarto. — explicou após dar meia volta e seguirmos por um corredor que eu nunca tinha passado antes — Aposto que ficaram vagando por aí e só agora que ouviram o retorno de Anatoly correram para os seus postos. — resmungou aborrecido.
— O que eu faço? E se eles descobrirem que não estou no quarto? — pensei em Anne, será que Anatoly a puniria novamente, tentaria algo mais ofensivo? Ou dessa vez iria direto para mim?
— Vai ficar tudo bem, confie em mim. — Oliver garantiu apertando sua mão na minha. Era irônico escutar essas palavras vindas de Oliver depois de tudo, mas estranhamente eu confiei nele, tentei me convencer de que era porque eu não tinha outra opção.
Seguimos silenciosamente pelo corredor, Oliver me manteve o tempo todo atrás de si, parecendo receoso que alguém aparecesse do nada e me visse ali. Por fim retirou uma chave do bolso e abriu uma das portas, e assim que entramos ele tornou a trancá-la. Me vi dentro de uma suíte de tamanho mediano, cores neutras e decoração extremamente impessoal. Foi fácil deduzir que aquele era o quarto de Oliver, era exatamente como ele: uma grande incógnita.
— Sente-se, printsessa, deve estar cansada depois de todo o esforço que fez para tentar fugir. — comentou com certo humor e eu tentei não me sentir ofendida.
Retirei o casaco de Oliver jogando-o sobre a cama e me sentei, não resisti ao impulso de deixar meu corpo cair contra o colchão macio, e suspirar audivelmente a medida que sentia meus músculos aos poucos relaxarem tentando se livrar da tensão. Oliver estava certo, depois de tudo o que aconteceu naquele dia eu senti a exaustão se abater sobre mim, e não era do era apenas do tipo físico era, sobretudo, um cansaço emocional.
Senti o olhar de Oliver cair sobre mim, ele era cauteloso, muito bom em esconder emoções. Por que eu insistia em ver algo mais ali? Por que contrariando a todo o meu bom senso eu queria acreditar que havia alguma esperança para ele?
— Por que você me ajudou? — perguntei sentando-me outra vez e o encarando.
— Eu não te ajudei, eu impedi que você cometesse a tolice de tentar fugir. — desviou o olhar do meu parecendo ligeiramente incomodado.
Estávamos voltando ao tópico de antes. Oliver se importava comigo, isto estava claro. Eu apenas não conseguia entender como ele conseguia ser capaz de se importar, e ainda assim permitir e compactuar com as atrocidades feitas por Anatoly.
Não fazia o menor sentido.
— Você deve estar faminta. — mudou de assunto subitamente, indo até a pequena geladeira que havia ali. A ideia de comer algo fez meu estômago revirar desesperado, eu não havia comido nada naquele dia. — Tudo o que tenho são algumas frutas, barras de cereais, sanduíches prontos e água. Sirva-se do que quiser. — assenti me colocando de pé e indo assaltar a geladeira dele — Eu vou tomar um banho, não saia e não abra essa porta, não importa o que aconteça. — alertou-me.
Assenti novamente enquanto o observava ir ao banheiro e fechar a porta, escutei o chuveiro ser ligado. Comi calmamente enquanto esperava Oliver voltar ao quarto, precisávamos decidir como eu voltaria ao meu posto de prisioneira, antes que todos notassem minha ausência.
Escutei o barulho estranho, abafado, algo como um celular vibrando. Imediatamente larguei o sanduíche que eu comia e segui o som. Talvez eu conseguisse falar com minha mãe e não com a caixa postal desta vez. Encontrei o aparelho dentro da última gaveta do criado mudo, era um modelo antigo, uma mensagem piscava no visor.
Número restrito: 0808RED2300 incompleto
Era a mesma mensagem do papel que eu havia encontrado no bolso do paletó do Oliver. Eu teria voltado a me questionar sobre o significado daquilo, se não tivesse ficado assustada demais no momento seguinte.
— Oliver! — escutei o chamado acompanhado de rudes batidas à porta. Estremeci ao reconhecer a voz de Anatoly, voltei o celular imediatamente para o lugar e me encolhi num canto afastado do quarto — Abra essa porta imediatamente. — Ele forçou a maçaneta parecendo irritado e impaciente. Meu coração acelerou, eu tinha certeza de que ele havia descoberto sobre a minha fuga.
— Só um momento. — Oliver saiu do banheiro usando apenas uma calça de moletom folgada, em outro momento eu teria me alegrado com a visão de seu torso nu ainda um pouco molhado, ou até mesmo gastado um tempo maior analisando a tatuagem sob o peito esquerdo, mas agora eu estava preocupada demais com a presença de Anatoly aqui. Não apenas por mim, mas por Oliver ele se encrencaria por minha causa — Tire suas roupas e se enfie embaixo dos lençóis. — sussurrou em meu ouvido, e eu pisquei confusa não entendendo onde ele queria chegar com isso.
— Não!
— Não me questione agora, printsessa.
A urgência em sua voz me fez obedecê-lo, me livrei das roupas com rapidez e me coloquei embaixo dos lençóis.
— Deixe um pouco de pele a mostra. — Oliver disse deslizando o tecido fino para baixo deixando minhas costas e pernas despidas, tentei não estremecer com seu toque sutil, porém quente sob minha pele nua, ele também ajeitou meu cabelo fazendo-o cobrir meu rosto e só então abriu a porta.
— Por que está trancado em seu quarto? — o tom de Anatoly era ríspido e cheio de desconfiança. Algo estava errado.
— Sinto muito, Anatoly, como fui dispensado das minhas obrigações por hoje eu pensei em conseguir um pouco de companhia pela noite. — Oliver disse com calma e displicência, como ele conseguia agir com tanta frieza numa situação tão complicada? Escutei o barulho da porta rangendo enquanto Oliver a abria um pouco mais, tentei respirar calmamente e não parecer tensa. Eu podia não ver Anatoly, mas ainda assim eu sentia a força do seu olhar vindo em minha direção.
— Eu ouvi algo assim. — fez pouco caso.
Hum, então ele sabia que Oliver estava com uma “prostituta” e tinha vindo conferir? Por quê?
— Há algum problema? — Oliver investigou, provavelmente notando o mesmo que eu.
— Alguém estragou meus negócios de hoje, sabiam exatamente onde eu estaria e fizeram uma emboscada. — dava para sentir o ódio com o qual ele disse isso. — O local estava cheio de policiais disfarçados, perdi alguns homens e o meu melhor fornecedor.
— Algum palpite de quem seja? — Oliver sondou.
— Nada conclusivo, mas irei descobrir e punir devidamente o traidor — o homem por si só já era cruel, imagine agora que o seu ego tinha sido ferido? Possivelmente era letal. — Não se preocupe com isso Oliver, divirta-se com sua companhia por esta noite, mas esteja disposto pela manhã. Há coisas que eu preciso que você faça.
— Da ser. — Oliver disse em russo, e deduzi que aquilo era uma espécie de concordância.
Sentei-me à cama puxando os lençóis sobre o corpo cobrindo os seios tão logo escutei a porta sendo fechada e trancada novamente.
— Acha que ele vai voltar? — perguntei num fio de voz, os olhos de Oliver se prenderam em mim com tanta intensidade e calor que pensei ter visto as geleiras de seus olhos derreterem.
— Não. — disse engolindo em seco e seus olhos voltaram a encarar a porta. — Você deveria se vestir. — suas palavras não foram uma ordem como de costume, eram como um conselho “faça isso ou se arrependerá depois”.
Oliver caminhou até a cômoda e retirou uma blusa branca, pensei que ele iria a vestir, mas para a minha completa surpresa ele a jogou para mim.
— Eu não vou vestir suas roupas. — resmunguei, ele tinha um sério problema com isso.
— Apenas achei que seria mais confortável para dormir. — falou parecendo cansado, deitou-se a cama ao meu lado e fechou os olhos massageando suavemente as têmporas.
— Mas eu pensei que você fosse me levar de volta para o meu quarto. — reclamei.
— Com dois guardas à porta de seu quarto, e seu pai andando pela mansão interrogando a todos enquanto procura por um traidor? Não há a menor chance. As coisas serão agitadas essa noite, não há como tirar você daqui sem que a notem. Não se preocupe, amanhã eu darei um jeito nisso, printsessa. — encerrou o assunto.
— Mas... — ao ouvir minha tentativa de protesto Oliver abriu os olhos sentando-se a cama de frente para mim parecendo impaciente.
— Você tem três opções. Primeira: você veste a blusa que te entreguei. Segunda: Eu visto a blusa em você, o que não vai ser novidade para mim ou terceira: Você pode dormir de calcinha e sutiã, garanto que não irei me incomodar. — esclareceu tranquilamente.
Continuei encarando Oliver teimosamente tentando fazê-lo mudar de ideia, mas ele apenas me encarou de volta contendo um sorriso, ele sabia que tinha vencido. Então, por fim, eu acabei cedendo e vestido a blusa dele contrariada.
— Escolha covarde, printsessa. — escutei o riso em sua voz e isso me fez bufar de raiva. — Agora vamos dormir um pouco, precisamos disso depois do dia de hoje. — disse desligando o interruptor da luz.
Eu não imaginava como Oliver esperava que eu dormisse sabendo que ele estava ao meu lado. Mas estranhamente, no momento em que o quarto se viu tomado pela penumbra e tudo o que eu sentia era o cheiro de Oliver e seu calor tão próximo a mim, eu simplesmente adormeci, tão rápido e fácil como nunca tinha adormecido antes.
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