War of Hearts
20 Capítulo 19 - You show the lights
Notas iniciais
I had a way then
Losing it all on my own
I had a heart then
But the queen has been overthrown
And I'm not sleeping now
The dark is too hard to beat
And I'm not keeping up
The strength I need to push me
You show the lights that stop me turn to stone
You shine them when I'm alone
And so I tell myself that I'll be strong
And dreaming when they're gone
'Cause they're calling, calling, calling me home
Calling, calling, calling home
You show the lights that stop me turn to stone
You shine them when I'm alone
(Wanderhouse — Lights)
Felicity Smoak
— Querida, você precisa me contar tudo sobre o Oliver! E eu quero saber de todos os detalhes sórdidos! Como se conheceram? Vocês já dormiram juntos? Que pergunta tola, é claro que sim! — Minha mãe meneou a cabeça rindo de si mesma, enquanto eu sentia meu rosto arder em pura vergonha — Dá para ver nessa sua carinha avermelhada. Eu estou tão animada sobre vocês dois e...
— Mãe! — eu a repreendi quase gritando antes que ela pudesse continuar com as perguntas embaraçosas que eu tinha certeza Oliver havia escutado antes de deixar o quarto. Eu amava Donna Smoak, com todo o meu coração e ela era a melhor mãe que eu poderia ter, mas sempre ficava animada demais quando o assunto era a minha vida amorosa.
— Me desculpe, filha. — ela disse fazendo um pequeno carinho no meu rosto — Mas foram tantos dias e noites longe de você, eu não pensei que voltaria a vê-la, a falar com você... A ter momentos como esse de mãe e filha, em que eu a embaraço falando bobagens na frente do seu novo namorado. — Eu ri e ela também, o som das nossas risadas se misturaram, como fizeram tantas outras vezes durante a minha vida. Era um som familiar, gostoso e confortador. Me remetia a momentos tão simples e ao mesmo tempo tão felizes com minha mãe, momentos que eu jamais esqueceria. Será que eu também teria momentos assim com meu filho ou filha?
— Então você admite que faz de propósito? — perguntei divertida de repente analisando todas as vezes em que apresentei um namorado à minha mãe, e o desastre que sempre seguia. Agradeci imensamente por Oliver e ela não terem tido mais do que alguns minutos juntos hoje.
— Sempre. — ela sorriu jogando o cabelo por sobre o ombro daquele jeito tão característico de Donna Smoak — Se um homem não pode aguentar a mãe da mulher que ele ama, então não é amor de verdade. E eu tenho que dizer, querida, Oliver realmente a ama, é tão fácil de perceber isso. Ele sorri mais quando está com você, e os olhos brilham só de escutar seu nome, ele parece estar pronto para se jogar em frente de uma bala por você... — respirei fundo afastando pequenas lágrimas que queriam saltar dos meus olhos, eu era feliz por Oliver me amar tanto, mas a imagem dele sendo baleado ainda estava vivida demais — ... O que foi querida? Eu disse algo errado? Você não o ama também? — Donna jogou as perguntas parecendo confusa.
— É claro que eu o amo! — me apressei em garantir — Eu o amo tanto, mãe, de um jeito que jamais pensei ser possível.
— Bem, se esse é o caso acho que não terei que interrogá-lo sobre quais as intenções dele com a minha filha. — Eu ri, mesmo sabendo que o que minha mãe dizia não era uma brincadeira.
— Obrigada. — agradeci porque apesar das situações sempre embaraçosas que minha mãe me colocava, aquele era o jeito torto de Donna Smoak cuidar de mim.
— Eu não fiz nada, querida.
— Sim mãe, você fez. — falei num tom mais sério apertando a mão dela com a minha — Eu não digo apenas agora, eu falo por antes. Eu não sei o que você passou com Anatoly, e eu tenho certeza de que não foi fácil sobreviver a máfia russa. Mas você lutou, você fugiu de um lugar onde havia apenas dor e infelicidade e ainda assim me deu um lar seguro e cheio de amor.
— Isso é apenas ser mãe. — havia tanto carinho em sua voz, e uma determinação em seus olhos que me dizia que ela faria tudo de novo, lutaria contra a máfia russa, desafiaria a tudo e a todos, apenas por mim. — Sente-se aqui comigo, Felicity — minha mãe pediu, sentando-se a cama e eu apenas a obedeci. — Enquanto eu estava presa lá naquela cela, tudo o que eu pensei foi em você, no que eu perderia da sua vida. Eu nunca tive medo de morrer, eu passei tempo demais nessa parte sombria do mundo para entender o quão finita é a vida e que em algum momento ela chega ao fim. Mas eu tinha tanto medo de não ver mais você, querida. Não ver seus olhos adquirirem uma luz própria quando você se apaixonasse de verdade, não estar lá no dia do seu casamento ou quando você tivesse seus próprios filhos.
— Você vai estar, mãe. — busquei as mãos dela apertando-as com força junto as minhas, assegurando-a de que ela sempre teria seu lugar — Em cada pequeno momento da minha vida. Eu prometo.
— Eu espero que sim, porque no meio de tantas coisas ruins você é a única coisa boa que Anatoly me deu.
Retesei ao escutar o nome do meu pai. Por mais que eu o odiasse, ele era meu pai, biologicamente falando, essa era verdade e eu nunca poderia fugir dela.
— Você provavelmente deve estar se perguntando como isso aconteceu, como eu acabei me casando com ele. — Sim, eu me perguntava isso, mas ao mesmo tempo eu não queria saber, porque eu temia que a resposta fosse mudar tudo entre nós. Eu era filha de Anatoly e eu sabia o quão ruim e perverso ele poderia ser, eu me questionava se ele havia violentado a minha mãe da mesma forma que ele me dera a Vladmir, sem se importar com o que ele faria a mim, eu odiaria ser fruto de um ato tão sujo.
— Você nunca me odiou por eu ser filha dele? — perguntei, antes que pudesse frear as palavras.
Minha mãe me olhou parecendo surpresa.
— Te odiar? Como poderia?
— Olhar para mim, não a fazia pensar nas coisas ruins que ele te fez? Ou ainda, você não temeu que eu também me tornasse alguém tão má quanto ele? Eu sou filha dele, eu tenho em mim partes dele, cinquenta por cento do dna para ser mais exata — me senti suja ao pensar naquilo.
— Nunca! — negou veemente, buscando pelas minhas mãos enquanto me olhava fixamente com seus grandes olhos — Querida, o mundo não é dividido entre pessoas boas e más. Todo mundo tem potencial para fazer atos de amor ou de ódio, o que nos diferencia de pessoas como Anatoly, são nossas escolhas e não uma predisposição genética. — falou com calma, como se explicasse algo a uma criança.
— Mas ainda assim...
— Anatoly é uma pessoa terrível, ele não sente compaixão, é incapaz de amar e se regozija com a dor do outro. — ela me cortou, seu tom se tornando mais determinado — Você e ele não poderiam ser mais diferentes, você é boa, é carinhosa e você se importa com os outros. Não há uma força na terra que faça você ser uma má pessoa. — eu assenti, deixando que a voz suave da minha mãe me acalmasse.
— Mãe, como você acabou se casando com um sujeito como ele? Você foi obrigada? — questionei, essa tinha sido uma pergunta que tinha rondado na minha cabeça.
— Eu fui tão tola — aquela resposta foi uma surpresa para mim — Eu era jovem e pensei estar apaixonada. — Ela começou e a mera ideia da minha mãe amar Anatoly fazia meu estômago embrulhar, como alguém poderia amar alguém como ele que desconhece o amor? — Eu nunca soube que meu próprio pai era um criminoso também, mas eu nunca tive muito contato com ele quando era criança. Eu vim para a Rússia para passar um tempo com ele, queria me reconectar, saber um pouco mais sobre meu lado russo. E como todo jovem eu queria encontrar um pouco de aventura e a mim mesma. Eu conheci Anatoly numa festa e ele parecia exatamente o que eu procurava: diversão num ar meio sombrio. Eu me deixei envolver, o perigo da coisa me animando e quando eu descobri quem ele era, o que ele realmente fazia, já era tarde demais para correr, ele já me tinha presa em uma gaiola dourada. Meu pai já havia me vendido a ele. — meu coração se apertou, pensando no quanto os nossas histórias se assemelhavam — Por um longo tempo eu pensei que fosse morrer aqui, mas aí algo inacreditável aconteceu.
— O quê? — pisquei os olhos me inclinando para ela, envolvida demais em sua história.
— Você. — ela falou com simplicidade enquanto sorria para mim, seus olhos ganhando um brilho de adoração. — Eu descobri que estava grávida e isso mudou algo em mim, eu percebi que tinha uma obrigação com esse bebê, eu precisava que você fosse feliz, e essa vontade era tão grande, que eu arrisquei tudo para tirá-la daqui. — sorri para ela, emocionada com o tamanho do seu amor por mim.
— Obrigada.
— Oh, não tem que me agradecer! Você não faz ideia do que é ter um pequeno bebê crescendo dentro de você, simplesmente muda tudo. — eu quase a interrompi e disse o quanto a entendia, mas não o fiz, apenas levei minhas mãos sobre o ventre, pensando no quanto eu amava meu bebê e no quanto eu sacrificaria pela felicidade dele ou dela também. — Há muito medo é claro, de não ser boa o suficiente para um serzinho tão pequeno e dependente de você... Deus sabe que teve noites que eu pensei que não fosse conseguir...
Havia tanta similaridade em nossas histórias, e isso me fazia sentir uma conexão ainda maior com minha mãe.
— Mãe, você não conseguiu apenas, você foi a melhor. — garanti com a voz embargada de emoção.
— Eu poderia ter feito mais. — eu balancei a cabeça negando enfaticamente. — Agora vamos mudar para um assunto menos deprimente. Me conte sobre Oliver... — pediu, seu sorriso tomando conta do seu rosto e parecendo animada com aquilo.
— O que quer saber? — adotei uma postura mais cautelosa, eu queria contar tudo a ela, cada pequeno detalhe da nossa história, porque sempre foi assim entre nós duas. Donna não era apenas minha mãe, ela era minha melhor amiga e confidente. Mas havia uma parte de mim temia que minha mãe não aprovasse Oliver quando soubesse das coisas que ele fizera a mando de Anatoly. E eu queria tão desesperadamente que ela o aceitasse na minha vida.
— Que tal começarmos com o simples... — eu via seus olhos me analisando, como se soubesse que eu estava escondendo algo — Eu estou me perguntando como tudo se iniciou. Pelo que eu entendi Oliver trabalhava para Anatoly...?
Respirei fundo, e contei toda a história para minha mãe, deixando claro que mesmo trabalhando para Anatoly, em todo momento Oliver tentou me proteger. Ela me escutou, sorriu, chorou e se emocionou ao ouvir minhas palavras, e eu também me emocionei. Era bom finalmente tirar tudo de dentro do peito, compartilhar a minha história com alguém que me entendia e me amava incondicionalmente, isso fez eu me sentir melhor e mais leve. Eu me sentia pronta para deixar isso para trás, e seguir em frente sem medo do que o futuro me reservava.
— Oliver realmente te ama. — Donna disse ao final da história — Eu espero que você saiba o quão precioso e raro é o que vocês construíram juntos. Vocês plantaram uma rosa no meio de um terreno desértico.
— Eu amo ele, mais do que pensei que fosse possível. — sorri apaixonada, havia algo de especial em compartilhar meus sentimentos com minha mãe.
— Estou feliz por você. — ela sorriu abertamente — Que mesmo passando por momentos horríveis aqui, você não esteve sozinha, você teve alguém que te mostrasse que ainda havia coisas boas no mundo.
— Mãe, há mais uma coisa. — comecei cautelosa.
— Sim? — seus olhos se tornaram maiores enquanto ela esperava pela minha confissão.
— Sabe quando você disse que nós plantamos uma rosa no meio de um terreno desértico?
— Felicity?
— Eu estou grávida. — soltei de uma única vez, e mal tive tempo de assimilar a reação da minha mãe que levou as mãos a boca e exclamou um “oh” surpresa. Conhecendo-a como eu conhecia, primeiro viria um rápido sermão sobre sexo seguro, ela tentaria soar séria, mas logo depois ela ficaria eufórica com a chegada de um bebê.
— Essa informação certamente muda meus planos. — um arrepio gélido correu minha espinha quando eu escutei a voz fria reverberar pelo quarto, virei meu rosto na direção dela apenas para ter certeza de que não era um pesadelo — Eu estava pensando em vir aqui e apenas obter a usual vingança contra a filha que arruinou todos os meus planos, mas acabo de receber a notícia de que serei avô. — Anatoly disse de um jeito deliberado, seus passos vieram calmos até mim, embora tudo nele desde a carraca em seu rosto ao olhar de pura fúria queimando na minha direção mostrasse o quão irritado ele estava.
— Eu não vou deixar que você machuque a minha filha. — Minha mãe disse se erguendo e colocando-se protetivamente a minha frente.
— Mulher tola. — ele revirou os olhos parecendo impaciente — Eu não pretendo encostar em um fio de cabelo da nossa filha, não agora que sei que ela carrega algo precioso com ela. — O olhar de Anatoly veio para mim, precisamente para a minha barriga e instintivamente levei minhas mãos ao meu ventre, tentando proteger meu bebê de toda a maldade que Anatoly era capaz de fazer — O filho de Vladmir vai me dar poder indiscutível sobre a facção dele. — anunciou, caminhando de um lado para o outro do quarto, parecendo despreocupado.
— Oliver é o pai do bebê. — praticamente gritei.
— É claro que é, mas ninguém precisa saber disso. — ele deu de ombros chegando ainda mais perto exibindo aquele sorriso sádico que eu já conhecia bem — E para todos os efeitos você é uma mulher casada, e concebeu seu bebê na noite de núpcias antes que seu marido fosse tragicamente tirado de você. — contou a pequena história com um drama desnecessário.
— Ele está morto? — perguntei, sem saber ao certo como me sentia. Eu o matei?
— Sim, querida. — Anatoly respondeu — Ele foi estúpido o suficiente para enfrentar os soldados que Oliver levou à casa dele para salvá-la. Vamos embora, eu não tenho tempo para ficar de papinho.
— Não vou permitir que a leve. — Eu nunca tinha visto minha mãe ser tão agressiva assim. O jeito que seu corpo cobria o meu, o desespero e a raiva em sua voz. Eu tinha certeza que ela faria qualquer coisa para garantir a minha segurança, do mesmo jeito que eu faria pelo meu bebê.
— Devo pedir gentilmente? — Ele mirou a arma na nossa direção. — Saia da minha frente, Donna. Por favor? — a última palavra foi dita em puro escárnio.
— Eu não tenho medo de você! — ela o enfrentou.
— Você é tão irritante — Anatoly se aproximou de nós ficando a um passo apenas, seus olhos frios fixos na minha mãe, havia tanta maldade nele, eu o olhava e via apenas um monstro pronto para sugar toda a felicidade ao seu redor. Ele ergueu a mão que estava livre e a apertou ao redor do pescoço da minha mãe, fazendo-a lutar para conseguir respirar.
— Solte-a! — eu exigi, e ele desviou o olhar me encarando, mas se negando a soltá-la. Seu olhar duro estava esperando que eu dissesse as palavras que ele queria ouvir, ele estava jogando comigo, querendo provar que ainda tinha poder sobre mim — Por favor — ele sorriu satisfeito, e então simplesmente jogou-a para o lado, vi o corpo da minha mãe bater na parede e depois escorregar para o chão, sem nenhuma reação.
— Mãe! — tentei ir na direção dela, para saber se ela estava bem, mas fui impedida por um aperto forte ao redor do meu braço.
— Vamos, eu não tenho tempo para suas lágrimas ou seus protestos inúteis. — Anatoly demandou me arrastando consigo. Minha cabeça girava com a rapidez com que tudo mudava, há pouco tempo atrás eu estava ali com Oliver, contemplando feliz todo o futuro que tínhamos e agora Anatoly tentava tirar isso de mim?
— Eu não vou a lugar algum com você! — protestei, eu estava preste a gritar quando notei algo mudar na expressão de Anatoly, seu corpo inteiro ficou mais duro, e ele me puxava de um jeito rude para si.
— Olá, Oliver. — Anatoly disse com sua voz com uma voz fria e imediatamente meus olhos buscaram por Oliver, pela segurança que ele me fazia sentir só de estar aqui. Senti os olhos dele virem para mim, seu rosto estava agoniado ao me ver refém de Anatoly, depois de tanto o que lutamos para nos ver livre dele. Anatoly tinha um dos braços ao redor do meu pescoço, e eu senti o cano frio da arma pressionado contra a minha têmpora direita — Parece que você está com algo que me pertence. Se importa se eu pegar de volta? — havia uma nota de satisfação nas palavras de Anatoly, como se ele estivesse se regozijando por ter vencido.
— Eu não o deixarei sair daqui com ela! — Oliver falou com determinação na voz. Ele pegou uma arma que tinha consigo e mirou em Anatoly, senti o aperto em meu pescoço se tornar mais opressor me obrigando a tossir várias vezes em busca de ar, Oliver olhou com desespero para mim e sua mira em Anatoly vacilou.
— Me deixar? — ele disse soltando um riso debochado logo em seguida — Oliver, eu tenho a mulher que você ama e que carrega um filho seu. — Oliver trincou os dentes e a mandíbula se tornou mais rígida, tudo nele mostrava o quanto ele estava tenso ao escutar as palavras de Anatoly — Você certamente fará qualquer coisa que eu pedir apenas para garantir que eu não machuque sua preciosa printsessa.
— Oliver... — eu disse o nome dele num lamento, porque eu sabia que ele me deixaria ir com Anatoly. Ele me olhou com os olhos repletos de tristeza e lágrimas que caiam sem que ele se desse conta, ele me pedia desculpa com o seu olhar infeliz e então abaixou completamente a arma deixando que Anatoly me levasse consigo para fora do quarto.
— Vai ser melhor assim. — Anatoly disse por fim enquanto seguia me levando em direção ao elevador — O amor é uma fraqueza, Oliver. Você devia me agradecer por tirar isso de você.
Olhei para Oliver uma última vez antes de ser arrastada para o elevador, seu olhar estava repleto de dor e desespero, mas havia algo conhecido ali, aquela força de vontade, a determinação que me dizia que ele iria até o inferno por mim, a fúria ao ver que alguém ameaçava todo o futuro que não tivemos sequer tempo de construir juntos. As portas do elevador se fecharam, eu coloquei a mão sobre meu ventre ciente do que aconteceria a seguir.
Não importava se Anatoly planejava me levar novamente ao inferno, a única certeza que eu tinha era de que Oliver estaria vindo por nós.
E ele enfrentaria o próprio diabo para nos salvar.
***
— Por que estamos subindo? — perguntei ao perceber que Anatoly havia apertado o botão do último andar. Eu estava aliviada por não ter seu braço comprimindo o meu pescoço e me impedindo de falar, e eu queria mantê-lo falando o máximo possível para tentar entender o que ele faria a seguir.
— Porque seu namorado tem vários soldados esperando por mim no térreo. Eu passei anos com Oliver Queen, ele é obstinado, ele virá com tudo por você e por esse bebê. Então eu preciso ser mais esperto do que ele, vamos embora de helicóptero, ele será incapaz de me seguir e então eu vou escondê-la num lugar tão distante e remoto que ele jamais vai encontrá-la. — A última frase tinha uma conotação quase sádica, olhei para ele e vi que Anatoly sorria, ele nunca sorria a não ser que coisas ruins estivessem prestes a acontecer. Meu coração se apertou, tentei forçar minha mente a formar um plano, qualquer plano que me ajudasse a fugir e voltar para os braços de Oliver, mas nada meramente inteligente aparecia.
— Você não precisa de mim — falei enquanto Anatoly me puxava para fora do elevador, e me vi na cobertura do prédio. — Vladmir está morto, você pode simplesmente pegar o que era dele para você. Não é isso o que criminosos fazem? Eles apenas roubam!
— Eu não tenho tempo para entrar numa guerra contra os seguidores de Vladmir agora. Você é a viúva dele, tudo o que ele tinha, todos os bens e o dinheiro passaram automaticamente para você assim que ele morreu. — pisquei confusa ao escutar aquilo, eu não queria ter nenhum tipo de ligação com Vladmir — É legítimo e mais prático. Agora, cale a boca e entre no helicóptero. — ordenou já impaciente.
O que aconteceu a seguir foi uma sequência tão rápida de acontecimentos que meus olhos mal conseguiram registrar. Num instante, eu tinha meu braço preso pela mão de Anatoly e ele me puxava em direção ao helicóptero. No instante seguinte escutei o som de uma pequena explosão e seu aperto em mim se afrouxara, Anatoly caía ao chão num baque surdo.
Olhei para trás por cima do ombro e deixei o alívio tomar conta de mim.
— Oliver! — Eu corri na direção dele quando percebi que era ele. Eu não duvidei que ele viesse em nenhum momento, mas eu pensei que talvez fosse demorar mais. Oliver me girou no ar e me apertou forte em seus braços, como se temesse que a qualquer momento alguém me tirasse dele. Eu entendia o medo dele, mas quando eu o tinha assim, me envolvendo num abraço carinhoso, quando eu sentia seu coração palpitando junto com o meu, ou podia apenas inalar o cheiro conhecido do seu perfume enquanto minha cabeça descansava na curva do seu pescoço, todos os meus medos não encontravam lugar, porque eu tinha Oliver comigo, e estar com ele me fazia sentir segura.
— Printsessa... — Oliver envolveu meu rosto com suas mãos, o medo deixando seus olhos e sendo substituído por alívio e felicidade. Meu apelido saiu de seus lábios num sorriso tão doce que me fez sorrir de volta — Eu pensei que fosse te perder de novo, eu... — Mas Oliver não terminou aquela frase, eu escutei o som de um uma pequena explosão, o sorriso deixou os lábios de Oliver sendo substituído por uma carranca.
— Você ouviu isso? — perguntei.
— Não se preocupe. — ele me assegurou com uma voz calma, mas havia algo escuro em seus olhos, eu podia sentir a felicidade se esvaindo a medida que Oliver se afastava de mim.
— Oliver? Oh Deus! Você está sangrando. — falei horrorizada ao perceber a mancha de sangue que se alastrava pela camisa branca de Oliver, meus olhos encontraram Anatoly há alguns metros de nós, ele estava meio encostado no helicóptero, segurando fracamente uma arma na mão enquanto a outra estancava o sangramento no lugar que Oliver o acertara. Só então eu entendi, mesmo quase sem forças ele havia atirado em Oliver. — Oliver...
— Eu estou bem, vai ficar tudo bem. — Sua voz soou estranha, não me dando certeza de suas palavras. — Fique aqui. — disse, deixando um beijo sobre minha testa e dando-me as costas caminhando em passos firmes.
Oliver parou em frente a Anatoly e simplesmente chutou a arma para longe dele. Eu estava longe o suficiente para não entender o que eles falaram um para o outro, mas eu escutei com perfeição a gargalhada perversa que saiu dos lábios de Anatoly.
E foi a última vez que algum som deixou seus lábios.
Porque Oliver atirou nele mais uma vez.
E outra vez.
E mais uma.
Eu dei um passo para trás para cada tiro que escutei, eu sabia que não tinha outro modo disso acabar. Mas ver alguém morrer diante dos seus olhos sempre seria algo impactante, por mais que essa pessoa merecesse esse destino.
— Vai ficar tudo bem agora. — Me assustei quando escutei a voz séria e confortadora atrás de mim. Diggle estava ali, juntamente com vários homens armados que pareciam ter chegado naquele exato momento, eu não sabia precisar ao certo, tudo o que eu focava era em Oliver.
Diggle caminhou até Oliver, pegou a arma de suas mãos e disse algo em seu ouvido, deixando pequenos tapas confortadores em suas costas. Oliver deu passos hesitantes, sua postura parecendo curvada e seu rosto abatido enquanto voltava para mim, como se carregasse o peso do mundo sobre seus ombros.
— Printsessa... — Seu tom veio baixo e com certa dúvida, eu não sabia o que estava passando na mente dele, mas eu sabia que não gostava da escuridão que via em seus olhos e da distância que ele deliberadamente colocava entre nós. Eu envolvi meus braços ao redor de seu corpo, trazendo-o para mim, fazendo cada parte de mim ciente de que eu abraçava o homem que eu amava, e que finalmente eu tinha tudo. Oliver não correspondeu o abraço de imediato, havia algo dentro dele lutando contra isso, mas acho que no fim o amor venceu. Seus braços circundaram meu corpo, com delicadeza no princípio, mas depois com desespero, eu conseguia sentir o quanto Oliver precisava de mim, precisava daquele abraço para se sentir melhor.
— Acabou, Oliver. Finalmente acabou. — eu disse ao seu ouvido, mas em nenhum momento seu aperto ao redor do meu corpo se tornou mais suave. Por mais que eu estivesse ansiosa para deixar aquele cenário para trás, eu prolonguei aquele abraço pelo tempo que precisava ser prolongado, eu esperei que as batidas do coração de Oliver se suavizassem, esperei que ele encontrasse em mim a paz que o coração dele tanto necessitava.
— Acabou mesmo? — ele finalmente me encarou, seus olhos ainda incrédulos de que aquele era o fim, aquela pequena sombra ainda lá, me incomodando.
— Sim, amor. — Eu respondi colando minha testa na dele, nós dois fechamos os olhos, mas sorrimos ao sentir a sensação de conclusão, que trazia um sentimento de paz até então desconhecido.
Ficamos assim por um pequeno tempo, até que um raspar de garganta se fez audível e Oliver e eu nos afastamos um pouco, embora nossas mãos tenham encontrado o caminho uma para outra, e se entrelaçaram tão forte que nada nesse mundo poderia separá-las.
Era o amor que as unia, e não havia nada mais forte do que isso.
— Me desculpe interromper o momento. — Diggle falou tentando conter um sorriso enquanto olhava para nós dois — Felicity, sua mãe já foi atendida por um médico e está apenas descansando, ela vai ficar bem — respirei aliviada — Vocês dois deviam voltar para o quarto e tentar descansar também, eu cuido de tudo aqui. — o olhar dele veio unicamente para mim — Felicity, nós precisaremos conversar sobre algo importante depois...
— Obrigado por tudo, Dig. — Oliver o interrompeu lhe lançando um olhar significativo, como se não quisesse que ele continuasse aquele assunto. — Felicity poderá resolver as outras coisas com você amanhã.
— Certo. — ele assentiu — Dê uma olhada nesse ferimento, Oliver. — Diggle avisou indicando a mancha de sangue na camisa de Oliver, e então saiu.
— Oh, meu Deus! — eu exclamei — Ele atirou em você. — Levei uma das minhas mãos ao canto esquerdo do seu abdômen, o sangue ainda úmido em meus dedos deixando-me nauseada.
— Foi de raspão, printsessa. — Oliver se apressou em corrigir, tirando minha mão do local — Eu juro que estou bem, nós estamos bem.
Deixei as palavras tranquilizadoras me atingirem. Fazia muito tempo desde que ambos estivemos bem, desde que não havia mais ameaças, e que sonhar com o futuro parecia algo possível e tangível, ainda era difícil de acreditar. Nada de ruim aconteceria a nenhum de nós, não mais. As duas cabeças da máfia russa tinham sido arrancadas, não havia mais perigo.
Nós finalmente estávamos livres para viver o nosso amor.
***
Oliver e eu caminhamos de volta para o quarto do hotel em silêncio. Eu sabia que apesar de tudo ter acabado, havia algo o incomodando, mas que ele ainda não estava preparado para falar sobre isso. Eu deduzia que tinha algo a ver com as últimas emoções. Nós quase nos perdermos mais uma vez, e Oliver se viu forçado a tomar atitudes estremas para nos salvar.
Ele tomou uma chuveirada rápida e recusou minha companhia, e quando voltou para o quarto, com o torso despido havia um curativo muito mal feito onde Anatoly atirara nele, mas por sorte a bala o atingira apenas de raspão.
Me peguei pensando sobre quantas vezes nós quase nos perdemos ao longo dessa história.
Foram muitos “quases”.
Foram tantas as vezes em que quase conseguimos também, mas sempre havia alguém ou algo para ficar entre nós, para nos impedir de seguir o nossos corações, para nos restringir ou nos prender. Mas o que eu tinha com Oliver era um tipo de amor raro e merecia ser vivido em toda a sua plenitude, por isso valia a pena seguir lutando. E se tivéssemos desistido no primeiro contratempo? E se tivéssemos escondido nossos sentimentos e renunciado a tudo no primeiro obstáculo?
Balancei minha cabeça me livrando desses pensamentos. Eles não tinham mais lugar, porque o que importava era que Oliver e eu nunca desistimos. Foi em cima dessa premissa que construímos nosso amor, e seria com essa ideia que seguiríamos em frente.
— Você é um desastre com curativos. — meneei a cabeça olhando para a gaze que soltava do ferimento, evitando a expressão um pouco abatida de Oliver, eu não estava pronta ainda para destrinchar o que estava errado com ele, eu iria devagar, porque eu conhecia Oliver o suficiente para saber que eu teria que escavar para descobrir o que tanto o incomodava — Me lembre de nunca deixá-lo fazer curativos no nosso filho ou filha. — falei num tom meio divertido, mas Oliver arregalou os olhos para mim parecendo assustado — Crianças se machucam o tempo todo, Oliver, não é grande coisa. Pergunte à minha mãe, ela andava sempre com um kit de primeiros socorros porque sabia a filha desastrada que tinha... E se nosso bebê herdar a falta de coordenação motora da mãe é melhor nos prepararmos. — algo brilhou por trás de seus olhos azuis, eu me agarrei aquilo — Agora sente-se e me deixe consertar isso. — Pedi.
Oliver me obedeceu como o soldado que era, sentou-se a cama e ficou calado enquanto eu delicadamente cuidava do ferimento, seu olhar me analisando, mas toda vez que eu o encarava de volta oferecendo-lhe um sorriso, eu encontrava aquele tormento em seus olhos, uma dor que eu não conhecia, mas que eu sabia que precisava tirar de lá antes que o dominasse completamente.
— Está como novo! — anunciei depois de terminar de prender o curativo firmemente com o esparadrapo — Mas é melhor não se movimentar muito ou a ferida poderá abrir e sangrar novamente.
— Obrigado. — Ele sorriu, mas seu sorriso não tocou seus olhos tristes.
— O que está errado, Oliver? — eu perguntei deixando transparecer a minha tristeza, eu não estava mais aguentando vê-lo assim.
— Nada. — refutou, mas eu percebia que havia algo diferente, sua voz soava distante e seu olhar parecia estar um pouco perdido. Eu não gostava disso, eu não gostava sobre como esse algo parecia estar entre nós.
— Oliver, depois de tudo o que passamos, não é justo o que você está fazendo. Por que está evitando me olhar nos olhos? Por que parece tão atormentado? Por favor, me diga o que está errado para que eu possa consertar — pressionei, com a voz suave e ao mesmo tempo decidida.
— Você não pode consertar, não é uma ferida sobre a qual possa colocar um curativo. — ele respondeu num sopro com uma raiva contida — Sou eu. Eu estou todo errado. Eu sou errado para você. Não percebe? — Oliver parecia atormentado de um jeito que eu nunca tinha visto antes e seu tormento quebrava algo dentro de mim.
— Você não está fazendo sentido. — meneei com a cabeça, e ele apenas suspirou pegando minhas mãos e me puxando para sentar na cama de frente para ele.
— Você é tão perfeita e será uma mãe incrível para o nosso bebê — sorri ao escutar suas palavras doces, enquanto suas mãos brincavam com as minhas, mas havia uma seriedade estranha no seu tom que me dizia que algo estava errado. — É apenas natural para você, seu jeito cuidadoso e delicado. Você oferecerá o melhor ao nosso filho, ele ou ela será uma criança muito sortuda por ter você como mãe. — Suas palavras eram bonitas, mas havia um pesar na sua voz que não combinava com elas.
— Você será um excelente pai também. — Apertei suas mãos sorrindo para ele, tentando alcançá-lo, mas Oliver não esboçou a reação que eu esperava.
— Não, eu não vou. Eu não sou bom para você ou para o bebê. — então era isso o que roubava a luz dos olhos dele, era esse o medo que estava deixando o meu Oliver atormentado.
— Oliver...
— Sabe o que Anatoly disse pra mim antes de morrer? — havia raiva no seu tom, seus olhos se escureceram — Que se ele vivesse ele iria atrás de você e a destruiria apenas pelo simples prazer de me vencer. E que se eu o matasse eu apenas provaria que sou um assassino como ele. E talvez eu seja. Eu o matei, Felicity, eu o matei a sangue frio com três tiros no peito e eu não sinto muito por isso! Inferno, eu faria isso novamente, quantas vezes fossem necessárias para proteger você e nosso pequeno ou pequena. — aquela era uma confissão e tanto — Eu não serei bom para vocês.
— Oliver...
— Não printsessa, você sabe que estou certo. — novamente ele me interrompeu — Como eu posso ensiná-lo a ser bom, quando meu passado está cheio de atos ruins? Ele merece mais, merece o melhor. — Balancei a cabeça me negando a escutar o que Oliver dizia, era o medo falando por ele, eu sabia disso eu até mesmo reconhecia isso.
— Então está sugerindo o quê? Que depois de tudo o que lutamos para ficarmos juntos, que eu simplesmente substitua você por alguém melhor? Quer que eu encontre um novo amor e um novo pai para o meu filho? — exclamei irritada, tentando fazê-lo perceber o absurdo da coisa.
— Eu... — Oliver não conseguiu continuar, suas mãos se apertaram em punhos e ele não conseguiu segurar a raiva que a mera ideia causava nele — Merda! É claro que eu não quero isso! Eu amo vocês dois, eu apenas não mereço vocês. Vocês merecem alguém melhor...
— Você é o melhor para mim, para nós. — aproveitei da brecha para deixar aquilo claro para Oliver — Eu gostaria que você visse o mesmo homem que eu vejo quando olho para você. — falei calidamente, Oliver era totalmente inconsciente do quanto eu admirava quem ele era, e principalmente quem ele estava se tornando — Você lutou por nós dois até o fim, você veio por mim incontáveis vezes, você não desistiu quando as coisas se complicaram, ou mesmo quando tudo parecia impossível, você se arriscou e se dispôs a morrer por nós. É esse homem corajoso e íntegro pelo qual me apaixonei, é esse homem, com seu coração puro, destemido, e cheio de amor que eu quero ao meu lado, que eu quero como pai dos meus filhos e é apenas com este homem que eu vejo o meu futuro. — eu via a luz aos poucos voltando para seus olhos enquanto eu falava, um sorriso tímido se atrevia a aparecer e eu soube que estava trazendo meu Oliver de volta daquele lugar escuro feito de autocomiseração em que ele quase se jogou. — Quando você me deixou no quarto com minha mãe, nós duas tivemos uma conversa esclarecedora. — continuei contente por ter sua atenção, contente por estarmos apenas conversando — Eu a questionei se ela não temia que eu fosse ser tão má quanto Anatoly, afinal por mais que eu negue, eu sou filha dele, os genes dele estão em mim.
— Você não é nada como ele. — ele contrapôs, olhando para mim como se eu fosse louca por apenas pensar nisso.
— Você não pode negar que eu sou filha dele. — falei e surpreendentemente reconhecer que Anatoly era meu pai não me incomodava mais, porque não importava se ele era ou não, em meu coração eu nunca me sentiria filha dele e isso era o que realmente importava. — Mas sabe o que minha mãe me disse? Que todos nós temos capacidade para fazer coisas boas e coisas ruins, nós somos feitos de trevas e luz, e cabe a nós decidirmos o que queremos ser. — expliquei calmamente, tocando o rosto de Oliver com minhas mãos, satisfeita por ter seus olhos nos meus, fitando-me com amor e carinho — A vida é feita de escolhas e você pode escolher ser bom! Talvez você tenha cometido alguns crimes enquanto estava com os bratvas, mas todos eles foram para proteger pessoas, foram atos de amor por mais terríveis que pareçam. Eu olho para você, e vejo coragem, vejo força, vejo bondade e eu sei que é isso o que você vai ensinar ao nosso filho. Eu não poderia amar um homem melhor, eu não poderia escolher um melhor pai para esse bebê.
Oliver sorriu e dessa vez seu sorriso tocou seus olhos levemente marejados, mas com lágrimas que eram feitas de amor e não mais de dor. Lágrimas essas que levavam embora qualquer tormento ou escuridão que ainda tentava se apoderar de Oliver.
— O que há em você que sempre consegue me fazer ver o lado bom de tudo? — ele perguntou num tom emocionado.
— Não sou eu, é o amor que você sente por mim. — expliquei ganhado um olhar apaixonado dele — Por nós. E é esse amor que vai nos ajudar a seguir em frente, a recomeçar, a escrever juntos uma nova fase da nossa história.
— Eu quero tanto isso com você. — seus olhos não mentiam para mim. Eu vi neles o quanto Oliver me amava, o quanto ele queria esse futuro.
— Então esqueça o passado. — pedi, acariciando suavemente o seu rosto, a barba por fazer dele arranhando de um jeito gostoso a palma da minha mão. — Vamos fazer o jogo do que acontece na Rússia fica apenas na Rússia, e apenas esqueceremos o que aconteceu aqui. — ofereci a saída, nós podíamos simplesmente recomeçar do zero e deixar cada sofrimento para trás.
— Não podemos fazer isso, printsessa. — ele negou com um sorriso charmoso que faziam borboletas baterem suas asas no meu estômago — Porque o melhor da nossa vida, nós fizemos aqui na Rússia. — Ele colocou a mão sobre meu ventre e nesse momento uma emoção única passou por mim, e eu soube que ficaríamos bem.
Oliver, eu e nosso bebê.
Nós sobrevivemos à máfia russa.
O que quer que o futuro nos reservasse nós enfrentaríamos isso juntos, como a família que estávamos começando a formar. A mera visão disso trazia um sorriso em meus lábios e pura emoção transbordava de mim. Mas havia ainda algumas coisas a serem resolvidas antes de trilharmos esse caminho.
— Oliver, o que Diggle queria falar comigo mais cedo que você não permitiu? — perguntei de repente e Oliver ficou tenso — Era algo ruim? — Insisti vendo a sua relutância em me dizer.
— Não é exatamente ruim, eu só não queria que ele te incomodasse com esse assunto depois de tudo o que você passou, eu queria que você descansasse antes — continuei a fitar Oliver esperando que ele continuasse. — Você não vai deixar isso para amanhã, vai? — neguei com a cabeça e ele suspirou — Sempre tão teimosa! — ele sorriu ao dizer isto, mas logo assumiu um tom mais sério — Anatoly e Vladmir ambos estão mortos, e nos dois casos eles deixaram apenas um herdeiro, a mesma pessoa detém o controle de todo o dinheiro, bens e sabe-se lá mais o quê eles deixaram. Essa pessoa é você, Felicity — eu pisquei, não esperava por isso. Eu herdeira da máfia russa? — Você terá que decidir o que fazer com isso, printsessa.— ele me disse, sua mão envolvendo a minha com carinho enquanto seu olhar vinha solidário na minha direção.
— Eu não quero nada disso, por mim podem doar todo esse dinheiro sujo e tentar transformá-lo em algo bom. Algum projeto social ou algo assim. Eu realmente não me importo. — Dei de ombros, ansiosa para me livrar desse assunto estranho e voltar ao que realmente importava — Só há uma coisa que ocupa todo o meu pensamento no momento e que é realmente importante para mim.
— O que é? — Havia um ligeiro ciúme em sua voz que quase me fez rir.
— Eu estou pensando no nosso futuro. — disse, percebendo que Oliver adquiria um brilho diferente em seu rosto, apaixonado demais, feliz demais.
— Engraçado, eu também tenho pensado muito nisso.
— E...?
— Eu estava pensando se você aceita se casar comigo, printsessa... — eu pensei estar sonhando a primeira vez que ele disse a frase, ou então escutado mal, por isso apenas segui o encarando esperando que aquilo fizesse sentido, mas então ele repetiu mais uma vez num tom mais forte e imperativo— Case comigo, printsessa... Me faça o homem mais feliz desse mundo e me deixe ser aquele que irá até o fim do mundo apenas para fazê-la sorrir. — Eu prendi o fôlego, ainda atônita demais com suas palavras — Case-se comigo e eu prometo que irei amá-la, protegê-la e estar sempre ao seu lado.
— O quê? — meu coração batia rápido dentro do peito, minha mente rodava e eu não conseguia formular uma frase coerente.
— Case comigo, vamos construir um futuro juntos. — ele repetiu, seus olhos brilhando mostrando-me o quanto ele realmente deseja isso — Eu, você e nosso bebê.
— Você está me pedindo em casamento por que estou grávida? — eu perguntei de repente e Oliver me olhou parecendo confuso. Deus! Eu estava sendo histérica, o homem que eu amava estava me pedindo em casamento, por que eu não conseguia formular um simples “sim”?
— Não. — Oliver me corrigiu paciente — Eu estou pedindo porque eu te amo, porque eu quero seguir em frente e você é o único caminho que me vejo seguindo. Porque eu quero te oferecer meu futuro, minha vida e meu coração. Eu quero amá-la e quero fazê-la feliz, e tudo o que peço de volta é que você seja minha amada mulher e a mãe dos meus filhos.
— Você já me tem, amor. — eu finalmente consegui dizer, com minha voz trêmula e embargada, mas ainda assim absurdamente feliz — Com todo o meu coração eu aceito me casar com você.
Eu nunca tinha visto Oliver tão feliz. Ao longo do nosso tempo juntos eu tinha visto várias partes dele. Eu o conhecia quando estava zangado ou triste, eu tinha visto seu lado mais sombrio e seu lado profissional, ambos eram determinados e impassíveis. Eu vi seu lado mais doce, seu lado de amante, e eu me apaixonei por cada pequena parte dele, por cada defeito e por cada qualidade, porém eu nunca tinha o visto plenamente feliz.
E eu estava caindo de amores por essa parte dele também.
Eu amei o enorme sorriso em seu rosto, e a forma como seus olhos pareciam ainda mais azuis, como as águas de um oceano calmo. As geleiras que eu costumava encontrar ali tinham partido há muito tempo atrás e eu tinha certeza que nunca mais retornariam. Eu olhava em seus olhos e encontrava o meu Oliver, aquele soldado bratva com seu semblante sério e que escondia os seus sentimentos, já não tinha mais lugar.
— Obrigado, printsessa. — ele me agradeceu, e no momento em que ele disse as palavras eu soube que ele não estava agradecendo pelo meu sim. Ele estava agradecendo por tudo o que vivemos, momentos bons e ruins, cada pequena parte que nos trouxe até o agora onde tínhamos um futuro inteiro a nossa espera.
— Você não tem que me agradecer, a única coisa que eu espero de você é que nos ame.
— Eu vou, eu prometo. — E eu sorri porque eu sabia que Oliver nunca quebrava uma promessa. Ele se aproximou de mim com um sorriso nos lábios que se colocou sobre o meu suavemente, provando-o sem pressa ou desespero, enquanto selavam aquela promessa. O beijo tinha um gosto novo de esperança, de completa felicidade e até mesmo ansiedade para o que viveríamos a seguir.
Oliver inclinou seu corpo sobre o meu, fazendo-me deitar sobre a cama enquanto seguia me beijando, os lábios se tornando mais afoitos como se não conseguissem conter a agitação dentro dele. Minhas mãos deslizaram languidamente ao longo das suas costas, tocando-o com certa rudez até que um gemido de dor me fez parar. Afastei Oliver apesar de seus protestos e percebi que eu havia desfeito o seu curativo que agora voltava a sangrar.
— Eu acho que você não pode fazer movimentos bruscos ou vigorosos, é melhor você descansar. — Alertei, enquanto ele pressionava o lugar para estancar o sangramento.
— Certamente isso acaba com meus planos de comemoração para essa noite. — reclamou rindo, a voz contendo um bom humor raro de se ver em Oliver. Ele se deitou de costas sobre a cama, colocou ambas as mãos atrás da cabeça e me fitou, seus olhos brilhando de uma forma adorável — Mas eu tenho outros tão bons quantos.
— É mesmo? Quais? — perguntei sendo contagiada pela felicidade que parecia emanar de Oliver.
— Apenas deite-se ao meu lado e vamos contemplar o futuro que nos espera. — havia algo de agradável e esperançoso nisso, uma estranha paz que vinha da certeza de que poderíamos ter tudo o que quiséssemos a partir de agora. Nada poderia nos parar. — Vamos fazer planos juntos — ele disse sonhadoramente, enquanto eu me deitava ao seu lado, minhas mãos unidas se acomodando sobre seu peito enquanto eu descansava o meu queixo sobre elas e olhava diretamente para o belo rosto de Oliver — Onde você gostaria de morar? Como você imagina que a nossa casa seja? — começou a jogar as perguntas ansiosamente, mas sequer esperou que eu as respondesse — Eu quero uma daquelas casas com um grande quintal e cerca branca, parece que são as que mais combinam com finais felizes.
— Não precisamos de uma dessas casas para sermos felizes. Eu não me importo, na verdade eu posso morar em qualquer lugar, desde que esteja com você eu sei que seremos felizes — Oliver sorriu, uma de suas mãos acariciou meu rosto e o puxou suavemente para si até que nossos lábios se encostassem num beijo singelo.
— E nomes? Tem algum preferido? — Oliver perguntou com um sorriso fascinante.
— Nomes?
— De bebês! — falou animado.
— Ainda temos meses para decidir isso, amor...
— Não, eu quero decidir logo, eu quero dizer seu nome quando ele ainda estiver crescendo em sua barriga. Eu quero que ele reconheça a nossa voz dizendo o seu nome. — havia uma doçura contagiante em seu tom — O que acha de Grace? — perguntou seus olhos contendo um brilho especial.
— É lindo, mas e se for um menino?
— Confie em mim, vai ser uma menina. — Estreitei os olhos para ele que apenas sorria. Como ele poderia saber? — Com olhos tão lindos quanto os seus, e claro, ela vai herdar a sua teimosia e petulância. Eu posso ver o quanto a pequena Grace Smoak Queen vai nos dar trabalho...
— Como você pode saber? — Oliver não me respondeu, mas manteve aquele sorriso confiante no rosto que me dizia que de alguma forma ele sabia — Grace. — repeti o nome, gostando da sonoridade que ele tinha em meus lábios, era gostoso de dizer, e eu senti um frio na barriga apenas em pensar nele.
— Grace. — Oliver disse também de um jeito sonhador — Porque ela é uma graça, um milagre que recebemos quando tudo parecia estar perdido.
Fechei os olhos e visualizei o futuro que Oliver me oferecia, eu, ele e uma pequena sapeca chamada Grace. Nós três morando em uma casa com um quintal grande e um cercado branco, nossa vida sendo preenchida por risadas e momentos felizes. Nem em meus melhores sonhos eu me atrevia a sonhar com isso, meu tempo na Rússia me tornara alguém mais cautelosa, eu aprendi o valor da verdadeira felicidade e o quanto isso pode ser tirado de você de uma hora para outra.
Mas eu olhava para Oliver e eu me atrevia a sonhar novamente, porque eu sabia que nada no mundo poderia destruir o que nós dois sentíamos.
Nossos corações se pertenciam.
Não havia guerra que pudesse mudar isso. E ainda que tentassem nos afastar, nós sempre encontraríamos o caminho de volta um para o outro.
FIM
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