Wanna Play?
2 What a mess
Notas iniciais
“Não dá para escolher se você vai ou não se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo.”
— A Culpa É Das Estrelas, John Green
Sara ficou encarando o telefone mudo sem entender nada. Será que as coisas com Oliver haviam sido tão ruins assim?
“Eu duvido muito que Ollie comprasse uma briga feia com ela por causa de um único atraso. Aliás, ela não parecia em apuros. Então...”
Claro. Não haviam tido tempo para conversar sobre a noite passada. Sara já deveria saber, embora não tivesse se dado conta até aquele momento, mas Felicity era diferente das outras pessoas com quem já havia estado.
No mundo onde viviam, deixando suas vidas de lado para proteger uma cidade, manchando suas mãos de sangue por causa da Liga dos Assassinos, Felicity era uma alma pura. Uma luz em meio às trevas que habitavam seu coração. Dentre eles, ela era a que trazia sorrisos e diversão. Era a única que nunca havia matado ninguém.
Essa era a verdadeira razão pela qual Oliver gostava dela e não suas habilidades excepcionais, embora elas fossem um brinde e tanto e a primeira razão para Oliver tê-la trazido até aquele mundo tão perigoso. Felicity era aquela que mantinha sua sanidade em meio ao caos. Por causa dela, Sara tinha certeza, Oliver não hesitaria em quebrar seu juramento e voltar a matar. Nem mesmo ela hesitaria em fazê-lo. Não era algo para ser cogitado ou pensado. Apenas aconteceria e pronto.
Claro, era difícil admitir isso, e ela até mesmo odiou Felicity num primeiro momento quando a conheceu, mas isso apenas porque Oliver parecia coloca-la em um pedestal que apenas a própria Felicity era incapaz de enxergar.
A principio, Sara havia pensado que isso se devia às suas habilidades de penetrar qualquer sistema facilmente ou ao complexo de Oliver em ser o herói de mulheres loiras, bonitas e aparentemente indefesas. Mas tão logo estava junto de Felicity, ela compreendeu a real razão por trás disso. Felicity era paz. Felicity era seu chão. E isso era inegável. Toda espada precisa de sua bainha. A própria Nyssa havia lhe dito isso uma vez. Felcity sequer desconfiava que era a bainha do Arqueiro, aquela que sustentava a personalidade quase apagada e inexistente de Oliver Queen. A única pessoa capaz de acalmar a fera que existia dentro dele, tão insana por sangue quanto ela própria havia se tornado depois de seis anos de inferno naquela ilha.
Pensando nisso, Sara via a gravidade de toda aquela situação. Na noite passada, não havia pensado nisso. Estava entediada e queria se divertir. Felicity era bonita à sua própria maneira, e o jeito irremediável de sempre parecer uma garotinha havia atraído Sara de alguma forma. Mas sinceramente, ela só queria um pouco de diversão.
Quando havia proposto aquele jogo, sua única intenção era brincar com ela. Sequer sabia que ganhar o jogo, pois Felicity possuía um QI muito mais elevado que o seu, mas era mesmo muito boa em adivinhações. Isso porque quando era mais nova, vivia assistindo a um programa chamado “Adivinhe só!”. Ela sempre derrotava Laurel nesse jogo. As vezes até mesmo seu pai.
De qualquer forma, ela não pensou que Felicity a deixaria ir tão longe. Sara imaginou que a loira pediria para que parasse. Provavelmente brigaria com ela daquele jeito que só ela sabia fazer, e ficaria vermelha como um pimentão. A situação ficaria meio estranha por alguns dias, mas então tudo voltaria ao normal. Meses depois, dariam risada disso. Mas ao contrário do que Sara havia imaginado, Felicity lhe surpreendeu pedindo para que prosseguisse, ou melhor, não a impedindo de fazê-lo. E antes que se desse conta, já havia perdido o controle daquela situação.
“Merda”, Sara pensou enquanto montava na moto, dirigindo-se para a Queen’s Consolity. Definitivamente, mesmo que não fosse de seu feitio encarar as situações de frente, precisava resolver aquilo. Só esperava não complicar ainda mais as coisas do que já havia feito.
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Felicity pensou em ir direto para casa, mas então se lembrou que seu carro não estava na empresa, mas em algum lugar perto da base. Ao menos ele esperava que ainda estivesse lá.
A boate não era absurdamente distante da Queen’s Consolity, mas de salto a distância se tornava monstruosa. Então, optou por um táxi.
– Para onde, senhorita? – o homem perguntou com um sorriso jovial. Felicity quis retribuir o cumprimento, mas a verdade é que agora a exaustão havia lhe pegado de jeito. Tudo o que queria era tomar um bom banho e dormir pelo menos doze horas para recarregar as energias. Dormir e esquecer toda aquela bagunça em sua cabeça.
Pensando nisso, deu o endereço de sua casa ao taxista. Lhe custaria um pouco mais caro, mas estava cansada demais para dirigir. Depois de pagar ao rapaz, Felicity desceu do taxi encarando o prédio onde vivia.
Não era um lugar granfino como a mansão de Oliver, mas possuía o aconchego de um lar e era suficientemente grande para ela e suas tralhas, mesmo que Felicity preferisse passar a maior parte de seu tempo no subsolo da Verdant, trabalhando nos computadores fornecidos por Oliver.
Lá, ela não se sentia solitária. Lá não era vazio.
– Lar, doce lar. – balbuciou, arrastando os pés até a portaria. Deu uma olhada rápida em suas correspondências, vendo uma carta de sua mãe – ela ainda era a única pessoa vivendo na era das cartas por mais que Felicity tivesse tentado lhe ensinar como mandar um e-mail ou mesmo um sms – e tentou chamar o elevador, notando segundos depois que estava quebrado.
– Que ótimo. – Felicity bufou, olhando para as escadarias que nunca pareceram tão distantes assim do terceiro andar.
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Não demorou muito para Sara chegar até a empresa novamente. Mesmo com o tráfego lento daquele horário, Sara conhecia alguns atalhos até lá. Ela parou a moto entre dois carros e olhou para o topo do prédio, protegendo o rosto do sol.
“Aí vou eu”.
Primeiramente, Sara havia tentado retornar a ligação de Felicity, mas parecia que a bateria havia acabado ou ela havia desligado o celular. Talvez também estivesse participando da reunião como havia dito na outra noite. Talvez apenas não quisesse lhe atender.
“Não seja boba, Sara. Isso não é nenhum namorico de colégio. Você está indo resolver essa merda. Explicar tudo para Felicity e colocar um ponto final nisso. E só.”
Então por que suas mãos estavam tão suadas? Ela quis se convencer que era apenas o clima quente, mas duvidava muito que aquela fosse a única razão.
Não era como se gostasse de Felicity ou algo do gênero, mas era inegável que havia se sentido atraída por ela na noite passada.
Embora a imagem de Nyssa e Oliver tivessem passado por sua cabeça, foram rapidamente esquecidos quando começou a escutar os gemidos tímidos de Felicity se transformarem em algo mais intenso. Aquilo a excitou de tal maneira que havia se esquecido até mesmo onde estavam. Por sorte, se lembrou na manhã seguinte e apagou as filmagens das câmeras.
Na verdade, nem mesmo ela sabia como se sentia a respeito de toda aquela situação. A verdade é que sua brincadeira havia se tornado uma grande confusão.
Quando chegou ao andar da sala de Oliver e as portas se abriram, ela se deparou com Diggory jogando no celular, sentado onde supostamente seria a mesa de Felicity.
– Hey, Diggle. – cumprimentou-o, vendo o moreno se sobressaltar e perder a última vida no Fruit Ninja.
– Droga, Sara! Estava a um passo de bater o recorde de Lyla no meu celular. – ele não parecia realmente irritado, mas o tom de sua voz fez Sara rir, afastando momentaneamente suas preocupações. – E então, o que quer por aqui? É um lugar muito estranho para passar seu dia de folga.
– Dia de folga? – Sara questionou, arqueando as sobrancelhas.
– Felicity não te disse? Tenho certeza que ela ficou de te avisar, sabe. Por causa de ontem. – Diggory começou uma nova partida sem notar que Sara havia congelado onde estava.
– Por causa... de ontem. – ela repetiu de forma bastante cautelosa.
“Calma, Sara. Não é grande coisa. Com certeza Felicity não contou nada disso a ninguém”.
Mas ela não era exatamente conhecida pela sua grande habilidade em guardas segredos. Bem, Sara sabia que se a apertassem falaria algo comprometedor.
– É. Por causa do assalto, sabe. – Diggory ergueu os olhos para encará-la, distanciando-se um pouco da partida. – Está tudo bem, Sara?
– Sim, eu só... por acaso você sabe onde ela mora? – perguntou. – Ela me emprestou algumas coisas que fiquei de devolver, mas acabamos nos desencontrando.
– Claro. – ele anotou o endereço de Felicity em um papel e o entregou a Sara. Entreabriu os lábios, talvez para pergunta por que a urgência em devolver as coisas, mas havia aprendido com Lyla que as vezes era melhor não se meter no assunto de mulheres.
– Obrigada, Dig. – ela sorriu e lhe deu um beijo na bochecha, caminhando a passos largos para o elevador.
– Era a Sara? – Oliver perguntou, aproximando-se do segurança.
– Era sim. Aparentemente, Felicity esqueceu de dar o recado a ela. – Diggory respondeu, leviano à situação.
– Hum, achei que ela quisesse falar comigo. – Oliver apoiou-se na parede ao lado do moreno, infeliz por não ser o centro das atenções.
– Ela veio atrás de Felicity. Disse que estava com algo dela que queria devolver, algo assim.
Oliver arqueou uma das sobrancelhas de forma interrogativa.
– Não sabia que elas eram tão próximas a ponto de emprestarem coisas umas às outras. – comentou. – Bem, fico feliz por isso. Que estejam finalmente se entendendo. – sorriu. – Falarei com ela mais tarde. Talvez marcar um jantar se o Arqueiro estiver livre.
– Vamos lá, Oliver, deixe suas garotas aproveitarem o dia de folga. Não seja um pai tão protetor. Além disso, sempre poderá estar com a Sara, não é? Ela não faz mais parte da Liga. – concluiu ao que Oliver concordou com a cabeça. – Deixe as garotas fazerem o que quer que garotas façam quando estão sozinhas.
Oliver olhou para Diggory depois de seu último comentário, e o segurança o encarou de volta. Suas mentes sujas trabalharam ao mesmo tempo, divagando a uma grande distância da realidade, imaginando as duas juntas de uma maneira completamente erótica e sensual.
Logo, caíram na gargalhada.
– Nãoooo! – falaram em uníssono.
Eles não faziam nem idéia do quão próximos estavam da realidade...
X
Quando Felicity finalmente pisou em seu apartamento, tirou os saltos, jogando um para cada canto e lançou-se contra o sofá, sentindo o corpo dolorido relaxar completamente. Por um momento, permitiu-se fechar os olhos e respirar fundo, sentindo a brisa da janela que dava para as escadas de incêndio acariciar seu rosto.
(Imagens da noite passada lhe retornaram à mente. De Sara lhe levando ao limite, provocando-a e brincando com ela até que pedisse por mais, que desejasse por mais, que a quisesse tão completamente ao ponto de perder o controle)
Felicity não era nenhuma garotinha inocente, por mais que as pessoas ao seu redor achassem que sim. Ela sabia lidar com sexo casual. Bem, não era como se fosse perita nisso. Já havia namorado algumas vezes, mas nunca sexo casual. Só que isso não significava que não pudesse fazê-lo. Afinal, havia uma primeira vez para tudo.
Aquela noite, ela sabia, não voltaria a acontecer outra vez, mesmo que ela ainda sentisse formigar todo seu corpo e ainda um frio gostoso na barriga apenas por pensar nessa possibilidade.
“Bem, não é tão diferente de todos os meus desastres amorosos, se é que posso realmente chamar assim”, Felicity riu de si mesma, de sua situação e apanhou a carta da mãe, abrindo-a.
“Querida Felicity,
Não sei se essa é a maneira correta para começar uma carta, mas acho que sim! ♥
Estou com saudades, bebê. Quando vira à Central City de novo? Se demorar demais, morrerei de saudades!
Mamãe ama você, Fel. E lembre-se que você sempre terá um lugar para voltar se precisar.”
Fel.
Parecia que tudo lhe remetia àquela noite novamente, como se fosse um assunto mal resolvido, mas Felicity estava certa de que não havia nada para ser resolvido. Afinal, como se pode resolver algo que sequer deveria ter acontecido?
“É apenas sexo casual, Felicity. Com uma mulher. Que por acaso estava saindo com seu chefe. E faz parte da Liga dos Assassinos—e do time Arqueiro. E, por Deus, que sabia o que fazer com aquela língua”.
A simples lembrança fez com que seu rosto corasse violentamente, e ela balançou negativamente a cabeça, deixando a carta sobre a mesinha de centro. Suspirou pesadamente e fechou os olhos por um momento, descansando a mente e, sem controle sob seu cansaço, mergulhou em um sono inquieto.
X
(No sonho ela estava na Queen’s Consolity, atolada nas papeladas da empresa e cansada de assinar papéis e pedidos de desculpas em nome do Sr. Queen. Ela achou que não sairia nunca dali, mas então a campainha do elevador anunciou a abertura das portas e ela viu Sara sair de lá, caminhando na sua direção com um sorriso malicioso.
– Olá, Fel. – a voz languida de Sara a deixou alerta e tensa. A loira cobriu a distância entre elas como se não fosse nada e apoiou as mãos sobre sua mesa, olhando-a fixamente.
Mesmo que Felicity quisesse desviar o olhar, ela sentiu como se todo o seu corpo tivesse sido congelado. Sequer conseguia piscar.
– Sara, o que está fazendo aqui? – a pergunta saiu baixa e um pouco cautelosa.
– Você sabe. – ela limitou-se a responder, aproximando o rosto do dela até que seus lábios quase se tocassem.
Ela sabia. Era impossível não saber. E sentia-se envolvida por aquela situação, tragada para o centro do vórtice que eram seus olhos, como um mosquito indo em direção à luz mesmo sabendo que aquela era a sua perdição. Azuis. Azuis e intensos como o oceano bravo onde uma vez Sara havia se perdido.
– E-eu... – gaguejou, tentando buscar as palavras certas para aquele momento.
– E então, Fel? Você quer brincar? – Sara segurou seu queixo com uma das mãos e passou a língua pelos lábios de Felicity.
– Oliver pode chegar a qualquer momento, Sara. – ela murmurou baixo, tentando se desvencilhar sem sequer ao menos desejar isso. Por que não havia ninguém ali?
– Não se preocupe com isso, Fel. Eu estou aqui com você. – o sussurro de sua voz foi o suficiente para hipnotiza-la como o canto de uma sereia. Já havia se perdido por completo quando ela lhe beijou)
Seus olhos se abriram de supetão e Felicity sentiu o coração bater tão forte contra o peito que poderia, literalmente, explodir.
Claro que não tão literalmente, pensou ela. Corações não explodem por aí por causa de um sonho um pouco erótico—muito mais erótico se ela não tivesse acordado.
Foi então que notou sua visão um pouco embaçada. Estava sem os óculos, que se encontravam pousadas acima da carta de sua mãe.
– Que estranho, não lembro de ter tirado os óculos. – disse em voz alta, coçando a cabeça e espreguiçando-se.
– Não tirou. – uma voz se manifestou. – Eu tirei.
– Puta que pariu! – Felicity se sobressaltou quase caindo do sofá, e mesmo antes de se virar na direção da voz, já sabia quem era. – Sara! Como você.. quando você... O que está fazendo aqui? – indagou finalmente.
Se não havia tido um ataque cardíaco depois disso, Felicity estava certa de que tinha um coração muito forte. Afinal, que tipo de pessoa poderia resistir a uma pessoa que entra em sua casa no terceiro andar sem nem sequer ter batido na porta?
– Entrei pela janela há uns trinta minutos. – Sara respondeu categoricamente e deu de ombros. – Mas você parecia estar tendo um sonho tão bom que não quis te acordar.
Felicity corou das pontas dos pés até o último fio de cabelo. Por que ela tinha a impressão de que as situações embaraçosas não estavam nem perto de chegar ao fim?
– Tudo bem com você? Parece meio febril. – Sara lhe tocou a testa e então as bochechas para sentir sua temperatura. Perto demais.
– Estou bem! – Felicity respondeu rapidamente e afastou-se do contato como se fosse ferro quente ou como se uma corrente elétrica de 20.000 amperes passasse por todo seu corpo. – Gosta de café? Café é ótimo. Farei café.
Sara arqueou as sobrancelhas e seguiu Felicity até a cozinha.
– Você está estranha, Felicity. – a loira comentou, correndo os dedos pela bancada que separava a cozinha da sala. O apartamento em si não era muito grande, sobretudo a cozinha, mas era um lugar bom para se viver.
– Estranha, eu? Estou normal. Muito normal na verdade. Aproveitando meu dia de folga, longe de vigilantes loiros, de todos os—
Sara inclinou-se sobre a bancada e calou Felicity com um beijo. Os lábios dela eram macios e suaves. Tinham sabor de gloss de morango que ela usava todos os dias antes de ir para o trabalho.
Inicialmente, Felicity ficou paralisada, sem entender nada da situação, apenas sentindo a língua de Sara invadir e explorar sua boca enquanto a encarava ainda atônita.
“O que está fazendo, Sara? Por que está virando de cabeça para baixo a minha razão?”
Ela correspondeu ao beijo, segurando o rosto de Sara com ambas as mãos e acariciou suas bochechas com os polegares, sentindo Sara afundar as mãos em seus cabelos e deslizá-las até seu pescoço.
Felicity não queria que esse momento acabasse. Ela não queria ter que lidar com a situação constrangedora que viria depois disso, embora sua mente já estivesse lhe mostrando o quão desastrosa ela seria.
Sara também não queria ter que lidar com isso. Tudo o que ela queria era calar Felicity e acalmá-la, pois parecia prestes a ter um ataque de nervos. Ela queria dizer que tudo estava bem entre elas e que havia cometido um erro. Um puta de um erro quando fez aquele jogo. E agora, ao invés de melhorar as coisas, estava tornando tudo mais complicado ao beijá-la, mas essa havia sido a única idéia a passar por sua mente para calá-la. Uma idéia impensada, mas que deu muito certo, pois quando se afastou de Felicity, ela parecia tão desnorteada ao ponto de perder o dom da fala.
– Wow. – Felicity balbuciou, incapaz de formular uma frase mais coerente do que essa.
– É. – Sara escondeu as mãos nos bolsos dando as costas para Felicity somente para não ter que encará-la.
– Você.. você me beijou. – ela levou as pontas dos dedos aos lábios, olhando para as costas de Sara.
– É, eu beijei sim. – Sara respondeu, olhando para Felicity por cima do ombro. Felicity ainda parecia desnorteada pela ação de Sara, perdida na sensação que aquele beijo havia lhe causado, tão diferente da noite anterior. – Diga alguma coisa, Felicity. – sua voz quase beirava ao desespero. Não queria ferir os sentimentos de Felicity, no entanto ela tinha o dom de fazer as coisas darem errado.
– Eu... eu ainda estou tentando entender, Sara. – confessou desviando o olhar para o chão.
– Eu... eu acho melhor ir embora. – Sara murmurou, caminhando na direção da janela, sem nem mesmo se lembrar que havia uma porta pela qual podia sair.
– Sara, espere! – Felicity correu até ela lhe segurando pelo pulso. Não sabia exatamente como agir ou o que dizer, mas sabia que se Sara saísse de seu apartamento naquele momento, talvez nunca mais pudessem resolver aquela situação. – Por que você fez isso? Por que me beijou? Por que propôs aquele jogo, pra início de conversa? O que.. o que você quer de mim?
Aquela era a Felicity que conhecia, com uma torrente de perguntas sem fim. Perguntas que nem mesmo ela sabia ao certo como responder, mas sabia de uma coisa. Sabia que devia a ela ao menos uma explicação decente. E não queria machuca-la. Felcity não merecia ser machucada.
– Eu... eu queria apenas me divertir, Fel. A principio, quando ganhei o jogo, eu queria te pregar uma peça. Quer dizer... você é sempre tão certinha, tão tétrica em todas as coisas que você faz e conquista as pessoas ao seu redor mesmo sem se dar conta disso. Você as envolve com seu charme, Felicity, e eu...
(eu me senti envolvida também)
–... queria ver como você reagiria. – confessou finalmente. – Mas quando vi que estava gostando, que queria ir à frente com aquilo, eu...
As palavras morreram em sua boca ao ver o olhar de Felicity sobre ela. Era difícil para Sara compartilhar o que sentia depois de ter passado pelo inferno de estar presa naquela ilha por tanto, tanto tempo.
– Você...? – Felicity a encorajou a continuar.
– Eu desejei você. – ela murmurou, derrotada e se soltou de Felicity. – Eu sinto muito, sinto muito mesmo, Felicity. Espero que um dia... você possa me perdoar pelo que eu fiz.
Ela saiu correndo e saltou pela janela, se lançando do terceiro andar. Felicity correu até a ponta da janela, sem compreender como ela ainda estava viva, mas a viu na escada de incêndio do outro prédio, encarando-a com os olhos cheios de dor antes de deslizar pelas escadarias e montar na moto, desaparecendo de sua visão.
– Sara... – ela murmurou baixinho, cruzando os braços sobre o peito e suspirou.
Parecia que a situação delas não estava nem perto de se resolver.
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