Wanna Play?

17 Voe, canário, voe.


Notas iniciais
Alguns personagens que não pertencem à trama de Arrow serão citados nesse capítulo. No mais, preparem seus corações! Lá vem emoção por aí!

Can you still see the heart of me?

All my agony fades away

When you hold me in your embrace

(Você ainda pode ver um coração em mim?

Toda a minha agonia desaparece

Quando você me envolve em seu abraço)

All I Need – Within Temptation

X

[Sara]

Durante muito tempo, eu carreguei dentro de mim o vazio e a dor de não saber que rumo tomar.

Cada morte ficou marcada em mim como uma maldição, um estigma colocado em minha própria alma. Eu nunca disse isso a ninguém. Eu nunca disse que os meus piores pesadelos retornavam na forma de todas as pessoas que assassinei.

E que eu as assassinava de novo. E de novo. E de novo. Até que elas adquiriam os rostos das pessoas que eu amava. O rosto de Ollie, o rosto de papai, o rosto de Laurel, o rosto de Nyssa... e o seu, Fel.

O seu foi o último rosto dentre tantos os que mancharam a minha lista. Nas noites em que eu acordava gritando, eu matava você. Continuamente. E você sorria para mim todas as vezes.

Acho que é porque no fundo eu sabia. Eu sabia que as coisas terminariam assim se você me seguisse. Se escolhesse estar ao meu lado. E mesmo assim você não se arrepende. Mesmo assim, você sorri para mim e continua sendo a luz em meio à escuridão velada. E continua a me guiar de olhos fechados para longe dela.

X

Fazia tempo desde a última vez que John havia levado um tiro ou uma flechada. Mesmo nas missões a campo, sua armadura de Espartano feita do mesmo kevlar da roupa de Oliver, impedia que se ferisse tão facilmente. Mas naquele dia, seguindo Roy e procurando não chamar atenção desnecessária, ele não havia saído com seu traje de vigilante.

Provavelmente se arrependimento matasse, ele estaria morto agora. Por sorte, a flecha havia atingido o ombro, longe de qualquer órgão vital.

− O que eu faço? – Sin questionou. Roy a acompanhava como um robozinho, murmurando coisas incompreensíveis, enquanto John pressionava o ferimento.

Desceram pelo elevador secreto que ficava no Verdant, mas àquela hora, o bar estava fechado.

− Preciso limpar o ferimento. Tem um kit de primeiros socorros embaixo da mesa da Felicity. – John se sentou em uma das cadeiras no QG, sentindo pontos negros dançarem sobre sua visão.

Sin apressou-se em buscar o que Diggle havia pedido, sem sequer prestar atenção ao redor, mesmo que seu sonho fosse um dia conhecer o QG onde Sara trabalhava como Canário Negro. Mas desde que ela havia perdido a memória, tudo havia ficado confusa para a moradora dos Glades que se sentia mais sozinha do que nunca. Roy era seu único amigo e vê-lo naquele estado a fazia consumir-se em culpa. Como não havia percebido? Como havia deixado ele chegar tão fundo? Ele sempre a havia ajudado, sempre que Sin precisara. A havia alimentado quando ela não tinha mais o que comer, mesmo que isso significasse dividir sua única refeição do dia ou ficar sem ela. Haviam dividido a cama—mas nunca como amantes—apenas para se aquecer nas noites mais frias quando Roy não voltava para casa apenas para ficar com ela. Isso quando não a colocava para dentro da própria casa.

− Aqui. – Ela abriu a maleta, visualizando pacotes lacrados de gazes, álcool, linhas de sutura e algumas outras coisas que ela sequer sabia para o que serviam. – E agora?

− Agora preciso que você me ajude. Preciso descobrir se algo sério foi atingido. E depois preciso limpar a ferida e passar o álcool para impedir qualquer fonte de infecção. – Ele fez uma pausa, como que para Sin absorver tudo o que dizia para que ela tentasse entender sua parte naquilo tudo. – Não consigo fazer isso sozinho, Sin.

Finalmente saindo de seus próprios pensamentos de culpa e tortura pessoal, ela se focou naquilo que poderia fazer: ajudar John.

− É melhor você respirar fundo. – ela disse. – Isso vai doer.

Não era a primeira vez que John passava por isso, mas Sin tinha toda razão.

X

[Nyssa]

Eu não acreditei no que você me disse até ver com os meus próprios olhos. Essa garota metida de óculos, que se escondia por trás da tela de um computador, que te causou tantos problemas ao ponto de você retornar para a Liga dos Assassinos apenas para resgatá-la, realmente valia alguma coisa.

Mas não foi feita para ser uma guerreira como nós. E no entanto, ela abriu mão de tudo por você. Da mesma forma que você abriu mão de tudo por ela.

Eu teria fugido com você, meu canário. Eu teria ido embora para longe, debandado da Liga dos Assassinos apenas para que pudéssemos ser felizes. Apenas para que você pudesse recomeçar.

Mas acho que nunca daria certo, não é? Isso é o que eu sou. Está entranhado em mim. E você... você é um pássaro livre. Você precisa voar.

Ela deu tudo por você, Sara. Então voe, Canário. Voe.

X

Thea sentia que os dias passavam como a brisa calma de uma noite de verão. Embora estar com seu pai fosse estranho, ela precisava admitir—mas nunca para ele—que sua companhia não era tão ruim.

Depois de tanto tempo sem ter Robert Queen por perto e tendo Ollie agindo como seu pai depois de ter retornado de Lian Yu, era bom ter alguém que a visse com outros olhos. Malcolm não tentava apenas proteger ela como uma bonequinha de porcelana. Ele queria que ela soubesse se proteger.

Cada dia era um martírio em suas mãos. Treinos incessantes, batalhas violentas e tantos hematomas que ela já havia desistido de contar.

Treinos com arco e flecha eram feitos com vendas nos olhos. Thea não tinha tempo, ela precisava aprender. Os inimigos de seu irmão poderiam vir atrás dela a qualquer momento. Os seus inimigos também.

Malcolm havia lhe contado sobre a identidade secreta de Oliver, mas em algum lugar de sua mente perturbada, ela já sabia disso.

O próprio Oliver lhe contara e Slade revelara o causo ao assassinar sua mãe diante de seus olhos.

Moira Queen. O rosto morto dela ainda assombrava seus piores pesadelos.

Apreciando o pôr-do-sol de onde quer que estivessem, ela se permitiu respirar por um momento, até sentir a madeira ranger ao seu lado. Seu pai se sentou ao seu lado e ofereceu-lhe uma raspadinha de morango.

Seu pai. Ainda era difícil se acostumar com o peso daquelas palavras, pois ela sabia que seu pai verdadeiro sempre seria Robert Queen. Isso não mudava o fato de que Malcolm vinha sendo... uma boa companhia.

− Obrigada. – Thea murmurou baixinho e começou a comer a raspadinha. O sabor adocicado e gélido foi bem aceito naquele calor escaldante.

− Um prêmio por finalmente ter acertado o alvo hoje.

Thea revirou os olhos.

− Faz apenas duas semanas, sabia?

Malcolm deu uma gargalhada sonora. Thea achava que seus lábios se repuxavam mais ou menos como os dele. Mas o som de sua risada se parecia com o de Tommy.

− Quanto mais rápido você aprender, mais cedo vai voltar para o seu... para aquele mau elemento.

− Roy não é um mau elemento! – Thea ralhou com o pai.

− Não é um bom elemento tampouco. O que ele pretende fazer da vida dele? – questionou. – Ser um Vigilante em tempo integral? Para isso, é preciso ser um playboy riquinho, sabe? Esses brinquedinhos não são baratos. – Malcolm acariciava uma katana em seu colo.

− Temos o Verdant. – Thea bufou, terminando a raspadinha. – Ele vai trabalhar lá comigo.

− Vigilante em tempo integral, barman nas horas vagas. Parece que sabe exatamente o que está fazendo da sua vida.

− Olha quem fala! – Thea aproveitou a brecha para tentar atingir uma cotovelada no pai. Malcolm rapidamente esquivou-se, aparando com o antebraço o golpe da filha.

− Ainda precisa de um pouco mais de treino. Vamos. – O sorriso debochado dele fez com que Thea desejasse afundar aqueles dentes em sua cara. – Gosto dessa raiva. É um ótimo combustível.

Ela trincou os dentes, pronta para gastar todo aquele combustível no rostinho lindo de seu pai.

X

[Oliver]

Mea culpa, mea maxima culpa.

Nas aulas de latim do colégio católico que eu frequentei quando já tinha sido expulso de todos os outros, esta foi a única frase que eu aprendi: Minha culpa, minha máxima culpa.

Preso diante da cena que se desenrola diante de meus olhos, essa frase se repete em um looping infinito.

Fui eu quem a trouxe para a ilha.

Fui eu quem permitiu que ela estivesse ali.

No meio de uma guerra.

No meio de uma carnificina.

Mea culpa, mea maxima culpa.

O pecado que eu cometi aqui não pode ser expurgado por ninguém.

X

Laurel sentia a cabeça um pouco mais leve naquela manhã. A noite com Eric havia sido uma surpresa mais do que bem vinda depois de todos os dias conturbados que vinha tendo. Entre o sumiço da irmã e ter que confiar em Oliver para trazê-la de volta, sua boca havia secado por uma dose de vodka. E no entanto, havia sido o próprio barman que tinha impedido sua sina. Que fez sua ficha ficar limpa por mais uma noite.

Ao chegar em sua sala, ela encarou os milhares de casos que deveria colocar em dia. Desde que Sara havia ficado no hospital e perdido a memória, ela havia delegado muitas de suas tarefas para outros promotores que estavam sob sua supervisão. Mas agora era a hora de retornar com força total.

Sentando-se em sua cadeira, ela começou a avaliar uma série de casos que havia deixado separados em especial. A maioria das fichas ali era e pequenos delitos, mas não era disso que Laurel estava atrás.

No exame toxicológico de todos, um componente desconhecido havia sido encontrado quando foram avaliados: CPH6.

Era esse o nome liberado no laudo pelos médicos. Um dos criminosos que teve um triste fim na cadeia havia sido mandado para a sala de patologia. A legista responsável pelo caso disse que se ele não tivesse morrido pela facada, seus rins teriam sido condenados por aquela substância.

Segundo ela, havia algo na composição da droga que era semelhante ao crack, causando uma dependência tão absurda que a pessoa simplesmente não conseguia ficar sem. Mas era sutil, ela pontuava no laudo. A droga causava um bem estar maior do que o ecstasy, sem o efeito colateral das visões psicodélicas que muitos usuários relatavam. Isso ela concluiu através de tomografias que foram retiradas antes da cirurgia pela qual outro preso passara ao reclamar de fortes dores de cabeça após uma queda.

Ainda seguindo em frente, ela concluía que, quando usada em pequenas doses, a droga podia ser benéfica, pois parecia dar ao usuário uma grande quantidade de energia, como um pó de guaraná concentrado—e disso Laurel entendia muito bem. A faculdade havia lhe ensinado bem. O grande problema era a questão do vício. Ela não chegava à uma conclusão a respeito da molécula formadora da droga, mas dizia que amostras de sangue haviam sido enviadas para especialistas na área. Uma amostra mais acurada ajudaria químicos a desvendarem a fórmula e talvez conseguir combater seus efeitos. A única coisa que ela poderia concluir até então é que a droga causava grande dependência. E talvez causasse efeitos colaterais muito piores do que qualquer outra droga. Era preciso mais informações para ter certeza.

− Ou seja, − Laurel espalmou os papéis na mesa. – não concluiu droga nenhuma.

Suspirando, ela esfregou as têmporas e sentiu o celular vibrar no bolso do terninho. Ao ver a mensagem de Eric, um sorriso se desenhou em seus lábios.

Eric:

Espero que mais noites como essa se repitam. Foi ótimo estar com você, Laurel.

Ela se sentia eufórica como uma garotinha do Ensino Médio.

Laurel:

Foi bom estar com você também. Podemos repetir a dose quando quiser.

Sem esperar uma resposta, guardou o celular no bolso, concentrando-se nos papéis à sua frente. Ela sabia que a resposta estava ali em algum lugar. E a encontraria. Então, sabendo que talvez precisasse de um empurrãozinho, ela discou o número da delegacia. Certamente seu pai deveria ter mais informações do que aqueles relatórios poderiam lhe fornecer.

X

[Er-Notur]

A felicidade é momentânea. Não existe felicidade eterna. Não existe felicidade. Não.Existe.Felicidade.

Tento me convencer disso. Tento me convencer disso a cada vez que essa desgraçada se coloca contra os meus planos. Ela e Sara, que deveriam tornar tudo mais fácil para mim. Que deveriam trazer o submundo para as minhas mãos.

Essa maldita ‘Felicidade’ manchou os meus planos com seus sorrisos fáceis e suas piadas baratas. Até mesmo R’as Al Ghul se deixou levar pelo charme dela.

Mas agora está acabado.

E eu vou me reerguer mais uma vez.

X

Demorou. Demorou mais do que gostaria. Sua cabeça era uma bagunça, uma confusão sem fim. Ele não conseguia imaginar seu mundo sem ela. Saudades. Thea havia ido embora. Precisava da droga. Estava tudo bem. Energia. Saudades. Só mais uma dose. Só mais um comprimido.

Sentia-se perdido, caminhando na escuridão sem nunca alcançar lugar algum.

Só mais uma dose.

Só mais uma.

Só mais.

Só.

X

[Talia]

Há coisas que simplesmente fogem do nosso controle.

Eu nunca imaginei que minha irmãzinha, fraca e patética, algum dia aprenderia a lutar como uma guerreira. Ou que eu a subestimaria ao ponto de estar sangrando no chão.

Olho para o lado e vejo meu pai.

Escuto os trovões, a confusão, os gritos que cortam o ar.

E vejo meu pai, sangrando e com os olhos vidrados.

Acho que ele tenta me dizer alguma coisa, mas está se afogando no próprio sangue.

Sinto minhas próprias feridas arderem.

Penso naquela garota que Noah me pediu para tirar da ilha em segurança e em como ela foi corajosa.

Tenho apenas o vislumbre do seu ato. E penso que deve ser bonito amar alguém assim.

Eu só amei uma vez.

A sombra de um morcego que me deixou pra trás.

Será que eu teria feito o mesmo por ele ou por Damian?

Gosto de pensar que sim.

Mas na maioria dos dias, acho que a resposta é não.

X

Quentin estranhou quando a filha mais velha o chamou para um almoço e deveria ter imaginado que por trás de todo aquele charme, havia um pedido. Quando ela lhe estendeu a pasta com diversos arquivos, ele só pôde pensar no quanto o bife que havia almoçado estava suculento. E mal passado do jeito que ele gostava.

− O que é isso? – perguntou enquanto palitava os dentes.

− Um caso no qual venho trabalhando. – Laurel respondeu categoricamente. – Já ouviu falar da nova droga que está circulando nas ruas?

Claro que havia ouvido falar. Em todos os cantos do Glades, as informações haviam se espalhado. Alguns de seus informantes haviam lhe dito que era uma droga sensacional. Que as pessoas que estavam usando adquiriam uma energia estrondosa. Quentin só conseguia pensar no Mirakuru.

Acenou positivamente com a cabeça. Laurel prosseguiu:

− Eu não tenho nada estritamente relacionado a isso. – Pontuou. – Mas notei um padrão entre alguns casos que peguei. A maioria deles de pequenos delitos vindo dos Glades. Reparei que no exame toxicológico de todas essas pessoas, encontrava-se a CPH6.

Cataclysmus. Esse é o nome popular nas ruas. – Quentin brincava de fazer origami com seu guardanapo. Vinha tomando aulas de várias inutilidades para ocupar a cabeça e não pensar na bebida. E em sua filha desaparecida. Novamente. – Tem algumas semanas que vem se espalhando como uma febre, principalmente entre os jovens. Fácil de conseguir, fácil de comprar e com um efeito rápido demais. Entre os estudantes, tem feito sucesso em noites que antecedem os testes. Mas até agora não ouvi falar nada a respeito de efeitos colaterais.

Laurel mordiscou o polegar.

− No que está pensando? – Quentin arqueou uma das sobrancelhas.

− Como sabe que estou pensando em algo?

− Conheço suas manias desde que usava fraldas, minha garotinha! – exclamou, orgulhoso. – Me diga o que tem em mente.

− É apenas uma ideia por enquanto. – ela disse, dando um beijo estalado na bochecha do pai. – Mas assim que eu tiver algo concreto, você será o primeiro a saber.

Laurel deixou algumas notas sobre a mesa para cobrir as despesas do almoço.

− Obrigada pela companhia, papai!

Antes que pudesse responder, Laurel saiu apressada pela porta do restaurante mexendo no celular.

Sua garotinha havia crescido e alçava voo para longe das asas do pai.

X

[Noah]

A minha pequenina. O meu raio de sol. Os sorrisos de todas as manhãs. Eu a vejo no meio daquela carnificina. Eu a vejo perdida no meio daquilo.

Eu deveria ter ponderado melhor.

Eu deveria ter pensado antes de colocá-la no meio disso tudo.

Ela é forte. Mais forte do que eu jamais serei.

Tenho que confiar que a sua força, e o significado de seu nome serão o suficiente para que você consiga.

Mas de toda forma, o seu sacrifício será lembrado.

E tudo o que você fez por mim também.

E o que fizeram a você não passará em branco.

Minha Fel.

X

Felicity sentiu medo. O medo insano que todas as pessoas sentem quando estão próximas da morte. Ela sentiu medo, mas também sentiu satisfação. Ela havia salvado Sara afinal.

Mesmo que não pudesse mais estar com ela.

Fechou os olhos, aceitando seu destino.

Esperava, ao menos, que não doesse.

Ou que se doesse, que fosse rápido. Como tirar a casquinha de uma ferida.

X

[R’as Al Ghul]

Eu imaginei que no dia em que visse minha filha novamente, ela estaria acompanhada do meu neto e desistiria daquela ideia insana de afastá-lo de mim.

O meu neto, sangue do meu sangue, o mais forte dentre todos os guerreiros que já treinei. Apto para me substituir. Cruel, vil e letal.

Mas seu pai o tirou de minha posse. Seu pai com todo seu dinheiro e com suas ameaças veladas.

Devo ter me tornado fraco em algum momento. Fraco ao ponto de achar que Talia havia morrido com Damian naquele acidente que deve ter sido forjado pelo maldito morcego.

Fraco em não ter findado com a existência de Felicity por ela se parecer com minha falecida esposa.

Até mesmo em sua garra. Em sua força.

Sinto a vida esvair de meu corpo. Meus olhos se encontram com os de Talia uma última vez.

Não acredito em vida após a morte. Não acredito que irei reencontrar minha amada.

Acredito apenas no vazio.

E eu o abraço.

Eu já vivi tudo o que tinha para viver.

Não há arrependimentos para mim.

X

Era como estar entorpecida, mergulhando, afundando, afundando. O mundo corria em câmera lenta enquanto uma chuva de memórias invadia sua mente. Cada uma delas pontuada pelos sorrisos de Felicity ou suas gargalhadas estrondosas. A primeira noite delas explodiu como luzes de natal diante de sua visão. Cada gota de chuva parecia ser uma lembrança que retornava tão livida como se Sara a estivesse revivendo cada uma delas naquele momento.

Felicity dizendo que lhe amava pela primeira vez; Felicity tentando cozinhar para ela; Felicity assumindo o controle da situação; Felicity sendo Felicity. Pura e simplesmente. Era o motivo pelo qual Sara havia se apaixonado tão perdidamente por ela.

Estava marcado a ferro quente aquele amor. Aquela sensação que era tão boa que lhe fazia querer gargalhar mesmo diante do desastre.

E quando a viu rolando por aquele penhasco, foi como se seu coração parasse de bater. Como se não quisesse continuar sem ela.

E então Sara compreendeu.

Ela não queria continuar sem Felicity.

E não continuaria.

Não sem sua felicidade. Não sem a luz que havia velado a sua escuridão.

X

[Felicity]

Eu não queria morrer aqui. Eu não queria sequer morrer. Eu tenho medo do que há por vir. Do que não há por vir.

Eu não queria perder todos os momentos bons que nós poderíamos ter juntas. Todos os planos que fizemos naquelas tardes de folga quando a cidade nos deixava respirar.

Você me disse que sempre quis uma criança.

Eu te disse que também queria isso ao seu lado.

Poderíamos ser felizes, apesar de tudo.

Poderíamos ser.

Mas você está viva, meu amor.

E eu viverei em você.

Para onde quer que eu vá.

X

O grito de Felicity cortou o ar, mais alto que trovões em meio à tempestade. Sara sentiu algo tomar conta de si. Uma força mais poderosa que a própria natureza. Era uma força sobre-humana que a puxava na direção de Felicity. Um elo tão poderoso que nada poderia romper.

− Vá. Ajude ela. – Oliver pediu à Nyssa, escorando-se em uma das rochas e estendeu o arco para a assassina. Ela viu nos olhos dele aquela culpa. Viu na corrida de Sara que ela faria tudo por Felicity.

Ela não poderia negar aquele pedido.

Esperança. Felicity era a esperança. Ela não podia morrer.

Sara avançou, correndo o mais rápido que pôde. Ela viu. Viu o momento em que Felicity caiu. Viu seus olhos a encarando diretamente, o seu nome escapando da boca dela em um grito de socorro.

− VOE, CANÁRIO! VOE! – Nyssa gritou, atirando uma flecha amarrada à uma corda em sua direção.

Sara não poderia mesurar sua gratidão pela outra assassina quando saltou do penhasco, agarrando aquela flecha.

E voou.

X

[Donna]

Se um dia alguém me perguntar, sempre direi que ela é a minha luz e que quem cuidou de mim por todos esses anos foi Felicity e não o contrário.

Se um dia alguém me perguntar a origem de seu nome, eu direi que ele veio das trevas em que eu vivi. E ela foi a minha alegria. A minha felicidade mais pura e límpida.

E ela sempre será.

X

O vento batia contra seu rosto tão violentamente que Felicity mal conseguia abrir os olhos. Ela não sabia quando a morte viria. Ela não sabia se a dor a mataria, a queda ou a junção de todas aquelas coisas.

Uma série de formações rochosas pontiagudas a esperavam no andar debaixo. Ela só podia imaginar o quão doloroso aquilo seria.

Engolindo em seco, ela tentou abrir os olhos sem sucesso. Ela queria ter se despedido de Sara.

Ela queria ter dito que a amava mais uma vez. E que, acima de tudo, queria que ela fosse feliz.

Mas era o fim.

Ou ao menos foi o que ela pensou até ouvir seu nome escapar dos lábios de Sara.

X

− FELICITY! – Ela mergulhou, sem medo algum da morte. Sem receio algum.

Seu corpo se chocou contra o da hacker, e Sara a agarrou firmemente com o braço esquerdo, enquanto o direito segurava a flecha firmemente.

− S-Sara? O que voc.. – Um gritinho escapou de seus lábios quando o impulso veio. Sara sentiu o baque colocar seu ombro no lugar. Ela mal podia descrever a dor quando sentiu que ele deslocava novamente, provavelmente por conta do impacto.

A ex-assassina estreitou os olhos, a dor estampada através dos dentes rangidos.

− Eu prometi que sempre voltaria para você, não prometi?

Felicity sentiu os olhos se encherem de lágrimas. E desta vez, agarrada ao corpo de Sara e a poucos metros da morte, ela não segurou o choro.

X

Nyssa sentiu o impacto quando Sara chegou ao fim da corda. Ela só soube que ela também havia segurado Felicity pelo peso que sentiu. Apoiada sobre uma pedra, ela fez força, mas sentia os pés cederem.

− UMA AJUDINHA AQUI! – ela gritou.

Oliver, ferido e dolorido, aproximou-se dela e começou a puxar a corda.

Aos poucos, içavam as duas para cima.

X

Enquanto eram puxadas para cima, Felicity chorou baixinho no ombro de Sara. A Canário não se importou com o fato. A dor que sentia também era suportável perto de tudo o que Felicity havia passado.

− Me perdoe. – sussurrou baixinho.

Felicity ergueu o rosto um pouco para encará-la.

− Pelo quê?

− Por ter feito você passar por tudo isso. Por me esquecer de você. – Sara engoliu em seco, a culpa a corroendo por dentro.

− Você tem a vida inteira para me recompensar.

Aquilo fez Sara sorrir.

− Isso é um pedido de namoro?

Felicity sorriu de volta.

− Talvez de casamento.

As duas riram baixinho enquanto eram puxadas por Nyssa e Oliver para a segurança da terra firme.

X

Er-Notur observava a cena com crescente ódio. Como podia uma pessoa ter tantas vidas quanto aquela Canário e sua protegida? Ele buscou com os olhos uma arma que pudesse usar para derrubar Nyssa. Se a derrubasse, Oliver não teria forças para segurar a corda, ferido como estava. Ele viu um arco no chão. Era a arma perfeita mesmo com sua mão ferida.

− Eu não teria tanta pressa se fosse você. – A voz que ele ouviu o arrepiou completamente. Ele nem viu quando a lâmina desceu por seu pescoço e o degolou. – Sangue por sangue, irmãzinha.

Talia olhou uma última vez para Nyssa. E desapareceu nas sombras de Nanda Parbat, levando seu exército de assassinos em retirada.

X

Er-Notur sentiu o sangue se esvaindo de seu corpo. Ele queria gritar, mas a voz lhe fora tirada. Ele sentia o coração batendo violentamente contra o peito, tentando fluir o sangue para o resto do corpo. Tentando compensar a lesão que havia acontecido.

Ele estendia as mãos para frente, se debatia.

Seu coração batia cada vez mais devagar.

Seu sangue ensopava o local ao redor dele.

Um último suspiro enevoado.

A última batida de seu coração.

Er-Notur morreu como o covarde que era.

Fugindo da morte até o fim.

X

Com muito esforço, Oliver e Nyssa trouxeram Felicity e Sara para terra firme. O arqueiro abraçou as duas, sem se importar com os próprios ferimentos. Nyssa apenas olhou para Sara, aquele sorriso orgulhoso estampado em seu rosto.

− Você aprendeu mesmo a voar. – ela disse.

− E você a atirar uma flecha como ninguém.

As duas riram.

− E agora? – Sara perguntou olhando ao redor. Os assassinos de Talia se retiravam em debandada, provavelmente seguindo a líder que fugia. Alguns permaneceram onde estavam, rendidos pelos antigos companheiros. Havia tantos corpos na ilha que seria difícil contar.

− Agora começamos de novo. – Nyssa respondeu.

Sob o testemunho daquela tempestade, os quatro se ergueram. Os poucos sobreviventes daquele massacre sem fim.

X

Feridos foram recolhidos e tratados pelos que podiam fazer alguma coisa. Corpos foram recolhidos, empilhados e queimados. Era melhor do que enterrar toda aquela gente em um terreno tão pedregoso.

Felicity não quis assistir a cena. Ao invés disso, tomou um longo banho de banheira. De todos, ela era a menos ferida. E embora Sara tivesse um ombro deslocado, insistiu em acompanha-la. Nyssa fez o favor, momentos antes, de colocar seu ombro no local. Sara gritou como um bebê.

− Eu gostaria de ter gravado aquela cena. – Felicity murmurou, sentindo Sara massagear suas costas enquanto fazia espuma.

− Você está muito engraçadinha, Fel.

Ouvi-la chamando-a daquele jeito desformou um nó que estava preso à garganta de Felicity. As lágrimas vieram novamente e correram formando uma trilha em seu rosto.

− O que foi? Por que está chorando? – Sara tirou a espuma das mãos e virou-a para si.

− Você está de volta, Sara. – ela murmurou, olhando para a outra loira. – Você voltou pra mim.

Sara sorriu. Diante de tudo o que haviam passado, ela sentiu seu coração se preencher de felicidade por aquelas palavras chorosas. Sentiu seu coração se preencher dela.

− Eu disse. Um pássaro negro sempre volta para o lar. – Segurando seu queixo, ela a beijou. O beijo saudoso tinha o sabor das lágrimas de Felicity e a familiaridade de duas bocas que se conheciam tão bem. Os lábios dela eram macios contra os seus. O encaixe era perfeito entre elas. – Eu amo você, Felicity. – ela disse, quando finalmente se afastaram.

Olhando para os olhos de Sara, que eram como dois espelhos d’água, ela não podia se sentir mais feliz do que naquele momento. Sara prosseguiu:

− Eu amo você e quero me casar com você. – Havia uma sinceridade tão bonita naquelas palavras e em seu sorriso. Felicity achou que seu coração fosse explodir. – Você se casaria comigo?

Os olhos de Felicity se encheram de lágrimas outra vez. E em resposta, ela apenas a beijou.

Sim, claro que eu me caso com você.

Seu Canário havia voltado para o lar. Para o seu coração.

Notas finais
Primeiro, eu preciso falar sobre uma coisa... EU MATEI ESSE FILHO DA PUTA! FINALMENTE! Mds, eu nunca criei um personagem que eu odiasse tanto quanto Er-Notur. Ele é tudo de desprezível de uma maneira que eu detesto. Na minha cabeça, ele seria mais ou menos como Scar, o tio de Simba de Rei Leão: uma pessoa inteligente, astuta, que se aproveita dos outros por conta de sua inteligência e assume o poder que acreditava que deveria ser seu mesmo que nunca tivesse sido seu por direito. Mas Scar ao menos é sensacional. Eu não consegui deixar ele sensacional aqui. Sobre as cenas em itálico, a ideia delas me veio por conta de um capítulo que eu já tinha escrito no qual eu usei o mesmo esquema. Eu quis colocar como uma forma de trazer uma instigação. Pra que, durante o capítulo, vocês ficassem se questionando acerca do que vinha acontecendo. E queria dar também o gostinho do desespero, já que eu joguei a cena impactante pro final deste capítulo. Falando agora um pouquinho de Talia, eu não ia colocar essa cena com ela matando Er-Notur, mas eu acho que, em algum lugar dela, ainda resta aquele sangue de irmã. Nem que seja para ela matar Nyssa depois. EU TIVE ESPAÇO PARA CITAR O BATMAN! SIM! Para quem não sabe, nos quadrinhos e na história original, Talia Al Ghul é o grande amor da vida do Batman. Tanto ela quanto Selina Kyle. Existem alguns universos onde ele e Talia mantêm um relacionamento conturbado, porque Talia tem uma ligação muito poderosa com seu pai. Aqui na fic eu quis dar a ideia de que R'as Al Ghul meio que deixou ela de lado porque Nyssa era mais apta ao cargo do que ela. Já que Nyssa era uma personagem ativa na série e acho que ela nem existe nos HQ's! Enfim. Damian Al Ghul Wayne é o filho de Bruce Wayne com Talia Al Ghul. Aqui eu quis dar a ideia que é passada do personagem mesmo: que ele nasceu e foi criado na Liga dos Assassinos. Que ele se tornou um assassino muito jovem, e ele teve uma personalidade muito difícil. Mas eu quis dar a ideia de que Talia, vendo no que o filho se transformava, quis levá-lo para longe disso. Mais ou menos um instinto materno mesmo. Não é porque ela é um membro da Liga que não vai sentir pelo filho. Então ela o entregou aos cuidados de Bruce. Se não me engano, na história original ela morre. Mas eu não tenho certeza. Eu peço perdão aos fãs dos quadrinhos se eu tiver pecado em algo com essas citações, mas eu achei que ficava realmente legal para a minha história. Finalmente eu comecei a abrir meu novo arco! Para quem achou que a Cataclysmus tava aí só pra somar como mais uma coisinha, se enganou! Ela é a abertura para o meu novo arco, como Laurel deve ter deixado claro em seus palpites. No próximo capítulo, já começaremos a abordar mais isso. E, por fim, mas não menos importante essa cena final, que foi a minha favorita de ser escrita até então. Não somente a cena fofa do fim delas na banheira, mas a cena do salto de Sara que eu comecei a escrever no capítulo anterior. Ela estava toda pronta e sofreu algumas modificações pra se encaixar nele. Porque sem essa cena aqui, esse capítulo não existiria da forma que foi. Enfim, sei que já me alonguei demais nessas notas. Só espero que vocês gostem tanto do final desse arco como eu gostei. E que continuem acompanhando a fic! Quero agradecer imensamente ao carinho de vocês e às duas recomendações que recebi recentemente, da JosiAne e da CahDanversAllen! Obrigada pela força que vocês me dão, e obrigada principalmente à minha flor, que sempre me incentiva a continuar com essa fic e que não me deixou desistir desse projeto mesmo nos meus piores dias. A gente se vê no próximo arco, pessoal!