Notas iniciais
Olá, pessoal, mais um capítulo fresquinho pra vocês! Nesse, as pontas que ficaram soltas finalmente vão se fechar. E se preparem, o último arco se inicia! Obrigada mesmo por todos os comentários, gente. Eu fico feliz de ver o quanto vocês têm curtido a fic. É bom demais. Sem mais, boa leitura!

Cause when you are with me

I'm free... I'm careless... I believe

Above all the others, we'll fly

This brings tears to my eyes

My sacrifice

(Quando você está comigo

Eu sou livre... Eu sou despreocupado... Eu acredito

Acima de todos os outros, nós voaremos

Isso traz lágrimas aos meus olhos

Meu sacrifício)

My Sacrifice – Creed

X

A manhã seguinte trouxe consigo a alvorada e o piado dos corvos que vieram se banquetear com o que havia restado da carnificina da noite anterior. Muito trabalho foi feito, e muitos braços tiveram que se esforçar mesmo depois que pilhas e pilhas de corpos foram queimados.

Nyssa contou uma grande perda entre os seus e entre os que haviam traído o lado de seu pai apenas para irem para o lado de sua irmã. Ela não podia culpá-los, no entanto.

Era certo que todos aqueles que entravam na Liga dos Assassinos por vontade própria, pedindo refúgio para R’as Al Ghul, sabiam como as coisas funcionavam por ali. Nada era escondido deles. Mas não fazia mais simples, por conta disso, abandonar toda uma vida para se tornar uma sombra; um assassino a serviço do próprio Demônio.

Ela tinha noção, também, que haviam aqueles que não tinham tido escolha como Sara. Mas a sorte da Canário era ter sido protegida pela própria filha do Demônio e, embora tentasse fazer isso por todos os homens que a seguiam tão lealmente, nem sempre Nyssa tinha o poder de ir contra as ordens do pai. Na maioria das vezes, quando fazia isso, ela também era castigada e servia como exemplo.

Serviu.

Serviu como exemplo.

Agora ele estava morto. R’as Al Ghul morto.

Quando encontrou seu corpo, dentre tantos no campo de batalha, Nyssa mal pôde acreditar. O rosto do pai estava envelhecido e carcomido, como se tivesse passado tempo demais distante do Poço de Lázaro. Ela sabia que poderia ter decidido por mergulhá-lo naquelas águas novamente e assim trazê-lo de volta. Mas Nyssa também se lembrava da maldição que era aquele poço e das histórias contadas por Talia a respeito de sua mãe.

Nyssa simplesmente não se lembrava dela. A eclampsia causada por seu parto havia sido o motivo de sua morte. E ela sempre enxergara isso nos olhos saudosos de seu pai que, embora não verbalizasse, sempre a culparia sobre isso. Motivo pelo qual ela sempre imaginou que Talia, além de mais velha e ordenada pela hierarquia, seria escolhida a despeito de ser Nyssa que sempre seguia as ordens à risca.

Suspirando enquanto sentia a brisa da manhã acariciar-lhe o rosto enquanto o sol começava a despontar no horizonte, tingindo com matizes de laranja o céu azul que se tornava arroxeado. A filha do Demônio, agora sucessora na linha, permitiu-se sentir aquele momento.

Embora tivesse pedido para que seus homens encontrassem a irmã, ela havia partido, aproveitando-se da confusão para fazer isso. Não havia falado nada; tampouco se desculpado pelo acontecido.

Ela ainda se lembrava de quando Talia apareceu grávida ali. De como não queria contar ao seu pai a respeito do filho que carregava no ventre. Mas o Demônio sabia de tudo, e embora Nyssa tivesse se esforçado para ajudar a irmã a esconder a gravidez naquele momento, foi impossível quando o momento da concepção se aproximou. O pai aprisionara Talia e a impedira de sair da ilha. Nyssa sabia quem era o pai da criança, mas também não podia se envolver no causo. Ela apenas visitava a irmã todos os dias e garantia que ela ficasse bem.

Lembrava-se bem de sua expressão de dor e das lágrimas que ela carregava. Mesmo sendo uma assassina cruel, parecia que os hormônios da gravidez haviam mexido com ela.

A cena vagou em sua mente, clara como aquele dia que nascia. Era impossível não se lembrar das lágrimas de Talia Al Ghul.

X

Mesmo sendo a filha do Demônio, R’as Al Ghul não havia poupado Talia da humilhação. O que fora sussurrado entre as paredes da Liga, é que Talia havia ido contra as ordens do pai e por isso agora se encontrava presa no calabouço onde apenas o próprio R’as e sua filha mais nova tinham acesso.

Os guardas eram escolhidos a dedo pelo líder da Liga dos Assassinos. Quem levava comida para sua filha, era apenas Nyssa, o que também a impediu de sair para missões mais arriscadas por um tempo. Quando ela não estava ali, era o próprio R’as quem fazia isso.

Nenhum guarda podia aproximar-se. Ninguém podia sequer olhar para Talia.

Nyssa se lembrava com clareza da primeira vez em que havia descido até ali. Seu pai não havia sequer colocado uma cama mais macia para a irmã mais velha. Apenas o mesmo colchão duro, os lençóis sujos e carcomidos pelo tempo e pelo uso de outros prisioneiros. Se ele sabia da gravidez de Talia, o que estava planejando afinal? Que ela perdesse o bebê?

Não.

R’as sempre ansiara por um herdeiro varão, alguém que carregasse seu nome depois que ele se juntasse aos seus antepassados; ao pó que agora eram. E isso já havia sido confirmado. No quinto mês de gestação, um ultrassom feito às escondidas antes que seu pai a aprisionasse, tinha dito que o filho de Talia era um garoto.

Ele apenas queria o controle. O fator de ter a filha perto de si. Era o seu jeito doentio de demonstrar o amor que não sabia expressar, Nyssa sabia. Porque a única coisa que seu pai fazia melhor do que matar, era sufocá-las em sua teia de amor doentio que beirava à obsessão. Mas isso também não era algo que ele expressava para todos.

Quando se aproximou, naquela primeira manhã, com a refeição de Talia, sua irmã estava encolhida longe das barras. O cheiro nauseabundo do balde usado para fazer suas necessidades teria embrulhado o estômago de Nyssa em outras condições, mas aquela não era sua primeira vez no calabouço da Liga e nem seria a última. Pelo menos desta vez não era ela a prisioneira.

− Talia. – Nyssa chamou a irmã baixinho. Ela não ergueu o rosto por vergonha, mas Nyssa sabia que ela a escutava. – Trouxe seu café da manhã. Você precisa comer. Precisa se alimentar.

Silêncio. Nyssa suspirou pesadamente.

− Sinto muito. – pediu. – Sinto muito por não ter podido ajudá-la. Eu não sei como... não sei como papai descobriu. Me diga o que quer e farei. Qualquer coisa, Talia.

Quando a irmã mais velha ergueu os olhos escuros em sua direção, seu rosto estava vermelho e inchado. Nyssa notou um hematoma do lado esquerdo de seu rosto e pela marca do anel que havia ali, tinha certeza que havia sido desferido pelo seu pai. Ela quis pedir desculpas novamente por isso, sentindo seu coração desquietar-se e desejou ardentemente castigar o pai. Mas sabia que não podia. Nenhuma delas podia.

− Ele fez isso comigo, Nyssa. – Talia proferiu. – Fez isso comigo e me largou nesse calabouço como um cachorro velho. Eu estava pronta para sair. Pronta para fugir. Mas de alguma forma... de alguma forma, ele...

Nyssa foi contra todas as ordens do pai quando abriu aquela cela escura e fétida. Ela aproximou-se da irmã deixando a bandeja ao seu lado e ajoelhou-se. Não era de seu feitio, tampouco do feitio de Talia, mas a abraçou permitindo que a irmã chorasse.

As duas nunca haviam sido muito próximas. R’as nunca permitiu muito afeto. Um dia, ele dissera, lutariam pelo posto que agora era dele. E quando esse dia chegasse, ele não queria misericórdia. Essa era lei. Dura, mas a lei.

− Me ajude, Nyssa. – pedira baixinho entre as lágrimas. – Sei que não será agora. Sei que não conseguirei sair das vistas dele e que ele colocará as garras no meu filho. Mas me ajude a sair daqui. Me ajude a acabar com isso.

Ainda jovem, uma adolescente prestes a entrar na idade de jovem adulta, Nyssa sentiu a dor da irmã e por tudo o que ela passava.

− Eu prometo. – murmurou – Que um dia eu vou te ajudar.

X

− Pensativa sobre o passo seguinte? – A lâmina imediatamente despontou de seu pulso, sendo apontada na direção do pescoço que era detentor da voz. Com as mãos erguidas, Sara olhou para a lâmina sem se mover um único milímetro que fosse ou teria a garganta cortada pela destreza de Nyssa.

− Sinto muito. – Respirando fundo, Nyssa abaixou a guarda permitindo que a ex-assassina se aproximasse dela e se sentasse ao seu lado, na ponta do precipício que na noite anterior quase tragara Felicity.

Sara deu de ombros.

− Certos hábitos simplesmente ficam entranhados em nós. – Massageou levemente o ombro ainda dolorido.

− Suponho que sim. – Nyssa a encarou por sobre o ombro. Era impossível não sentir-se atraída por Sara, por tudo o que haviam passado um dia. Ainda era doloroso imaginá-la com outra pessoa. Com outra mulher. – Como você está? E Felicity? – emendou.

− Bem. – A resposta valeu para ambas as perguntas. Sara engoliu em seco, pensando no motivo primordial que a havia trazido até ali, que era para confirmar se Nyssa estava bem e até que ponto ela precisaria de ajuda para que as coisas entrassem nos eixos. Sabia que teriam que voltar para Starling, mas ela não abandonaria Nyssa. Não depois de tudo o que a assassina havia feito por ela. Mas não era a sua única razão. – Do que precisa, Nyssa?

Você formigou na ponta de sua língua. Era o que Nyssa queria responder, mas estava longe de seu alcance. Ela simplesmente teria que se conformar que havia perdido Sara e que tentar recuperá-la, de qualquer forma que fosse, apenas traria dor para si e sofrimento para Sara. Que ela fosse feliz ao lado daquela hacker. Que ela nunca ousasse a ferir o coração de seu canário.

− As coisas vão ser difíceis. – disse por fim. – Sei que você precisa voltar. Sei que precisam voltar. Mas existem certas coisas... certos costumes.

− Você é R’as Al Ghul agora. Pode fazer o que quiser.

Nyssa riu sem humor na voz. De fato, depois de confirmarem a morte de seu pai e decidirem que não o colocariam no Poço de Lázaro, ela havia sido proclamada como aquela que lideraria a Liga. Ao menos provisoriamente.

− Não é tão simples assim.

Sara sabia que não. A Liga dos Assassinos tinha uma série de regras que a permitia ser a maior organização de mercenários do mundo inteiro. Ela podia não gostar da maneira como R’as Al Ghul tocava as coisas, mas era verdade que dava certo.

− Sinto que quer me falar algo, Ta-er al-Sahfer. – Era estranho ouvir Nyssa lhe chamando assim, mas Sara não se importou.

− Talvez não seja o momento. – Fez menção de erguer-se, mas Nyssa segurou seu pulso e forçou Sara a encará-la.

− Prometi que nada mudaria. Prometi que continuaria ao seu lado, não prometi? – Sara acenou positivamente com a cabeça. – Diga de uma vez.

Havia um sexto sentido permeando a cabeça de Nyssa. Ela sentia. Era claro no olhar de Sara. Mas precisava ouvir. Precisava tirar o curativo de uma vez.

− Eu pedi Felicity em casamento. – Sara pronunciou, tendo em vista que fazer rodeios apenas pioraria a situação. – Ela aceitou. Não é nada para agora. Mas eu queria que você fosse a primeira a saber. E por mim. De mim.

Não era menos doloroso ouvir isso de Sara ou de outra pessoa, Nyssa imaginava. Mas pelo menos ela havia sido honesta o bastante para abrir o jogo consigo. A filha do Demônio engoliu em seco, a dor translúcida em seu olhar; nunca havia conseguido esconder seus sentimentos de Sara afinal.

− Sinto muito. – murmurou a loira.

− Não sinta. – Nyssa limpou as lágrimas com as costas da mão direita. A dor estava ali, era visível. Era palpável como uma ferida aberta. – Apenas me prometa que será feliz, Canário. Onde quer que esteja.

Entrelaçando os dedos aos de Nyssa, ela olhou nos olhos da assassina. Havia algo mais ali, algo diferente que Sara não havia enxergado da outra vez. E mesmo sabendo de seu compromisso com Felicity, mesmo sabendo de tudo aquilo, aproximou-se e recostou seus lábios contra os dela, ato que surpreendeu a morena. Ela não a beijou. Apenas permaneceu assim, os olhos claros fixos em Nyssa. Era um ato inocente, puro, longe das noites tórridas e insanas que haviam compartilhado.

Eu prometo, minha senhoria. E prometo que sempre virei em seu auxílio quando precisar de mim.

Nyssa afastou-se, sentindo o coração bater dolorosamente contra o peito quando Sara a abraçou.

De longe, Felicity observava a cena ao lado de Oliver, tendo a certeza de que se pudesse, faria de tudo para que aquela mulher também fosse feliz.

X

− Não é fácil. – Oliver disse, estendendo para Felicity uma caneca de chá. Fora difícil encontrar as coisas para preparar algo por ali, mas ervas e água ainda estavam disponíveis. – Ela a amou durante muito tempo. Talvez seja a única pessoa a quem Nyssa realmente amou.

Contemplativa, Felicity acenou com a cabeça enquanto agradecia pela caneca de chá e deu um gole. Doce na medida certa. Oliver realmente a conhecia muito bem.

− Às vezes sinto que me coloquei no meio disso – confessou –, na relação delas. Sinto que Sara poderia ser feliz ao lado de Nyssa. Que... elas se completam de algum jeito.

Oliver suspirou pesadamente, desacreditado no que diria, mas virou Felicity para si:

− Não diga isso. Não pense nisso. – Seus olhos se fixaram nos olhos de Felicity. A visão dela sem óculos lhe era estranha, mas eles estavam perdidos em algum ponto da ilha e ainda não haviam sido encontrados. Talvez nunca fossem. – Sara escolheu você, Felicity, por uma razão. Tenho certeza de que ela é grata por tudo o que Nyssa fez a ela e nutre um carinho muito grande por ela. Mas Nyssa não é você e nem nunca será. Precisa compreender isso e precisa se permitir viver. Pois é você quem Sara ama, Felicity. É com você que ela quer estar.

− Ela me pediu em casamento. – As palavras brotaram de sua boca e antes que Felicity pudesse se dar conta do que havia dito, estava dito. Ela sequer pensou no que isso poderia significar para Oliver, que, com espanto, lhe dedicou um sorriso triste.

− Uau. – Expressou. – Fico realmente... realmente feliz por vocês.

Felicity podia ser tapada. Podia ser realmente ruim em perceber coisas. Mas se existia uma coisa que ela sabia detectar, era felicidade. E Oliver não estava esbanjando isso naquele momento.

− O que foi? – perguntou. – Acha que é cedo demais? O que está pensando, Oliver?

O loiro engoliu em seco. Era um maldito momento para confessar seus sentimentos, ele sabia. Não era justo tampouco.

Olhou na direção do horizonte, onde Nyssa era confortada por Sara.

− Eu perdi a minha chance com você, Felicity. – confessou. – Depois de tudo, eu simplesmente tinha medo demais para tentar. Medo de que você fosse raptada como foi por Slade. Medo de que se ferisse como poderia ter acontecido aqui. Ou pior. Eu perdi a minha chance e deixei você fugir e Sara não teve medo. Ela abraçou a chance quando ela apareceu. Sei que não foi culpa dela ou sua. Vocês se apaixonaram e isso acontece. Não diminui a intensidade do que senti por você. Do que sinto.

Estarrecida, Felicity não sabia o que dizer diante daquela confissão. Por dois anos, trabalhando ao lado de Oliver, o havia amado secretamente, embora isso não fosse segredo para ninguém. Chegara a falar isso para o arqueiro e agora ele lhe dizia que tinha sentimentos por si?! Ela sentia seu cérebro dar um nó diante daquelas palavras e Oliver detectou isso através de seu olhar.

− Com isso, não estou tentando dizer que tentaria alguma coisa, Felicity—eu tentei. – Suspirou pesadamente. – Quando você e Sara brigaram, quando ela foi embora... eu tentei. Mas você a amava. E eu percebi que esse amor era tão profundo... quem era eu para me colocar entre vocês? – questionou. – Então não pense, por um único minuto, que você se colocou entre Nyssa e Sara. Tenho certeza de que o coração dela sempre esteve com você. Desde o momento em que começaram a ficar juntas. Esse é o certo. É o que vocês precisam fazer.

Felicity não sabia o que dizer. Informações demais eram processadas em sua mente e ela desejou ardentemente que aquilo fosse um problema matemático. Desta forma, poderia resolver as equações e ninguém sairia ferido. Ninguém se machucaria.

Ela estava prestes a lhe dizer mais algo quando notou que Sara e Nyssa se aproximavam. As duas estavam de mãos dadas, mas se Felicity se sentiu enciumada a respeito disso simplesmente não demonstrou. Mesmo que Nyssa fosse a ex-namorada muito gostosa de Sara, Felicity compreendia o que Oliver havia lhe dito quando a canário lhe olhou. O coração dela estava batendo em seu peito, enquanto a recíproca era verdadeira. E não pôde segurar o sorriso singelo que nasceu em seus lábios quando Sara soltou a mão de Nyssa e enlaçou sua cintura para lhe dar um beijo leve nos lábios.

− Pelo visto você também já sabe. – Oliver abriu um sorriso de canto, derrotado, enquanto olhava para Nyssa. A morena apenas deu um aceno positivo com a cabeça.

− Eu não gostaria de estragar esse clima feliz para vocês, mas existem coisas que precisam ser feitas. Tradições que tenho certeza de que você conhece, Oliver. É o motivo para ainda estar aqui, não é?

Oliver sabia. Ele sabia desde o momento em que Talia o havia iniciado secretamente na Liga dos Assassinos. Isso era algo que não poderia ser mudado tão facilmente e quando ele decidiu embarcar para Nanda Parbat com o intuito de salvar Sara, já sabia o que aconteceria caso ele vencesse Er-Notur. O fato de ter matado R’as Al Ghul não mudava isso; na verdade apenas reforçava.

− Do que vocês estão falando? – Alheia ao assunto, Felicity questionou. Sara abaixou o rosto, um pouco sem jeito de dizer. Foi Oliver quem a olhou nos olhos, aquele sorriso despreocupado do playboy que lhe pedira para consertar um notebook com uma flecha cravada nele na primeira vez em que se viram.

− Eu matei R’as Al Ghul, Felicity. Isso me faz o próximo sucessor em sua linha. Aquele que deve se casar com sua filha e prosseguir com a linhagem da Liga.

X

Talia estava distante da ilha quando ainda era noite. Ela havia pego um barco e partido para longe dali antes que alguém pudesse dar por sua falta. Ela sabia que havia perdido para a irmã naquela batalha. Em algum nível de sua consciência, a raiva ainda a permeava por tudo o que havia acontecido no passado. Não poderia culpar Nyssa, no entanto, quando ela havia feito tanto para ajudá-la. Mas talvez a tivesse matado naquela circunstância. Talvez tivesse.

− O que você fará agora? – questionou através do ponto que ainda usava.

Vou prosseguir meus planos. E quanto a você?

Talia suspirou, encarando o oceano como horizonte. Ela tirou do bolso algo que sempre carregava consigo; um chaveiro em forma de morcego com um botão no centro.

− Vou prosseguir com minha vida. Ele está morto, era o que eu realmente queria. O desfecho da Liga não me interessa mais.

Um riso do outro lado da linha.

Boa sorte, Talia Al Ghul.

− Para você também. E tome cuidado. Sua filha é mais inteligente do que parece.

Eu sei, Talia. Eu sei.

Ela desligou a conexão e lançou o ponto no oceano. Nunca mais ouviria falar de Noah Kutler. O botão ainda piscava quando ela viu o jato plainando sobre sua cabeça, jogando uma corda em sua direção.

Talia subiu, encarando o maxilar bem definido por baixo da máscara negra.

− Decidiu voltar para casa? – ele perguntou, o ar desinteressado de sempre. Mas Talia o conhecia há muitos anos para não detectar o resquício de felicidade por trás daquela voz modificada.

− Decidi dar outra chance a você, Bruce. – Ela o beijou, sem dar chance para que o morcego respondesse. Ele apenas programou o piloto automático para que voltassem para casa.

Deixaria que as asas daquele morcego a envolvessem e a levassem de volta para seu filho. Deixaria que Bruce a fizesse esquecer tudo pelo que havia passado até então.

X

Não foram apenas os meses da gravidez que foram roubados de sua vida, mas os primeiros meses após o nascimento de seu filho também. Nyssa sempre vinha visitá-la, mas Talia havia mergulhado em uma depressão profunda, sem querer saber de nada além de sair dali. A única coisa que a movia, que a fazia não definhar no meio daquela cela, era o desejo de vingança que nutria por seu pai.

Mas ela era paciente, ela aguardaria o momento certo.

Nyssa lhe supria com lençóis, roupas limpas e tudo o mais que pudesse afanar sem que chamasse atenção demais. Ela também havia lhe dito que conseguira localizar o pai de Damian.

Demorou muito tempo, no entanto, para que conseguisse entrar em contato com Bruce Wayne. O bilionário custou a conseguir encontrar aquele local, isso porque Nyssa podia sair dali tanto quanto ela. E Talia também não queria colocá-lo em risco.

Quando finalmente teve alguma notícia dele, Damian tinha quase 10 anos e era tão cruel quanto o avô havia nascido para ser. Tão cruel quanto Talia havia sido treinada para ser.

Foi mais ou menos naquela época, vendo tudo o que acontecia, que ela decidiu fugir.

E mesmo que não conseguisse nutrir nada além de ódio por ninguém que não fosse seu filho ou Bruce, Talia recebeu a ajuda de Nyssa para finalmente voltar a sair em missões.

E foi em uma dessas missões que ela e Noah Kutler se esbarraram.

Foi difícil para Talia, mas após convencer o pai de que estava ao seu lado, de que era leal e de que Damian estava pronto para ser iniciado como um assassino da Liga, ele finalmente permitiu que mãe e filho saíssem juntos em missão.

E foi aí que Nyssa a ajudou, confirmando sua morte mesmo sabendo que ela estava viva. Talia nunca soube disso. E sempre se remoeu do fato de a irmã ter agido como se ela não precisasse realmente de sua ajuda.

Mas ela a ajudou. E por conta disso, Talia foi capaz de deixar o filho único aos cuidados de Bruce Wayne. E desaparecer do mundo até o momento em que pudesse tomar por direito aquilo que era seu.

X

Quem a visse entrando no bar àquela hora, pensaria que a velha e bêbada Laurel estava de volta. Ela não podia negar que, por muitas vezes, sentia a boca amargar pelo anseio de mais uma dose. De mais um gole. Era realmente difícil estar saindo com um cara que era barman, mas ela teria que aprender a contornar essa situação.

Eric estava limpando a mesa que um bêbado havia vomitado minutos antes. Como um dos poucos funcionários do turno, ele tinha que deixar tudo impecável para a pessoa que tomaria seu lugar de noite. E ele era realmente organizado com isso.

Durante alguns minutos, Laurel apenas observou enquanto ele fazia o trabalho braçal. A camisa branca que ele havia escolhido para usar naquele dia era colada, e deixava os músculos bem definidos evidenciados. A promotora sentiu o ímpeto de agarrá-lo ali mesmo e empurrá-lo para a porta mais próxima—de preferência um local onde tivesse uma superfície ampla como uma mesa ou algo do gênero onde ela pudesse abrir as pernas para ele—mas segurou o desejo; estava ali por coisas mais importantes no momento.

Quando finalmente se fez notar, a expressão de Eric foi de espanto e depois de felicidade.

− Não conseguiu esperar até o nosso encontro da noite para me ver? – Eric se aproximou da promotora e roubou um beijo rápido de seus lábios. Ela sentiu o sabor mentolado da bala que ele chupava e um arrepio percorreu seu corpo ao pensar naquela boca explorando outros lugares.

− Gostaria que essa fosse uma visita meramente romântica, mas sinto que terei que lhe desapontar um pouco. Você tem um tempinho? – Laurel perguntou com jeitinho. Eric não resistiu ao biquinho feito pela mulher à sua frente.

− Claro. – respondeu. – Jim, pode me cobrir aqui? – gritou para o rapaz que estava jogando gameboy na parte de trás do balcão. Jim apenas acenou com uma das mãos e Eric fez sinal para que ambos fossem para a parte de trás do bar.

No beco, ele não esperou que Laurel dissesse nada. Suas mãos encaixaram na cintura dela e ele a içou para cima, beijando-a com volúpia e desejo. Laurel deixou um gemidinho de surpresa e indignação escapar de seus lábios, mas ao sentir a língua dele invadindo sua boca e o pênis ereto contra seu corpo por baixo da calça jeans, não sentiu vontade de nada além de que ele a possuísse ali mesmo, naquele beco sujo.

Infelizmente para os dois, eles sabiam que isso não era possível. E quando Eric se afastou, colocando Laurel no chão, ela só ficou de pé porque as mãos firmes dele ainda seguravam sua cintura. Os lábios dele trabalhavam em seu pescoço, e foi preciso muita força de vontade de Laurel para afastá-lo de si.

− Preciso mesmo da sua ajuda, Eric. – Sua voz saiu embargada e ela apoiou as duas mãos no peito musculoso de Eric para afastá-lo. Quando ele a encarou, os olhos escuros a fizeram mergulhar profundamente em seu olhar como se fossem poços de alcatrão.

− É difícil demais olhar para você sem querer te beijar, Dinah.

Laurel não podia dizer que não gostava de ouvir aquelas bajulações baratas vindas dele. E o modo como ele sussurrava seu nome do meio a inebriava.

− Vamos ter todo o tempo do mundo depois, sim? – Foi um esforço enorme permitir que as mãos dele se soltassem de sua cintura. Apenas por precaução, ela permaneceu apoiada nos tijolos da construção sem se importar se aquilo sujaria seu terninho ou não.

Com uma expressão de cachorro sem dono que apenas os homens do Glades pareciam ser capazes de fazer, Eric a encarou esperando que Laurel dissesse o real motivo de estar ali.

Cataclysmus.— disparou a loira. – Sei que você escuta muitas coisas como barman, Eric, e realmente preciso da sua ajuda nisso. Essa droga tem se espalhado, tem estado presente entre os casos que foram presos recentemente, e preciso saber mais sobre isso. Sei que existe uma conexão em algum lugar que não estou conseguindo enxergar.

O rapaz pareceu um pouco desconfortável quando Laurel falou o nome da droga. Era certo para ela, então, que ele sabia algo a respeito. Por isso, prosseguiu:

− Eu não vou envolve-lo em meu trabalho, sabe? Você não precisa dizer nada para mim se não quiser. – Enlaçou seu pescoço com ambas as mãos puxando-o para perto novamente. Aquele cheiro de colônia barata que ele carregava consigo a enlouquecia. – Sei como foi para você no passado. Que você não foi ajudado como gostaria e que não teve uma chance. Mas tampouco as crianças que ouvi que estão se envolvendo com essa droga vão ter se isso for algo perigoso. E tenho motivos mais do que suficientes para crer que é. Nada pode ser tão bom assim que não vem com um efeito colateral.

Ela, como uma alcoólatra em recuperação, poderia dizer melhor do que ninguém.

Eric ponderou sobre suas palavras, sobre tudo o que ela dizia. Era verdade que não queria se envolver com a polícia ou ser considerado um dedo duro entre o pessoal dos Glades. Mas ele tinha certeza de que se ele e Laurel levassem essa relação para frente, cedo ou tarde descobririam. E não faria diferença se ele era um Rato ou não.

− Não sei mais do que você deve saber sobre isso. – Suas mãos repousaram sobre a cintura de Laurel novamente. Tinha que se controlar para não beijar ela novamente. – Mas ouvi falar algumas coisas. Ouvi falar que alguns dos traficantes pequenos receberam uma boa bolada para repassar essa droga como algo fantástico. Se disseminou tão rápido e ninguém sabe exatamente de onde veio. Ontem, antes de ir para sua casa, ouvi alguns caras falando algo sobre isso no bar. Que até mesmo o pessoal de alto escalão está vindo aqui para os Glades para adquirir essa droga. Mas não existe mal, Dinah. Nenhum efeito colateral que tenha sido visto. Quem toma essa droga, recebe apenas uma carga a mais de energia e é isso.

“Ouvi até mesmo dizer que alguns professores estão apoiando o uso disso nas escolas para que os índices de escolaridade e as médias de seus alunos fiquem mais altos. Eles indicam a dose que deve ser tomada e quando. Assim, ajuda os alunos a ficarem mais espertos, atentos e ligados. Todo aquele estresse pré-prova e antes de fazerem os vestibulares para as universidades tem diminuído consideravelmente. O Jim me falou um pouco a respeito, sabe? Ele disse que uns colegas dele da escola tomaram e se saíram muito bem. É como se ela trabalhasse em algo nos neurônios. Eu não entendo muito dessa parte. Mas ele falou que as coisas ficam simplesmente mais claras. Ele também não sabe muito mais do que eu estou te contando. Mas ele me disse que por esses dias, até mesmo um cara de capuz vermelho foi visto comprando a droga. O próprio Arsenal. Talvez seja coincidência, mas você sabe como ele tem tomado a frente na cidade agora que o Arqueiro está desaparecido, não sabe? Ele tem dado conta de tudo sozinho. Até mesmo Espartano está meio sumido. Não sei. Se um herói está usando, não pode ser tão ruim, pode?”

Laurel ouviu aquilo tudo com crescente preocupação. Ela não conseguia simplesmente acreditar que aquela droga fosse tão miraculosa. Que fosse algo tão bom. Quando soube a respeito do Mirakuru, droga que Roy também havia utilizado mesmo que contra sua vontade, parecera-lhe algo bom. E no fim das contas, aquilo o tornou um soldado assassino. Teria a Cataclysmus a mesma finalidade? Ela não sabia. Mas precisava confirmar o que Eric havia acabado de lhe dizer.

Ela e Roy não eram amigos e tampouco o círculo de Oliver e companhia. Sua irmã havia desaparecido e Oliver prometera trazer Sara de volta. Mas antes ele havia lhe contado tudo sobre todos. Sobre Sara que ela já sabia ser a Canário Negro. Sobre Oliver que era o próprio Arqueiro. E sobre Roy Harper, seu aprendiz e Arsenal. Ela também sabia que Felicity os endossava apoiando a equipe como suporte. E que John era o Espartano. Em suma, agora ela era o apoio dentro da promotoria que encobria as acusações contra os vigilantes.

− Tudo bem, Laurel? – Eric chamou sua atenção para o mundo novamente tirando-a de seus devaneios. Ela forçou um sorriso teatral que espantou a preocupação de seu olhar. Estava acostumada a usá-lo.

− Claro. O que você disse foi muito útil, Eric. – Ainda sorrindo, ela aproximou-se e lhe deu um beijo rápido. – Nos vemos de noite? Tenho algumas coisas para resolver no trabalho ainda.

− Sim. Tem certeza que está tudo bem, não tem?

− Sim, Eric. – Aquele sorriso novamente. E qualquer vestígio de desconfiança desapareceu dos olhos do barman.

X

Demorou algum tempo até que Roy despertasse. Sin havia ficado ao seu lado sem sair de lá para nada. Depois de cuidar do ferimento de John, o ex-soldado havia dito para Sin que iria atrás da única coisa que poderia trazer Roy de volta à sua sanidade. Sin imaginava o que era essa coisa e estava ressentida por não ser ela.

Há algum tempo atrás, ela tinha certeza de que poderia ajudar Roy com tudo, mas as coisas entre eles haviam mudado bruscamente. E com tudo o que vinha acontecido, com todas as barras que Roy vinha segurando desde o surto de Thea Queen, quem poderia culpá-lo por ter mergulhado tão profundamente e de cabeça na tristeza ao ponto de precisar se esconder por trás da máscara que usava como Arsenal.

Sin quis mais detalhes a respeito do que John faria, mas sabia que não teria essas respostas. Então ela apenas ficou ali segurando a mão de seu amigo até que finalmente ele abriu os olhos, apenas dois dias depois do acontecido. Era como se seu corpo, freneticamente ligado pelo uso daquela droga, finalmente tivesse se desligado. E demorou algum tempo até que os circuitos voltassem a funcionar perfeitamente.

− Olá, Bela Adormecida. – Sin estendeu um copo de água para Roy, que prontamente o agarrou e bebeu todo seu conteúdo de uma só vez pedindo por mais. Apenas depois do terceiro copo ele se sentiu inclinado a falar:

− O que está fazendo aqui, Sin?

A pergunta a magoou um pouco. Ela esperava que Roy ficasse feliz em vê-la.

Obrigado por me resgatar, Sin, e me desculpe por quase enfiar uma flecha entre seus olhos!— A garota bufou, levantando-se irritadiça da cadeira onde estivera sentada até então.

− Hey! Hey! Hey! Que história é essa? Sin! – Roy correu atrás da amiga, sentindo como se uma banda de rock explodisse a música em seus tímpanos. A dor de cabeça era tão insuportável que ele ganiu, caindo ajoelhado no chão.

− Roy? – Sin correu até ele e o aparou.

Imediatamente, a fisionomia dele mudou. Sin reparou na dor em seu olhar, em como seu maxilar estava travado.

− Preciso de mais, Sin. Preciso...

Ela sentiu algo como desespero embrulhando seu estômago.

− Não pode, Roy... você não viu... o que aquilo fez com você. Você quase me matou! Se não fosse o John...

− Bobagem! – Roy explodiu, empurrando-a para longe. – Você está errada, você...

− Roy!

Mas o rapaz não a escutou. Apenas ignorou o que ela havia dito e puxou o capuz vermelho de seu moletom, correndo escadas acima para o Verdant. Sin até tentou alcançá-lo, mas apenas foi capaz de ouvir o ruído da moto que se afastava para longe dali.

− Sin? – a voz de Laurel a sobressaltou. Não havia percebido a outra mulher se aproximar. Com lágrimas nos olhos, ela mordeu o lábio inferior. – O que houve?

− O Roy.. é o Roy...

Compreendendo a situação sem precisar perguntar mais nada por conta da dedução que havia feito, Laurel abriu a porta do passageiro de seu carro.

− Entre e me conte tudo o que sabe sobre como ele tem agido. E coloque o cinto. Vamos encontrá-lo.

Sin obedeceu. E Laurel saiu cantando pneus enquanto partiam atrás de Roy.

X

Felicity ainda não conseguia acreditar no que havia ouvido mais cedo, mas era verdade. Oliver havia matado R’as Al Ghul. Ou ao menos era o que todos pensaram já que era a sua flecha cravada no peito do velho imortal. Agora apenas um corpo deitado sobre as pilhas de madeira bem arrumadas. Flores foram dispostas ao seu lado, oferendas para aquele que havia sido considerado o verdadeiro Demônio em vida. A palha também estava pronta entre as vigas de madeira, preparadas para queimar quando a cerimônia começasse.

Ela estava inconformada e desolada. E não havia nada que pudesse fazer sobre isso.

X

Estarrecida, Felicity questionara Sara, Nyssa e Oliver a respeito daquela lei.

Não existe nada que possa ser feito? Nada que possa alterar isso? Oliver não o matou de propósito! O homem tentou me matar! Não existe uma lei contra isso?!

Parecia ridículo perguntar isso em uma ilha cheia de assassinos, mas Felicity não conseguia se conformar. Oliver apertou seu ombro.

Hey, Felicity, tudo bem. Eu já sabia de tudo isso quando vim para cá. Sabia de tudo isso quando decidi atirar aquela flecha.

Nyssa aproximou-se encarando a loira.

Não é apenas uma questão política, Felicity. É uma tradição. Se Oliver se negar a segui-la, colocará todos vocês em risco. E eu não poderei fazer nada quanto a isso.

Mas você é—!

− Mesmo que ela seja a nova líder da Liga, Fel, é preciso que isso aconteça. – Sara a abraçou pela cintura e isso pareceu tranquilizar um pouco a hacker. – Eu também não gosto dessa ideia. Eu não queria que Ollie tivesse que passar por isso por minha causa.

A culpa estava estampada no olhar de Sara, mas Oliver a apaziguou:

Essa foi minha escolha, Sara. Como foi a sua permanecer em Starling e lutar ao meu lado. Você é minha amiga. Mais do que isso, é família. E família não se abandona. Se é preciso que eu permaneça aqui, isso vai ser feito.

Mas você não é um assassino, Oliver... não é... – Chorona como sempre, Felicity não conseguiu se segurar e se jogou nos braços de Oliver. Ele recebeu de bom grado aquele abraço molhado e cheio de tristeza.

Mas eu fui. E eu realmente o matei, Felicity. E não me arrependo disso. – pontuou. – Isso não significa que eu tenha voltado à estaca zero. Graças a você e a todos os que me apoiaram até aqui, eu posso ver com mais clareza. Sei que você, Sara, Roy e John darão conta das coisas em Starling. Pode fazer isso por mim? E, hey, isso não significa que não nos veremos mais, tudo bem? Daremos um jeito.

Promete?

Oliver sorriu. Eram aqueles olhos, a esperança espelhadas nele, ela por inteiro. Sua luz.

Prometo.

X

O discurso sobre o pai feito por Nyssa foi longo e extenso, pontuando todas as vezes em que R’as Al Ghul tinha feito pela Liga dos Assassinos ao decorrer dos anos. Ela falara sobre a sua eficácia como um guerreiro e em como a sua lâmina não havia falhado até então. Houve tantas outras coisas, mas nenhuma delas expressava como R’as Al Ghul tinha sido um pai amoroso ou afetuoso. Nenhuma.

Ao fim do longo discurso, ela fez uma pausa enquanto pegava uma das tochas acesas ao lado do corpo envolvido por especiarias de Ra’s, agora não mais que um velho decrépito e morto.

Então prosseguiu:

− Mas o meu pai sabia que em algum momento, algo assim aconteceria. E ele estava preparado para abraçar a morte, apenas esperando que um sucessor para o seu legado viesse. E Al Sah-him é esse homem. Em um momento de frenesi do meu pai, ele foi o único capaz de pará-lo com uma flecha certeira em seu peito, findando assim seu legado como o Demônio que era. E é por isso que a honra de queimar seu corpo e assumir seu legado agora pertence a ele. Ajoelhem-se, membros da Liga! Ajoelhem-se diante de seu novo R’as Al Ghul, Oliver Queen!

Houve uma série de urros vitoriosos no momento em que Oliver pôs fogo à pira onde R’as Al Ghul se encontrava. Enquanto o fogo se alastrava e subia, todos observavam a cena. Por fim, Oliver disse:

− É com grande honra que eu assumo esta posição que por tanto tempo pertenceu ao homem de quem ceifei a vida. Sei que muitos de vocês não me conhecem e não têm nenhum motivo para me apoiar como seu novo senhor. Mas eu não estarei sozinho nesta empreitada! – exclamou. – Eu tomo por direito aquilo que vim buscar quando vim para essa ilha. Quero que Nyssa Al Ghul seja a minha esposa.

Tendo dito isso, Oliver se virou na direção de Nyssa. Embora esperasse aquilo, a expressão de surpresa ainda passou pelo rosto da assassina.

− Case-se comigo, Nyssa. Vamos fazer essa Liga se tornar um lugar melhor onde as pessoas não precisem ter medo como tinham do seu pai.

Sua voz foi baixa, mas todos no recinto o escutavam devido ao silêncio que só era quebrado pelo crepitar das chamas.

Sem saber o que dizer, Nyssa observava aquele homem que ela certamente não amava e que não a amava também. Mas os dois estavam destinados a isso, porque as duas pessoas que amavam de todo o coração estavam juntas. E agora Oliver lhe dava uma chance para reconstruir seu legado. Para tornar a Liga dos Assassinos um lugar digno e não apenas um matadouro.

− Eu aceito, Al Sah-him. Aceito ser sua esposa.

Mais vivas explodiram entre os assassinos que agora não tinham medo ou receio de se expressar. E através da fumaça que se espalhava junto das cinzas de R’as Al Ghul, Oliver e Nyssa se beijaram.

Talvez aquele não fosse o melhor início para uma união, mas ao menos os dois sabiam que se apoiariam. E isso teria que bastar.

X

Embora precisassem voltar para Starling City, Felicity e Sara decidiram ficar para o casamento de Nyssa e Oliver. A cerimônia em si não foi nada grandiosa, mas simples e singela como o casamento de dois assassinos devem ser. A reconstrução de tudo o que havia sido destruído também levou algum tempo. Sem que percebessem, dois meses se passaram como se fossem duas semanas e, apesar dos protestos de Oliver para que ficassem mais um pouco e apreciassem a calmaria que Nanda Parbat tinha a oferecer naquele momento, Felicity e Sara sabiam que precisavam partir.

Então, de malas feitas e prontas para irem embora, as duas foram acompanhadas por Oliver até o helicóptero.

− Você sabe mesmo pilotar esse negócio? – Felicity questionou Sara.

− Tive aulas particulares. – Ela piscou para Oliver, que apenas sorriu de volta. Nyssa estava ao lado do marido, ainda estranhando o fato de dividirem uma cama. Mas sabia que chegariam a algum lugar em algum momento, mesmo que demorasse um pouco.

− Sabe que pode contar comigo para o que precisar, Ta-er al-Sahfer. – Ela segurou as mãos de Sara entre as suas. A loira apertou-as em sinal de que compreendia.

− E você comigo.

Oliver e Nyssa se entreolharam por um momento e o loiro anuiu com a cabeça.

− Eu e Al Sah-him decidimos adiantar nosso presente a vocês. Não sabemos quando será o casamento, mas queremos oferecer algo.

Felicity e Sara arquearam as sobrancelhas, um tanto curiosa. Nyssa aproximou-se dela, segurando um cordão negro, sutil. Sara o segurou entre os dedos apenas para que a assassina o cortasse.

− Está livre, Canário Negro. – Nyssa disse. – Livre de suas obrigações para com a Liga. Livre do título de assassina. Vá. Use suas asas e voe daqui. Desbrave novos lugares. Novos horizontes. E viva. Viva como prometeu que iria viver.

Diante daquele ato simbólico, Sara ficou sem palavras. Foi impossível para ela não derramar lágrimas de felicidade e se jogar nos braços de Nyssa e Oliver, quase derrubando-os no processo.

− Não temos como agradecer isso. – Felicity expressou, grata pelo ato de Nyssa. – Sei o que Sara significa para você. E prometo cuidar dela. Não só porque você me fará em picadinhos se eu não fizer isso. Mas porque a amo. De todo coração.

Nyssa abriu um sorriso singelo para ela e estendeu uma mão para Felicity. A hacker a apertou firmemente.

− Você tem o meu respeito, Talibah Sarab¹.

− Eh? Do que foi que ela me xingou, Sara? – Felicity sussurrou baixinho para a outra loira, que apenas riu de sua inocência.

− “Talibah” significa aquele que busca o conhecimento ou estudante. “Sarab” significa fantasma. Então, Fantasma que busca conhecimento.

− Pois embora você sempre esteja nos ouvidos de Sara e Oliver, nunca pode ser vista. – Nyssa esclareceu. – E saiba que você e sua equipe sempre terão o apoio da Liga. O nosso apoio. Sempre que precisarem.

Havia algo no olhar entre Nyssa e Oliver que Felicity não soube identificar. Não era uma faísca, tampouco amor. Mas era o princípio de algo.

− Vocês também podem contar conosco. Sempre.

− Vamos, Felicity! – Sara, que já havia entrado no helicóptero, chamou pela hacker.

− Venham nos visitar! Tragam muitos razinhos para nós!

Oliver riu da expressão usada pela querida amiga enquanto se afastava com Nyssa observando o helicóptero partir.

− Ela é mesmo algo, não é? Essa Felicity.

− Ela é sim.

Os dois entrelaçaram os dedos, de maneira talvez um pouco tímida, como se estivessem se acostumando com a vida de casados.

− Vamos. – Oliver disse. – Ainda temos muita coisa para mudar aqui antes que a Liga dos Assassinos se torne algo mais.

Nyssa concordou. Muitas mudanças precisariam ser feitas. Mas ela estava disposta a transformar aquele local em um local melhor. Um verdadeiro local para ser chamado de lar.

¹Literalmente isso que Sara disse mesmo: Talibah Sarab, Fantasma que busca conhecimento.

Notas finais
Primeiro, falando sobre esse capítulo, acho que ele é um dos maiores que escrevi se não for o maior. E sinceramente, ele não tem NADA do que eu planejei! Nadinha! Sabe o que é zero? Zero. Exato. Eu sentei pra escrever ele e tinha um piloto na minha mente onde, inicialmente, Noah aparecia para clamar vingança e matar Talia por ela ter permitido que Felicity quase morresse na ilha. Eu realmente consigo imaginar o Calculator agindo friamente assim! Mas quando comecei a escrever, essa cena inicial com Nyssa pipocou na minha mente. E era para Oliver estar nela, os dois conversando. Só que quanto mais eu escrevia, mais aquele lance com Damian ficava na minha cabeça. E, sinceramente, eu peço muitas desculpas aos fãs de Damian, Batman e afins se isso estiver descaracterizado ou fora do universo. Mas como essa fic é uma continuação alternativa da série Arrow, eu decidi prosseguir com as coisas deixando o vento me guiar. Então, aí, Talia ganhou algum destaque nesse capítulo. Decidi que Nyssa merecia sim um espaço e decidi aproveitar ele para contar um pouco o passado das duas irmãs. Fico imaginando que se R'as descobrisse que Talia estava grávida e queria fugir como ela planejava, ele agiria exatamente assim. Fora que ela não estava grávida de qualquer pessoa. Ela estava grávida do Batman que é o arqui-inimigo dele! Isso é demais né gente? Eu quis pintar ele como um vilão, mas do jeito doentio dele ele queria que a filha permanecesse ao seu lado e que seu herdeiro fosse o próximo líder da Liga. Então eu dei essa ideia que realmente é real segundo minhas pesquisas, de que Damian Al Ghul Wayne foi treinado pelo avô e etc, mas que Talia estava ali a todo momento. E que em determinada chance, ela convenceu o pai, se aproveitando do amor que ele possuía, ainda que distorcido e doentio, para levar Damian em uma missão. E aí foi filé, né? Com a ajuda do Noah, ela forjou a própria morte e escondeu o Damian com o pai dele. E foi viver. Só que o que ela não sabe e nem nunca vai saber é que a salvadora por trás disso tudo foi Nyssa. Mas levando em conta que ela salvou Nyssa aqui também e ela nunca vai saber... 1 a 1, né? Falando sobre o fechamento em si, eu quis prosseguir com a ideia da tradição sim. Nyssa e Oliver casando estava nos meus planos desde que a saga de Nanda Parbat foi estabelecida. Eu acho que encaixa no enredo. Por muitos momentos eu pensei em colocar ele com Laurel, mas esse casal simplesmente não me desce. E eu acho que não encaixaria na trama da forma que eu desejava. Assim ficou na medida certa. Agora falando sobre Sara e Felicity, eu finalmente consegui chegar ao ponto que queria da relação das duas. Os próximos capítulos devem abordar um pouco mais da relação delas. Sobre o outro núcleo, agora Roy começa a demonstrar os efeitos da Cataclysmus, trazendo preocupação pra todo mundo. E Laurel finalmente está fazendo alguma coisa. E pegando o Eric, hehe. No final, vocês viram que dei um skip time de 2 meses? Pois é. No próximo capítulo, o novo arco começa com tudo. E só posso esperar o que virá! Enfim. Sinto que sempre me estendo demais nessas notas finais, mas não consigo evitar. Sempre quero falar de cada pedacinho do capítulo com vocês! Por fim, e talvez a parte mais importante, eu preciso fazer dois agradecimentos especiais: o primeiro é a todos vocês, que acompanham a fic, que favoritam, comentam, que apenas leem e que fazem recomendações. Eu não tenho como expressar como é gratificante ver o trabalho com um casal que não é nem muito visado ir para frente assim. Eu fico enaltecida. De verdade. Obrigada! O segundo agradecimento é pra minha namorada, minha flor, melhor amiga e minha pessoa. Porque se não fosse por ela, essa fic teria ficado estagnada por mais 84 anos antes de sair da minha cabeça. Eu tinha me desanimado e me desencantado muito com o mundo das fics, mas ela permaneceu insistindo sutilmente até eu voltar a trabalhar em Wanna Play? e não posso dizer que me arrependo! Obrigada mesmo, flor, por ser a minha luz no meio da escuridão velada. Por ser a minha inspiração. Enfim, espero vocês nos próximos capítulos, pessoal! Até mais!