Wanna Play?
22 The past always comes back
Notas iniciais
"O que mais admiro em você é como continua caminhando, continua viva, não importa o que aconteça. O passado não é uma âncora pra você, é o combustível."
A retomada da União
X
Sua xícara de café já havia esfriado há muito, mas Ray não havia conseguido beber um único gole. Era muito elétrico, agitado por natureza e seus pais sempre haviam dito que ele se parecia com uma pipoca pulando na panela. Ray gostava mais de se imaginar como as partículas do estado gasoso da água; sempre em constante movimento par gerar uma grande quantidade de energia. E café, até onde o cientista sabia, era a melhor forma de adquirir energia quando precisamos espantar o sono.
− Tem mesmo certeza que é ela, Cat? – perguntou, usando o antigo apelido da amiga de faculdade. – Não pode ser algum engano?
Ao contrário do homem diante de si, Caitlin não havia tido nenhum trabalho em terminar o próprio café. Não era um Flash, mas dava para o gasto.
− Cogitei a possibilidade, mas era a nossa fórmula, Ray. Cada detalhe, cada estrutura e molécula. – O olhar que pairava sobre seu rosto era sombrio. A expressão de Ray se tornou pesarosa. – Quando eu a recebi... tive certeza.
− Achei que ela estivesse morta. – Era errado, ele sabia, desejar tal coisa. Mas haviam visto com os próprios olhos, e jurado nunca mais falar sobre o assunto. Para que não corressem riscos, Raymond havia mudado de cidade, e durante muitos anos, até mesmo de país, onde se tornou bilionário e um cientista renomado por todo seu trabalho que se concentrava no setor tecnológico e principalmente no setor da nanotecnologia, na qual ele secretamente trabalhava no desejo de conseguir alcançar a perfeição em um projeto particular.
− Todos nós achamos, Ray. – Caitlin sentiu o gosto da lembrança amargar a boca. Ela se lembrava de tudo com tantos detalhes que simplesmente gostaria de esquecer.
Os olhos de Ray se ergueram para encontrar os de Caitlin. Compreensão mútua passava por eles. A dor que eles compartilhavam, que jamais haviam compartilhado com mais ninguém. Nem mesmo seus conjuges.
Mas a memória estava ali, para os dois. Tão vivas como se tivessem acontecido naquela mesma noite.
X
Naquela época, tudo o que importava para aqueles três jovens cientistas era o reconhecimento que conseguiriam através daquele projeto conjunto e como poderiam impactar e mudar o mundo com ele.
Embora estivessem em turmas diferentes—até mesmo cursos—, a Faculdade de Central City havia decidido abrir uma Feira de Ciências que visava unir as mentes mais brilhantes para criar um projeto que lhes renderia uma bolsa de iniciação científica até o final de seus cursos, um excelente orientador e muitos pontos no currículo. Além disso, se tivessem sorte, esse projeto seria levado para frente pelo Star Labs, sendo patrocinado pelo próprio Harrison Wells, que buscava as mentes mais brilhantes de Central City, demonstrando que a cidade também apoiava os jovens gênios.
Tudo o que esses três jovens tinham em comum, além de seu forte senso de Justiça e heroísmo, era um professor visionário que via em todos eles um futuro promissor.
Lionel Winsor era um imigrante britânico, que, como todos os outros, buscara pelo sonho americano em um país revolucionário. Embora não pudesse falar mal de seu país de origem, a verdade é que sempre havia buscado algo mais e quando finalmente se tornou professor de Bioquímica na faculdade de Central City, havia encontrado a sua verdadeira vocação: a de lecionar para jovens almas que, como ele, ansiavam pelo saber.
Coincidentemente, ele havia dado aulas para esses três jovens e viu neles o potencial de algo muito maior. Por isso, quando o projeto de Wells havia sido lançado, fez a proposta para eles, prometendo orientá-los caso conseguissem realizar o feito. Cada equipe, que deveria ser formada com no mínimo 3 e no máximo 5 integrantes, teria que levar cabo de um projeto que envolvesse a ciência como um todo, explorando um pouco do que cada curso tinha a oferecer.
A princípio, houve resistência por parte de Caitlin e Nora de estarem na equipe de um completo estranho. As duas não faziam o curso juntas, mas moravam no mesmo pensionato para garotas que era mais próximo da faculdade que suas próprias casas—e muito mais higiênico do que o campus.
Quando Caitlin tentou passar sua primeira semana lá, logo desistiu quando a colega de quarto trouxe quatro homens diferentes para o quarto. Na mesma semana. Aquilo era demais para ela, que necessitava de privacidade, conforto e silêncio para estudar em paz. Afinal, a faculdade de Medicina consumiria sua alma se ela não se cuidasse.
As duas haviam feito uma espécie de acordo velado de amizade, que consistia em sempre retornarem juntas para casa, e por conta dos cursos no mesmo bloco de prédios—Nora cursava biologia—, sempre acabavam almoçando juntas também. Cada uma em seu silêncio taciturno. Eventualmente, passaram a falar um pouco sobre suas aulas, descobrindo partilhar o mesmo gosto. E logo Nora descobriu que Caitlin não era como a maioria dos estudantes de Medicina: com seus egos astronômicos que colocavam no chinelo a maioria das constelações.
Depois disso, foi natural que se tornassem amigas, o que tornou mais fácil ainda o entrosamento das duas para aquele trabalho, já que Nora sempre falava a respeito de projetos que pudessem explorar a cura através da genética molecular—sua área favorita na biologia.
Mas Raymond era um estudante de Física. Em que poderia ajudá-las? Não, pensavam elas, ele apenas atrapalharia o avanço das duas com suas teorias tolas. Mas o professor Winsor não deu muita brecha para elas, dizendo que o mínimo de integrantes que precisavam para formar um grupo eram 3. E, sem mais opções, já que aquilo valeria uma nota inteira naquela disciplina, elas aceitaram sem sequer imaginar a proporção que aquilo tomaria.
X
Os gritos apavorados de Felicity lhe despertaram mais de três vezes naquela madrugada até que Sara optou por fazer chocolate quente para ambas, levando a xícara fumegante até o sofá. Estendeu-a para a loira, o caramelo boiando de maneira alegre com uma pitadinha de canela ao redor.
Com um agradecimento mudo, Felicity deu o primeiro gole como se pudesse mergulhar todos os seus problemas dentro do líquido achocolatado, mas ela sabia que as coisas não funcionavam assim. Vestida em seu felpudo roupão cor de rosa, tudo o que a hacker queria era se encolher até desaparecer. Mas sempre que fechava os olhos, as imagens de seus pesadelos vivos retornavam para assombrá-la, para lembrá-la da verdade que nem mesmo Sara sabia a seu respeito.
A heroína, por sua vez, sentou-se ao lado dela com a própria xícara de chocolate quente na mão. Seu olhar pairava sobre Felicity e havia uma pontada de preocupação sobre ele, embora não dissesse nada. Certa vez, quando ela própria havia sido assombrada por seus pesadelos, Felicity não a havia pressionado sobre isso, mas lhe dera espaço para contar quando se sentisse confortável todos os seus terrores pessoais.
− Tem gosto de natal. – Felicity murmurou baixinho. O natal costumava ser a sua época favorita do ano e mesmo que ela fosse cética desde garotinha a respeito da existência de um homem acima do peso com barba branca que entregava presentes nas casas de todas as boas crianças e carvões para as ruins, aquela era a época onde as cores vibravam nas casas com luzes que enchiam seus olhos com alegria e esperança; todos os anos, ela pedia para que o pai voltasse para casa. Isso nunca aconteceu. Até agora.
“E ele é um gênio do mal que está agindo na minha cidade.”, pensou ela.
− É uma receita especial dos Lance. – Sara constatou. – Costumava ser batizada pelo meu pai quando ele estava nos piores dias, mas prefiro assim.
Felicity abriu um sorriso meio sem jeito, lembrando-se de como Laurel e Quentin tinham problema com a bebida. Sara nunca falava muito sobre a mãe, exceto que, como a mãe de Felicity, ela morava em Central City.
Sentia o peso do olhar de Sara sobre si. Não era um olhar questionador ou inquisidor como o de Oliver costumava ser, mas o olhar de alguém que se preocupava com seu bem-estar. O olhar de alguém que zelaria por ela em todos os momentos de sua vida. Sua futura esposa.
Aquilo lhe arrancou um pequeno sorriso.
− O que foi? – Sara arqueou as sobrancelhas, dando outro gole no chocolate.
− Estava pensando em você. No seu sorriso e em como me faz feliz. – respondeu, olhando para o anel de noivado que agora reluzia em seu dedo. – Estava pensando em como você consegue espantar todas essas sensações ruins e em como não me questiona a respeito de nada. Por quê?
Uma das mãos de Sara repousou em sua perna e a bebida quente foi deixada de lado para lhe dar total atenção.
− Como poderia? – perguntou de maneira sincera. – Quando você, sabendo de tudo o que eu era e do meu passado como assassina, jamais me questionou sobre meus tormentos, pesadelos e fantasmas pessoais? Eu estou aqui por você, Fel, e sempre vou estar. Mas no momento em que você quiser me contar como se sente. Antes disso, apenas te abraçarei e direi que ficará tudo bem. Porque vai.
Felicity sentiu um nó na garganta ao ouvir aquelas palavras. Queria chorar novamente, mas conteve as lágrimas, contentando-se em mascarar o gosto salgado do choro com o restante de sua bebida quente. Ela não se sentia preparada para falar sobre aquilo agora. Ainda não.
− Não vai ficar com raiva de mim se eu preferir deixar essa conversa para outro momento?
O coração de Sara se aqueceu diante da inocência pontuada naquelas palavras, e daquele olhar tão entristecido. Como podia ser tão linda assim?
− Eu vou te respeitar, Felicity, em cada momento da nossa vida. – Sua mão esquerda tocou a bochecha da hacker e beijou o canto de seu lábio, limpando um pouquinho do chocolate que havia ficado ali. – E se você não se sente pronta para me revelar o que quer que esteja te atormentando, sei que o fará na hora certa. Não importa quanto tempo isso demore para acontecer.
Felicity a abraçou com força, escondendo o rosto na curva de seu pescoço, aspirando o cheiro do cabelo recém-lavado com seu próprio shampoo. Mas o cheiro ficava infinitamente melhor em Sara; camomila.
− Obrigada. – murmurou. – Obrigada por ser tão compreensiva comigo, obrigada por me amar tão incondicionalmente ao ponto de ter arriscado sua própria vida mesmo quando não se lembrava de mim. Obrigada por estar aqui presente e por nunca ter desistido de mim. Obrigada por ter escolhido me amar.
Sara afastou-se apenas o suficiente para olhá-la no fundo dos olhos, azul encontrando azul em uma matiz de cores que ninguém além delas compreenderia. A ex-assassina segurou o queixo da noiva, memorizando aquele momento, memorizando seu olhar. E soube mais do que nunca o que diria em seus votos. Soube que faria o máximo que pudesse para que ninguém nunca a machucasse. Nunca.
− Amor não é sobre escolhas, Fel. – disse ela. – Eu não escolhi amar você, mas quando descobri que a amava, escolhi perseguir esse amor. Escolhi estar por perto ainda que fosse arriscado, porque meu coração bate fora do corpo, dentro de você. Não posso expressar exatamente como é, mas mesmo que amor fosse sobre escolhas, eu escolheria te amar. Todos os dias. Para sempre.
− Eu não sei o que dizer. – A sempre tão falante Felicity, a pessoa que nunca ficava sem palavras, que sempre falava algo divertido e fora de hora. Emudecida diante daquele ato; daquela declaração de amor.
− Não precisa dizer nada. – Sara sorriu. – Mas se quiser dizer algo, diga que me ama.
− Eu amo você, Sara Lance. – Felicity respondeu, os dedos se entrelaçando aos dela enquanto as testas se tocavam. – Amo você e vou perseguir esse amor com todas as forças. E onde quer que você vá, eu estarei com você. Essa é a minha promessa. Hoje e sempre.
Se beijaram naquele momento. Sem mais palavras que precisassem ser ditas. Apenas sabiam. Aquele amor incondicional as guiaria para onde quer que fosse. Juntas.
X
O escritório de Scorpia era simples, nada elaborado como Roy pensou que seria. Havia uma escrivaninha de mogno escura, duas cadeiras confortáveis e prateleiras com livros, a maior parte deles com títulos que ele sequer conseguia ler. A mulher, cuja feição só podia ser lida através do olhar e da face direita, lhe indicou a cadeira para que se sentasse; Roy achou prudente obedecer.
− Como você deve ter notado, Sr. Harper, temos muitas crianças entre nós, mas adultos também. – Começou Scorpia. – A maioria dos adultos, você notará, são mães que por alguma razão se viram mergulhadas em drogas e em desespero. Usuárias que de alguma forma acabaram seguindo o caminho da Cataclysmus, mas que começaram com coisas muito piores.
“Veja bem, a droga que eu criei tinha o único intuito de acelerar o processo energético das células para que o organismo não se sentisse exausto diante das adversidades do dia a dia. Acontece que quando usada em excesso, ela tem um forte poder coagulante que, em pessoas com pré-disposição para, digamos, esse tipo de problema, acaba ocasionando o que chamamos de Acidente Vascular Cerebral, mais conhecido como AVC. Mas a droga foi muito além do planejado, ela aliviava dores excruciantes em quantidades um pouco mais elevadas, o que fez com que seus usuários sempre buscassem por mais. Nunca foi a minha intenção que a droga se tornasse um vício ou um problema, tanto que busco corrigir suas falhas através de todas as pessoas que se habilitaram a fazer parte do processo. Infelizmente, Sr. Harper, quando buscamos mudar o mundo, alguns sacrifícios precisam ser realizados.”
Roy piscou, um tanto confuso diante de tantas informações e de repente desejando não ter matado tantas aulas de biologia em seu período escolar. Talvez o ajudasse a elucidar melhor o que aquela mulher queria lhe dizer. Mas ele não era um homem de palavras e sim de ação. E usar o cérebro não era algo que fazia constantemente. Prova disso era ter se metido naquela confusão.
− O que quer dizer com sacrifícios? – Sua voz soou mais rude do que gostaria. Scorpia se remexeu na cadeira, o queixo repousando sobre as mãos, cujos cotovelos flexionados se apoiavam na mesa. Havia algo no olhar dela que atraía Roy, da mesma forma como uma mariposa é atraída pelas chamas.
− Quero dizer exatamente isso que você escutou, Sr. Harper. Todos aqui, − apontou para nenhum lugar em especial – já estão mortos ou sem a capacidade de seguirem em frente. Eu estou dando a eles uma chance. Uma chance que pode falhar, mas ainda assim uma chance. É como a sua situação, não é? Por que mais o ajudante do Arqueiro viria até mim, que sou considerada uma vilã?
Roy engoliu em seco diante das palavras tão certeiras de Scorpia. Ela tinha razão; ele estava desesperado. E Cataclysmus era a única coisa entre ele e a loucura.
− Me fale sobre esse novo projeto. Acha que pode me curar? Curar todos os doentes aqui? – questionou, soando exatamente como estava: desesperado.
− Esse novo projeto engloba algo mais complexo do que uma simples droga. – Scorpia suspirou. Havia um clink! um tanto mecânico quando ela o fez. – Ele vai permitir que doenças como as suas sejam curadas, Sr. Harper. Vai permitir um avanço na cura de doenças que nenhuma empresa farmacêutica está disposta a ceder pelas perdas que teriam na venda de remédios.
− A que custo? – A ignorância era uma bênção em algumas situações, mas Roy não poderia fazer vista grossa ao que quer que ela estivesse planejando.
− Células-tronco modificadas para se adaptarem e combater o problema. – respondeu com simplicidade; Roy não compreendeu uma única palavra. Notando isso, prosseguiu. – Pegaremos células que ainda não possuem uma forma certa. Essas células serão modificadas por mim, para que possuam a propriedade correta para combater quaisquer que sejam as injúrias que tomam o corpo doente. E ao fazer isso, a pessoa experimentará a cura. Sem efeitos colaterais, apenas o benefício.
Aquilo parecia bom demais para ser verdade.
− O que você não está me dizendo? – Cerrou os punhos.
Ela suspirou pesadamente, os olhos afiados perscrutando cada ação de Roy.
− Sacrifícios, Sr. Harper, sacrifícios. Infelizmente, as células-tronco precisam ser extraídas de algum lugar.
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Ray Palmer, como gostava de ser chamado, havia sido uma aquisição melhor do que as duas garotas esperavam ao time. Juntos, os três foram capazes de bolar uma fórmula extraordinária: uma pílula que os afastaria dos problemas de adormecerem nas noites em que deveriam ficar em claro estudando para suas provas. A fórmula, CPH6, havia sido criada pela junção de habilidades de todos os três. Foram necessários alguns testes em animais que deram muito errado, mas depois de alguns erros, finalmente pareciam ter encontrado o balanço ideal.
− Com isso, acho que poderemos ter um rendimento muito melhor. – Ray parecia realmente animado com a possibilidade de noites em claro sem a exaustão que o corpo cobrava depois.
− Poderíamos até desenvolver algo para curar doenças no futuro. – sugeriu Nora. – Tenho certeza de que conseguiríamos. Juntos. Talvez uma alteração na fórmula da CPH6 nos levasse a isso...
− Mas não estamos falando de um simples estado energético aí, Nor, e sim de algo revolucionário. Para alterar o estado de uma célula como você deseja, precisaríamos de uma célula primária. E não podemos conseguir isso a não ser...
− Fetos. – Os olhos dela brilharam por um momento. – Poderíamos conseguir as células-tronco através deles. Se encontrássemos doadores. Até mesmo os cordões umbilicais.
Caitlin e Ray trocaram olhares nervosos.
− Não acho que essa seja uma boa ideia. – O jovem cientista se manifestou. – O comitê jamais aprovaria.
Nora encarou os dois por um momento e foi como se tivessem estilhaçado algo dela; destruído seus sonhos.
− Pensem no que poderíamos fazer. – insistiu. – Mudar o mundo. Curar doenças como o câncer ou erradicar a AIDS! Nada disso seria impossível para nós, compreendem? Caitlin! Você sempre disse que queria mudar o mundo. Salvar vidas é a sua vocação. Temos a chance disso se conseguirmos decifrar o que há por trás da modificação das células. E com todo seu estudo sobre nanotecnologia, tenho certeza de que conseguiríamos, Ray!
Havia tanta certeza nas palavras de Nora, tanta paixão. Como poderiam negar?
− Se o comitê barrar o nosso projeto, pararemos e seguiremos com o CPH6, estamos entendidos? É algo mais certo. – Caitlin sugeriu. Ray se sentiu voto vencido diante das duas.
− Certo. – disse ele por fim. – Mas falaremos com o professor antes.
− Eu já concordei. – O professor surgiu da sala anexa do laboratório onde se encontravam.
Ray não sabia o motivo, mas sentia que aquilo não era algo bom.
X
Naquele mesmo dia, enquanto Sara e Felicity caminhavam pelas ruas de Star City fazendo compras para o apartamento que ficara abandonado durante o período que passaram em Nanda Parbat, ela recebeu uma mensagem de Caitlin perguntando se estaria tudo bem ela e Ray se reunirem com as duas para conversar a respeito do caso Scorpia. Felicity olhou de esguelha para Sara, que encarava algo além em uma vitrine de loja qualquer.
− Caitlin quer nos ver hoje com Ray, provavelmente para abrir o jogo. O que acha? – Consultar pessoas antes de fazer as coisas não era muito do feitio de Felicity. Normalmente, teria apenas respondido à mensagem concordando ou discordando, mas havia cobrado isso de Sara e não podia seguir um caminho diferente.
− Acho que você ficaria linda naquele vestido. – Apontou. A atenção de Felicity finalmente foi direcionada para a loja em questão; uma loja de vestidos elegantes, ela notou.
O vestido em questão era vermelho, longo e de tecido leve, delineando as curvas do corpo. No estilo tomara que caia, ele se prendia firmemente aos seios e possuía um corte lateral na perna esquerda que facilitava a movimentação e dava um ar um tanto...
− Sexy, não acha? – A voz rouca de Sara em seu ouvido arrepiou os pelos de sua nuca. Felicity mordeu o lábio inferior, encarando a roupa.
− Você acha que eu ficaria bem nisso? – A hacker questionou, tentando se imaginar na roupa, e depois voltou os olhos na direção de Sara. – Quer... quer que eu o vista para o nosso casamento?
As sobrancelhas de Sara se arquearam em surpresa. Na verdade, pensar em Felicity naquele vestido fora a única coisa em sua mente. Havia pedido ela em casamento, mas não pensado nos detalhes como vestidos ou convidados. Usariam vestidos de noiva? Ela se vestiria com um terno? Teriam um buffet? Quem seria convidado? E os padrinhos? Tanta coisa que ela sequer havia imaginado...
Felicity pareceu notar a maré de confusão que surgiu nos olhos da noiva diante daquele simples questionamento. Era verdade que não haviam discutido nada e que Felicity tinha oculto a sete chaves um diário cor de rosa de unicórnio com todos os pontos de um casamento perfeito, mas naquela época era uma adolescente suspirante que tinha como maior ídolo Mr. Darcy, um homem que à primeira vista parecia maravilhoso, mas que apenas Elizabeth poderia dobrar e suportar.
− Você quer um casamento grande? – A pergunta não foi mais que um sussurro, e mesmo que Felicity tivesse noção que o mundo ao redor delas continuava, que o barulho dos carros trafegando e de pessoas caminhando falando ao telefone ou conversando com seus colegas prosseguia, ela só conseguia ver Sara.
Felicity ponderou sobre a pergunta dela. Queria um casamento grande? Algo que Oliver Queen, por exemplo, poderia ter lhe dado? Com todos os holofotes voltados para si, com direito à mídia e pombos revoando diante de um cenário perfeito e maravilhoso enquanto ela chegava em uma carruagem guiada por belos cavalos brancos?
Fechou os olhos, ignorando tudo o mais ao redor. Sara não sabia o que ela estava fazendo, se sua pergunta havia sido idiota ou não. Talvez sim. Talvez Felicity quisesse um casamento grande, do tipo de parar o mundo. Mas ela jamais poderia oferecer isso a ela. A não ser que roubasse um banco ou fizesse um empréstimo que jamais poderia pagar. Na escala ex-assassina e atual heroína, será que roubar um banco para dar um casamento perfeito à noiva era um ato condenável?
A hacker, por outro lado, apenas tentou imaginar sua vida com Sara. A felicidade de dias tranquilos depois de terminarem com o trabalho como vigilantes; os domingos pontuados por macarronadas na casa de Quentin Lance, acompanhados da presença de Laurel, Eric e Sin; as visitas inesperadas de sua mãe que a preencheriam de desespero. Precisava mesmo de um grande casamento?
− Não. – Quando abriu os olhos, Sara a encarou de volta, a confusão preenchendo o olhar novamente.
− Não?
− Não. – Tornou a repetir. – Não preciso de um casamento grande, mas tenho certeza de que teremos um grande casamento. Quero que minha mãe esteja presente. Seus familiares e Oliver e Nyssa, se eles puderem vir. John, Sin... – Sua voz foi morrendo à medida que o último nome que queria na lista poderia não estar presente. E se Roy nunca voltasse para o lado delas? A tristeza a atingiu como um balde de água fria. Sentia tanta falta dele!
− Vamos conseguir trazer ele de volta, Fel. – Sara apertou suas mãos. – Não precisamos ter um casamento grande, mas isso não significa que não darei a você o que merece. E eu acho que você ficaria linda nesse vestido. – Um sorriso ponteou seus lábios. Felicity sorriu de volta para a noiva.
− Vamos entrar então. Quem sabe não encontramos algo para você também?
Sara ia responder algo, quando sentiu um comichão na nuca e olhou para trás; o brilho do sol refletido na lataria de um carro a cegou momentaneamente quando virou naquela direção.
− Algum problema, Sara? – Felicity perguntou.
A loira olhou naquela direção por mais alguns instantes, a sensação de que havia algo errado permeando seu ser. Mas achava que podia ser apenas impressão.
− Não. Vamos entrar. – ela murmurou. Talvez devesse ter ouvido os próprios sentidos ao invés de comprar roupas novas, mas a ideia a agradava por demasiado. Há quanto tempo não comprava roupas novas para si?
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No fim das contas, optaram por encontrar Ray e Caitlin no apartamento do bilionário, já que Felicity não se sentia à vontade de recebê-lo em sua própria casa e tampouco no QG. Ela sabia – e já havia alertado Sara – que provavelmente essa conversa com Ray, significava que talvez suas identidades fossem reveladas, mas Caitlin havia garantido que Ray Palmer era alguém de sua própria confiança e que jamais traria problemas nesse sentido para elas. A princípio, a ideia consternou Sara um pouco, mas se era algo necessário para que conseguissem dar um passo na direção de Scorpia, então era o melhor a fazer.
Por isso, havia decidido chamar Laurel para a reunião, que por sua vez chamou Sin para compartilharem as novas informações que tinham a respeito do caso. Sara ficou mais do que feliz em ver como a protegida havia se adaptado bem à vida com Laurel e quando se viram, trocaram um abraço apertado e prometeram um jantar na casa dos Lance para colocar a conversa em dia e anunciar formalmente o casamento com uma data pensada pelas duas.
O apartamento de Raymond Palmer poderia muito bem ser confundido com uma casa extremamente luxuosa onde Felicity e Sara facilmente se perderiam se fossem hóspedes ou até mesmo moradoras. Constituído de três andares em uma cobertura em um prédio mais alto do que a Palmer Tech, a vista deixava qualquer um completamente vislumbrado ao ver as luzes brilhando como estrelas no chão daquela cidade. Aquele tipo de visão, que Sara e Sin costumavam compartilhar juntas nas noites mais calmas de crime, era simplesmente maravilhosa.
Ray ofereceu a elas um jantar simples, com uma entrada leve de saladas acompanhado de salmões grelhados e uma série de pratos do qual Sin nunca havia ouvido falar do nome. Felicity parecia tão perdida quanto ela no quesito para quê temos um garfo para sobremesas e outro para comer normalmente, mas as irmãs Lance, tendo convivido tanto tempo na companhia de Oliver, souberam como ajudá-las sem que passassem vergonha demais.
Não puderam reclamar do jantar, no entanto, que foi encerrado com uma belíssima sobremesa de Petit Gateau, uma especialidade que o próprio Raymond havia preparado sozinho—o restante tinha tido a mão de Caitlin e de Yolanda, a governanta que cuidava da casa, mas que havia sido dispensada mais cedo para que não encontrasse as presenças femininas ali e pensasse que aquilo era uma espécie de orgia. Já bastava a bronca que havia recebido quando, pela manhã, ela havia chegado e notado Caitlin ali. Por sorte, todos os xingamentos de Yolanda, arrastados em seu sotaque russo, pareceram passar despercebidos por Caitlin. Mas certamente pelo tom de voz dela, Caitlin julgou que a mulher a havia considerado uma prostituta. Mas ao final do dia, as duas haviam trocado diversos tipos de receitas e informações interessantes sobre temperos, além de Caitlin ter receitado um ótimo medicamento para sua dor nas costas e caminhadas diárias para melhorar sua disposição.
Finalmente satisfeitos pela maravilhosa refeição, se dirigiram para a sala de visitas, disposta com uma pequena mesinha de centro e duas poltronas confortáveis, em tons de azul escuro, com um sofá de quatro lugares de mesma cor e aparência chamativa para um cochilo depois de toda aquela refeição. A visão também contribuía, com um local bem arejado e vidraças que traziam luz e vida para todo o local. Provavelmente durante o dia, a vista devia ser simplesmente deslumbrante.
Depois que todos se colocaram em seus lugares, com Felicity e Sara entre Sin e Laurel e cada um dos anfitriões sentados em uma das poltronas, Caitlin e Ray trocaram olhares significativos como se perguntando quem deveria começar com a conversa. Laurel decidiu por tomar a voz, visto que o desconforto crescia entre eles. Durante o jantar, por um descuido de conhecimento de Ray, ele havia servido à ela uma taça de vinho e resistir ao impulso de bebê-la havia sido algo que lhe drenara as energias quase que por completo. Mas o orgulho no olhar de Sara por aquela pequena conquista valeu todo o esforço por mais um dia de sobriedade.
− Sara me atualizou que vocês têm informações de Scorpia? – perguntou com sutileza e engoliu em seco, sentindo a boca amargar. O vinho era branco e o estômago queimava pelo desejo de degustá-lo. Se fosse somente um pouquinho...
− Sim. – A voz de Caitlin a despertou de seu devaneio. – Vamos compartilhar tudo o que sabemos a respeito do passado dela. De quem acreditamos que ela seja. Mas... – Cerrou os punhos firmemente, as unhas se encravando levemente na palma para mantê-la no controle. – Tenho certeza que é ela.
− Cat e eu a conhecemos na faculdade. – Ray assumiu uma voz mais séria. – Ela... na época nós tinhamos sonhos semelhantes. Queríamos mudar o mundo através das nossas ideias e dos nossos conhecimentos e acho que... acho que realmente teríamos conseguido se tudo não tivesse dado errado como deu. Scorpia é como vocês a conhecem, porque era o nome do projeto no qual trabalhavámos. Mas seu nome verdadeiro era Nora. Nora Green.
Durante os próximos minutos, Caitlin e Ray discorreram uma longa narrativa a respeito de como se conheceram e de suas ideias. Eles disseram que o projeto da CPH6 tinha como único intuito uma droga que os auxiliaria em seus estudos, como uma espécie de energético potencializado, e que naquela época, os efeitos colaterais não existiam, provavelmente porque Nora havia incluído algo a mais na fórmula para potencializar a droga que causava todos aqueles efeitos. Contaram também sobre o outro projeto que tinham criado—o Scorpia—, que basicamente consistia em uma cura miraculosa à base de células-tronco, mas que a princípio Ray e Caitlin tinham sido resistentes e dado a ideia de usarem as células de animais que tivessem o mesmo princípio, e o escorpião possuía uma propriedade em seu veneno que, quando alterado, permitia a utilização dele como uma espécie de anestético que impediria o desenvolvimento de doenças que agiam na célula como o câncer, causando apoptose (a morte celular, Caitlin esclarecera) das mesmas e permitindo que as novas células substituíssem aquelas que se proliferavam de maneira maligna.
− Mas como as células saudáveis não eram atacadas no processo? – Felicity questionou.
Foi Ray quem respondeu:
− Eu criei um mecanismo que dava uma espécie de ‘inteligência’ para Scorpia. Eram nanorobôs que eram programados unicamente para atingir as células que não estavam saudáveis. – esclareceu. – A princípio, o projeto deu certo, apesar dos preços abusivos. Mas acontece que... – Sentia as palmas suarem, como se falar do que vinha a seguir fosse extremamente doloroso.
− Acontece que tivemos problemas. – Caitlin prosseguiu. – Como estávamos fazendo o projeto com o auxílio da faculdade, era impossível que o que fazíamos não fosse divulgado. Mesmo que tenhamos escolhido o sigilo, achávamos alguém do conselho de ética deixou que informações sobre a ideia vazassem, e com isso, uma indústria farmacêutica, infeliz com o nosso progresso, resolveu atacar.
“Naquela noite, eu e Ray estávamos trabalhando em outra parte do projeto, que consistia em fazer com que as células novas não se transformassem em células cancerígenas novamente. Além disso, tínhamos o problema de o corpo reconhecer os nossos dispositivos como corpos estrahos, e que as células brancas atacassem Scorpia como se fosse uma doença auto-imune. Nora já deveria ter ido embora, mas permaneceu no outro laboratório, trabalhando em sua parte do projeto de maneira solo. Achamos que o professor devia estar com ela, mas descobrimos, muito depois, que na verdade quem entregou o nosso projeto para as indústrias farmacêuticas foi ele, a um preço astronômico que permitiria que vivesse bem sua vida em qualquer outro lugar.”
− Ele vendeu vocês? – Sara chocou-se diante daquela informação. Sin apenas abaixou o rosto enquanto Laurel cobria a boca com uma das mãos.
− Sim. – Ray soltou um suspiro pesado, como se todo o peso estivesse sobre seus ombros. – Mas quando ele descobriu que Nora estava dentro do laboratório, tentou impedir o ataque. Acontece que quem foi até lá, era profissional em não deixar rastros e teve a ordem de explodir todo o laboratório para que nada do projeto pudesse restar.
“Eu não sei se a pessoa que foi, tinha planos de assassinar a todos nós ou de simplesmente destruir todo o nosso projeto, mas tudo o que ouvimos foi a explosão do laboratório onde estávamos. Caitlin e eu corremos para ver o que havia acontecido, mas um dos seguranças do prédio impediu o nosso acesso para aquela ala e nos guiou para fora. O que soubemos depois disso, foi que o professor Winsor foi encontrado morto, completamente fora de identificação. O estrago foi tão grande, que os peritos da época, sem toda a tecnologia que temos hoje, não conseguiram identificar se o corpo era masculino ou feminino—os ossos derreteram quase que por inteiro e não conseguiram encontrar a arcada dentária. Apenas atualmente, com a tecnologia avançada, e com um pouco do DNA que foi preservado apesar do incêndio, é que foi possível identificar o professor como aquele corpo morto. Além disso, um dos funcionários que trabalhava como técnico do laboratório, atestou ter visto ele entrar correndo para lá. O resto, nós deduzimos através de provas encontradas em seu apartamento e pertences pessoais que permaneceram encaixotados durante anos por sua esposa por falta de uma investigação criminal mais aprofundada, pois havia sido concluído que a explosão havia sido causada pelos produtos químicos do laboratório e não por um crime.”
Um silêncio profundo e incômodo recaiu sobre o cômodo, cada um dos presentes refletindo sobre as palavras ditas por Ray e Caitlin. Não restava dúvidas para ninguém ali que Nora e Scorpia eram a mesma pessoa. Se os fatores utilizados não fosse o bastante, o nome seria.
− Como acham que ela sobreviveu à explosão e ao incêndio? – Sin questionou.
− Sinceramente, não faço ideia. – Caitlin respondeu. – Pelo tamanho da explosão, não acredito que seria possível sobreviver, mas... não sei. Talvez o professor tenha conseguido alertar ela a tempo?
− Acho improvável, ou os dois teriam saído vivos de lá. – Ray especulou. – A não ser que ele tenha ficado para trás, o que também acho improvável. Nora não abandonaria o nosso projeto. Ela estava obcecada com isso, entendem? – Abaixou a cabeça, o corpo curvado enquanto encarava o chão. – Devia ter compreendido que jamais conseguiríamos algo dessa magnitude.
Caitlin sentiu-se a pior pessoa do mundo por não saber o que dizer a ele. Enquanto ela havia permanecido com sua mãe até as coisas esfriarem, Ray tinha aguentado sozinho todos os questionamentos e olhares críticos sobre si. Mas a memória de quando se encontraram depois daquilo era ainda viva em sua mente.
− O que sabemos agora, − Laurel chamou a atenção de todos. – é que essa droga tem trazido grandes problemas. E Sin me disse que aparentemente algo do gênero que vocês estão explanando está sendo projetado por aqui.
Sara e Felicity permaneceram em silêncio, apenas digerindo essas informações. Mas foi Sara quem tomou a frente:
− Sabemos que Roy envolveu-se com essa droga e que agora está com Scorpia. – Ela cerrou os punhos. – Não sabemos exatamente o que o levou a isso, apenas que está doente e desesperado ao ponto de ter seguido com ela.
− E ter atirado em você. – Felicity decidiu não ocultar esse detalhe, o que arrancou um olhar indignado de Sin e Laurel, mas principalmente de Sin.
− Ele atirou uma flecha contra mim. – suspirou pesadamente. Sara passou um dos braços por seus ombros.
− Ele não me atingiu. Sua flecha foi longe. Ele só...
− Está perdido. – Felicity concluiu. – E vamos trazê-lo de volta. Vocês acham que conseguem alguma pista para eu rastrear Scorpia? Porque até agora ela encobriu todos os seus rastros e a única vez que encontrei um esconderijo, ela sequer estava lá.
− Ela vai precisar de uma grande quantidade de células-tronco e... de escorpiões. – Ray respondeu.
Felicity abriu um sorriso, daqueles que Sara conhecia tão bem. Era um sorriso vitorioso, do tipo que ela só abria quando tinha uma ideia.
− No que está pensando, Fel?
− Que já sei como rastrear Scorpia.— respondeu. – Vamos. Vamos começar a trabalhar nisso.
− E quanto a nós? – Ray questionou.
− Acha que consegue me arrumar alguns drones?
Ray abriu um sorriso, e Sara poderia jurar que ele e Felicity eram gêmeos naquele momento.
X
Thea terminou de ajeitar a mala com os poucos pertences e jogou-a sobre os ombros. O último item que havia colocado nela era uma pequena wakizashi — um presente de seu pai. A lâmina dela era diferente da maioria das armas, de um negro lustroso e muito mais letal do que qualquer outra que Thea já tivesse visto. Havia abandonado as roupas de estilo orientais para vestir uma calça de brim verde no estilo militar e coturnos de couro marrons com uma camisa regata branca e uma jaqueta de tom creme. Quando estava se virando para sair do quarto, sentiu a presença do pai e agarrou entre os dedos a shuriken que ele lançou em sua direção.
− Parece que está com os reflexos mais afiados, querida. – Ele cruzou os braços e abriu um sorriso de canto. – Estava pensando em ir sem se despedir de seu querido pai?
− Estava pensando que iria de qualquer jeito, você querendo ou não. – Ela rebateu, caminhando na direção da porta; Malcolm a encarou e, por um momento, Thea achou que ele fosse lhe bater para impedi-la de partir. – Preciso ir.
− Eu sei. – As palavras dele soaram sérias, feridas. Thea não sabia dizer o que se passava pela mente do homem que um dia fora conhecido pelo apelido de Mago entre a Liga dos Assassinos. Muitas vezes, acreditara que ele era apenas um crápula sem sentimentos, mas agora convivendo com ele sabia que as coisas não eram bem assim. Isso não fazia com que ela perdoasse todas as coisas que ele já havia feito, é claro.
Ela passou por ele, sentindo o olhar pairar sobre si; John a esperava lá fora. Parou por um momento, o rosto baixo com uma das mãos segurando a shuriken que ele havia lançado em sua direção e a outra segurando firmemente a alça da mala. Sabia que poderia se arrepender—provavelmente se arrependeria.
− Vai me fazer ficar esperando a manhã toda ou vai pegar suas coisas?
Aquela não foi a primeira vez que Thea viu Malcolm Merlin sorrir, mas certamente foi o sorriso mais verdadeiro que viu nos lábios do pai quando ele se apressou em arrumar as próprias coisas para que pudessem partir.
X
Pelos dias que se seguiram depois do chamado de Noah, Eric havia seguido Felicity para todos os cantos em que a hacker havia ido, na maioria das vezes acompanhada pela irmã de Laurel. Isso tornava as coisas mais difíceis, pois na mesma medida que Felicity era distraída, Sara sempre estava atenta a tudo, parecendo evitar lugares suspeitos ou que pudessem culminar em um QG para heróis.
Além disso, elas pareciam absortas em lojas de vestidos, roupas e bolos para festas e...
− ... artigos para noivas. – concluiu, passando o relatório para Noah através do dispositivo móvel pré-pago que ele havia lhe fornecido. – Laurel havia comentado sobre isso, e sei que não é relevante para o que me pediu, mas achei que gostaria de saber.
Durante um longo período, Noah ficou em silêncio naquela ligação. É claro que desconfiava sobre a proximidade de sua garotinha com aquela garota e, para falar a verdade, aquilo não o incomodava nem um pouco. A tecnologia havia avançado e o mundo junto com ela. Na sua época, algo assim seria condenável. Mas tudo o que ele queria, por mais paradoxal que parecesse, era que sua filha fosse feliz.
Só que Noah precisava ter certeza de que ela estava pronta para isso.
− Essa foi uma informação valiosa, Eric, muito obrigado. — respondeu. – Já têm uma data?
− Um jantar de anúncio oficial foi marcado para o fim da semana. – Coçou de leve a barba que começava a crescer, enquanto observava as duas saírem da casa do bilionário. – Parece que a mãe de Felicity vai comparecer.
Um nó se formou na garganta de Noah. Donna. A última vez em que haviam se visto, ele tinha partido o coração daquela bela mulher, deixando-a à própria sorte.
− Tudo bem.— Respirou fundo, tentando se recompor. – Não demore para conseguir o que te pedi, Corvo. Não aceito falhas em sua missão.
Eric desligou o telefone, colocando o capacete e acelerando a moto para segui-las. Ele sabia que não poderia demorar. A missão não o agradava, mas desde que a realizasse... desde que fizesse isso, estaria livre. Sua família estaria livre. E poderia ficar com Laurel sem culpa.
− Está acabando, Eric. – murmurou para si mesmo.
A noite do jantar seria a noite perfeita para descobrir tudo sobre Felicity Smoak e seu esconderijo secreto.
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