Wanna Play?

15 Storm is coming


Notas iniciais
Esse capítulo contém algumas cenas em itálico, que são coisas que se passam pela cabeça de cada personagem. É um capítulo bastante longo, então pega a pipoca e o refri e senta que lá vem história! Eu criei algumas possíveis regras dentro da Liga dos Assassinos. Amantes dos Quadrinhos, me perdoem e não desistam de mim

You know just what to say

Things that scare me

I should just walk away

But I can't move my feet

The more that I know you

The more I want to

Something inside me's changed

(Você sabe exatamente o que dizer

Coisas que me assustam

Eu deveria simplesmente ir embora

Mas não consigo mover meus pés

Quanto mais te conheço

Mais eu te quero

Algo dentro de mim mudou)

Starving – Feat. Zead & Grey

X

Carmesim.

Explode em seus tímpanos, mancha sua visão, toma conta de tudo ao redor.

O cheiro de sangue embrulha seu estômago e faz suas entranhas revirarem. Felicity nunca havia visto tanto sangue.

Para ela, a morte cheirava a flores baratas e terra molhada. Mas aquilo, aquilo era a verdadeira morte. Aquilo era real.

X

Laurel entreabriu os olhos quando sentiu o colchão ficar mais leve. Ainda com a visão turva, ela observou quando Eric se levantou, o corpo moreno e musculoso completamente exposto e nu. Em suas costas, havia uma grande cicatriz entrecortada com o aspecto de farpas.

A promotora não achou por bem, na noite passada, perguntar o que havia causado essa cicatriz. Ou todas as outras espalhadas em seu corpo. Ela sabia como a cadeia podia ser cruel. E embora ela tivesse conseguido libertá-lo, Eric havia passado três meses na prisão.

Ela só podia imaginar o que o rapaz havia sofrido. E ainda assim, permanecia mais firme do que ela jamais seria.

− Está acordada? – Os olhos escuros dele a espreitaram como corvos prontos para alçar voo. Havia algo de oblíquo e misterioso em Eric D’raven que havia atraído Laurel para sua cama. Ela não conseguia se arrepender da noite que haviam passado juntos, mas também não sabia o que pensar sobre isso.

− Faz pouco tempo. – murmurou com a voz sonolenta. Durante a noite, todos os sonhos ruins haviam desaparecido. E embora sentisse a boca seca naquele momento, sua sede não era por álcool. Era a primeira vez em meses que não pensava em bebidas alcoólicas.

− É o que parece. – A risada rouca de Eric preencheu o ambiente. Laurel gostava do som límpido da risada dele. Como se fosse cristalina. – Vou tomar banho. Quer me acompanhar?

Em geral, Laurel passaria a proposta de Eric e inventaria uma desculpa para sumir dali. Mas encarando o corpo esguio do moreno e lembrando-se das mil formas nas quais ele havia lhe arrancado um gemido e um suspiro diferente, seu corpo se colocou de pé sozinho.

Por um momento, ao ver um pequeno pássaro negro pousar na janela, Laurel sentiu um aperto em seu coração. A irmã, com quem havia tido tantos conflitos e com quem havia finalmente se reconciliado, estava distante novamente.

A irmã que tanto havia odiado, que havia roubado seu primeiro namorado, tinha ido embora para salvar a pessoa que ela amava.

O pássaro alçou voo e foi embora.

− Você vem, Laurel?

Laurel olhou para fora, o pássaro já distante de sua visão. E decidiu acreditar em Oliver uma última vez.

X

Para Sara, a morte era como um véu obscuro. Como mergulhar em um rio de águas profundas sem ser capaz de retornar. Sem querer retornar.

Existe a paz e o silêncio absoluto. E toda aquela dor que um dia já imperou sobre você, simplesmente desaparece e não sobra mais nada.

Ainda assim, a trouxeram de volta daquela carnificina.

E talvez fosse melhor não ter voltado, se a sua sina era ver aquele banho de sangue. E ser incapaz de fazer alguma coisa sobre isso.

Qualquer coisa.

Ela estava tão impotente quanto um passarinho preso em sua gaiola.

X

Felicity sentia como se seu estômago estivesse no lugar do coração e como se todos os seus órgãos estivessem sendo comprimidos enquanto o helicóptero descia em busca de terra firme.

Ela esperava que eles fossem abatidos em pleno ar. Que sequer tivessem a chance de pousar; Oliver não fez menção de se esconder. Ele simplesmente pousou na entrada da ilha. Era uma entrada triunfante.

Mas ninguém os abateu. Ninguém lançou flechas ou mísseis contra eles.

Ao invés disso, quando o helicóptero pousou no chão pedregoso daquela ilha oculta sob camadas e camadas de neblina.

Não era preciso, afinal, estavam cercados.

Oliver, que vestia a roupa do Arqueiro, não fez questão de esconder o rosto de todos aqueles que já o conheciam. Mesmo os membros mais baixos da Liga dos Assassinos. Qual era o propósito, afinal, se ele estava ali para se tornar o líder deles?

− Está com medo? – Oliver perguntou ao pousar, os olhos claros fixos em Felicity agora.

Ela olhou para o celular brevemente, uma outra mensagem vinda do número desconhecido de seu pai.

Número Indisponível:

Não tente ser mais forte do que ele—nem mesmo seu amigo Arqueiro conseguiria. Não importa que ele esteja debilitado. Explore suas fraquezas.

− Você não? – Ela deu uma risada nervosa, esquecendo-se momentaneamente do conteúdo escrito.

− O tempo todo. – O sorriso de Oliver a pegou desprevenida. Não esperava que nessa situação, ele lhe dedicasse um sorriso. Que a abraçasse por cima dos ombros. Sentiu-se repentinamente segura apesar de tudo o que passava por sua cabeça naquele momento. – Vamos?

Felicity acenou positivamente com a cabeça e os dois saíram juntos do helicóptero. Do lado de fora, um exército da Liga dos Assassinos apontava suas armas brancas para ambos, e bem no centro dele, Felicity reconheceu a carranca desprezível de Er-Notur.

− Parece que você gosta mesmo de abraçar a morte, não é Sr. Queen? – Se desprezo tivesse um som, Felicity tinha a certeza que seria o da voz de Er-Notur. Como o odiava por ter afastado Sara de si! Por tê-la trazido de volta para aquela prisão.

Oliver, no entanto, apenas sorriu de canto quando Er-Notur ergueu uma das mãos, pronto para dar a ordem para matar a ambos.

− Estou aqui para seguir uma lei antiga. Estou requisitando uma audiência com R’as Al Ghul.

A risada de Er-Notur ecoou como a gargalhada estridente de uma hiena. Os membros da Liga eram robôs aguardando pelas ordens para exterminar os dois invasores.

− Você não é um membro da Liga dos Assassinos para exigir tal coisa, Sr. Queen. Não passa de um vigilante barato. – Er-Notur sorriu. Felicity desejou que Oliver afundasse seus dentes dentro da boca. – Mas devo parabeniza-los por chegar até aqui. Uma pena que o sacrifício de Ta-er al-Sahfer será em vão.

− Olha aqui, seu...! – Quando Felicity fez menção de avançar, flechas, espadas e armas orientais que ela nunca havia visto em nenhum lugar além do e-bay foram apontadas em sua direção.

− Basta um tiro. E levo a metade de vocês comigo.

Havia algo de intimidador na forma como Oliver disse aquilo que o tornava sexy e assustadoramente ameaçador. Er-Notur pareceu sentir a vibração que vinha dele e alguns dos membros da Liga também. Eles poderiam ser treinados para não sentir medo, mas não significava que eram tolos o bastante para ignorar o perigo quando o viam diante de seus olhos.

− Basta. Estou farto. Não sou obrigado a ouvir seus pedidos e tampouco leva-los aos ouvidos de R’as Al Ghul. Matem eles.

O som dos metais brandidos ecoou por toda a ilha. Felicity apertou os olhos, pensando em Sara. Pensando no quanto desejava não morrer. Oliver a abraçou contra seu corpo, mas segundos se passaram e nada aconteceu.

− O que estão esperando?! – Ódio podia ser sentido na entonação da frase de Er-Notur. Mas ao invés de obedecê-lo, todos os membros da Liga se ajoelharam.

− Eles não vão fazer nada. Não aqui. Não enquanto eu não escutar o que o Sr. Queen tem a dizer. – A voz de Nyssa imperou do alto de uma elevação rochosa. Felicity nunca a havia visto daquela maneira, como a filha de R’as Al Ghul. Mas aquela era sua verdadeira identidade. Sua verdadeira sina. E Felicity se viu engolindo em seco, imaginando como era possível que Sara tivesse escolhido ficar ao seu lado ao invés de escolher aquela mulher poderosa.

− Srta. Al Ghul, achei que tivesse se retirado para os seus aposentos na companhia de Ta-er al-Sahfer. – Uma alfinetada. Que Felicity sentiu no fundo de seu coração. Esmagando-o. Dilacerando-o. Nyssa olhou diretamente para ela, e a hacker não soube identificar o que havia por trás daquele olhar.

− O que eu faço ou deixo de fazer aqui, Er-Notur, não é de sua conta até que o nosso casamento seja realizado. E a lei da Liga dos Assassinos diz que, se um de nós, com titularidade o suficiente para reconhecer alguém que não seja membro da Liga, está à altura de fazê-lo ou deseja lhe dar voz, pode fazê-lo. E se o que Al Sah-him deseja é ser ouvido pelo meu pai, então estou dando a ele o direito dessa audiência. Acho que como filha de R’as Al Ghul tenho esse direito, não tenho?

O rosto de Er-Notur se tornou escarlate como uma pimenta. Felicity observou com certo contentamento enquanto ele cerrava as mãos, cego de ódio.

− Suponho que sim, sua alteza. – ele respondeu. – Por enquanto.

Essas palavras foram um sussurro que Oliver e Nyssa foram capazes de captar.

− Estão dispensados. – ela disse para todos os membros, que desapareceram como sombras em meio aos rochedos. – Ta-er al-Sahfer, mostre as acomodações de nossos hóspedes. Eles falarão com meu pai depois de serem devidamente acomodados e alimentados.

Das sombras, Sara surgiu como um pássaro negro, repousando suavemente ao lado de Oliver e Felicity.

A hacker sentiu que seu coração havia parado por um momento ao vê-la novamente vestida naqueles trajes e sentiu o ímpeto de beijá-la ali mesmo, mas não o fez.

− Sim, minha senhora. – Sara limitou-se a responder e algo dentro de Felicity quebrou. Mas quando achou que a tinha perdido para sempre, Sara lhe deu uma piscadela, enquanto Oliver observava Er-Notur se afastar, com uma ira que não poderia ser medida por nada naquele mundo.

X

Nyssa sempre imaginou a morte como seu oponente final. Como filha de R’as Al Ghul, ela sempre acreditou que ela viria na forma de uma flechada, um corte letal ou através de traição.

Por isso, Nyssa Al Ghul não fazia amigos. Seu único amigo havia sido Al Sa-her, e Malcolm Merlin a ensinara desde cedo o significado de ser deixado para trás.

Depois disso, ela se concentrou naquilo que havia nascido para fazer: assassinar; e no que havia nascido para ser: a herdeira do demônio.

Mas o que Nyssa nunca imaginou, é que a morte começaria em vida. E que viria daquela forma. Tão, tão trágica.

X

A cidade nunca dorme.

Esse era um lema que Roy havia aprendido lendo aos seus quadrinhos favoritos de super-heróis e que se encaixava muito bem em Starling City.

Se algum dia lhe dissessem que ele vestiria um capuz vermelho e se tornaria o ajudante mirim do Arqueiro, Roy Harper jamais acreditaria.

Mas ali estava ali, agora crescido e sozinho, cuidando da cidade. Evitando assaltos, lutando contra assassinos e acabando com sequestros.

O sangue pulsava em seus ouvidos quando ele parou no topo da torre Relógio onde Sin costumava se refugiar com Sara, mas ela não estava ali agora. Provavelmente estava trabalhando em alguma boate.

Ele bateu a mão no bolso, sentindo a segurança que os últimos comprimidos ainda lhe ofereciam.

A sensação que o Cataclysmus lhe oferecia era de euforia pura. Ele sentia a energia pulsando em suas veias e sentia-se renovado como nunca. Não havia efeitos colaterais, ele se sentia perfeitamente bem e alerta. Pronto para novos chamados.

Quando ouviu um grito cortar a noite, Roy apontou a flecha para o prédio vizinho e atirou, criando um caminho de corda até o chão.

Se a cidade nunca dormia, ele não dormiria também.

X

Felicity e Oliver haviam sido escoltados por Sara até uma das alas internas do Palácio de R’as Al Ghul. Não havia como descrever aquele local de outra forma, era o que Felicity pensava.

Esculpido sob as próprias rochas daquela ilha abandonada e esquecida pelo mundo, havia um sem fim de quartos e cômodos que formavam uma espécie de labirinto dentro daquela fortaleza, a qual Felicity memorizava em sua cabeça.

Ela sempre havia sido boa nos jogos de esconde-esconde. Ela sempre havia sido boa em nunca se esquecer das coisas importantes.

E isso era a diferença entre sair dali vivo ou morto. Muito importante então.

Ela estava tão abismada e compenetrada em decorar corredores e túneis que não se deu conta quando Sara parou, esbarrando contra ela. Se não caiu, foi porque a outra loira a segurou pela cintura. Suas mãos permaneciam firmes. Oliver pigarreou:

− Qual é o meu quarto? Gostaria de tomar um banho, se possível. A viagem foi cansativa. – Mentira. Felicity conhecia Oliver o suficiente para saber quando ele mentia. E esse era o momento. Sentia-se grata, no entanto, por ele dar esse espaço a ela e a Sara. Só não sabia exatamente o que fazer com isso.

− Este aqui, Ollie. – Saiu natural, sem aviso, e pegou Oliver e Felicity de surpresa.

− Você... acabou de me chamar de Ollie. – Abobado, o arqueiro olhava na direção de Sara como se visse a projeção do que ela fora um dia.

− Eu... desculpe. Apenas me pareceu certo. – murmurou, um pouco confusa.

É certo! – Oliver exclamou. Ele e Felicity trocaram olhares esperançosos. – Era como—é como você e Laurel costumam me chamar.

− Os mais íntimos, ele quis dizer. – Felicity abriu um sorriso ao que Oliver respondeu com uma ombrada de leve contra a outra loira.

− Você sabe que pode me chamar assim se quiser.

− Claro, Sr. Queen.

Os três se entreolharam diante daquela imitação séria de Felicity e caíram na gargalhada. Era cômico – para não dizer trágico – que estivessem rindo no local onde provavelmente seriam sepultados.

− Tome seu banho, Ollie, e descanse um pouco. Alguém virá nos chamar para a refeição da noite e depois você terá sua audiência. Foi o que Nyssa me passou.

Ele e Felicity haviam esperado enquanto Nyssa e Sara trocavam poucas palavras antes que ela os acompanhasse covil adentro.

Oliver por fim acenou com a cabeça e olhou para as duas. Não resistiu ao impulso e abraçou ambas, fechando os braços em torno dela como se fossem cadeados. Felicity não se sentiu tão surpresa quanto Sara, que não sabia como reagir diante daquele ato de extrema ternura. Mas as duas o abraçaram de volta, tentando ignorar o constrangimento que aquela situação trazia.

Por fim, e sem dizer nada, ele se afastou e entrou no quarto, batendo a porta de leve. Sara abriu a porta do quarto da frente, revelando-o para Felcity.

A hacker, que esperava um quarto um tanto simplista, se deparou com o que se parecia um luxuoso quarto de hotel: no centro dele, uma cama de casal com dossel era coberta por lençóis de seda na coloração creme. Tapetes que deveriam valer mais que sua casa recobriam o chão, tanto ao lado da cama como de frente para a penteadeira, onde um sem número de perfumes e produtos cosméticos estava instalado.

Felicity se deu conta, também de que aquele quarto não estava vazio, mas ocupado por alguém. Tanto pela escova de cabelos que continha fios louros, quanto pela suíte anexa onde ela via produtos de higiene pessoal, uma escova de dentes e uma toalha estendida para secar.

− Acho que você se enganou... – Felicity mal conseguiu terminar de falar antes de sentir o hálito de Sara sobre seu pescoço e quando se virou em sua direção, a outra loira a beijava com volúpia e um desejo que não poderia – jamais – ser expresso em palavras.

Felicity foi dominada por uma torrente de sentimentos: saudade, euforia, desejo, alegria e tristeza. Tudo ao mesmo tempo. Ela não conseguiu negar o beijo, era saudoso demais e tudo o que ela queria era absorver Sara através dele. Suas mãos se entrelaçaram à nuca da antiga Canário e ela permitiu-se viver o momento.

Sara não estava pensando quando a beijou. O perfume de Felicity a inebriava. Tudo nela lhe causava uma volúpia insensata e absurda que ela fora incapaz de sentir com Nyssa na noite anterior. Quando havia escutado de um dos espiões de Nyssa que o Arqueiro havia chegado acompanhado de uma moça loira na ilha, seu coração quase parou de bater. Ela não compreendia por qual motivo Felicity estava ali – nem Oliver – mas mesmo sentindo vontade de ralhar com ambos por isso, estava feliz.

Feliz como a felicidade que o nome de Felicity representava para si naquele momento.

Pois ela sabia, mesmo não tendo memória alguma, que ela faria o mesmo por qualquer um dos dois.

Aproveitando o enlace de Felicity em seu pescoço, Sara firmou as mãos em sua cintura e a suspendeu como se a mulher fosse uma pluma. Ela afastou-se apenas o suficiente para soltar um gritinho de susto, mas suas pernas se fecharam em torno do corpo de Sara e assim ela foi caminhando com ela até a cama, onde as duas caíram deitadas.

Pararam por um momento, se entreolhando. Havia uma alegria genuína no olhar de Felicity, mas não era apenas isso. E não era apenas desejo, Sara sabia. Também sabia que as duas precisavam conversar e, enquanto trocavam aquele olhar, ela começou a lutar contra o desejo que sentia para assumir um tom mais sério, mas Felicity deu um sorriso singelo para ela, acariciando suavemente seu rosto com as costas da mão direita. Aquele ato, tão pequenino, tão sutil, derreteu Sara por dentro.

− No que você está pensando, Felicity? – Sua voz saiu rouca e alquebrada, como se Sara estivesse segurando o choro—o que de fato estava fazendo.

− Que eu amo você. – respondeu. – Que não importa o que aconteça, eu vou continuar amando você. E vou lembrá-la todos os dias se for preciso. Ainda que você não se lembre de mim.

Sara não podia responder àquelas palavras naquele momento. Não seria justo com Felicity ou com ela própria. Mas ela teve certeza ali, que a amava. Por isso a beijou novamente. E esperava que desta forma, Felicity fosse capaz de sentir o seu amor.

Ela foi.

Sua Canário Negro estava ali. Adormecida em algum lugar, mas estava ali. E Felicity a tiraria daquela escuridão. Mesmo que tivesse que manchar as próprias mãos de sangue daquela vez.

X

Oliver viu e sentiu a morte de perto de diversas maneiras, mas nunca imaginou como seria a morte para ele.

Ele havia visto seu pai tirar a própria vida para que pudesse sobreviver. Ele havia visto sua mãe morrer diante de seus olhos, assassinada por Slade. E Shado, por sua escolha. E tantas outras pessoas.

Oliver sentia como se ele fosse um velho conhecido da morte. Então, quando imaginava a morte, não era na forma sangrenta ou literal.

Ele a imaginava abraçando-o como um anjo. Levando-o para o descanso que ele tanto desejava depois de todo o mal que ele havia causado. Depois de toda a culpa que ele carregava dentro de si.

Mas agora, encarando-a daquela forma, as coisas pareciam não ser como ele imaginava. Ele nunca havia conhecido a morte realmente. Não daquele jeito.

X

Embora não tivesse acesso a relógio ou janelas ali, Oliver sabia que a noite os havia alcançado quando ouviu as batidas suaves em sua porta. Um membro qualquer da Liga dos Assassinos, uma mulher negra e de feições muito mais vividas do que ele, veio buscá-lo junto de Felicity e Sara.

Haviam sido deixadas roupas mais apropriadas do que seu traje de combate para estar na presença de R’as Al Ghul. A roupa, em um âmbito geral, não se discernia muito da sua, exceto que era muito mais leve – como uma túnica – e totalmente negra.

Para a surpresa de Oliver – e da própria Sara – um vestido negro com um corte na lateral havia sido deixado para Felicity. Ela estava estonteante como sempre ficava quando se vestia elegantemente, e Oliver teve que se lembrar de respirar e de que não poderia tê-la para si porque ela pertencia à Sara—algo que também havia ficado claro como a luz do dia devido à troca de olhar das duas. E o desejo como Sara a olhava.

Ele não poderia dizer que não se sentia feliz por elas. As duas mereciam aquele amor.

Sara, como ele, vestia os trajes comuns à Liga dos Assassinos e assim, em silêncio, caminharam pelos corredores que davam acesso ao salão de jantar. Atravessaram todo o cômodo até uma mesa que se encontrava mais alta que as outras, cumprida e com um imenso banquete. Em um dos cantos da mesa, sentava-se R’as Al Ghul, imponente como sempre fora e tão intimidador quanto apesar da palidez excessiva de sua pele.

Felicity sentia a aura que emanava dele mesmo não sendo uma guerreira. E ela seria tola se dissesse que não sentia medo só pelo olhar que o velho decrépito havia lançado em sua direção.

Bem, ele não se parecia com um velho decrépito naquele momento, mas Felicity tinha certeza que ele era um pelas informações que havia levantado a seu respeito. Os cabelos negros estavam bem alinhados e penteados para trás e ele vestia um pesado manto por cima de sua roupa, com correntes de ouro que eram cravejadas com diamantes.

− Sentem-se, convidados da minha filha. – ele disse, a voz um pouco enferrujada que o fez tossir algumas vezes antes que retomasse a palavra. – Comam à vontade e depois teremos a audiência que Al Sah-him solicitou.

Não parecia haver nenhuma ameaça velada nessas palavras, mas Felicity não se deixaria enganar pela amabilidade que ele apresentava. Palavras de agradecimento foram trocadas por ele e por Oliver e ela preferiu ficar calada como Sara havia sugerido que ela fizesse.

Não era de seu feitio aguentar as coisas calada, mas ela o fez mesmo assim. Na outra ponta da mesa, sentava-se Nyssa. Er-Notur ficava sempre ao lado direito de R’as, mas quando foi tomar seu lugar de direito, R’as Al Ghul disse que se sentasse à esquerda, pois o lugar de honra pertencia ao convidado de sua filha; Felicity ficou ao lado de Oliver.

Se antes Er-Notur odiava Oliver Queen secretamente, agora isso estava evidente em sua expressão. A humilhação causada pela troca de lugares diante de todos os membros da Liga dos Assassinos jamais seria esquecida por ele. E quando ele fosse o novo R’as faria questão de torturar lentamente todos aqueles que haviam esboçado qualquer reação que remetesse a um mínimo sorriso diante do fato ocorrido.

O jantar transcorreu sem mais problemas ou humilhações públicas, com uma conversa leve por parte de R’as Al Ghul, que fazia perguntas levianas a Oliver a respeito de seu trabalho como vigilante na cidade de Starling City desde a época em que estivera na ilha de Lian Yu. Oliver respondeu a todos os questionamentos do possível futuro sogro sem nenhum problema, contornando situações complexas demais, mas sem nunca chegar ao ponto da mentira.

Felicity prestava atenção em todas as atitudes do líder da Liga dos Assassinos, sem deixar passar nada. Ela sabia que não poderia matá-lo a facadas ou sufocado por um travesseiro; ele era sagaz demais para isso e muito mais forte do que ela jamais seria. Ela também não poderia esperar que, ao empurrá-lo da escada, ele caísse e quebrasse o pescoço; era muito mais fácil que isso acontece à ela no processo. Veneno? Fora de cogitação. Mesmo que Sara tivesse sido envenenada no passado, ele tinha acesso ao Poço de Lázaro. Seu pai havia lhe informado que ele era imune a quase todos os tipos de veneno.

Exceto se esse veneno ainda não tivesse sido criado.

Mas Felicity não era nenhuma química e não tinha acesso a um arsenal de herbologia para poder usar isso contra ele.

A única coisa que ela possuía era a sua fé inabalável. E a mente brilhante que havia herdado de seu pai.

− Devo te parabenizar, Srta. Smoak, por ter conseguido encontrar a minha ilha no mapa. – Ao ouvir R’as Al Ghul dirigindo a palavra para si, Felicity engasgou de forma que Oliver precisou lhe dar uns tapinhas nas costas, fazendo-a cuspir uma azeitona inteira no prato. Muitos membros da Liga se seguraram para não rir da cena. A própria Nyssa abaixou o rosto escondendo a expressão risonha.

− Isso não... – Dizer que não havia sido nada ou que seu pai havia lhe cedido as informações seria burrice demais. Então Felicity assumiu o crédito. – Obrigada.

Ele sorriu.

− Nunca tive a presença de alguém com sua capacidade por aqui. Penso que poderia encontrar uma função para você.

Felicity congelou no lugar onde estava; Sara parou de respirar e Nyssa deu um chute na Canário por baixo da mesa para que ela se controlasse.

− Eu já tenho um trabalho de meio expediente que é bastante cansativo, senhor R’as. Mas obrigada pela oferta.

Todos na mesa se calaram. Er-Notur achou que R’as Al Ghul mataria Felicity ali mesmo pela sua audácia. Mas, para a surpresa de todos – principalmente de Nyssa – ele apenas riu. Gargalhou.

− O seu senso de humor é impressionante, srta. Smoak! Me lembra muito alguém que conheci certa vez. – Os olhos dele brilharam, oscilantes na direção dela.

Felicity sentiu o peso e a pressão daquele olhar. Sentiu-se acuada diante dele. Era como se seus pulmões estivessem paralisados. Era como se o tempo tivesse parado ao seu redor. Suor brotava de sua nuca e descia por suas costas. E ela simplesmente não conseguia falar. Não conseguia se mover. Seu coração acelerava e ela não conseguia desviar o olhar. Foi então que ela sentiu uma dor aguda em sua perna quando, do seu lado esquerdo, Sara cravou as unhas em sua perna. Ela se sentiu agradecida, não pela dor, mas por ela ter sido capaz de lhe tirar daquele transe.

− Acho que podemos pular a sobremesa, meu pai? – Nyssa sugeriu.

− Suponho que sim. – R’as Al Ghul respondeu, talvez porque sua curiosidade estivesse aguçada a respeito do motivo de Oliver Queen ter vindo pessoalmente até ali. Ele sabia que o Arqueiro era amigo de Sara, mas se ele achava que iria tirá-la da ilha novamente, estava enganado. – Você prefere que isso seja feito em particular, Al Sah-him?

Aquele era o primeiro teste, Oliver sabia. Via nos olhos de R’as Al Ghul que ele buscava encontrar seus medos. Predadores como ele estavam acostumados a isso. Mas Oliver também era um predador.

− Eu não tenho nada a esconder de ninguém. – Ele se colocou de pé.

− Sinceramente, meu senhor, acho isso uma perda de tempo. – Er-Notur tomou a palavra antes que Oliver pudesse prosseguir.

− Do que tem tanto medo, Er-Notur? Desde que Al Sah-him chegou à ilha, só busca motivos para findar com sua existência. – Sara disse. – Se a própria filha de R’as Al Ghul os trouxe até aqui para a audiência e o próprio Demônio aceitou ouvi-lo, por que você tem tanto medo que ele fale?

Er-Notur fuzilou Sara com o olhar e trincou os dentes com tanta força que seu maxilar tremia. Felicity amou Sara ainda mais naquele momento.

− Estamos esperando sua resposta, Er-Notur. – Não existia no vocabulário uma palavra para descrever a expressão de Er-Notur naquele momento. Não quando o questionamento vinha do próprio R’as.

Um sorriso de satisfação preencheu os lábios de Nyssa.

“Isso é o que você merece por achar que faz meu pai de tolo.”

− Não prolonguemos isso. Diga logo o que quer dizer, Sr. Queen. – Derrotado e novamente humilhado, Er-Notur se encolheu com o rabinho entre as pernas em seu lugar.

− Eu não sou um membro da Liga dos Assassinos. – Oliver disse. – Mas eu conheci alguém que era. Antes de Ta-er al-Sahfer.

“Essa pessoa me treinou quando eu sai de Lian Yu. Nem sempre eu estive na ilha. Acabei viajando pelo mundo. Estive em Hong Kong e também estive na Rússia. Estive em muitos lugares. Vi a morte mais vezes do que posso contar. E essa mulher que me treinou possuía o mesmo estilo de luta de vocês. Ela me contou, em segredo, que era um membro da Liga que estava em missão. E ela me ensinou a sobreviver e a lutar como ninguém nunca havia ensinado. Tudo o que eu sabia até então era simples demais. Básico demais. Ela me ensinou a ser um assassino. E eu aceitei. Ela me contou a respeito de suas regras, como funcionava, e me contou sobre você, o poderoso e imponente R’as Al Ghul. E ela me disse que existia uma lei que permitia que um membro da Liga assumisse o papel de R’as em algumas condições.”

A expressão de R’as Al Ghul era caricata. Era difícil saber o que ele pensava. Mas a própria Felicity não sabia o que pensar a respeito do que estava escutando.

− Como você disse, é preciso ser um membro da Liga para assumir o papel de R’as. Acho que isso encerra esta discussão inútil. – Er-Notur sorriu triunfante.

− Quem te contou isso? Como era o nome dela? – R’as Al Ghul ignorou a falácia de Er-Notur. Sequer se importava com o que seu braço direito dizia naquele momento. Oliver sorriu de canto.

− Este é o ponto onde eu queria chegar, Er-Notur. Você não ouviu a forma como Nyssa me chama? Acha que foi ela quem me deu esse apelido? Já conheceu alguém que possuísse um nome como esse sem pertencer à Liga de fato? – Oliver questionou sem perder a linha.

− O que quer dizer com isso?

− Quero dizer que faço parte da Liga dos Assassinos. E quem me deu esse nome foi Talia Al Ghul. E com esse direito, eu o desafio pela mão de Nyssa Al Ghul para desposá-la e ser o novo sucessor de R’as.

X

Er-Notur não imaginava a morte de jeito nenhum. Ele a temia como o covarde que era e precisava fugir dela a todo custo. Era por isso que, nos combates, ele sempre evitava ser a linha de frente.

Ele era a cabeça, era o que comandava. E depois que Al Sa-her foi embora, ele fez de tudo para ser notado, sendo astuto e soturno, mas não tão apagado que não ganhasse a atenção de R’as Al Ghul.

Ele sempre escolhia as piores missões, mas sempre dava um jeito para que alguém a concluísse em seu lugar. Era assim que tinha alcançado sua posição.

A morte... ela era temida por ele. E Er-Notur fugiria dela com todas as suas forças.

X

− Isso é ridículo! – Er-Notur exclamou. – Talia Al Ghul está morta! E você está manchando a memória dela!

− Minha irmã. Certa vez ela havia me falado de um Al Sah-him que ela havia nomeado fora da Liga. Quando vi sua precisão com o arco, não pude pensar em outra forma para chamá-la, se não essa. – Nyssa parecia chocada diante da revelação de Oliver. – Mas jamais imaginei que fosse você.

A gargalhada de R’as Al Ghul veio acompanhada de um acesso de tosse. Sangue respingou na toalha e Nyssa fez menção de se levantar para acudir o pai, mas ele fez um sinal para que ela permanecesse sentada.

− Sabe onde ela está? – ele questionou.

− Não. – Oliver negou. – Faz muito tempo desde a última vez que nos vimos.

R’as Al Ghul concordou com a cabeça.

− Muito bem. Seu pedido foi ouvido. Há algo mais que queira acrescentar? – Os olhos do Demônio se fixaram em Oliver. Ele não cedeu à pressão de seu olhar.

− Não.

− Tirarei a noite para pensar nisso. Pela manhã, te darei uma resposta. Descansem em seus aposentos. Amanhã, na primeira refeição do dia e antes que algum membro aqui presente saia para realizar alguma missão, eu darei o meu veredito final.

− Senhor? – Er-Notur estava indignado. Ele não sabia o que dizer diante daquela encenação.

− Sugiro que pense muito bem no que vai dizer agora, Er-Notur, se é que vai dizer. – O olhar de R’as refletia a sua irritação para com o braço direito. – Estou cansado de sua falácia, de suas desculpas, e se ouvir mais uma delas, farei questão eu mesmo de arrancar seus intestinos e dá-los de comer aos porcos agora mesmo. Estamos entendidos?

Er-Notur sentiu a garganta fechar naquele momento e concordou com a cabeça.

− Agora eu vou me retirar para os meus aposentos. Sugiro que todos façam o mesmo. Espero não ter mais nenhum aborrecimento esta noite.

R’as Al Ghul se ergueu e todos os membros da Liga dos Assassinos se levantaram, batendo com a mão no peito, o punho fechado em sinal de respeito. Até mesmo Nyssa. Até mesmo Sara. E Oliver.

Felicity ficou calada, observando o homem mais poderoso do mundo retirar-se do recinto.

X

R’as Al Ghul era a morte, a danação, a violência e todo o mal que abraçava aquele mundo. Mas ele sabia que existia um limite, uma linha a ser respeitada.

A Liga estava em todo lugar. A Liga era tudo.

Ele tinha olhos e ouvidos por onde quer que fosse. E para ele, a morte havia chegado quando ainda era uma criança. Quando matara os próprios irmãos para ser proclamado o único sucessor de R’as.

Ele sabia que em algum momento de sua vida, o seu reinado acabaria. Por isso, quando a morte viesse, ele a abraçaria. Sem medo algum.

Como o verdadeiro guerreiro que era.

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Naquela noite quando Sara pegou no sono, Felicity esgueirou-se para fora do quarto, vestindo a mesma roupa que havia usado na noite anterior.

Ela não era nenhuma assassina treinada. Ela não poderia vencer um homem poderoso como R’as Al Ghul. Mas ela tinha sua mente afiada com um Q.I superior a 150, e ela não se deixaria intimidar por ele novamente.

Ao parar diante da porta do quarto dele, Felicity achou que estava enganada e estava prestes a desistir de sua investida, quando a porta se abriu.

− Entre, Srta. Smoak. – A voz de R’as se fez ouvir do interior do quarto, um pouco desgastada, um pouco velha demais. Seria uma armadilha?

“Mas não faz sentido algum ele me matar aqui, faz? Ele poderia pedir a qualquer um de seus lacaios.”

Reunindo a coragem que não possuía, Felicity pensou em Sara que sempre fazia de tudo para protege-la. Que sempre fazia de tudo pelos outros. E entrou.

A lareira crepitava no interior do quarto aquecido. A voz de R’as havia vindo da luxuosa poltrona vermelha que estava diante da mesma.

− Feche a porta e aproxime-se.

Um sinal que piscava como luzes natalinas gritava no interior da cabeça de Felicity para que não fizesse isso, mas ela obedeceu. Quando aproximou-se e circundou a poltrona, não conseguiu conter a expressão de assombro, mas calou o grito que queria escapar de seus lábios.

Com uma aparência cadavérica e completamente envelhecida, R’as Al Ghul estava conectado a uma série de tubos e fios enquanto respirava com o auxílio de uma máscara de oxigênio.

Encontre a maior fraqueza dele.

− Surpresa? – Ele tentou rir, mas soou mais como um acesso de tosse desesperada. Felicity aproximou-se dele e o ajudou a realocar a máscara. – Obrigado.

Felicity nunca imaginou R’as Al Ghul agradecendo ninguém.

− O que... o que você quer? – ela questionou. R’as arqueou as sobrancelhas, um olhar divertindo passando por seu rosto.

− Achei que você quisesse algo vindo até aqui. A morte, talvez? – Felicity engoliu em seco. – Estou brincando.

− Não captei o senso de humor na sua voz. – Ela deu uma risada nervosa. – Mas o que... o que aconteceu? Você está tão...

− Velho? Destruído? Acabado? – ele completou. – É o que acontece quando essa casca vazia que chamamos de corpo chega ao seu limite. Até mesmo o Poço de Lázaro tem suas limitações. Ele pode curar a morte... mas não quando sua hora finalmente chega. A imortalidade dos humanos possui prazo de validade.

− Por que está me contando isso? – Ela não podia deixar de questionar. A razão gritava para que saísse dali, mas algo a prendia naquele cômodo.

− Você se parece com ela, sabe? A mãe das meninas. – Felicity demorou uma fração de segundo a mais que deveria para compreender que ele falava da mãe de Nyssa e Talia, a filha que nunca conhecera. – Esse vestido era dela.

− Que... honra. – Forçou um sorriso, esperando não estar vestindo a roupa de uma morta.

− Ela morreu há anos. Eclampsia. O poço de Lázaro poderia tê-la salvado, mas os efeitos colaterais... bem, não se pode brincar com os mortos como todos pensam. O poço traz uma maldição horrível e eu a amaldiçoei. Ela se tornou um monstro. Não era a mulher que eu conheci e por quem me apaixonei.

Para Felicity, ouvir aquela confissão era surreal.

− Onde quer chegar com isso? Não está me contando essas coisas apenas porque me pareço com ela. – Felicity sabia que era arriscado falar assim com ele. O homem podia estar em uma poltrona com uma doença terminal e ainda assim poderia matá-la com um palito de dentes.

− Sei quem é seu pai, Felicity. Quando o conheci, ele não usava o mesmo sobrenome que você, mas eu estou em todos os lugares. As pessoas acham que não, mas eu sei de tudo. – Felicity engoliu em seco, buscando uma arma. Qualquer coisa que pudesse usar ao seu favor. – Sei que ele te mandou aqui para me matar.

Ela agarrou uma faca de manteiga ao lado da cômoda. Não tinha certeza sequer de como empunhava aquilo. R’as Al Ghul pareceu divertidamente surpreso.

− Largue isso, vamos. – Um acesso de tosse. – Sabemos que não saberá fazer nada com esta faca. E eu poderia matá-la com ela sem me levantar daqui.

Ela não queria descobrir como ele faria isso, portanto o obedeceu. Parecia mesmo idiotice ameaçar o líder da Liga dos Assassinos com uma faquinha.

− Eu não estou ligada ao meu pai. Ele apenas me disse como chegar até aqui.

− E sugeriu que você me matasse. – ele prosseguiu. – Eu sei das coisas, Felicity, eu já disse. Vocês estão sendo observados desde que estão no meu território. Posso não ter hackers fantásticos como você, mas você está um pouco desatenta, não é?

Felicity se amaldiçoou por ter se permitido abaixar a guarda. Mas ele estava certo.

− O seu pai e eu já fizemos negócios juntos. Qual é o nome que ele está usando atualmente? Steven? Stephen? Eu não tenho certeza de como ele se apresentou para sua mãe, mas seu nome verdadeiro é Noah Kuttler, ou Calculator, como ele gosta de se apresentar em seu âmbito de trabalho.

“Ele é obcecado por controle e obcecado para que as coisas aconteçam da maneira dele. Quando trabalhamos juntos, ele me pediu uma amostra da água do Poço de Lázaro para fins de pesquisa. Mais tarde eu descobri que o que ele realmente queria era uma cura para uma doença que ele possuía. Se funcionou ou não, eu não sei, mas depois de trabalharmos juntos algumas vezes, ele simplesmente desapareceu. Seu pai era tão brilhante que podia invadir qualquer sistema, qualquer coisa tecnológica. Ele tornava as nossas vidas muito mais fáceis. Mas um dia, ele foi o responsável por ajudar Talia em uma missão e nenhum dos dois retornou. Recentemente eu descobri que ele e minha filha estavam buscando uma maneira de tentar assumir o controle da Liga. Acredito que ele nunca quis isso, mas que Talia tenha oferecido algo para ele em troca disso. Ela é a minha filha mais velha, e sucessora ao título por direito, mas Nyssa sempre foi a mais sensata. A mais próxima de conseguir alcançar esse objetivo. Ta-er al-Sahfer foi seu único desvio. O único erro que ela cometeu. Não posso dizer que desejo que ela case com um homem fraco como Er-Notur. Ele pensa que não o conheço, que não sei de sua verdadeira personalidade, mas eu sei de tudo, Srta. Smoak. Inclusive que a senhorita desejava me assassinar usando um veneno letal. Devo alertar que isso não funcionaria. Nem mesmo o veneno cedido pela ARGUS poderia me matar. Porque eu já estou morto. A única coisa que me mantém vivo é o poço.”

O acesso de tosse veio mais forte desta vez e R’as vomitou sangue no chão. Sangue que respingou em sua roupa, morno, fétido. O estômago de Felicity embrulhou diante daquela visão. Ela nunca havia visto tanto sangue.

− V-vou chamar Nyssa!

Ele tossia desesperadamente, a mão se estendendo para um copo d’agua ao lado da poltrona. Felicity o agarrou e o entregou ao homem. Ele entornou seu conteúdo de uma só vez. Segundos depois, as orbes cadavéricas pareciam mais vivas e os fios de cabelos brancos escureciam novamente. A aparência caquética dava vez ao R’as que ela havia visto na mesa de jantar.

− Amanhã, eu permitirei que o desafio aconteça. E se o seu amigo Oliver vencer, ele terá que assumir a responsabilidade que estou deixando para ele. Eu não permitirei que Talia destrua tudo o que nós, R’as, construímos por gerações por conta de sua sede de poder. Ele e Nyssa me darão um herdeiro. E ele será treinado para ser um R’as como eu fui. Agora vá. – ele ordenou. Havia tantas coisas que Felicity queria questionar, tantas coisas que queria fazer. Mas quando ele a olhou nos olhos, ela viu a verdadeira morte. E olhava para ela naquele instante. – Vá antes que a sede venha.

Ele não precisou dizer duas vezes para que Felicity compreendesse que sede era aquela. R’as Al Ghul havia acertado em tudo. Exceto no ponto de que quem havia lhe dado o veneno não era a ARGUS. Era o seu próprio pai.

O que Noah Kuttler desejava afinal?

Naquela noite, enquanto pensava nisso no calor dos braços de Sara, Felicity foi incapaz de adormecer.

Notas finais
Primeiro, eu quero começar comentando a respeito dos pontos em itálico. Embora, ao final do capítulo, tudo pareça sem nexo, cada uma daquelas visões da morte segundo esses personagens tem um intuito. O capítulo já estava longo demais e eu acho que colocar mais um corte de cena não seria o suficiente para chegar onde eu quero. Então guardem essas informações com carinho! Eu fiz todo um planejamento pra esse capítulo que foi praticamente pro lixo. Cortei duas cenas que julguei inúteis antes mesmo de escrevê-las e então a fic tomou esse rumo. Com isso, temos mais informações a respeito do pai de Felicity. A princípio, pensei em não colocar o nome verdadeiro dele. Mas aí pensei que um cara como ele, tão precavido, deve ter uns mil nomes. Por que ele daria o nome verdadeiro à mãe dela? De toda forma, essa citação do pai dela dá abertura ao que, na minha cabeça, será o último arco desta fic. Sei que muitos dos leitores desistiram devido à minha inconstância nas postagens, mas estou fazendo o meu melhor para sentar e escrever pelo menos um pouco na semana. Quando a gente vira adulto mesmo sem crescer, a gente perde o tempo dessas coisas boas. Tipo escrever fics. E eu amo. Não quero parar. Por favor, eu peço humildemente que se algum fantasminha estiver lendo, comente e me diga o que está achando. Comentários me deixam muito feliz. No próximo capítulo, vamos ter o desafio! E aí, o que estão achando do R'as? P.S: não sei nada sobre a esposa dele, se ele era apaixonado ou se era um desalmado. Mas quis dar uma visão mais poética a isso. Espero que vocês gostem!